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quarta-feira, setembro 28

 

Evangelho segundo São Mateus (adaptado)

«Que vos parece? Um homem tinha dois filhos, um ateu e um católico.
Dirigindo-se ao filho ateu, ele disse: "Filho, pratica o Bem!"
O filho respondeu: "Não quero".
Mas depois mudou de atitude.
O pai dirigiu-se ao filho católico e disse a mesma coisa. Este respondeu: "Sim, senhor."
Mas nada fez.
Qual dos dois fez a vontade do pai?»

A versão original deste evangelho foi lida e comentada no domingo passado pelo Papa Bento XVI que resumiu a fé cristã em duas palavras: "Jesus, Amor".
O Papa sublinhou a estreita ligação entre o sacramento da Eucaristia e o amor a Deus e ao próximo:
"Toda a vida terrestre de Jesus, desde a sua concepção à sua morte na Cruz foi um único acto de amor"
"São numerosas e múltiplas as formas de serviço que podemos, com um pouco de atenção, disponibilizar ao nosso próximo na vida de todos os dias
".
O Papa disse que o amor a Cristo "deve-se exprimir numa conversão autêntica ao amor, ao perdão, ao acolhimento e à atenção às necessidades de todos".
A notícia mais desenvolvida encontra-se aqui.

Neste mesmo site li as declarações de Monsenhor Migliore, representante do Vaticano e observador permanente da Santa Sé junto da ONU sobre as três grandes prioridades que, do ponto de vista do Vaticano, deveriam ser exploradas pela ONU: em primeiro lugar, a solidariedade com os pobres, depois, a promoção do bem comum, e, finalmente, um desenvolvimento sustentável com a protecção do ambiente. Monsenhor Migliore recomendou um governo mundial que assegure uma globalização sem marginalização.

Finalmente, outra notícia a reter, o diálogo amigo entre Bento XVI e o teólogo Hanz Küng.

Timshel [TIMSHEL]

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Promessas eleitorais e dignificação das campanhas

«A democracia constrói-se com a aceitação respeitosa das diferenças, não com discursos sonantes, nem com ataques pessoais» - realça o bispo de Aveiro

Em clima de pré-campanha eleitoral, com a memória já requentada das últimas eleições para a Assembleia da República, justifica-se uma reflexão serena, mesmo que ela chegue tarde ou não chegue mesmo, a quem esta poderá interessar de perto. No fundo, tratando-se de um contributo à sanidade da vida política e ao exercício correcto da cidadania, uma opinião, apenas uma opinião livre, pode sempre interessar a mais pessoas.
Campanha sem promessas não dá votos, costuma dizer-se e repetir-se. Ouvi há poucos dias o Primeiro Ministro dizer que «os compromissos eleitorais são para cumprir». Era uma justificação para o referendo sobre o aborto antes das presidenciais, fruto de uma promessa eleitoral. A verdade, porém, é que outros compromissos derivados de promessas eleitorais, não se cumprem, nem se podem cumprir. Quem nessa altura faz promessas sabe muito bem que assim é. Perante esta realidade, parece que o mais importante é reflectir sobre o que se promete e o seu interesse para o conjunto da comunidade. De quem se propõe governar, a qualquer nível, espera-se sempre e muito legitimamente, um testemunho de sensatez, de verdade, de respeito pelo eleitorado e pelos outros candidatos.
A democracia constrói-se com a aceitação respeitosa das diferenças, não com discursos sonantes, nem com ataques pessoais. A diferença pode sempre enriquecer. Falar do outro, como se fosse um inimigo a abater, divide sempre, fere inutilmente, levanta muros, promove suspeitas, inquina relações, destrói uma sociedade onde todos têm direito a viver e participar.
Uma campanha eleitoral é, entre nós, normalmente um espectáculo desagradável e nada edificante, pelo que se diz e como se diz e pelo que se promete. Contados os votos, lá vêm palavras de felicitação com sorrisos de circunstância, mas, para trás, ficaram feridas difíceis de curar e lama difícil de limpar. Vêm, depois, as promessas para cumprir. Então, se elas ainda se recordam, mudam-se leis, fazem-se acordos, multiplicam-se desculpas, arranjam-se culpados, para tentar responder. E o povo? Pelo que vamos vendo, conta pouco ou conta cada vez menos.

A pobreza, segundo a Oikos, uma organização não governamental, séria e prestigiada, ameaça 20% da população portuguesa. Acrescenta que «o desempenho das políticas sociais nos últimos anos não tem sido muito encorajador». E, diz ainda que «Portugal é também o país de toda a União Europeia onde é maior a desigualdade na distribuição de rendimentos». Um fatalismo? De modo nenhum. É preciso dizê-lo alto e em bom som.
Em campanhas eleitorais, nacionais ou autárquicas, poucas vezes se ouve a leitura serena da realidade concreta e se fala de propostas de solução possível para deficiências e males. Temos mais vocações de tribunos argutos, que gente capaz de aterrar e de se comprometer apenas com o que faz falta. O que se vê então? Mais promessas para deslumbrar, que empenhamento no bem comum. Mais ânsia de prestígio pessoal e partidário, que espírito de serviço aos outros.
Felizmente não é sempre assim, nem sempre, nem com todos os candidatos. Mas o que fica no povo, pelo que viu e ouviu, não vai muito além desta imagem triste e empobrecida. A classe política tem o dever de se prestigiar. As campanhas eleitorais são uma boa ocasião. Não se diga que a respeitar os outros candidatos não se ganham eleições. Para ganhar e para perder é preciso dignidade e só esta vai para além do acto eleitoral.

D. António Marcelino [in Correio do Vouga]

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segunda-feira, setembro 26

 

Jesus e Maomé: Palavras Comuns

Quando passei pelo liceu, frequentei as aulas de Moral e Religião. Houve um dos anos lectivos em que a professora perguntou que temas gostaríamos de ver abordados. Alguém sugeriu que se falasse de outras religiões. E assim foi. Recebemos um pequeno livro com a declaração do Vaticano II sobre as religiões não-cristãs, e durante algumas semanas ouvimos falar sobre Buda e Maomé. A mais de vinte anos de distância dessas aulas percebo que a experiência de vida da professora (tinha passado vários anos no Vietname e, provavelmente, era uma entusiasta do Vaticano II) permitiram-lhe a abertura mental necessária para aquelas aulas sobre outras religiões.

Assim, é com naturalidade que subscrevo a ideia do Miguel Marujo que na última edição da Terra da Alegria sugeriu que as aulas de Educação Moral e Religiosa fossem um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Fazer deste espaço lectivo, um momento de diálogo inter-religioso, de aprendizagem das semelhanças e diferenças nos ensinamentos das grandes religiões mundiais, é uma forma da escola dar o seu contributo para a construção de uma sociedade multicultural onde as diferentes comunidades religiosas convivem em harmonia.

