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Helena Araújo. Aprender com Buchenwald. Segunda-feira, Maio 9. 2005.

O que é que eu teria feito se vivesse nesse tempo?
Teria ido ver o que acontece em Ettersberg, esse monte a meia dúzia de quilómetros da cidade onde moro? Teria preferido ignorar? Teria reparado no fumo constante a sair da chaminé?
Teria dado pão aos prisioneiros esfomeados que via a construir estradas? (mesmo sabendo que dar-lhes pão era um crime, era "abrir uma brecha no sistema"?)
Teria tido a coragem de esconder um judeu na minha casa, sem saber quanto tempo duraria o horror? (sabendo que, a ser descoberta, eu e ele teríamos o mesmo destino?)
Um amigo alemão comentou que em Weimar lhe acontece uma coisa estranha: sempre que vê velhinhos, automaticamente ocorre-lhe a questão: "e de que lado estavas tu no tempo de Buchenwald? o que fizeste?
"Também já tive esse reflexo, agora tenho uma inquietação: já não há nenhum Buchenwald? Já não há aqui pessoas em situação de sofrimento atroz, e que são ignoradas por uma sociedade civil entregue ao seu quotidiano? Dou exemplos: Por toda a Europa há casas de alterne onde jovens mulheres do leste da Europa são obrigadas a trabalhar em situação de escravatura. Respondem a anúncios de emprego, entram num autocarro da empresa "empregadora", ao passar a fronteira da Alemanha ficam sem passaporte, são encerradas durante semanas em quartos sem janela, e sujeitas a todo o tipo de tortura física e psicológica até se deixarem quebrar. Muitas delas são depois enviadas para Espanha e Portugal. É do conhecimento de todos. E então, o que é que eu faria, se vivesse "neste" tempo? É bem mais fácil partir do princípio que isto não me diz respeito e que não posso fazer nada.
Em Weimar (por ironia, na saída para Ettersberg) a Caritas tem um centro de apoio a pessoas que pediram asilo político à Alemanha e que ficam a viver naquele prédio enquanto o processo não é decidido. São afegãos, iranianos, iraquianos, ciganos russos e quem que mais calhar. Têm comida, casa, roupa, escola, cuidados médicos, transportes públicos, e até uma pequena "mesada", mas vivem numa terra de ninguém, entre vizinhos que não escolheram e uma perspectiva de futuro muito incerta.Não sendo um campo de concentração, é um local de torturados. E eu, que tão facilmente acuso os velhinhos de Weimar, não quero comprometer-me com estas pessoas que sofrem hoje na minha cidade. Ir conhecê-los, falar com eles, ajudá-los - dá trabalho, exige tempo e entrega contínua.
Pois é. Ainda tenho muito que aprender com Buchenwald.

[DOIS DEDOS DE CONVERSA]

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