<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, agosto 1

 

José. Job ou o princípio da incerteza. Quarta-feira, Julho 28. 2004.

Há algumas semanas num texto em que eu confessava não saber “versicular”, fiz um pequeno inventário da minha limitada biliografia bíblica. Nessa altura, levado pelo meu habitual arranque retórico, cometi involuntariamente uma imprecisão. Foi quando referi ter lido o Livro de Job. Na realidade não o tinha lido: já tinha lido isso sim algumas versões resumidas, numerosos comentários e alusões e incontáveis citações. Todas elas enfatizando Job como o supremo tratado sobre a Teodicéia ou seja sobre o Mal que existe neste mundo, o Mal permitido ou infligido por Deus, o Mal que recai sobre nós e atormenta a nossa existência. Todas elas definindo Job como o arquétipo do justo que sabe aceitar tudo o que lhe acontece como sendo a Vontade de Deus.Acontece que não gosto nada de mentir. Sobretudo por escrito. Ora, quando por vezes isso acontece, procuro rapidamente fazer com que a realidade se aproxime da minha afirmação para que esta, apesar de o ter sido, deixe rapidamente de ser uma mentira a martelar-me a consciência. Foi então o que fiz e não foi difícil: ler o Livro de Job! Mas também não foi fácil pois a versão que li foi a daquela colecção de livros bíblicos da Três Sinais Editores, cada um dos quais prefaciado por uma figura grande da nossa intelectualidade. Neste caso e apropriadamente por Manuel de Oliveira. Acontece que esta edição se atém a uma tradução fiel da Vulgata Latina de S. Jerónimo sem quaisquer concessões ao português moderno e corrente. Um bocado agreste mas trazendo toda a sumptuosa beleza literária desta obra, uma beleza quase rilkeana. Mas adiante. Li portanto Job e posso dizer que fiquei surpreendidíssimo pois vai muito além e, paradoxalmente, fica muito aquém da ideia que eu tinha construído sobre ele. E também porque fiquei também com a impressão de que a esmagadora maioria dos comentários, alusões e referências a este livro que me foram dados a ler também foram escritos por quem também não o leu ou já se esqueceu dele. Para que isto se possa perceber vou explicar resumidamente a ideia que me foi sendo interiorizada sobre esta história. Assim, Job seria um homem recto, justo e temente a Deus, até determinada altura abençoado com toda a sorte de graças terrenas que bem faziam jus à sua justiça. Porém, Deus decide testar a fé de Job e faz descarregar sobre ele toda uma série de catástrofes perante a incompreensão de Job que, apesar de tudo, das desgraças e das dúvidas, e devido ao grande amor que tem a Deus, preservera nesse amor e nessa fé inquebrantáveis. Terminava a história quando Deus decide pôr termo às provações de Job e o recompensa de novo com a graça da sua benevolência. A moral da história seria então que, sendo nós criaturas de Deus e sendo insondáveis os Seus desígnios, devemos aceitar o infortúnio como a boa fortuna e devemos sempre preserverar pois grande é o amor de Deus por nós. E seria esta a Teodicéia segundo Job. Era pelo menos aquilo que eu pensava até finalmente o ler.