A este propósito, e para todos os apoiantes do diálogo inter-religioso, gostaria de chamar a atenção para um livro recentemente pela editora Estrela Polar intitulado Jesus e Maomé: Palavras Comuns. Da autoria de um judeu, e prefaciado por um muçulmano e por um cristão, o livro apresenta as semelhanças entre os ensinamentos de Jesus e os ensinamentos de Maomé.

Organizado por temas - como Deus, a Fé, o Amor, a Sabedoria, a Lei, o Pecado, e a Jihad - o livro vai expondo sucessivas citações de palavras de Jesus e Maomé; o paralelismo é impressionante, e torna-se evidente que estas duas religiões possuem o mesmo fundamento espiritual e moral (não obstante algumas diferenças de ensinamentos que são apontadas nas últimas páginas).

Para despertar a vossa curiosidade, aqui ficam algumas citações:

* * * * * * * * *

Amai os vosso inimigos e orai pelos que vos perseguem para poderdes ser filhos do vosso Pai no céu. (Mateus 5:44-45)

Não vos odieis uns aos outros e não tenhais inveja uns dos outros e não vos boicoteis uns aos outros, e sede servos de Deus como irmãos. (Hadith de Bukhari 78:57)

* * * * * * * * *

Se alguém te bater na face direita, vira para ele também a esquerda. (Mateus 5:39)

O homem forte não é o bom lutador; o homem forte é somente aquele que se controla quando está irado. (Hadith de Bukhari 73:135)

* * * * * * * * *

O céu e a terra perecerão, mas as Minhas palavras nunca perecerão. (Marcos 13:31)

Tudo na terra perecerá, mas o rosto do vosso Senhor permanecerá resplandecente de majestade e glória. (Alcorão 55:26-27)

* * * * * * * * *

Porque me chamas bom? Ninguém é bom, a não ser Deus. (Marcos 10:18)

Diz, Sou apenas um homem como vós. Foi-me revelado que o vosso Deus é um Deus. Que pratique o bem aquele que espera encontrar o seu Senhor. (Alcorão 18:110)

* * * * * * * * *

É mais fácil para um camelo passar pelo buraco de uma agulha, do que para um homem rico entrar no reino de Deus. (Marcos 10:25)

Para aqueles que rejeitas os Nossos sinais e arrogantemente lhes viram as costas, as portas do céu não serão abertas, nem entrarão pelo paraíso enquanto o camelo não passar pelo buraco da agulha. (Alcorão 7:40)

* * * * * * * * *

Embora vejam, não vêem; embora ouçam, não ouvem nem compreendem. (Mateus 13:13)

Eles têm corações com os quais não compreendem, e têm olhos com os quais não vêem, e têm ouvidos com os quais não ouvem. (Alcorão 7:179)

* * * * * * * * *

E, quando orares, não sejas como os hipócritas, pois eles adoram orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas para serem vistos pelo homens. (Mateus 6:5)

Os hipócritas querem enganar Deus, mas Ele é que os enganar! Quando se levantam para orar, levantam-se descuidadamente, para serem vistos pelos homens e lembram-se pouco de Deus. (Alcorão 4:142)


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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Olhares sobre a Igreja - Que Evangelização?

Quem de alguma forma está envolvido na acção da Igreja, decerto já ouviu os costumeiros lamentos de que a Europa “está descristianizada”, que “é preciso re-evangelizar”, até se fala em “nova evangelização”.
Os responsáveis das igrejas de algumas capitais da Europa – Viena, Paris, Lisboa, Bruxelas e mais tarde Budapeste – reuniram-se e projectaram acções concretas a realizar na cidade, que sejam evangelizadoras. De entre elas, os chamados Congressos Internacionais da Nova Evangelização. O de Lisboa ocorre entre 5 e 13 de Novembro do corrente ano.


Numa recente carta pastoral do Cardeal-Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, que tem como título “A Igreja na Cidade”, diz no seu início: “Sendo expressão da sua obediência a Jesus Cristo, Seu Senhor, o anúncio do Evangelho é uma expressão do amor da Igreja por todos os homens e mulheres que sofrem e lutam para edificar uma sociedade de rosto humano. A Igreja evangeliza porque está convencida de que o anúncio de Jesus Cristo é o anúncio da esperança, e que a fé introduz na realidade humana uma força que potencia quanto de bom existe no coração humano, para edificação de uma cidade justa e fraterna.” E segue caracterizando a cidade, sobretudo Lisboa, a própria Igreja, o anúncio, as várias linguagens de anúncio e por fim os desafios do Congresso Internacional para a Nova Evangelização. Destacando como desafio: “levar as Igrejas a encontrarem caminhos novos de evangelização, no contexto cultural do homem europeu contemporâneo...interpelação às comunidades cristãs para aprofundarem a sua fé, único ponto de partida válido para o dinamismo evangelizador. E esse poderá ser o seu fruto mais precioso:levar os cristãos e as comunidades a assumirem que a evangelização é simples e urgente. Se a nossa fé é um dom precioso e Jesus Cristo, o nosso tesouro, não podemos deixar de os anunciar e partilhar.”

São estes últimos pontos que eu quero destacar nesta reflexão. Ao contrário de a Igreja andar sempre à procura e a reagir àquilo que ela considera serem os obstáculos à sua acção, nomeando “inimigos”, tais como; o sincretismo, o relativismo, o facilitismo, o naturalismo, o subjectivismo e outros “ismos”, deve, ela própria, fazer uma profunda conversão interior, que abranja todas as suas estruturas e agentes pastorais, deste a Hierarquia aos fiéis leigos. Conversão, que a leve a olhar para si e veja com verdade, em que é que tem posto o seu empenho. Se é em crescer e manter as suas estruturas, onde a hierarquia assume o papel preponderante de tornar visível o rosto da Igreja. Onde os dogmas e o Direito Canónico foram, substituindo o Evangelho. Ou, no seguimento de Jesus Cristo, reconhecer-se como o pequeno grão de mostarda (Mc 4,30-32) que sendo a semente mais pequena, dá fruto que permanece.

