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segunda-feira, agosto 1

 

Ludwig Krippahl. Nada para além da razão. Segunda-feira, Janeiro 3. 2005.

[Esta é a resposta de Ludwig Krippahl, do blog Diário Ateísta à carta de Carlos Cunha, que aqui já publicámos. O diálogo epistolar será publicado nesta Terra enquanto se reconhecer o seu interesse e sempre com a autorização dos autores.]

Caro Carlos,
Acho bastante relevantes os exemplos que deu, Hitler e Pol Pot. Se bem que Hitler não era de forma nenhuma ateu, mas sim Cristão, esses exemplos demonstram bem a distinção que eu queria fazer: entre o acreditar como uma crença para além da razão, e o acreditar como conclusão contingente, fruto dum processo racional e dependente da informação de que se dispõe.
O acreditar do ateu, pelo menos no meu caso, é este último. É provisório, sujeito à supervisão da razão e a ser alterado sempre que novos indícios o justifiquem.
O acreditar de Hitler, Pol Pot, e dos suicidas que destruíram o WTC não era desta categoria, mas sim um acreditar que estava fora da razão. Um acreditar em A mesmo que a razão diga B. Como o Carlos admite, essa é também a categoria da sua fé religiosa: "algo extra-razão".
Mas o Carlos acrescenta:
«Concebo a fé como algo extra-razão, mas nunca como algo irracional ou contrário à razão». Nesse caso a sua fé não pode ser como a concebe. A decisão de tomar uma afirmação como verdadeira só pode ser racional ou irracional. Se não é uma, é necessariamente a outra, por definição. "Extra-racional" não é uma terceira categoria...
Se a razão nos indica que uma proposição é verdadeira, então acreditar que é falsa (ou vice-versa) é contrário à razão, e é isso que a sua fé requer.

Por exemplo, a razão leva-nos a concluir que a nossa consciência está dependente do nosso cérebro. A fisiologia e neurologia tornam isso óbvio: não há nada no que somos que escape a problemas do cérebro. Os nossos sentidos, a nossa memória, mesmo a nossa personalidade, escolhas, e acções, podem mudar se o cérebro mudar, ou mesmo desaparecer por completo se o dano fôr grave. Até a fé.
A crença numa consciência que sobrevive à morte é contrária à razão, pois uma análise racional da informação que temos indica claramente que tal sobrevivência é impossível.
E há inúmeros outros exemplos. A crença na omnipotência dum ser é contrária à razão, pois a razão indica-nos que há muitas coisas impossíveis (reduzir a entropia dum sistema macroscópico fechado, acelerar para além da velocidade da luz um objecto com massa, parar um electrão numa localização exacta, etc...). A crença na omnisciência também é contrária à razão. E a crença num ser que, tudo sabendo e tudo podendo fazer, é simultaneamente omnibenevolente e deixa as coisas acontecer como acontecem é não só contrário à razão mas, na minha opinião, um atentado ao bom-senso. Como pode ser racional acreditar num ser todo-poderoso e infinitamente benévolo que faz nascer crianças com fibrose cística, para viverem uma curta vida de sofrimento e morrerem sufocadas?