Vou então partilhar a leitura que fiz do Livro de Job. Depois da curta apresentação de Job, varão sincero e recto, que temia a Deus e se retirava do mal (...) rico de inúmeros bens e grande entre todos os orientais, relata-se a seguinte cena entre Deus e os anjos do Céu: Um dia em que os filhos de Deus se apresentaram diante do Senhor, achou-se também Satanás entre eles. E o Senhor lhe disse: De onde vens tu? Ele respondeu dizendo: Girei a Terra e andei-a toda. E o Senhor lhe disse: Acaso consideraste o meu servo Job, que não há semelhante a ele na terra, varão sincero e recto, que teme a Deus, e que se afasta do mal? Satanás, respondendo, disse: Acaso Job teme debalde a Deus? Não o circunvalaste tu, a ele e à sua casa, e a todos os seus bens, não tens abençoado as obras das suas mãos, e as suas possessões não tem crescido na terra? Mas estende tu um pouco a tua mão, e toca em tudo o que ele possui, e verás se ele não te amaldiçoa na tua face. Disse pois o Senhor a Satanás: Olha tudo o que ele tem está em teu poder: somente não estendas a tua mão contra ele. (cap.1 6-12) Imediatamente Satanás inicia a sua obra, arrancando todos os bens de Job e tirando a vida aos seus filhos e filhas. Porém Job preservera , recusando a blasfémia, e diz: Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá: O Senhor deu, o Senhor tirou: como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu: bendito seja o nome do Senhor! (cap 1, 21). Vendo isto Satanás apresenta-se a Deus e procura dobrar a parada: toca-lhe nos ossos e na carne e verás se ele não te amaldiçoa (cap.2, 5). Deus aceita e permite que Satanás atinja Job com a terrível lepra. Ao acontecer isto a mulher de Job, um arquétipo interessante, grita-lhe: ainda tu preserveras na tua simplicidade? Amaldiçoa a Deus, e morre! (cap 2, 10) Mas Job mantém-se ainda firme: Falas como uma das mulheres tolas; se nós temos recebido os bens da mão de Deus porque não recebemos também os males? (cap.2, 11)
Acabasse já aqui o Livro e a ideia que eu tinha dele corresponderia exactamente ao que ele é. Acontece porém que, a seguir a estes dois capítulos iniciais, seguem-se outros quarenta, muito mais complexos e perturbantes e certamente por isso menos citados e conhecidos! Logo após àquela soberba réplica à sua indigna esposa, Job recebe a visita de três amigos, vindos para o consolar: Elifaz de Teman, Baldad de Suas e Sofar de Naamath, os quais tendo de longe levantado os olhos, não o conheceram e, exclamando, choraram, e rasgadas as suas vestes, lançaram pó ao ar sobre suas cabeças. E se assentaram com ele na terra sete dias e sete noites, e nenhum lhe dizia palavra; porque viam que a dor era excessiva. (cap.2, 12-13). Foi então, apenas então, que Job desabou da sua fé inquebrantável e, mortalmente ressentido pela injustiça com que Deus o atingira, lança um lamento doloroso e lindíssimo:
Porque não morri eu no ventre de minha mãe? Porque não pereci tanto que saí dele? Porque fui recebido entre os joelhos? Porque me alimentaram com o leite dos peitos? Porque agora, dormindo, estaria em silêncio, e descansaria no meu sono,juntamente com os reis e conselheiros da terra,que fabricam para si solidões. Ou com os príncipes, que possuem o ouroe enchem as suas casas de prata.Ou, como o aborto que se oculta, não existiria, ou como os que, depois de concebidos, não viram a luz.(...) O pequeno e o grande ali estão, e o escravo está livre do seu senhor.Porque foi concedida luz ao miserável, e vida aos que estão em amargura de ânimo?(...) Porquanto o temor, que temia, me veio e me aconteceu o que receava. Porventura não dissimulei? Não me calei? Não estive sossegado? E veio sobre mim a indignação. (cap.3, 11-26)
Inicia-se então uma longa e rija discussão (cap. 4 a 32!) entre Job dum lado e Elifaz, Baldad e Sofar do outro. Diga-se que todos os quatro partilham daquela crença desses tempos vetero-testamentários, que Cristo nos ensinou a considerar como tão absurda, segundo a qual, a doença, a desgraça, mesmo a pobreza, eram sinais visíveis do castigo divino aos pecados humanos, castigo esse transmissível mesmo ao longo das gerações. Acontece que Job, tanto ou mais do que a sua fé, possui uma indestrutível certeza da sua rectidão e da sua justiça, e gritando-a aos três amigos está verdadeiramente a invectivar Deus por o ter atingido por um castigo tão duro quanto injusto. Já os três amigos simplesmente não acreditam na injustiça divina, certamente por não a haverem experimentado. E sendo assim, apelam veementemente a Job para que se coloque no seu lugar de homem, para que não blasfeme ao querer interpelar Deus quanto às suas