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segunda-feira, agosto 1

 

Bernardo Sanchez da Motta. Santo Graal. Segunda-feira, Setembro 27. 2004.

Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes
Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes (†1185), Perceval, ou Le Conte du Graal

Sobre o Santo Graal poder-se-ia escrever um número infindável de páginas. Vou cingir-me à autoridade doutrinária de René Guénon, que como ninguém, soube expor com clareza, lucidez e conhecimento de causa, as complexidades do simbolismo gráalico. Neste artigo, Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, publicado originalmente em Agosto de 1925 na revista Regnabit, Guénon tece esclarecedores paralelos entre o simbolismo do Santo Graal e o conceito do Sagrado Coração de Jesus (as ilustrações não constam do texto original - foram adicionadas por mim):


O Sagrado Coração e a Lenda do Santo Graal
Num dos seus últimos artigos o senhor Charbonneau-Lassay assinalou muito justamente, como ligando-se ao que poderíamos chamar a «pré-história do Coração Eucarístico de Jesus», a lenda do Santo Graal, escrita no século XII, mas bem anterior pelas suas origens, pois ela é na realidade uma adaptação cristã de tradições célticas muito antigas. A ideia desta aproximação já nos tinha surgido na ocasião do artigo anterior, extremamente interessante do ponto de vista no qual nos colocamos, intitulado «O coração humano e a noção do Coração de Deus na religião do antigo Egipto», do qual recordamos a passagem seguinte: «Nos hieroglifos, escritura sagrada onde frequentemente a imagem da coisa representa a própria palavra que a designa, o coração foi figurado por um só emblema: o vaso. O coração do homem não é com efeito o vaso onde a sua vida se elabora continuamente com o seu sangue?». É este vaso, tomado como símbolo do coração e substituindo-se a este na ideografia egípcia, que nos fez pensar imediatamente no Santo Graal, ainda mais que neste último, para lá do sentido geral do símbolo (considerado aliás sob os seus dois aspectos divino e humano), vemos ainda uma relação especial e muito mais directa com o próprio Coração de Cristo.

O símbolo egípcio para a palavra 'coração'
Um vaso: o símbolo egípcio para a palavra "coração" ("yb", "yeb", ou "ab")

Com efeito, o Santo Graal é a taça que contém o precioso sangue de Cristo, e que o contém mesmo duas vezes, porque ele serviu primeiro à Ceia, e que de seguida José de Arimateia ali recolheu o sangue e a água que saiam da ferida aberta pela lança do centurião no flanco do Redentor. Esta taça substitui-se então de certo modo ao Coração de Cristo como receptáculo do seu sangue, ela toma por assim dizer o seu lugar e torna-se como um equivalente simbólico; e não é ainda mais notável que, nestas condições, o vaso tenha sido antigamente um emblema do coração? Para mais, a taça, sob uma forma ou sob outra, desempenhou, asssim como o próprio coração, um papel muito importante em várias tradições antigas; e sem dúvida que sucederia o mesmo com os Celtas, porque é deles que veio o que constituiria a própria base ou pelo menos a trama da lenda do Santo Graal. É lamentável que não se possa saber com precisão qual era a forma desta tradição anterior ao Cristianismo, como sucede de resto com tudo o que diz respeito às doutrinas célticas, para as quais o ensinamento oral foi o único meio de transmissão usado; mas há por outro lado bastantes concordâncias para que nos possamos pelo menos fixar sobre o sentido dos principais símbolos que aí figuravam e é isto, em soma, que é essencial.

A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena'
A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena

Mas voltemos à lenda, sob a forma em que ela chegou até nós; o que ela diz mesmo sobre a origem do Graal é muito digno de atenção: esta taça teria sido talhada pelos anjos numa esmeralda caída da fronte de Lúcifer aquando da sua queda. Esta esmeralda faz lembrar de forma evidente a «urnâ», a pérola frontal que, na iconografia hindu, toma o lugar do terceiro olho de Shiva, representando o que podemos chamar de "sentido da eternidade". Esta aproximação parece-nos mais adequada que outra qualquer para esclarecer perfeitamente o simbolismo do Graal; e podemos mesmo apercebermo-nos de uma relação adicional com o coração, que é, para a tradição hindu, como para tantas outras, mas se calhar de forma ainda mais nítida, o centro do ser integral, ao qual, consequentemente, este "sentido da eternidade" deve estar directamente associado.

É dito de seguida que o Graal foi confiado a Adão no Paraíso terrestre, mas que, aquando da sua queda, Adão o perdeu por sua vez, porque ele não o podia transportar com ele quando foi expulso do Éden; e isso torna-se ainda mais claro com o sentido que acabámos de indicar. O homem, separado do seu centro original pela sua própria falta, encontra-se doravante preso na esfera temporal; ele não pode regressar ao ponto único do qual todas as coisas são contempladas sob o aspecto da eternidade. O Paraíso terrestre, com efeito, era verdadeiramente o «Centro do Mundo», por todo o lado assemelhado simbolicamente ao Coração divino; e não podemos dizer que Adão, enquanto esteve no Éden, vivia verdadeiramente no Coração de Deus?