Um dos combates que Jesus teve de travar com os discípulos, era a sua visão de que a sua missão, tinha de se cumprir no triunfalismo. O pequeno grupo que era o povo de Deus, assumiria sem equívocos a sua posição de povo escolhido. O Templo, impor-se-ia como morada inequívoca de Deus no meio dos homens, e eles participariam disso.
Nada disso aconteceu, a pequena semente foi rejeitada, aniquilada e os discípulos dispersos. Após a ressurreição, compreenderam então, que o seu destino era o da pequena semente, que só será árvore frondosa, quando se cumprir em definitivo, o Reino de Deus.
Durante estes dois mil anos de cristianismo, fomos esquecendo esta verdade. Começámos a achar que a pequena semente deu lugar à árvore frondosa que é a Igreja, tão numerosa e estendida a toda a Terra. Achando-se e dizendo-se rica, porque possuia o depósito da Tradição.
Caímos na tentação dos discípulos, de achar que o Reino estava cumprido. E começámos a ver “inimigos”, onde estão irmãos que, como nós, demandam o Reino.
Para sermos evangelizadores, temos de perceber e assumir, que Deus continua a chamar os mais pobres, os que não se impõem por qualquer espécie de poder, os que sabem que o Reino não exclui ninguém. Os que não se consideram a si justos. Os que sabem que o seguimento de Jesus é o da doação e da entrega da vida por amor.


Da carta do D. José Policarpo, gosto sobretudo desta frase: “A dimensão mais decisiva e fundamental da realidade da Igreja é invisível, silenciosa, guardada e sentida no mais íntimo do coração humano.”

PS- Para completar esta reflexão, recomendo vivamente, a leitura e reflexão deste texto, ouvido ontem nas nossas missas. (S. Paulo Filip. 2, 1-11)


Maria da Conceição (JARDIM DE LUZ)

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quarta-feira, setembro 21

 

Regresso às aulas

No meu regresso à Terra, regresso à escola. Um regresso que me é próximo, por três motivos: a minha sobrinha começou o 1º ano do ensino básico, uma etapa esbatida pelo percurso no pré-escolar, idêntico a tantas crianças nesta altura; uma prima entrou na universidade; e, por fim, eu próprio regresso aos bancos da faculdade, para ver se acabo um curso que experimento de modo bem mais realista no quotidiano de trabalho.
O regresso que aqui me interessa é, no entanto, é a escola num sentido mais amplo. Vade retro, qualquer regresso à escola de valores, mas venha a nós uma escola diferente. Para começar, vale a pena ir ao acessório: a quinquilharia que ornamenta as escolas... Cruzes, crucifixos, estátuas de nossas senhoras ou painéis de santinhos devem ser removidos. Não por uma qualquer cedência a alegados ateístas militantes (que mais parecem uma seita de ressabiados anti-qualquer-coisa), mas sim pela consciência que os católicos devem ter da condição secular da sociedade.
Tenho para mim que a secularização não é nenhum demónio, como sobressai nalguns discursos, mesmo do Papa Bento XVI. A secularização (a que muitos, incluindo os tais ateístas militantes, chamam de laicidade — esquecendo que essa é também uma condição intrínseca também a qualquer crente-leigo) não pode assustar. É própria de uma sociedade que experimenta uma pluralidade de opiniões, uma diversidade de credos e uma multiculturalidade. Afirmar isto não significa esconder no armário ou nas sacristias, a condição da vida dos crentes — nas cerimónias religiosas em espaços públicos e privados, nas tomadas de posição públicas, sem dogmas (afinal, não precisamos que nos imponham regras, necessitamos antes de linhas orientadoras, para discernirmos nós os caminhos).
Cuidada a quinquilharia (passe a eventual grosseria, para alguns, apenas quero sublinhar o óbvio: são questões acessórias), avance-se para a questão das aulas de educação moral e religiosa. A disciplina, hoje em dia, pode ser leccionada para diferentes credos — das igrejas protestantes aos muçulmanos, dos budistas aos judeus. Era bom que assim fosse: fazer da secularização um tratado de pluralidade e dialogo inter-religioso. Esta disciplina não devia ser exclusivista (apesar de entender que se deve manter fora do currículo obrigatório), permitindo que, mais do que uma "catequese", as aulas de EMR (católica, cristã, muçulmana, judaica, o que for!) sejam um espaço de aprendizagem sobre cada uma das religiões. Começar por aqui, pelo conhecimento do outro, significaria que a alteridade substituiria as costas voltadas em que as religiões vivem — e, politicamente, deixaria de haver justificação para a guerra, para o atentado, para a ignomínia.
O passo é simples — está aqui à mão de semear. No regresso às aulas.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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O neoliberalismo, uma psicopatologia do crescimento afectivo

Uma das críticas mais recorrentes ao cristianismo é o de que se opõe ao reconhecimento e recompensa do mérito técnico. Quando manda tratar todos os homens como iguais e irmãos entre si. Com o imperativo da partilha e da justiça social.
Alguns chegam mesmo a acusar o cristianismo (e sobretudo o catolicismo) de factor de atraso na competitividade económica dos povos do sul da Europa (esquecendo contudo o caso da Irlanda).
O evangelho do domingo passado, nomeadamente, continha (mais uma) parábola significativa. O senhor que dava o mesmo dinheiro a todos os seus servos independentemente da quantidade de trabalho que cada um tinha produzido (numa antecipação de quase 2000 anos à formulação por Marx do princípio "de cada um segundo as suas capacidades a cada um segundo as suas necessidades").
É óbvio que racionalmente pensamos automaticamente que tal mandamento é algo inviável na natureza humana actual. Tendencialmente, se as pessoas recebessem o mesmo dinheiro, quer se dedicassem ou não ao trabalho, cada vez menos gente trabalharia. E cada vez mais todos seríamos mais pobres. E se um certo tipo de pobreza voluntária é desejável de um ponto de vista cristão, não passa pela cabeça de ninguém que seja desejável, de um ponto de vista cristão, não se poderem tratar doenças ou não se poder ter uma alimentação adequada por escassez deliberada de recursos.
O cristianismo visa a felicidade do homem. E esta felicidade passa pela disponibilidade de recursos que permitam ao homem lutar contra a miséria, a fome e o sofrimento. E os recursos só existem se forem criados pelo trabalho do homem.
Ora, o reconhecimento do mérito e a recompensa do mérito, tal como uma salutar competitividade económica são, na actual fase de desenvolvimento da humanidade e da natureza humana, poderosíssimos meios de aumento dos recursos à disposição da humanidade.
Mas o cristianismo não pára aqui.
Um pai deve tratar os filhos por igual independentemente das suas capacidades. O seu amor deve ser idêntico. Deve mesmo disponibilizar mais recursos por aqueles dos seus filhos que tenham menos capacidades para tomar conta de si próprios.
Depois do reconhecimento do mérito e da recompensa do mérito vem o "dever ser". As leis divinas, a lei do Amor que manda disponibilizar, partilhar dos que mais têm para os que menos têm e que mais precisam.
Estas leis são um imperativo moral individual. Mas são também um imperativo moral social. As leis e o aparelho de estado existem para que a sociedade não seja uma selva onde vigora a lei do mais forte. As pessoas têm direito à propriedade e à segurança. Mas estes direitos são (ou deverão ser) o reflexo de um direito mais forte: o direito que todos os homens têm ao respeito pela sua dignidade enquanto pessoas. A igualdade entre todos os homens é igualmente um aspecto deste respeito pela dignidade da pessoa humana. Daí a necessidade de redistribuição dos recursos.
E enquanto as leis divinas, a lei do Amor que manda disponibilizar, partilhar dos que mais têm para os que menos têm e que mais precisam, não forem aceites moralmente por todos, têm de ser impostas com equilíbrio, proporcionalidade e bom-senso pelo Estado. A este cabe regular a actividade económica de modo a que os recursos sejam redistribuídos por todos os homens (especialmente por aqueles que mais precisam), pela totalidade da comunidade de homens que é a sociedade.
Por isso em tempos designei o neoliberalismo como uma etapa do desenvolvimento infantil. Em que o sujeito só pensa em si próprio. Quando cresce aprende a pensar no outro. Quando a criança não ultrapassa a fase do egocentrismo estamos no campo da psicopatologia do crescimento afectivo.

