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segunda-feira, agosto 1

 

Filipe Alves. O Constantinismo. Segunda-feira, Maio 24. 2004.

No dia 28 de Outubro do ano 312 da nossa era, a cidade de Roma recebia de braços abertos o seu novo imperador, Flávio Valério Constantino, doravante conhecido como Constantino, o Grande (306/337). Era mais um na longa lista de líderes militares que, pela força das armas, ascenderam às mais altas magistraturas da República e à púrpura imperial. Mas a população da Urbs ficou estupefacta com a atitude do novo príncipe; ao contrário dos seus antecessores, Constantino não agradeceu a difícil vitória sobre o seu rival, Maxêncio, aos velhos deuses do Capitólio. Para escândalo de muitos, o novo príncipe atribuiu a vitória ao “Deus dos Cristãos”.

Mas a benevolência de Constantino para com o Cristianismo não era nova. Constantino era filho de Constâncio Cloro, um dos quatro imperadores previstos pela tetrarquia instituída por Diocleciano. Quando o pai faleceu, no ano 307, Constantino ocupou o seu lugar como Augustus da metade ocidental do Império. Nessa altura, o jovem imperador agradeceu a Marte e a Apolo a sua ascensão à púrpura. Mas, ao mesmo tempo, suspendeu a perseguição aos Cristãos (que fora decretada por Diocleciano), e ordenou, inclusive, a restituição dos bens das igrejas.

Entretanto, aproveitando o facto de Constantino se encontrar em Treveri (actual Trier), junto da fronteira do Reno, o Senado e a Guarda Pretoriana proclamaram imperador o seu cunhado Maxêncio, filho do antigo Augustus Maximiano. A princípio, Maxêncio adoptou o título menor de Princeps, manifestando assim a sua submissão ao Augustus. Mas a luta entre ambos era tida como inevitável, tanto que Maxêncio não perdeu tempo em reclamar para si o título de Augustus; e abertas as hostilidades no ano 312, Constantino invadiu Itália, enfrentando o exército do rival em duas grandes batalhas, nas proximidades de Roma: Saxa Rubia e Ponte Mílvio.

Segundo escreveu o bispo Eusébio de Cesareia, na primeira destas batalhas o imperador terá tido um momento de êxtase, em que viu uma enorme cruz pairar nos céus, enquanto escutava uma estranha voz proferir as seguintes palavras: “Meus Pace est cum vos... In Hoc Signo Vinces” (“A minha paz está contigo…com este símbolo vencerás”(1)). De facto, e não obstante a inferioridade numérica, Constantino derrotou o exército adversário. Dias depois, travava-se nova batalha na Ponte Mílvio. Para entrar no centro da Urbs, Constantino tinha de tomar aquela ponte, então defendida pelas legiões de Maxêncio. Nessa altura, escutou novamente a mesma voz, que desta vez que lhe ordenava que substituísse as águias imperiais dos escudos romanos, por outro símbolo à sua escolha. E assim fez Constantino, que se apressou a afixar nos escudos as letras “chi” (“c” em grego, que tinha forma de um xis) e “rho” (“p” em grego), que vinham a ser as iniciais gregas de Cristo, logo encimadas pela coroa de espinhos. Mais uma vez, a vitória sorriu a Constantino; o exército inimigo não conseguiu manobrar devidamente naquela ponte demasiado estreita, e o próprio Maxêncio afogou-se no Tibre. Constantino era, doravante, o senhor de Roma e da metade ocidental do Império. E, anos depois, venceria o Augustus do Oriente, Licínio, tornando-se senhor absoluto do Império (324). Nessa altura, terminou definitivamente a perseguição dos cristãos.

Até que ponto corresponderá esta lenda à verdade? Teria o imperador recebido um sinal divino? Creio que, independentemente da sinceridade da sua conversão ao cristianismo, Constantino manifestou ser detentor de um apurado sentido político. Os Cristãos eram uma grande minoria, especialmente nas cidades mediterrânicas; o seu apoio seria crucial, principalmente em metrópoles como Roma, Cartago, Antioquia ou Alexandria. Conquistar o seu afecto seria, efectivamente, um passo importantíssimo no sentido da construção de uma nova ideologia imperial.

Em 313, Constantino decretou o famoso Édito de Milão, segundo o qual o cristianismo era declarado religio licita. Ou seja, os cristãos eram livres de praticarem a sua religião. Mas o imperador não se ficou por aqui; apercebendo-se da importância da Igreja, Constantino envolveu-se pessoalmente nas disputas e querelas entre as diferentes seitas e correntes. O imperador não ficou alheio às lutas entre ortodoxos, arianos e donatistas, presidindo ele mesmo a sucessivos concílios. Procurou forçar os cristãos à unidade, legislando sobre religião e perseguindo os “hereges”. Fundou uma “Nova Roma”, Constantinopla (actual Istambul), que seria a capital cristã, em oposição à velha Roma, que era ainda o coração do paganismo. Com certeza que outros factores, essencialmente económicos e militares(2), influíram na decisão do imperador em transferir a capital do império para as margens do Bósforo; mas com certeza que a vontade de construir uma capital totalmente cristã, sem quaisquer templos e monumentos pagãos, teve também o seu peso no processo decisório.