razões, para que, ao invés, tenha a humildade de procurar em si próprio e na sua vida os pecados que provocaram a ira de Deus sobre si. E ao longo de 28 espantosos capítulos sucedem-se os argumentos e contra-argumentos, a eloquência e a sabedoria, a dureza e a ironia, a veemência e a raiva. E Job, falando com os seu amigos, fala sempre com eles como se estivesse a conjurar Deus, para que ele surja ou fale e explique finalmente porque o atingiu tão dura e injustamente. E passam-se asim os tais 28 capítulos até que cessaram porém estes três homens de responder a Job, porque este se tinha por justo (cap.32, 1)! Surge então um personagem misterioso, Eliú, filho de Baraquel, mais jovem do que todos os outros e por isso retido até aí num obscuro silêncio. Mas a partir de agora será ele que fala: inflamou-se em ira contra Job, por este dizer que era justodiante de Deus. Irritou-se também contra seus três amigos, por não terem achado resposta conveniente, senão que somente haviam condenado a Job (cap.32, 2-3). Ele diz: atende Job, e ouve-me; e cala-te enquanto eu falo (cap.32, 31). E Job cala-se, calam-se todos enquanto o eloquente Eliú discursa longamente. E o que ele diz, parecendo a repetição do que os outros disseram quanto à infinita superioridade de Deus sobre o juízo do homem, acaba por trazer aqui e ali algo de totalmente novo. Vejamos aqui: Responderei que nisto foste injusto, pois Deus é maior do que o homem. Por que o acusas de não dar nenhuma resposta a teus discursos? Pois Deus fala de uma maneira e de outra e não prestas atenção.(...) então abre os ouvidos dos homens e os assusta com suas aparições, a fim de desviá-los do pecado e de preservá-los do orgulho, salvando a sua alma da corrupção e sua vida, para que não passe por espada. (cap.33, 12-18). E aqui: Ele pedirá perdão a Deus e Deus se lhe aplacará; e ele verá com júbilo a sua face e Deus justificará de novo este homem. Tornará a olhar para os homens e dirá: Pequei e deveras delinquí, e não tenho sido castigado como merecia. Deus livrou a sua alma para que não caminhasse à morte, senão que vivendo, visse a luz (cap.33, 26-28). E o misterioso Eliú termina, antes de desaparecer: Não podemos compreender (Deus) como merece; grande em fortaleza, e em juízo, e em justiça, ele é inefável. Por isso o temerão os homens, e não ousarão contemplá-lo todos aqueles que se persuadem ser sábios. (cap.37, 23-24). Este Eliú devia ser uma espécie de enviado pois calando-se ele, surge logo o Senhor, respondendo finalmente a Job, do meio de um redemoinho. E Deus fulmina Job logo de início, de forma terrível: Quem é este que mistura sentenças com discursos ignorantes? (...) Onde estavas tu quando eu lançava os fundamentos da terra? (cap.38, 2-4). E continua por aí adiante até um momento em que diz ao pobre Job: Porventura farás tu vão o meu juízo? E me condenarás a mim, para te justificares a ti? (cap.40, 3). Chega finalmente o momento supremo em que respondendo Job ao Senhor, diz: Sei que tudo podes, e que nenhum pensamento te é oculto. Quem é este que, falto de conciência, encobre o conselho? Por isso tenho eu falado nesciamente e o que, sem comparação, excedia a minha ciência. Escuta-me, deixa-me falar: vou interrogar-te, tu me responderás. Meus ouvidos tinham escutado falar de ti, mas agora meus olhos te viram. Por isso me repreendo a mim mesmo e faço penitência no pó e na cinza (cap.42, 1-6). E pronto, perante isto, Deus restitui ao seu amado filho Job tudo aquilo que lhe tinha retirado: saúde, riquezas, sete filhos e três filhas e uma longa e ditosa vida. Nada é mencionado sobre a mulher de Job...
Agora que parei finalmente, respiro um pouco e posso dizer que, agora sim, entendo a riqueza da mensagem do Livro de Job. Entendo agora que a sua teodicéia é muito mais rica e mais satisfatória do que me parecia antes. Aquilo que entendo e acredito é que aquele aparente capricho de Deus simboliza o princípio da incerteza a que a nossa condição humana está sujeita, pela razão mesma da liberdade que nos foi concedida. Acredito também que o castigo de Job teve uma forte razão de ser: um pecado que é o pior dos pecados, o orgulho dos justos, convictos da sua justiça, seguros que a vida que construíram garante por si só a sua salvação. Essa era, é e será a maior das iniquidades pois leva a que a prática do bem seja não um fim em si mesmo mas um meio mais na negociata particular que se pensa ter com Deus. E, mais do que tudo, acredito que Deus Pai nos ama e nos perdoa. E que, embora muitas vezes não o percebamos, Ele nos estende sempre mais uma oportunidade.

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?