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segunda-feira, agosto 1

 

Vitor Vicente. De que fala a minha avó quando fala de Deus. Segunda-feira, Maio 31. 2004.

De que fala a minha avó quando fala de Deus? — eis a questão a que, sem elevar expectativas à altura dos céus (se eu não faço a mínima ideia de quem é Deus, também não sei como saber se ela invoca o nome dEle em vão), me proponho a dar resposta.
Quando alguém morre e vai desta para uma dimensão que, de esta ser tão bera e inóspita, dizem ser melhor, a minha avó, de imediato, acrescenta-lhe: que-Deus-tem. Ainda o desgraçado do defunto se encontra amortalhado, em câmara ardente, (ex)posto aos olhares trémulos e lacrimejantes daqueles de quem foi querido, já a minha avó o inscreveu na árvore genealógica da família que-Deus-tem. Ou seja, no fatídico momento em que uma pessoa se descuida e estica o pernil, Deus, atento, como um lince, apropria-se da nossa carcaça e da nossa alminha. Num primeiro momento, a minha avó parece designar Deus como um proprietário de bens privados — talvez este equívoco título nobiliárquico-capitalista seja a chave de explicação para o ódio dos comunistas a Deus e a todos (anjos, santos, beatos) os envoltos em Sua aura.
Ora, a minha avó (que, importa explicitar, se diz católica mas jamais o registou por escrito porque é analfabeta), antes de se deitar, deseja que amanhã possa desejar o mesmo. «Até amanhã, se Deus quiser», despede-se ela, todas as santas noites, como que a cumprir um ritual, com a esperança de que amanhã, depois de amanhã e por aí adiante, Ele deseje que ela possa repetir o desejo perante a família — e, aproveitando a vaga de desejos pedidos, que também nós façamos igual voto.
Deus, nesta acepção, não se trata dum ser apartado da vidinha dos homens, nem um ente supra-natural, mas sim o próprio Ser, as próprias coisas, ou melhor, haver coisas. Como que o verbo contínuo que configura e norteia o curso das coisas.
A identidade de Deus encontra-se, apesar de velada, no movimento do mundo. A minha avó atribui-lhe, portanto, o papel de demiurgo que existe fazendo existir, que fazendo existir existe. Cuja actividade e ofício o mantém desperto, surdo à cantiga de embalar que prostra os ociosos no hipnótico regaço do letargo.
O horizonte de sentido é a responsabilidade que a minha avó imputa a Deus. Cabe-lhe ser o farol que ilumina as tripulações em alto mar — ainda que o barco da existência humana, seja por desígnio ou por falha divina, acabe fatalmente por naufragar e alimentar os bichos. No caso, a sorte grande sai aos peixinhos.
Dentro da ontologia (eu sei que é um termo palavroso; se o usar numa conversa com uma velhota, com certeza que ela pensará que me estou a referir a um ramo da medicina que trata de uma doença modernaça) da minha avó, não existe espaço para um Deus Todo-Poderoso se espraiar. E nós, humanos, onde ficamos?, quem somos? Materializamos a vontade dum Deus desconhecido.

[CANTO ESCURO]

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