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Varqa Jalali. O Papel da Religião na Sociedade: uma perspectiva bahá'í. Segunda-feira, Março 7. 2005.

Os últimos cem a cento e cinquenta anos da humanidade têm sido palco de transformações enormes na vida humana. Estruturas que eram consideradas durante gerações como factos imutáveis, como dados adquiridos, ruíram num curto espaço de tempo. Podemos ver isso em várias esferas da vida humana – o papel da mulher na sociedade; a gradual mas completa substituição da organização feudal da sociedade; a expansão e democratização da educação; ou o predomínio de valores democráticos e liberais na organização política da sociedade.
Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada".
Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.
Ora, isto é interessante, na medida em que sugere que as pessoas sentem a necessidade de uma ligação com uma outra realidade que transcende a dimensão material. E talvez por isso constata-se o crescimento de novas formas de exprimir essa necessidade: vemos cada vez mais pessoas interessadas em "espiritualidade", na meditação, em fenómenos paranormais – enfim, fenómenos que até há bem pouco tempo não eram particularmente bem-vistos e limitavam-se a uma pequena minoria.
Isto é interessante, e confirma o a afirmação de um eminente historiador de que a religião é "uma faculdade da natureza humana". O que os padrões existentes sugerem é que os meios de exercer essa faculdade são insuficientes para o exercício pleno dessa faculdade. Aquilo que proponho é que isso se deve em larga medida a uma má compreensão do que é realmente a religião.

O que é então a religião? Para que serve a religião?

DEFINIÇÃO DE RELIGIÃO
Bahá'u'lláh escreve que "o propósito fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana...". Creio que isto clarifica muita coisa: a religião tem como objectivo salvaguardar os nossos interesses e promover a unidade da raça humana, e é um instrumento para se conseguir isto.
Sabemos que Bahá'u'lláh falou explicitamente do reconhecimento da unidade da raça humana como o objectivo central da humanidade nesta sua fase de desenvolvimento. Mas de uma forma ou de outra, todas as religiões falam da unidade da raça humana, como se confirma nas suas "regras de ouro":
* "Age como gostarias que agissem contigo." (Zoroastrianismo)
* "Tudo o que desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles, pois é nisto que consistem a Lei e os Profetas" (Cristianismo)
* "Não magoeis os outros de formas que vos magoariam a vós" (Budismo)
* "Nenhum de vós é um crente, enquanto não amar o seu irmão como ama a si mesmo" (Islão)
* "Não faças ao teu companheiro aquilo que para ti é odioso: nisto se resume toda a Lei; o resto é um seu comentário" (Judaísmo)
* "O dever mais elevado consiste em não fazermos aos outros o que nos causaria sofrimento se nos fosse feito a nós" (Hinduísmo)
* "Bem-aventurado quem prefere seu irmão antes de si próprio" (Fé Bahá’í)

Ora, nenhuma destas "regras de ouro", destas regras de comportamento, tem um asterisco ou nota de rodapé a dizer que não se aplica a pessoas do tipo x ou y. Elas são, verdadeiramente, universais, e como tal reafirma este conceito de unidade – ao qual subjacente está um conceito de igualdade – do género humano.

HISTÓRIA
De igual modo, historicamente vemos que as religiões têm de facto servido para o avanço da humanidade. As grandes civilizações surgiram de ímpetos e novas revelações divinas: não precisamos mais do que considerar o avanço da comunidade judaica após o aparecimento de Moisés, tendo sido capaz de escapar ao jugo opressivo dos egípcios; ou o impacto de um jovem aparentemente destituído de poder terreno, como Jesus, mas que na realidade era movido por um poder divino.
Contudo, quando falamos da história das religiões, existe de facto a percepção de que a religião é também uma causa de conflitos. Em relação a isto, vejamos as seguintes palavras de 'Abdu'l-Bahá:
A religião deve unir todos os corações e fazer com que as guerras e disputas desapareçam da face da terra, dar origem à espiritualidade e trazer vida e luz a cada coração. Se a religião torna-se causa de aversão, ódio e divisão, melhor seria deixá-la, e tirar-se de tal religião constituiria ato verdadeiramente religioso. Pois é claro que o propósito de um remédio é curar; mas se o remédio agrava a doença, é melhor deixá-lo de lado. Qualquer religião que não seja fonte do amor e da unidade, não é verdadeira religião. Todos os santos profetas foram como médicos para a alma; deram prescrições para a cura da humanidade; assim qualquer remédio que cause doença não provém do grande e supremo Médico."
Esta citação é extraordinariamente clara e directa, deixando um padrão muito claro de avaliação da religião. A religião é de facto um instrumento extremamente poderoso, porque vai de encontro ao que de mais profundo e eterno que nós temos – a nossa dimensão humana, espiritual, a alma – como quisermos chamá-lo. Como tal, pode ser explorada para criar ódio onde deveria haver amor, desunião onde deveria reinar a unidade.
É neste sentido que a explicação de Bahá'u'lláh sobre a revelação de Deus se torna tão coerente. A religião não é uma coisa estática, tendo que ser renovada, para que a força da superstição e ignorância sejam combatidas. E só o poder de Deus pode realmente renovar este instrumento tão poderoso. Aliás, essa dimensão confirma-se no facto de todos os Manifestantes de Deus anunciarem a vinda de outro Manifestante de Deus. Nenhum deles disse "Meus amigos, a revelação de Deus acaba aqui". Nem seria tal plausível quando todos Eles são movidos a reconhecer a sua incapacidade perante a imensidão e infinidade Divina.

