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segunda-feira, agosto 1

 

Zé Filipe. A história nunca pode ser travada. Segunda-feira, Outubro 11. 2004.

Continuamos numa de lições de moral, desta vez sobre a história, que nunca pode ser travada.

A história pode ser entendida de muitas formas. Há a “História” que se aprende na escola e nos livros, a “estória” que os pais contam ao deitar, a “história” da nossa vida. Sempre me fez confusão separar a “História” da “história”. E ainda mais essa novidade que é a “estória” em vez da “história”. Porque mais do que categorias separadas, todas estas histórias, pessoais ou colectivas, de povos inteiros ou de pequenos grupos, imaginárias ou reais (e como há histórias imaginárias que conseguem ser tão reais e histórias reais que parecem fantasia...), têm uma coisa em comum mais importante do que as distinções que entre elas fazemos: nelas confluem pedaços de vida, de criatividade, de liberdade, de muitas ou poucas pessoas absolutamente irrepetíveis. A história não é o que acontece (e menos ainda o que aconteceu). É o que as pessoas fazem ou fizeram acontecer, o que as pessoas fazem com o que lhes acontece. Nesse sentido a história é mais tarefa do que fado, mais projecto do que destino. Esta concepção da história resume-se no fundo a dizer que o futuro está nas nossas mãos.

Hoje, a nossa forma de encarar o tempo é linear. O tempo que avança do passado para o futuro, irreversivelmente e irrepetivelmente. Porém, o tempo e a história não foram sempre entendidos de forma linear. O mito do eterno retorno dominou a visão da história praticamente desde as sociedades arcaicas até ao judeo-cristisnismo. Para o mundo arcaico “os objectos e os actos não possuem valor intrínseco autónomo, mas adquirem valor e tornam-se reais somente enquanto participam duma realidade que os transcende: o gesto adquire sentido somente enquanto é repetição da acção primordial”(2). Nesta concepção, o tempo não é linear mas circular. O que fazemos é sempre repetição do que já no passado aconteceu. Platão deu dignidade filosófica a esta ideia na sua metáfora da caverna: o que é verdadeiramente essencial é o início, que Platão identificou com o mundo das ideias.
São os profetas hebreus que introduzem a visão linear do tempo. Se Deus se revela na história, ela é valorizada, superando-se a visão tradicional cíclica, descobrindo um tempo linear que avança em direcção ao futuro. Para as religiões arcaicas a revelação tinha acontecido num tempo mítico, “no instante extra-temporal do início”(1). Para a fé de Israel, Deus é o Senhor da história: “a própria história é o lugar da epifania de Deus e são históricas as formas da sua autocomunicação”(2). Mais tarde, o facto de o próprio Deus se ter feito homem leva ainda mais adiante a noção da pessoa enquanto verdadeiro sujeito histórico. Deus levou o homem tão a sério a ponto de Ele próprio se fazer homem. Assim, a história não é somente o “cenário” de passagem para um retorno ao instante primordial nem tão pouco passo intermédio -- como que um teste -- para entrada num qualquer paraíso. Para os cristãos a salvação não é só a salvação na história nem pela história. A história torna-se história de salvação porque o próprio Deus nela encarnou, assumindo plenamente a condição humana.
Dizer que a história nunca pode ser travada é assim, em primeiro lugar, afirmar a liberdade como motor da história. Essa liberdade que nos foi dada num acto imenso de confiança e de amor de um Deus que levou profundamente a sério a sua criação.

Dizer que a história nunca pode ser travada é também dizer que há um sentido na história que construímos. É acreditar que a nossa história participa nesse projecto de amor a que chamamos Reino de Deus. É acreditar que, apesar de todos os avanços e retrocessos, a evolução da humanidade encaminha-se para o bem. Ou numa linguagem mais teológica: “A entrega de Deus no fazer e desfazer das pessoas é para muitos uma fonte permanente de escândalo. Da história humana pode sair algo bom? Nós dizemos: da história saiu Deus e na sua história encontra-se a possibilidade do nosso encontro com Ele”(3). Este caminhar de Deus ao lado dos homens, foi e é muito muitas vezes mal entendido. Continuamos muito marcados com uma visão mágica de um Deus que intervém alterando o curso dos acontecimentos. Quando aceitamos essa visão, o problema do sofrimento nega a própria existência de Deus. Onde fica então Deus, se o rumo dos acontecimentos está completamente nas nossas mãos? Como dizemos que “da história saiu Deus”, se o rumo dos acontecimentos está completamente nas nossas mãos? Dizemo-lo porque acreditamos que o Reino de Deus, a dimensão de Deus, se encontra já presente e actuante na realidade. Não por passes de mágico nem por acontecimentos miraculosos ou espampanantes, mas por sinais discretos: “O crente não é um esotérico que descobre na realidade significados ocultos. Não é, tão pouco, o pensador que espreme do real gotas de sabedoria. Ele é capaz de ver Deus onde outros só vêem causalidade, processos históricos, equações económicas. É aquele que experimenta a realidade como uma grande parábola de Deus.” (3)
Foi a isto que se chamou teologia dos sinais dos tempos e que inspirou profundamente o Concílio Vaticano II. O olhar da Igreja sobre a realidade não deve ser de condenação, mas de escuta dos sinais da Cidade de Deus já presente no meio da Cidade dos Homens (na metáfora de Santo Agostinho).

Dizer que a história nunca pode ser travada é ainda, e por tudo o que dissemos antes, uma afirmação de esperança. Não a esperança que espera por dias melhores, mas a esperança que nos dinamiza. Não a esperança que pinta a realidade de cor-de-rosa, mas a esperança que não se coíbe de criticar, por saber que as coisas não têm de ser como são. Não a esperança de quem pede a Deus que aconteça, mas a esperança de quem faz por acontecer. Não a esperança dos que lançam anátemas e condenações sobre a realidade, mas a esperança dos que sabem descobrir os valores positivos da sociedade. Não a esperança de quem encontrou Deus nas suas certezas, mas a esperança de quem procura escutar os sinais do seu Reino.
Para mim, esta esperança funda-se no que os cristãos chamam Ressurreição: a resposta de Jesus à injustiça foi fazer-se vítima com as vítimas, numa atitude de denúncia que lhe custou a morte de cruz. “É aqui que se manifesta o máximo amor de Deus e da opção pelos pobres: um Deus que se permite ser vitimado pelas suas próprias criaturas”.(4) Mas Deus não se esquece das vítimas de injustiça -- a Ressurreição de Jesus é, como lhe chamou Frei Bento Domingues, a vingança de Deus. É ela que nos permite esperar contra toda a esperança: mesmo que a morte triunfe, ela não terá a última palavra. Mais ainda, da morte sairá a vida.

[ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(1) - Mircea Eliade, Il mitto dell'eterno ritorno
(2) - Bruno Forte, Teologia da História
(3) - Carlos Barbera, Lectura Crente y Oración
(4) - João Duque, Cristianismo e opção pelos pobres

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