Ícone ortodoxo
Ícone ortodoxo - Cristo no centro da taça, centrado em Maria

O que se segue é ainda mais enigmático: Seth consegue reentrar no Paraíso terrestre e pode assim recuperar o precioso vaso; ora, Seth é uma das figuras do Redentor, para mais que o seu próprio nome exprime ideias de fundamento, de estabilidade, e anuncia de certa forma a restauração da ordem primordial destruída pela queda do homem. Havia então desde logo pelo menos uma restauração parcial, no sentido em que Seth e os que depois dele possuíram o Graal podiam por este mesmo facto estabelecer, em qualquer parte da terra, um centro espiritual que fosse como uma imagem do Paraíso perdido. A lenda, aliás, não diz nem como nem por quem o Graal foi conservado até à época de Cristo, nem como foi assegurada a sua transmissão; mas a origem céltica que lhe reconhecemos deve provavelmente dar a entender que os Druídas tomaram parte dela e deveriam ser contados entre os conservadores regulares da tradição primordial. Em todo o caso, a existência de um tal centro espiritual, ou mesmo de vários, simultaneamente ou sucessivamente, não parece poder ser posta em causa, não obstante o que quer que se pense da sua localização; o que é de notar, é que se associava por todo o lado e sempre a estes centros, entre outras designações, a de «Coração do Mundo», e que em todas as tradições, as descrições a eles associadas são baseadas num simbolismo idêntico, que é possível seguir até nos detalhes mais precisos. Isto não mostra suficientemente que o Graal, ou o que este representa, tinha já, anteriormente ao Cristianismo, e mesmo em todos os tempos, um laço dos mais estreitos com o Coração divino e com o «Emmanuel», queremos dizer com a manifestação, virtual ou real segundo as épocas, mas sempre presente, do Verbo eterno no seio da humanidade terrestre?

O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda
O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda - o Santo Graal está no meio da mesa

Após a morte de Cristo, o Santo Graal foi, segundo a lenda, transportado para a Grã-Bretanha por José de Arimateia e Nicodemos; começa então a desenrolar-se a história dos Cavaleiros da Távola Redonda e das suas explorações, que não pretendemos seguir aqui. A Távola Redonda estava destinada a receber o Graal quando um dos Cavaleiros o conseguisse conquistar e o trouxesse da Grã-Bretanha à Armórica; esta mesa é também um símbolo verdadeiramente muito antigo, um daqueles que foram associados à ideia dos centros espirituais aos quais aludimos. A forma zodiacal da mesa está aliás ligada ao «ciclo zodiacal» (outro símbolo que mereceria ser estudado de forma mais especial) pela presença à volta dela de doze personagens principais, particularidade que se encontra na constituição de todos os referidos centros. Sendo assim, não podemos ver no número dos doze Apóstolos, um sinal, entre tantos outros, da perfeita conformidade do Cristianismo com a tradição primordial, à qual o nome de «pré-cristianismo» conviria tão exactamente? E, por outro lado, a propósito de Távola Redonda, fizemos notar uma estranha concordância nas revelações simbólicas feitas a Marie des Vallées (ver «Regnabit», Novembro de 1924), onde era mencionada «uma mesa redonda de jaspe, que representa o Coração de Nosso Senhor», ao mesmo tempo que se trata de «um jardim que é o Santo Sacramento do altar», e que, com as suas «quatro fontes de água viva», se identifica misteriosamente ao Paraíso terrestre; não estamos de novo perante uma confirmação impressionante e inesperada das relações que atrás assinalámos?