Timshel [TIMSHEL]

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A Justiça de Deus

«Habituámo-nos a pensar em Deus como um homem perfeito, mas Deus não é um homem. Os critérios de Deus ultrapassam as nossas perspectivas» – esta foi a frase que me ficou da homilia do Domingo passado.
De facto, parece-me que temos uma enorme tendência para reduzir a Justiça de Deus aos nossos critérios e aos nossos horizontes, às nossas interpretações e à nossa vivência.
Gostamos de dizer (com variações mais ou menos elaboradas): “tu vais para o inferno e eu vou para o céu”; sendo que estes “tu” e “eu” têm tendência para ser literais.
Recorro a um exemplo semelhante ao que dei na semana passada: dá-nos um certo gozo ver Jesus a trocar as voltas aos Fariseus, no seu legalismo, mas faz-nos uma certa espécie quando alguns dos Apóstolos vão lembrar que até têm sofrido muito por causa d’Ele e que portanto merecem o céu e o Mestre os manda para o diabo que os carregue.
É certo que temos que lutar pela justiça, pelos direitos de todos e de cada um, lutar contra o que está mal, criar estruturas de sã convivência e de organização social. Mas a Justiça de Deus vai mais longe que tudo isso e é Essa que tem que estar sempre no nosso horizonte último.

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.]

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segunda-feira, setembro 19

 

Perante o exclusivismo

Num post anterior referi que o exclusivismo religioso não é um aspecto inerentes às religiões, mas sim uma atitude dos crentes em relação à religião e pode ter consequências nefastas no relacionamento humano. Essa atitude baseia-se no conteúdo de alguns excertos das Sagradas Escrituras. Nos parágrafos seguintes vou expor algumas reacções possíveis perante as atitudes exclusivistas dos cristãos.

A Autenticidade dos Textos
Questionar a autenticidade dos textos é talvez a mais comum (e a mais atraente!) das atitudes em relação ao exclusivismo. Há sempre quem argumente que esses textos foram adicionados às Escrituras originais. John Hick segue este tipo de argumentação e questiona se algumas passagens do Novo Testamento alguma vez teriam sido pronunciadas por Jesus Cristo[1]. Talvez por este tipo de argumentos ser frequentemente usado para questionar a pureza, a legitimidade e a autenticidade da própria religião cristã, nem sempre é levado a sério.
Sobre este assunto, a perspectiva baha'i é muito clara. 'Abdu'l-Bahá, numa conversa com um grupo de sacerdotes protestantes, em Paris, abordou o sentido dos textos e nunca questionou a sua autenticidade. Segundo as Suas palavras: "A nossa crença em Cristo é aquela que se encontra registada no Evangelho; no entanto, ao elucidamos este assunto não falamos literalmente"[2]. Também Shoghi Effendi afirmou que o Alcorão, a Bíblia e as Escrituras Baha'is podem ser considerados livros autênticos.[3]

A Representatividade dos Textos
Os textos que servem de base às atitudes exclusivistas poderão ser considerados os mais relevantes nas escrituras cristãs? Algumas comunidades cristãs (especialmente as de tendência mais conservadora) costumam extrapolar a importância dos textos exclusivistas e presumir que toda a Bíblia apenas contém textos deste género. Neste tipo de atitude enfatizam-se apenas alguns excertos das escrituras e atribui-se um carácter secundário aos restantes textos. Por exemplo, há que afirme que a mensagem do Evangelho está contida na expressão "o Filho único" (Jo 3:16) e que todo o texto deve ser encarado tendo esta expressão em mente.
Mas há também os teólogos cristãos que enfatizam os textos não-exclusivistas. O conceito judaico do Deus de Abraão soberano sobre todos os povos foi adoptado pelo Novo Testamento; um Deus e Pai de todos os povos, "a luz verdadeira que ilumina todos os homens"(Jo 1:9), que deseja que todos os homens sejam salvos (1 Tim 2:4), a quem "agrada" o que "põe em prática a justiça" (Act 10:35). Alguns chegam mesmo a argumentar que Mateus descreve Cristo como uma espécie de mediador entre Deus e a humanidade.
No Livro da Certeza, Bahá'u'lláh critica os sacerdotes muçulmanos que fazem leituras selectivas do Alcorão:

Que estranho! Estas pessoas, com uma mão, agarram-se àqueles versículos do Alcorão e àquelas tradições do povo da certeza que acham de acordo com suas inclinações e interesses e, com a outra mão rejeitam os versículos e tradições que são contrários aos seus desejos egoístas. "Acreditais, então, uma parte do Livro, e negais uma parte?" [4] Como poderíeis julgar o que não compreendeis?[5]
Com alguma facilidade se percebe que esta crítica é extensível a outras religiões. Assim, na minha interpretação pessoal dos ensinamentos de Bahá'u'lláh, os cristãos que defendem crenças exclusivistas estão a distorcer os ensinamentos de Jesus, ao seleccionar e enfatizar alguns versículos em detrimento de outros.