Este é, alias, este um dos conceitos centrais da Fé, perceptível na afirmação de Bahá'u'lláh no Livro Mais Sagrado de que "
Esta é a Fé imutável de Deus, eterna no passado, eterna no futuro."

A RELIGIÃO À LA CARTE E A VERDADEIRA LIBERDADE
Hoje em dia os sociólogos falam do fenómeno da religião à la carte. O que é então este fenómeno? Basicamente, que a religião torna-se mais uma escolha pessoal, moldável aos interesses do indivíduo. Tal como num restaurante, as pessoas escolhem se querem comer carne ou peixe, se querem acompanhar o prato com batatas ou arroz, as pessoas “escolhem” de entre as diferentes religiões o que mais gostam, e criam a sua própria religião.
Ora, se isto é apelativo – especialmente dentro do modelo de sociedade de consumo em que vivemos, onde o poder de escolha é tão importante (e atenção, que enquanto consumidor gosto de ter escolha) – não deixa de ser interessante notar também que vai inteiramente contra um dos princípios centrais de todas as grande religiões – de que a verdade espiritual é imutável e não-relativa. Isto é perceptível, a título de exemplo, no que Cristo disse quando afirmou "Eu sou o caminho, a verdade e a luz"; e afirmações semelhantes podem ser encontradas nas escrituras de outros Manifestantes de Deus também.
Estas frases servem amiúde como a justificação de posições dogmáticas, senão mesmo fanáticas. Mas o que elas reflectem, a meu ver, é a noção de que existe um padrão, que existe uma verdade absoluta, de que Eles são transmissores. Até porque a visão fanática não faz muito sentido no contexto do resto do que os Mensageiros disseram, e até do seu contexto histórico. Todos os Manifestantes sucederam um outro Manifestante, todos Eles afirmaram a sua crença nesse Manifestante; e todos eles anunciaram a continuidade, de uma forma ou outra, da revelação divina à humanidade.
Ao mesmo tempo, vale a pena explorar até que ponto é que o conceito de religião à la carte é realmente sinónimo de liberdade. Numa das suas Epístolas, Bahá'u'lláh afirma que:
"A verdadeira liberdade consiste na submissão do homem aos mandamentos. Observassem os homens o que Nós lhes enviamos do Céu da Revelação, eles, com toda certeza, atingiriam a liberdade perfeita. Feliz quem apreende o Desígnio de Deus em tudo o que Ele revelou do Céu de Sua Vontade. A liberdade que vos é proveitosa só se encontra em completa servitude a Deus, a Verdade Eterna. Quem experimentar a sua doçura recusará trocá-la por todo o domínio da terra e do céu."
É evidente nesta citação que Bahá'u'lláh dissocia a liberdade da nossa alma da liberdade de escolha de princípios. Dito isto, vale a pena salientar a centralidade da liberdade na Mensagem de Bahá’u’lláh, confirmada por exemplo no conceito absolutamente central da livre e independente busca da verdade, ou a clara proibição de Bahá'u'lláh ao proselitismo (ou até mesmo a ausência de clero, mas isso fica para outra altura).

NOTAS DE VIOLINO
Em 2003 esteve em Portugal um dos mais conceituados violinistas europeus, Bijan Khadem-Missagh, e ele deu um exemplo que eu achei fabuloso. Como sabem, os sons que ouvimos são provocados por vibrações. Num violino, como numa guitarra, é a vibração da corda que produz o som, a nota. Mas de igual modo, nem todas os sons produzidos são iguais: as vibrações podem ser mais ou menos puras, que é o que nós conhecemos pela nota estar mais ou menos afinada.
O exemplo que ele deixou é este: os seres humanos são como as notas. E a humanidade tornar-se-á bela quando essas notas estiverem integradas e a trabalharem juntas, como as notas numa sinfonia, que estão em acordo umas com as outras. Não é sempre a mesma nota, algumas duram mais, outras são mais curtas, mas todas elas são essenciais para que sinfonia seja sublime.
Mas para que isso aconteça, é também necessário que as notas sejam afinadas, que as vibrações sonoras sejam puras. Por outras palavras, é necessário que nós nos tornemos cada vez mais puros, de modo a que a nossa nota soe melhor ao lado das outras; e quanto mais afinados estivermos, melhor iremos poder nos integrar com as outras notas.
Eu acrescentaria a este exemplo o seguinte: a religião, a mensagem que os Manifestantes de Deus trazem à humanidade, é como que o diapasão que nos permite afinar as nossas notas. É no fundo algo de bem mais simples do que muitas vezes pensamos; mas algo que tem que ser posto em prática durante toda a vida.

CONCLUSÃO
Queria acabar por partilhar uma frase de Bahá’u’lláh que acho absolutamente incrível:
"Queríamos esperar que o povo de Bahá seja guiado pelas benditas palavras: «Dize: todas as coisas são de Deus». Esta excelsa afirmação é como água para extinguir o fogo do ódio e da inimizade latente dentro dos corações e peitos dos homens. Por esta afirmação, simplesmente, povos e raças em conflito atingirão a luz da verdadeira unidade. Ele, deveras, diz a verdade e mostra o caminho."
Voltamos então ao verdadeiro propósito da religião. A religião serve-nos para lembrar que todas as coisas são de Deus, e portanto a nossa relação com todas as coisas – desde as outras pessoas ao meio ambiente, passando até pelo nosso trabalho – deve ser como a nossa relação com Deus – devemos ver (e procurar ver) o divino que há em todas as coisas.

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