Não obstante a propaganda oficial o descrever como um dilecto filho da Igreja, Constantino não ficou atrás dos seus antecessores, no que diz respeito ao despotismo, à paranóia securitária e aos vícios privados. Mandou matar o filho e outros familiares e amigos, por suspeitas de traição, muitas vezes infundadas; agravou o código penal para um inaudito nível de brutalidade (a pena de morte passou a ser aplicada para dezenas de delitos, dos mais insignificantes aos mais gravosos). No entanto, procurou melhorar a condição dos escravos, coisa rara entre os governantes da época. Antes de falecer, e como era hábito então, o imperador fez questão de se fazer baptizar pelas mãos do ariano Eusébio, bispo de Cesareia. Nessa altura (337), já o cristianismo era a religião “da moda”; era-se bem visto socialmente por ser cristão. De tal modo contavam as aparências, que centenas de sacerdotes pagãos se “transferiram” automaticamente para a agora poderosa Igreja Cristã. De religião dos escravos e dos perseguidos, o cristianismo passou a religião da corte e dos cortesãos...

Para se tornar útil aos seus interesses políticos, Constantino compreendeu que a Igreja tinha de estar na devida ordem; daí que a tenha organizado um pouco à semelhança do governo imperial, então hierarquizado em prefeituras, dioceses, províncias e conventus. Além disso, atribuiu cargos políticos e administrativos ao clero cristão, inserindo-o assim nas engrenagens do governo imperial. Com Constantino, a Igreja ganhou em riqueza(3), influência política e estatuto social aquilo que perdeu em liberdade e pureza evangélica. Daí que um cardeal renascentista tenha dito: “A Igreja teme menos os Neros que os Constantinos!”. Esta é, também, a minha opinião pessoal.

Há que ter em conta que o sincretismo religioso foi um fenómeno constante ao longo da história de Roma. Desde os últimos séculos da República que os cultos orientais floresciam na Urbs e entre as classes dominantes. No século IV, Cibele, Isis, Mitra e Serápis tinham tantos ou mesmo mais adeptos que o cristianismo. Numa sociedade politeísta como a romana, uma pessoa podia adorar um deus sem que tivesse de deixar de adorar outro; vários governantes e imperadores tinham os seus deuses de eleição, sem que entrassem em ruptura com a religião oficial. Aureliano, por exemplo, adorava o “Sol Invicto” (tal como Constantino, na sua juventude), mas nem por isso deixava de ser o Pontifex Maximus da crença tradicional. Mas Constantino e Teodósio, no século IV, transformaram este cenário de relativa tolerância.

No século que se seguiu, a Igreja ganhou cada vez mais importância política e económica. O derradeiro combate entre o cristianismo e o paganismo deu-se na batalha do rio Frígido (394), em que o imperador cristão Teodósio venceu o pagão Eugénio, que usurpara o trono do Ocidente com o apoio do caudilho bárbaro Argobasto. Doravante, o cristianismo seria a religião oficial do Império e da Europa que lhe sucedeu. E isto, penso, foi mau para a Igreja e para a nossa civilização. Tal como Constantino não devia ter interferido nos assuntos da Igreja, também Teodósio não devia ter proibido o paganismo; ao querer impor o cristianismo como religião do Estado, Teodósio deu início ao triste capítulo das guerras de religião, da inquisição e do obscurantismo.
Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.” (Mat. 22, 15- 22).

[RESPÚBLICA]

(1) É curiosa a semelhança entre esta lenda e a do nosso Afonso Henriques, antes da Batalha de Ourique. Até a frase é a mesma: “In hoc signo vinces!” O Constantinismo marcou o imaginário europeu durante muitos séculos.
(2) Muito poderia ser dito ainda a respeito das reformas de Constantino, o Grande, especialmente no que diz respeito às suas reformas do exército, que alguns autores do século V culpavam pela decadência militar romana.
(3) A chamada “Doação de Constantino”, documento com que, na Idade Média, os papas justificavam o seu domínio temporal sobre a Itália e o Ocidente é uma grosseira falsificação. Mas, e embora não tenha chegado a este cúmulo de oferecer ao Papa metade do seu império, é verdade que Constantino ofereceu à Igreja terras, palácios e outras incomensuráveis riquezas.

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