A Interpretação dos Textos
Uma terceira atitude em relação ao exclusivismo é afirmar que este se baseia em interpretações incorrectas das escrituras. Um exemplo típico deste tipo de debate é a interpretação do versículo "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém chega ao Pai salvo através de mim." (Jo 14:6). Aqui os teólogos dividem-se entre os que consideram que esta afirmação se refere ao Jesus da história, e os que consideram que é uma referência ao Cristo da fé.
Pode-se argumentar que o Jesus do Evangelho de João é diferente do Jesus dos evangelhos sinópticos. "O Jesus de João é o Jesus da fé, o Jesus da imaginação da igreja dos primeiros tempos"[6], "de reflexão espiritual do que de fiabilidade histórica"[7] . É importante ter presente que o Evangelho de João se inicia com a encarnação do Verbo e não com o nascimento de Jesus. John Cobb, um teólogo protestante defensor do diálogo inter-religioso, argumenta que é o Verbo de Deus que fala na primeira pessoa nas páginas do Evangelho de João:

Afirma-se, assim, que o Verbo, que tinha encarnado em Jesus, é o Caminho, a Verdade e a Vida, e que ninguém chega ao Pai salvo através do Verbo. Isto não significa que o Verbo esteja presente e activo apenas em Jesus; no prólogo do Evangelho afirma-se que o Verbo era desde o início da Vida, e que esta vida era a luz verdadeira que ilumina toda a gente[Jo 1:9] [8]
"O Cristo que estamos a falar não é monopólio dos Cristãos, nem é um mero Jesus de Nazaré."[9] . Estamos assim na presença de um Cristo Eterno (distinto do Jesus histórico) que se manifesta em diferentes eras. Esta forma de interpretação dos textos exclusivistas é muito semelhante ao método baha'i de interpretação das Escrituras[10].

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NOTAS
[1] – Hick, Second Christianity, p.28
[2] - 'Abdu'l-Bahá on Christ and Christianity, pag. 8
[3] - Shoghi Effendi, citado em Lights of Guidance, nº 1033
[4] - Alcorão 2:85. Trata-se de uma acusação de Maomé aos Judeus e Cristãos do Seu tempo. No livro, Bahá'u'lláh mostra que esta acusação é agora aplicável aos próprios muçulmanos.
[5] - Kitáb-i-Íqán, parágrafo 181
[6] - Dialogue, pag. 16
[7] - Carpenter, Jesus, pag. 14
[8] - Cobb, Dialogue, pag. 16
[9] - Raimundo Pannikar, professor de religiões comparadas. Este autor afirma ainda que Cristo representa o centro de uma realidade, e que Rama e Khrishna são outros dos Seus nomes.
[10] – No livro Jesus Christ in Bahai Writings, Robert Stockman defende que, no Evangelho de João, quando Jesus fala na primeira pessoa, fá-lo na Sua condição de Manifestante de Deus e não na Sua condição humana.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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quarta-feira, setembro 14

 

Ecumenismo

Pensei em escrever este texto na sequência de um post do Bernardo Motta no afixe (e respectivos comentários). Discutia-se o ecumenismo e o anti-ecumenismo. Em dado momento discutiu-se a definição de ecumenismo.
É verdade que o ecumenismo é, em sentido estrito, apenas o conjunto de iniciativas e actividades tendentes a favorecer o regresso à unidade dos cristãos.
Mas não foi por acaso que, numa revista anti-ecuménica da seita de Lefebvre, toda ela dedicada a atacar o ecumenismo, aparece na capa uma fotografia do Papa João Paulo II sentado ao lado de um representante do judaísmo e de um representante do islamismo.
O ataque ao ecumenismo é de facto um ataque ao diálogo inter-religioso e é, no fundo, tão somente um ataque ao diálogo entre a Igreja Católica e quem não é católico.
O Papa Bento XVI, poucos dias antes de se tornar Papa, disse as seguintes palavras que revelam um pouco da necessidade e da dimensão do diálogo:
"No diálogo tão necessário entre laicos e católicos, nós cristãos devemos estar muito atentos a permanecer fiéis a esta linha de fundo: ou seja, a viver uma fé que provém do logos, da razão criadora e que está por isso também aberta a tudo aquilo que é verdadeiramente racional.
Mas aqui queria, na qualidade de crente, fazer uma proposta aos laicos.
(...) mesmo quem não consegue encontrar o caminho para aceitar Deus, deve de qualquer maneira, viver e orientar a sua vida (...) como se Deus existisse"
.

O anti-ecumenismo é uma reacção de medo e de insegurança. Esquece a frase com que o Papa João Paulo II iniciou o seu mandato: "Não tenhais medo!".
O ecumenismo, em sentido restrito (enquanto movimento para a unidade dos cristãos) ou em sentido lato (enquanto diálogo inter-religioso ou entre católicos e ateus) é apenas uma manifestação do diálogo. E o diálogo e a partilha são as expressões fundamentais do supremo mandamento que Cristo nos deixou, o mandamento novo: o mandamento do amor.
O ecumenismo é a busca de plataformas comuns. Plataformas comuns de oração e/ou de entendimento e/ou de acção. É a esta última plataforama comum que o Papa Bento XVI faz apelo quando se dirige aos ateus nas palavras acima referidas.
É possível que a Igreja Católica fique "desnaturada" com este diálogo? Convém distinguir o que é essencial do que é secundário. E não cairmos em erros passados da Igreja Católica em que, como agora se reconhece, tomou-se o essencial pelo secundário. A essência relativamente à qual um cristão deixa de ser cristão é quando deixa de obedecer ao mandamento do amor.
É possível que um ateu obedeça em muitos dos seus comportamentos a este mandamento mesmo sem se dar conta e sem reconhecer que lhe está a obedecer. E é possível que a Igreja Católica contenha preceitos que não valorizam devidamente este mandamento. O catecismo da Igreja Católica é um documento orientador importantíssimo do mandamento do amor em diversos aspectos da vida. Mas não é a palavra de Deus. Até porque o seu texto tem variado no tempo (e no próprio espaço entre diferentes versões linguísticas como aqui já uma vez referi).

Existem ateus e ateus. Existem ateus (como existem católicos) com um discurso feito de ódio, de agressão e de violência. Com esses podemos dialogar e tentar procurar algumas plataformas mínimas de acção. Mas existem outros (ateus, católicos que não pensam como nós, outros cristãos, membros de outras religiões) com os quais não só o diálogo é possível mas também um bom nível de entendimento e um amplo espaço comum de acção.
O ateísmo, enquanto atitude intelectual que nega a existência de Deus, é um simples pormenor (ilógico e irracional, salvo quando nega simultaneamente qualquer valor moral absoluto). O atéismo tem, sem dúvida, consequências extremamente perniciosas: se no curto prazo, um certo grau de ódio, de agressão e de violência parece simplesmente uma coincidência relativa a certos ateus, já a médio e longo prazo o ateísmo tem, ao nível da própria acção, consequências sempre nefastas.
Tal não impede, bem pelo contrário uma postura dialogante com todos os ateus e mesmo colaborante e construtiva para o Bem (naquilo que for possível) com aqueles que a isso estiverem dispostos.
A postura face ao ecumenismo (em sentido lato) revela o modo como recebemos o mandamento novo que Cristo nos enviou. Revela, em última análise, em que medida aceitamos Cristo como exemplo na nossa vida.

Timshel [TIMSHEL]

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Bons pecadores? Maus pecadores?

