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segunda-feira, agosto 1

 

Carlos Cunha. A rush and a push and the land that we stand on is ours. Colateral. Novembro/Dezembro de 2004

1. Como sou herdeiro da tradição católica, cheia de formalismos, rituais, ademanes, simbolismos cujo significado se perde no tempo e que a fraca razão contemporânea tem dificuldade em atingir, não tenho o à-vontade com o divino que têm, por exemplo, os nossos irmãos protestantes. Invejo a intimidade que eles têm com Deus. Parece que falam directamente com Ele e - suponho eu - Deus deve responder-lhes.

A minha relação com Deus passa sempre ao lado d'Ele. É colateral. Concretiza-se sempre através duma externalidade: pela Igreja (a Católica, Apostólica, Romana), com a mediação da comunidade (a paróquia, por exemplo), na pessoa do padre; pela intercessão dos santos; pela leitura dos textos sagrados (com a plena consciência que Jesus apenas escreveu um rabisco fugaz no chão e que nenhum versículo da Bíblia mereceu o imprimatur do Pai); pelo Magistério. Por vezes tenho, como qualquer ateu, pequenas epifanias da natureza. Como qualquer ateu. Noutras ocasiões parece-me que chego mais perto de Deus (ou deixo que Ele se aproxime de mim) através de coisas ainda mais pequenas, como um filme, um romance, uma música. Sei também que não foi Deus quem realizou Por Um Fio (foi o Scorsese), mas não o trocava pelo livro de Judite.
Claro, há a oração. Mas mesmo nos momentos mais intensos de oração, individual ou comunitária, nunca senti que Deus estava pessoalmente perto de mim, a escutar-me. Talvez esteja, mas nunca houve qualquer feed-back da parte d'Ele. Admito, no entanto, que o conteúdo das minhas orações não O comova particularmente.
E também não sou muito bom a ler sinais. Nunca percebi o que Ele me quer dizer. Na verdade, acho que não me quer dizer nada de especial. Caso contrário dizia.

A mim Deus não liga nenhuma importância. Isto é, coloca-me no meu devido lugar, reduzindo-me à minha humilde significância. Assim, como tenho dificuldades em comunicar com Ele, em O conhecer (e, portanto, de O amar), fico-me pela tentativa de amar os meus irmãos. E nem disso sou capaz.


2. «Deus disse: "Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será o vosso alimento"» (Génesis 1, 29).

Aqui há dias, no seguimento de uma conversa político-etílico-filosófica, o meu amigo AR perguntou-me se eu era a favor da colectivização dos bens de produção. Respondi-lhe que, sem prejuízo de uma regulamentação de ordem prática em relação a alguns bens privados, a maioria dos bens de produção, que permitem a criação de riqueza (como se diz agora), deveria ser pertença de todos estar. Os bens de produção - materiais ou imateriais - deveriam ao serviço da comunidade, através das instituições colectivas - o Estado. Por uma simples razão: quando Deus criou a Terra, a terra nela presente, com todos os seus recursos, atribuiu a sua gestão a todo o género humano, para sua guarda e usufruto. O mesmo se diga caso se queira prescindir da hipótese de Deus. Originalmente, num tempo remoto e comum, não havia propriedade privada. Mesmo o conceito mental era estranho aos nossos antepassados. Se nos reportarmos a um qualquer tempo inicial, encontraremos a repartição da propriedade comum como uma ruptura violenta no modelo comunitário de uso e partilha da terra.
O Catecismo da Igreja Católica (certamente também considerado por muitos como mais uma obra ideológica ultrapassada, que não se compadece com os tempos modernos, uma manifestação do desajuste da Igreja à contemporaneidade) refere expressamente que o direito à propriedade privada não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da humanidade (2403). E a Constituição Gaudium et Spes adverte que «quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas tembém comuns, no sentido que possam beneficiar não só a si mas também aos outros» (69 § 1).
Pergunto-me muitas vezes, qual conservador do registo histórico predial, onde nos levaria a pesquisa do trato sucessivo de um pedaço de terra que hoje serve para suporte à reserva ecológica nacional, para cultivo na agricultura mais pobre da Europa ou se destina ao loteamento e à construção de um empreendimento em condomínio fechado, consoante a arbitrária vontade dos desenhadores de planos municipais.
E por que estranha razão admitimos sem pensar (nem pestanejar) que um filho de um proprietário nasce proprietário e um filho de um pobre nasce pobre. Eu sei que, como dizem os liberais (ricos), a pobreza é um conceito relativo. Mas se somos todos iguais, se nos reconhecemos todos irmão, porque filhos do mesmo Pai, por que motivo subvertemos a herança que era de todos? Quem roubou os irmãos pobres? Quem rouba os pobres?

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