Eu acredito que para si, e para a maioria dos crentes, a razão seja importante. Vejo isso muitas vezes a discutir com alguns casos mais extremos, como os criacionistas. Procurar razões que sustentem a fé é importante para muita gente. Mas, em última análise, acaba sempre por aparecer esta justificação: a fé está para além da razão.
E isso é apenas um jogo de palavras. Se a razão nos diz A e nós escolhemos (ou somos forçados) a acreditar em B, a crença é pura e simplesmente irracional. Não é "extra-razão".
E esta é a diferença principal entre nós, não a que o Carlos apontou: «Uma grande diferença entre nós - uma divergência de perspectiva - é que eu admito que Deus não exista. O meu caro Ludwig não admite estar enganado - que exista um Deus, qualquer que seja a sua substância. É uma hipótese que exclui».
Ambos consideramos ambas as hipóteses. A diferença é no método que usamos para escolher, ou no método que determina a nossa escolha por nós no caso de não sermos capazes de escolher.
Eu escolho usar a razão. Deduzo as implicações de cada hipótese, confronto-as com a observação, e escolho a minha crença em função da forma como cada hipótese se ajusta à observação. Nem tão pouco tenho duas hipóteses; há milhares e milhares de deuses e de religiões possíveis a considerar, entre as quais o Catolicismo e Jahve são apenas um exemplo.
O seu método é, de acordo com as suas próprias palavras, "extra-razão". O que, na prática senão também por princípio, resulta numa crença que é contra a razão, irracional.
O Carlos diz que admite que Deus pode não existir, mas que eu não admito que possa existir. Mas eu proponho que é ao contrário, e por isto: para qualquer deus, eu posso especificar que tipo de observação me levaria a mudar de ideias. Por exemplo, se observássemos um escaravelho gigante a fazer rolar o Sol, eu passava a acreditar que os Egípcios estavam correctos, e Khepri existe de verdade. Se Jesus voltasse à terra e morresse e ressuscitasse em condições devidamente controladas, eu também mudava de ideias quanto a isto.
Se rezar adiantasse alguma coisa, mesmo que duma forma limitada e apenas observável por análise estatística, eu passava a acreditar que haveria algum deus ou coisa equivalente. E se apenas a reza de uma religião funcionasse, eu acreditaria que seria essa a religião verdadeira.
E etcetera. A existência da alma, o desígnio do universo e da evolução, omnipotência, milagres, e assim por diante, em tudo isso estou disposto a mudar de ideias, e posso dizer que observações me fariam mudar de ideias.
E o Carlos? Diz que admite a hipótese, mas desconfio que não há maneira de, se a hipótese for verdadeira, de o convencer que o é pela evidência... ou não fosse a sua conclusão "extra-razão".

Para terminar, queria só abordar alguns pormenores. Se, como a evidência indica, o universo começou com algo semelhante a uma singularidade, começou num estado de entropia máxima.
Ao expandir, a entropia não diminuiu. No total, não se criou ordem, mas sim desordem. A entropia do universo tem vindo a aumentar sempre, desde a sua origem. O que acontece é que ao expandir, o máximo de entropia possível para o universo aumentou, da mesma forma que a minha secretária desarrumada podia ficar ainda mais desarrumada se tivesse o dobro do tamanho.
Este aumento de entropia permitiu que, em certas zonas, a entropia diminuísse, desde que aumentasse noutros locais para compensar. Por isso a analogia do avião no ferro-velho é errada.
Mais, o próprio argumento de probabilidades é falacioso. Se o senhor Alberto ganha o totoloto, as probabilidades de o ter feito honestamente são de um em dezenas de milhões. Devemos por isso concluir que o senhor Alberto fez batota? Não, porque se não fosse ele era outra pessoa.
O mesmo se passa com a evolução do sistema solar, das espécies, e o nosso próprio nascimento. A probabilidade de ter sido exactamente aquele óvulo da minha mãe e aquele espermatozóide do meu pai a juntarem-se é minúscula. Mas não é por isso que vou concluir que algum deus escolheu pessoalmente as células que me originaram - se não fossem essas, eram outras.
Finalmente, a questão da liberdade de escolher a crença foi colocada por si, quando afirmou que não percebia como se podia escolher uma crença. Espero ter respondido a essa questão.
Um abraço fraternal para si também. Não acredito num pai metafórico ou teológico, mas sim num ancestral real, e no sentido literal, pois evoluímos todos do mesmo. Todos os humanos, todos os primatas, todos os vertebrados, eucariontes, e por assim em diante. E no meio de tantos e tão diversos primos, o Carlos e eu somos como irmãos. :)
Comments:
bom eu acredito que cada um tem sua própria razão , razão de viver , temos razão para tudo . sem termos a razão não vivemos com razão. apoio o o exemplo de Carlos : a razão leva-nos a concluir que a nossa consciência está dependente do nosso cérebro .
 
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