Há quem goste de lembrar, e bem, que Jesus se dava com os maiores marginais do seu tempo: aparecem umas quantas prostitutas nos Evangelhos, há Zaqueu o traidor do seu povo que cobrava impostos para os Romanos, há uns quantos samaritanos, proscritos, há todos aqueles doentes, cegos, coxos, paralíticos, leprosos, que o eram por causa dos seus pecados (ou dos dos seus antepassados, que vai dar ao mesmo...). Mas, geralmente, quem lembra o convívio de Jesus com os marginais esquece que Ele também frequentava a casa de fariseus e que se dava com gente rica e poderosa, como, por exemplo Nicodemos.

Lembro-me disto a propósito de algumas reacções em relação à recente notícia de um encontro do Papa com representantes da Fraternidade S. Pio X, organização cismática que recusou uma série de reformas, com particular relevo para as questões litúrgicas. (Insinuou-se até que seria Ratzinger a começar a mostrar a sua face de extremista conservador, mas esquecendo que tinha sido ele mesmo, enquanto peritus do cardeal de Colónia, que, no Concílio Vaticano II, deu início à reforma litúrgica que suscitará a divisão.) Há quem defenda que a Igreja não se deve dar com essa gente, que deve afastar-se dos ultra-conservadores, tal como dos ricos e dos poderosos, que deve canalizar as suas energias para os pobres e marginalizados, há quem defenda que a Igreja deve escolher com quem se dá e ignorar quem não interessa...
Acho que a Igreja não pode deixar de ter uma opção preferencial pelos pobres, não pode Ela própria (Nós) deixar de ser pobre. Mas o exemplo de Jesus é o de, continuando a ser pobre, não recusar confrontar-se com quem quer que seja, não perder a oportunidade de falar firme e ser duro com quem erra, seja rico e poderoso ou pobre e marginalizado.

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA]

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segunda-feira, setembro 12

 

Do inefável

Há uns dias tive com o Filipe Alves uma troca de posts que me parece interessante acerca dum texto de Ana Vicente sobre a vivência do cristianismo na Europa. No último dos seus textos, veio à baila uma questão que já tínhamos aflorado: se os cristãos acreditam na vida eterna, porquê preocuparmo-nos com os problemas mesquinhos dos nossos dias? Creio que na maior parte das questões estamos de acordo: não sendo uma doutrina política, o cristianismo procura que as pessoas pessoas vivam de forma mais humana entre si. E se acreditamos que há um Pai comum, então alguma coisa nos liga aos nossos irmãos -- a solidariedade (que é outro nome da caridade) torna-se um imperativo moral. Nisso estamos de acordo. O que está em causa é a mais a maneira como falamos do inefável, daquilo de que não se pode falar sem usar metáforas, do que é o próprio cerne da fé cristã: a vida eterna. E aí deixo só um ou dois reparos - que ninguém espere lições de escatologia escritas à pressa neste domingo à noite. Cito o trecho do Filipe que me motivou a escrever este texto, sem pretensões de resposta:
"A doutrina cristã baseia-se na crença na ressurreição e na vida eterna junto de Deus. Nesse sentido, esta existência terrena será meramente transitória, pois a verdadeira felicidade de um cristão não se encontra no mundo."

Começo por citar uma história, creio que foi contada pelo Frei Bento numa das suas crónicas. Para falar destas coisas da vida eterna, numa lição de catequese, a catequista diz ao menino: portanto, a vida eterna é quando tu morreres, o teu corpinho é posto num caixão e vai para debaixo da terra; e a tua alminha vai para o céu. O miúdo meio baralhado pergunta: e para onde vou eu? A dualidade corpo-alma que herdámos de Platão tem sido fonte de confusões diversas e, pior, do desprezo do corpo em contraposição à alma ou ao mundo das ideias. Quando falamos dessa verdade de fé difícil de mastigar que os cristãos chamam "ressurreição da carne", estamos a dizer isso mesmo: não é a nossa alma que se salva. Somos nós mesmos -- todos, por inteiro. Nesse sentido quando falamos de ressurreição estamos a falar de alguma coisa que abarca a pessoa toda, com toda a sua história, com toda a sua personalidade. Sabemos que a pessoa é sobretudo construção -- crescemos e tornamo-nos no que nos fazemos (sujeitos, obviamente ao que está à nossa volta). É a isso que chamamos liberdade: nós somos o que quisermos fazer de nós mesmos. E é tudo isso, toda essa história, que participa também no que acreditamos ser o conhecimento pleno de Deus. A nossa vida de hoje também participa na vida eterna junto de Deus. Podemos dizer que a nossa "existência terrena é transitória", já que é certo e sabido que o fim virá. Mas para mim aquilo a que chamo fé passa por acreditar que "não é para a morte que nascemos". Nesse sentido acredito que a separação definitiva entre as pessoas não terá a última palavra. Ou doutra forma, acreditamos que a existência terrena participa também na existência divina. Por isso não posso concordar quando se diz que "verdadeira felicidade de um cristão não se encontra no mundo". Repito o que disse noutro texto: a ressurreição não é uma recompensa de bom comportamento que receberemos individualmente no fim dos nossos dias. A ressurreição é viver tornando Cristo presente aqui e hoje, acreditando que no final não estamos condenados ao vazio, mas ao encontro pleno com Aquele que será tudo em todos.
A Igreja pregou durante muitos anos que fora dela não existia salvação. No Concílio Vaticano II reformulou essa ideia e disse sim que fora do mundo não há salvação:
«(A) vertente ético-social é uma dimensão imprescindível do testemunho cristão: há que rejeitar a tentação duma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exigências da caridade, com a lógica da encarnação e, em última análise, com a própria tensão escatológica do cristianismo. Se esta tensão nos torna conscientes do carácter relativo da história, não o faz para nos desinteressarmos do dever de a construir. A tal respeito, continua sempre actual o ensinamento do Concílio Vaticano II: "A mensagem cristã não afasta os homens da tarefa de construir o mundo, nem os leva a desatender o bem dos seus semelhantes, mas, antes, os obriga ainda mais a realizar essas actividades".» (Carta Apostólica Novo Millenio Ineunte)

Por isso eu acarinho tanto a política e insisto em misturá-la com a religião. Um dos maiores testemunhos políticos dos nossos dias, Maria de Lurdes Pintasilgo, dedicou-se plenamente à polis por Um só motivo.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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quarta-feira, setembro 7

 

Palavras do mês de Agosto

Sobre a morte do irmão Roger, fundador da comunidade de Taizé, passo a transcrever algumas palavras do cardeal Kasper:
"A primeira fractura que perturbava o irmão Roger era a das divisões entre cristãos. Desde a juventude, uniu-se à oração de Cristo «que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti» (João 17,21). Ele queria viver a fé da Igreja indivisa, sem romper com ninguém, numa grande fraternidade. Acreditava antes de mais no ecumenismo da santidade, essa santidade que transforma o fundo da alma e que sozinha conduz à plena comunhão. Sim: a Primavera do ecumenismo floriu na colina de Taizé, nesta igreja da Reconciliação, onde se encontram membros de diferentes tradições cristãs no respeito e no diálogo, na oração e na partilha fraterna, inspirados pela presença e pelo exemplo do irmão Roger.
A segunda fractura que perturbava o irmão Roger era a da divisão entre povos e nações, entre países ricos e países pobres. Toda a forma de injustiça ou de abandono entristeciam-no profundamente. Ele queria que irmãos da comunidade fossem viver em vários países, com os mais pobres, em pequenas fraternidades, como um simples sinal de amor e de comunhão. Este simples testemunho era-lhe muito querido, como uma profecia em miniatura do Reino de Deus, como uma semente de amizade e de reconciliação num mundo marcado pela indiferença. Para o irmão Roger, havia total continuidade entre o amor a Deus e o amor aos homens, entre oração e compromisso, entre acção e contemplação."

