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segunda-feira, agosto 1

 

Lutz. O segredo da morte. Segunda-feira, Julho 12. 2004.

Não acredito numa vida após a morte, mas acredito que somos eternos.

Eu sei que esta afirmação é paradoxal, e logicamente não defensável. E mesmo assim ela exprime a minha mais profunda convicção. Não é uma afirmação propositadamente contraditória, não pretendo abalar as convicções de ninguém com ela. É simplesmente uma convicção. Já fiz algumas tentativa para sustentá-la racionalmente, mas com resultados pouco convincentes, porque rapidamente dou por mim em terrenos, que a minha capacidade intelectual ultrapassam, como a lógica formal ou a cosmologia. Vou, para não fugir completamente ao mandamento da razão - isto é um mandamento em que acredito! – tentar esboçar uma ideia, que creio que me talvez convencesse, se tivesse capacidade e conhecimento para desenvolvê-la: Acredito na relatividade do espaço e do tempo, acredito que isso só são modi da nossa existência. E se isso fosse verdade, a sua não existência a não ser só enquanto modo, faria desaparecer a morte. Uma vez existir, seria existir sempre. E para levar a especulação ao cúmulo: Talvéz é o que sou, o eu, somente um modo de Algo grande e intemporal.
Mas basta de irresponsabilidade intelectual!

Um texto, cuja publicação – ao contrário – acho perfeitamente justificada na Terra da Alegria é o seguinte, do teólogo católico alemão Eugen Drewermann. (Também ele em conflito com a ortodoxia romana: eu devo ter uma fraqueza pelos heréticos...).
Este texto é talvez a melhor explicação para essa minha convicção sobre a morte, mesmo se não sei se ele mesmo parte dos mesmos pressupostos como eu...

“O segredo da morte é, que uma pessoa só se podo conformar com ele, se ela passa a amar infinitamente uma outra pessoa ao seu lado. Só no amor revela-se a beleza infinita e a necessidade absoluta da existência duma determinada pessoa; só no amor uma pessoa mergulha de novo, de certo modo, no início da criação e repete internamente a decisão de Deus, que quis, à partir da eternidade, que este homem existisse. A pergunta eternamente não respondida de toda a metafísica: Porquê é que algo existe e não antes nada?, encontra sossego somente através do amor; pois só o amor sabe que o outro tem que existir, e só ele nos torna profundamente gratos a Deus pela desmesurável oferta da vida. Só no amor o outro, ele mesmo, passa a ser a janela que ilumina o mundo e o torna transparente em direcção a Deus, e inversamente transforma-se a Sua afeição num caminho e numa ponte, que se estende deste mundo para a eternidade.

É que antes de mais o amor oferece-nos a consciência, que o outro não só devia existir eternamente, isto é, desde sempre, mas igualmente que ele deve existir eternamente, isto é: para sempre. Para a crença da humanidade na imortalidade do indivíduo não existe suporte mais importante do que o argumento da amizade e do amor, pois o amor em nada outro consiste do que nisto: para espiritualizar todo o mundo num símbolo mágico-poetico, que designa a proximidade do outro em qualquer parte, e o evoca numa presença eternamente sem tempo.
[...]
Se no amor tudo que é objecto se condensa, como necessariamente, num símbolo, se espaço e tempo se dissolvem nele numa permanente presença animador do amado - cada diálogo é só como uma promessa dum inatingível cumprimento, e o tempo pára, enquanto ao mesmo tempo e apesar disso, tudo amadurece, mais depressa do que nunca -, como não devia ser então no amor e pela força da sua confirmação, também objectivamente válido no absoluto, que espaço e tempo no seu todo só serão primeiros suportes, invólucros e imagens do único e infinitamente valioso, que constitui e envolve a pessoa do outro no seu ser e na sua essência? Só o amor é capaz de espiritualizar o espaço e o tempo, porque só ele preenche e sente a forma espiritual do outro, que não é compreensível em tempo e espaço, nem no jogo dos acasos e das causas externamente atribuídas.

Precisamente por isso o amor não se deixa desencorajar pela morte. Onde os sentidos exteriores não conseguem reparar em nada diferente do que na obra cruel da destruição do mais amado e mais belo no mundo, vêem os olhos do amor um simples despir dos invólucros, um aparecer da verdadeira, imutável forma luminosa da alma, uma passagem da presença para a eternidade. Sem uma tal fé na imortalidade do amado o amor seria fútil e a morte todo-poderosa; mas a transformação dos sentidos, para a qual o amor nos educa durante a vida toda, fica antes confirmada pela morte do que desmentido: Essencial é unicamente o interior - o exterior perece; mas o mais interior de tudo, a linguagem do coração, o contacto entre as almas, é em si próprio prova, promessa e cumprimento duma felicidade, que e de Deus e que nunca perece.”

Eugen Drewermann: Psychoanalyse und Moraltheologie (Bd. 3).

[QUASE EM PORTUGUÊS]

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