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Marvi. Caminhar, apesar do mal. Segunda-feira, Julho 26. 2004.

Muito se tem reflectido e escrito sobre o mal . E não pretendo aqui acrescentar nada à sua compreensão filosófica ou teológica. Apenas dar testemunho de que aos seres humanos é possível caminhar, apesar do mal.
E o mal surge-nos ainda como o maior de todos os enigmas com que nos confrontamos diariamente. Acredito, no entanto, que parte do enigma poderá ser desfeito se conseguirmos distinguir o mal inevitável do mal inaceitável; isto é, se não colocarmos no mesmo saco questões como a doença, o sofrimento e a morte, as calamidades naturais como cheias e terramotos, juntamente com o terrorismo, o tráfico de droga, as guerras, a violência sobre as crianças e os acidentes de automóveis, por exemplo.
Há no entanto que reconhecer os laços existentes entre o mal sofrido e o mal cometido. Primeiro, porque o mal cometido é sempre mal que faz sofrer alguém (e é quando um homem se sente vítima da maldade de outro homem que o grito da lamentação é mais agudo). Depois, o mal cometido paga-se frequentemente com uma pena que provoca sofrimento.
Quanto ao mal inevitável, já que dificilmente o poderemos compreender (embora se reconheçam os esforços de teólogos e filósofos que o vêm fazendo, de que Leibniz é modelo, a questão do mal continua em aberto na filosofia contemporânea) resta-nos descrevê-lo e explicá-lo (e a ciência, se não nos permite ainda evitar as catástrofes naturais, é capaz de as explicar e possibilita, frequentemente, prevenir consequências mais dramáticas).
Por outro lado, já em 7 de Maio escrevi aqui que «na medida em que fazer mal, cometer o mal, é fazer sofrer alguém, toda a acção, ética ou política, tem em si a capacidade para reduzir o mal e, portanto, o sofrimento no mundo: ao diminuirmos a violência no mundo, o sofrimento dos homens provocado pelos homens, diminuiremos o sofrimento no mundo – e pouco restará, certamente» e recordei a nossa obrigação moral de agir contra o mal inaceitável, que P. Ricœur apresenta num imperativo: «age unicamente segundo a máxima que faz com que tu possas querer ao mesmo tempo que não seja o que não deveria ser, a saber, o mal» (1).
Mas esta resposta prática não será suficiente já que existem sempre vítimas inocentes, não só da indiscriminada repartição do sofrimento infligido pelos homens, mas também de catástrofes naturais, das doenças, do envelhecimento e da morte. A nossa acção não será suficiente para responder à questão que permanece: “Porquê eu?”. Ou como interroga o poeta:

Que quem já é pecador / Sofra tormentos, enfim! / Mas as crianças, Senhor, / Porque lhes dais tanta dor?!... / Porque padecem assim?!...
(Augusto Gil, Balada da Neve)

Quem contacta frequentemente com sofredores, vítimas inocentes de qualquer mal inevitável, como é o caso das doenças de mau prognóstico, vai percebendo que é possível a transformação dos sentimentos que alimentam a lamentação e a queixa: primeiro, integrando a ignorância sobre o mal no trabalho de luto, levando ao fracasso da teoria da retribuição - a tendência para quem sofre se sentir culpado exige da nossa parte uma resposta iniludível: Deus não quis isso, não quis punir. Depois, deixar surgir a própria queixa contra Deus, deixar protestar contra a "permissão" divina; e por fim, o estádio da espiritualização da lamentação – descobrir que é possível acreditar em Deus apesar do mal, porque as razões de acreditar nada têm a ver com a necessidade de explicar a origem do sofrimento; compreender Deus como a fonte de tudo o que é bom na criação, o que inclui a indignação contra o mal, a coragem de suportá-lo e a soli­dariedade para com as vítimas.
E no meio do sofrimento maior é possível descobrir ainda que há quem avance solitaria­mente no caminho da renúncia à própria queixa, chegando, como Job, a amar Deus por nada, isto é, a amar por amar. E entre estes, alguns encontram ainda no caminho da renúncia uma consolação sem igual na ideia de que o próprio Deus sofre e que a Aliança, além dos seus aspectos conflituosos, culmina numa participação das dores de Cristo.
Mas este caminho só pode ser encontrado ou ser não encontrado; só pode ser caminhado ou não caminhado; só poder ser aprendido e nunca ensinado

(1) RICŒUR, Paul - Soi-même comme un autre, Paris: Edictions du Seuil, 1990, p. 254.

[(IN)FIRMUS]

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