Algumas palavras de Bento XVI na XX jornada mundial da juventude:
"Quem poderia inventar um sinal de amor maior? Permaneçamos extasiados diante do mistério de um Deus que se humilha para assumir a nossa condição humana até se imolar por nós na cruz (cf. Fl 2, 6-8). Na sua pobreza, veio para oferecer a salvação aos pecadores, Aquele que como nos recorda São Paulo "sendo rico, se fez pobre por vós, para vos enriquecer com a sua pobreza" (2 Cor 8, 9)."
"Jovens, não cedais a falsas ilusões nem a modas efémeras, que muitas vezes deixam um trágico vazio espiritual! Recusai as soluções do dinheiro, do consumismo e da violência dissimulada que por vezes os meios de comunicação propõem.
A adoração do verdadeiro Deus constitui um acto autêntico de resistência contra qualquer forma de idolatria. Adorai Cristo: Ele é a Rocha sobre a qual construir o vosso futuro e um mundo mais justo e solidário. Jesus é o Príncipe da paz, a fonte de perdão e de reconciliação, que pode irmanar todos os membros da família humana."
"É como quando nos encontramos numa encruzilhada: que caminho empreender? O que é sugerido pelas paixões ou o que é indicado pela estrela que brilha na consciência?"

Timshel [TIMSHEL]

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Um sopro divino

Não foi só a Al Qaida a considerar que o furacão Katrina, que devastou Nova Orleães, foi «um castigo de Deus». «Deus atacou a América e as orações dos oprimidos foram atendidas», segundo aquela interpretação muito particular da acção de Deus na história dos homens.
Também ministros cristãos partilham este entendimento, embora atribuam outras razões que terão levado Deus a orientar o furacão para Nova Orleães em particular. O Reverendo Bill Shanks, pastor evangélico do New Covenant Fellowship de Nova Orleães, proclama as maravilhas divinas do furacão Katrina: «Agora Nova Orleães está livre de abortos. Agora Nova Orleães está livre do Carnaval. Agora Nova Orleães está livre da festa "Southern Decandence" e dos sodomitas, dos bruxos, da falsa religião - está livre de todas essas coisas agora. Acredito que Deus simplesmente, em sua misericórdia, purificou a cidade de tudo isso - e agora nós vamos começar tudo de novo».
O digníssimo ministro baptista esqueceu-se de referir que Deus deixou que os meios de comunicação social tenham avisado da proximidade dos ventos que, por sua vez tinham sido acompanhados desde o início pelas estações metereológicas. Deste modo, ele, muitos membros da sua igreja e outros brancos com recursos puderam sair da cidade a tempo. Os outros, pobres e negros, ficaram para trás. Não por serem negros, mas por serem pobres e não terem transporte próprio ou dinheiro para fugirem da tragédia. Ficaram para trás, sem casa, com fome e sede, porque o governo federal não agiu nem mandou evacuar a cidade antes do furacão bater à porta. E vetou as verbas para a manutenção dos diques. E... Mas isso não é religião, é política.
Religião é outra coisa. É dizer que Nova Orleães está a sofrer devido aos pecados cometidos pelos pobres negros que lá habitam. Esses pobres pagãos, promíscuos, pecadores de toda a ordem. Esses descendentes de outros com os quais Jesus Cristo comia à mesa em alegres festas há 2000 anos.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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segunda-feira, setembro 5

 

Duas missas

Já foi aqui assunto de discussão a qualidade das nossas liturgias. Começou o Luís Almeida por nos enviar uma carta aberta ao Senhor Padre M. sobre o pouco significado do rito da eucaristia quando vivido sem ligação com a vida da comunidade. Sobre o pouco sentido de uma Igreja que celebra centrada em si própria em vez de celebrar aberta à presença de Deus no mundo. Depois veio um olhar sobre a Igreja da Maria Conceição dedicado à Eucaristia. Lembrava que termina em Outubro o ano dedicado por João Paulo II à Eucaristia e reflectia sobre o significado profundo que ela tem para a comunidade crente.
Esta é uma área onde acho que a nossa Igreja tem muito a fazer no sentido de dar significado ao ritual. Mas também onde é fácil fazer melhor. Sem exibicionismos, conto-vos duas missas em que participei recentemente.

missa um
É um casamento. Depois da bênção, os noivos dão as boas vindas aos convidados. E explicam o que vêm ali celebrar. Contam um pouco de si e agradecem a presença de todos os que fazem já parte da sua história de casal. O rito prossegue. As leituras foram escolhidas pelos próprios. A primeira é o capítulo 13 da Carta aos Coríntios. A segunda leitura é substituída por excertos de cartas trocadas entre os dois. O evangelho é um excerto do capítulo 5 de S. Mateus. Vem a homilia tripartida. Os noivos começam, lembrando como começou o projecto conjunto que ali celebram. Falam do significado daquela festa e daquele compromisso. "Amanhã será um dia como o de hoje" – explica o noivo. É um sacramento, não é magia. Casados já eles estão há algum tempo. Hoje é apenas (e é um apenas importante) o dia da festa. Depois falam os padres que presidem. Poucas palavras. Palavras claras e simples. Não é o momento para palavras de circunstância ou deambulações teológico-intelectuais. Segue-se o rito do matrimónio propriamente dito. A Oração Universal foi preparada por amigos e familiares que a lêem. Para o credo segue-se o texto do Credo Ecuménico do pastor Dimas de Almeida. E termina a celebração da Palavra. Dá-se início à Mesa Eucarística. É seguido o texto tradicional. A comunhão é distribuída pelos próprios noivos. Gestos simples (como é simples os noivos estarem de frente para a assembleia e não de costas como habitual) que significam a participação de todos no projecto do casal.

missa dois
É uma celebração dominical como outras, num dos muitos domingos do tempo comum. A assembleia é um grupo pequeno de cerca de quinze pessoas. A celebração foi preparada por dois leigos. Das leituras do dia, decidiram destacar o tema da confiança. É seguido o rito tradicional, com alguns textos adaptados para o momento. Para homilia convidam os presentes a reflectir brevemente sobre os motivos que têm, aqui e hoje, para confiar. O padre participa espontaneamente, como alguns dos presentes. As angústias do momento presente não são esquecidas e vêm ao de cima na conversa. Segue-se o Credo, que foi adaptado à ocasião – é seguido o Credo da Confiança. A Oração Eucarística é escolhida entre um conjunto recolhido de várias proveniências. Hoje é usada a que contém um excerto da Carta a Diogneto.

Duas missas aparentemente tão diferentes do habitual mas no fundo iguais a tantas outras. A adaptação do rito à linguagem de hoje e a criação de mais espaços de participação da comunidade não são tarefas complexas. Basta alguma imaginação e um pouco de disponibilidade para arriscar seguir fórmulas diferentes das habituais. Ou um pouco de esforço para que as "alegrias e tristezas, angústias e esperanças" dos dias de hoje passem pela mesa dos cristãos. Quantas homilias são feitas ouvindo os leigos? Quantas Orações dos Fiéis são adaptadas ao momento de vida da comunidade? Em quantas missas do nosso país se citam acontecimentos dos jornais?

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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Exclusivismo

Os ensinamentos básicos das religiões pretendem ajudar as pessoas a encontrar um significado e um conjunto de valores para orientar as suas vidas; paralelamente, algumas confissões e instituições religiosas costumam reclamar para si um estatuto de exclusividade, como se fossem detentora da "verdadeira revelação" e o "único caminho possível" para a salvação (ou libertação). No mundo actual, onde a globalização e o multiculturalismo são inevitáveis, estas pretensões de exclusivismo religioso devem ser equacionadas. Inevitavelmente algumas doutrinas antigas deverão ser reformuladas para ter em conta que há vários caminhos para chegar a Deus.
Podemos enumerar algumas consequências negativas das atitudes exclusivistas. A primeira é a divisão; as pessoas ficam catalogadas como "nós" e "os outros", os "salvos" e os "condenados". A segunda consequência é o obstáculo que se cria à cooperação e diálogo inter-religioso. A terceira consequência verifica-se quando as pretensões exclusivistas se combinam o poder político, económico e militar, gerando tensões e conflitos na sociedade. Não é de admirar que Hans Kung há mais de uma década tenha afirmado que a paz entre as religiões é um pré-requisito para a Paz Mundial[1]. 'Abdu'l-Bahá declarou que a crença de que uma religião é única que agrada a Deus que os seguidores das outras estão condenados por Deus e privados da Sua graça é a principal causa de preconceito religioso[2]. É importante não esquecer que a religião, ao reclamar exclusividade ou superioridade, é frequentemente usada para validar e intensificar conflitos humanos. A quarta consequência está na cristalização das principais diferenças teológicas entre as religiões, tornando-as sistemas de crença aparentemente irreconciliáveis entre si.

Podemos encontrar tendências exclusivistas em praticamente todas as religiões; no Judaísmo deparamo-nos com o conceito de "povo eleito"; no Islão sustenta-se que a revelação divina terminou pois Maomé foi o Selo dos Profetas (Alcorão 33:40) e advoga-se a superioridade do Islão em relação a outras religiões, porque os livros sagrados dos cristãos e dos judeus foram corrompidos (Alcorão 4:45-46).
No Cristianismo, os conceitos exclusivistas mais notórios são a encarnação (a essência de Deus encarnou na pessoa de Jesus Cristo) e a ideia de que a história sagrada chegou ao fim com a revelação de Jesus. E vários versículos bíblicos são invocados na tentativa de sustentar estes conceitos: Jesus é o Mediador entre Deus e a humanidade (1 Tim 2:5), não há outro nome pelo qual as pessoas se possam salvar (Act 4:12), Jesus é o Filho Unigénito (Jo 1:14) e ninguém chega ao Pai salvo através d’Ele (Jo 14:6). Estes, e outros versículos, costumam ser usados para justificar que Jesus foi o último Profeta, que nos deixou os ensinamentos definitivos, que Ele é a encarnação da Divindade e que a Sua revelação nos proporcionou o derradeiro acesso à vontade de Deus.
Alguns teólogos cristãos e especialistas em religiões comparadas, preocupados com a questão do exclusivismo, argumentam que a autenticidade dos textos é questionável; outros preferem dizer que o exclusivismo se baseia em interpretações incorrectas das escrituras, defendendo que se deve ter em conta o texto não é uma verdade histórica absoluta, mas um mero testemunho de fé, vivida num contexto histórico, social e cultural totalmente diferente dos nossos dias. O estilo de linguagem também varia conforme o autor e os destinatários dos textos.

É importante ter presente que o exclusivismo não é uma característica inerente às religiões, mas sim uma atitude em relação aos ensinamentos de uma religião. Os seus alicerces assentam frequentemente na interpretação literal de metáforas e simbolismos existentes nos Livros Sagrados. Na própria religião baha'i, algumas palavras de Bahá'u'lláh podem suscitar aspirações exclusivistas:
"Homem algum poderá obter a vida eterna, a não ser que abrace a verdade desta Revelação inestimável, maravilhosa e sublime."[3]
É verdade que não existe uma doutrina - ou teologia - baha’i exclusivista. Mas uma interpretação literal destas palavras poderia sugerir que para os baha’is, a salvação depende do reconhecimento de Bahá'u'lláh como Mensageiro de Deus. No entanto, isto seria uma contradição com outros ensinamentos do fundador da religião baha’i. Como poderia uma tal interpretação ser compatível com outros excertos das escrituras baha'is onde se declara que os seguidores de outras religiões também atingem a salvação? [4]
Ao ler esta frase de Bahá'u'lláh, devemos ter presente que as Suas escrituras dão uma maior ênfase à salvação colectiva do que à salvação individual; Ele mesmo declarou que a Sua Missão era "a salvação dos povos e raças da terra"[5]. Assim podemos entender que Bahá'u'lláh não tem pretensões exclusivistas sobre a salvação individual, mas que a salvação social da humanidade depende da adopção dos princípios da sua religião.

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NOTAS
[1] - Kung, Christianity and World Religions, p. 440-443
[2] – Paris Talks, p. 45-46
[3] - Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, XCII
[4] - Recordo algumas das palavras de Bahá'u'lláh e de 'Abdu'l-Bahá: "Abençoado o homem que se volveu para Ele (Cristo) "; Maomé é a "Arca da Salvação"; o Alcorão é "o Caminho para todos os que estão nos céus e todos os que estão na terra".
[5] - Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, CXV


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

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