Naturalmente, estas rápidas notas não teriam a pretensão de constituir um estudo completo sobre uma questão tão pouco conhecida; devemos limitar-nos de momento a dar simples indicações, e damo-nos conta de que há considerações que, numa primeira abordagem, são susceptíveis de surpreender um pouco aqueles que não estão familiarizados com as tradições antigas e com os seus modos habituais de expressão simbólica; mas reservamos o seu desenvolvimento e também justificá-los mais amplamente, a artigos onde pensamos poder abordar igualmente outros pontos que não são menos dignos de interesse.
Enquanto esperamos, mencionamos ainda, no que diz respeito à lenda do Santo Graal, uma estranha complicação da qual ainda não nos tinhamos dado conta até agora: por uma destas assimilações verbais que desempenham frequentemente no simbolismo um papel não negligenciável, e que aliás têm talvez razões mais profundas que se imaginaria à primeira vista, o Graal é por vezes um vaso ("grasale") e um livro ("gradale" ou "graduale"). Em certas versões, os dois sentidos encontram-se mesmo estreitamente relacionados, porque o livro torna-se então uma inscrição traçada por Cristo ou por um anjo na própria taça. Não pretendemos actualmente tirar disto qualquer conclusão, se bem que há aproximações fáceis de fazer com o «Livro da Vida» e com certos elementos do simbolismo apocalíptico.
Acrescentamos também que a lenda associa o Graal a outros objectos, e nomeadamente a uma lança, que, na adaptação cristã, não é outra senão a lança do centurião Longinus; mas o que é ainda mais curioso, é a pré-existência desta lança ou de um qualquer dos seus equivalentes como símbolo de certa forma complementar da taça nas tradições antigas. Por outro lado, nos Gregos, a lança de Aquiles podia curar as feridas que ela teria causado; a lenda medieval atribui precisamente a mesma virtude à lança da Paixão. E isto lembra-nos uma outra semelhança do mesmo género: no mito de Adónis (cujo nome, de resto, significa «o Senhor»), quando o herói é ferido de morte por uma presa de um javali (substituindo aqui a lança), o seu sangue, espalhando-se pela terra, provoca o nascimento de uma flor; ora, o senhor Charbonneau assinalou «uma peça em ferro para hóstias, do século XII, onde vemos o sangue das feridas do Crucificado tombar em gotículas que se transformam em rosas, e o vitral do século XIII da Catedral de Angers, onde o sangue divino, correndo em riachos, se desenvolve também sob formas de rosas». Poderemos dentro em breve falar de novo do simbolismo floral, visto sob um aspecto um pouco diferente; mas, qualquer que seja a multiplicidade dos sentidos que apresentam todos os símbolos, tudo isto se completa e se harmoniza perfeitamente, e esta mesma multiplicidade, longe de ser um inconveniente ou um defeito, é pelo contrário, para aqueles que a sabem compreender, uma das vantagens principais de uma linguagem muito menos estreitamente limitada que a linguagem comum.


Procissão no castelo do Graal
Procissão no castelo do Graal

Para terminar estas notas, indicaremos alguns símbolos que, em diversas tradições, substituem por vezes a taça, e que lhe são no fundo idênticas; não se trata de sair do nosso assunto, porque o próprio Graal, como nos podemos facilmente dar conta por tudo o que acabámos de dizer, não tem na sua origem outro significado que aquele que tem o vaso sagrado onde quer que este se encontre, e que nomeadamente, no Oriente, a taça sacrificial que contém o Soma védico (ou o Haoma mazdeísta), esta extraordinária «prefiguração» eucarística sobre a qual voltaremos talvez a falar noutra ocasião. O que representa propriamente o Soma é a «bebida da imortalidade» (o Amritâ dos Hindus, a Ambrósia dos Gregos, duas palavras etimologicamente semelhantes), que confere ou restitui àqueles que o recebem com a disposição requerida, este «sentido da eternidade» do qual se falou anteriormente.

Um dos símbolos do qual queremos falar é o triângulo cuja ponta está dirigida para baixo; é como um tipo de representação esquemática da taça sacrificial, e pode ser encontrada com este título em certos yantras ou símbolos geométricos da Índia. Por outro lado, o que é assaz notável do nosso ponto de vista, é que a mesma figura é igualmente um símbolo do coração, do qual ela reproduz aliás a forma simplificando-a; o «triângulo do coração» é uma expressão corrente nas tradições orientais. Isto leva-nos a uma observação que tem também o seu interesse: é que a representação do coração inscrito num triângulo assim disposto nada tem que não seja legítimo, quer se trate de um coração humano ou do Coração divino, e que ela se torna assaz significativa quando a relacionamos com os emblemas usados por um certo hermetismo cristão da idade média, cujas intenções foram sempre plenamente ortodoxas. Se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório, é porque se alterou, conscientemente ou não, o significado primeiro dos símbolos, ao ponto de inverter o seu valor normal; temos aqui um fenómeno do qual poderíamos citar inúmeros exemplos, e que encontra aliás a sua explicação no facto de que certos símbolos são efectivamente susceptíveis de uma dupla interpretação, e que têm como que duas faces opostas. A serpente, por exemplo, e também o leão, não significam eles por vezes, e de acordo com os casos, o Cristo e Satanás? Não podemos desejar tratar aqui este assunto com uma teoria geral, o que nos levaria bem longe; mas compreender-se-á que há nisto qualquer coisa que torna muito delicada a manipulação dos símbolos, e também que este ponto requer uma atenção muito especial quando se trata de descobrir o sentido real de certos emblemas e de os traduzir correctamente.
Um outro símbolo que equivale frequentemente ao da taça, é um símbolo floral: a flor, com efeito, não evoca na sua forma a ideia de um «receptáculo», e não se fala do «cálice» de uma flor? No Oriente, a flor simbólica por excelência é o lótus; no Ocidente, é mais frequentemente a rosa que desempenha o mesmo papel. Bem entendido, não queremos dizer que se trate do único significado desta última, bem como do lótus, pois que, pelo contrário, indicámos outro anteriormente; mas vêmo-la facilmente no desenho gravado sobre o altar da abadia de Fontevrault onde a rosa está colocada aos pés de uma lança ao longo da qual chovem gotas de sangue. Esta rosa aparece aqui associada à lança exactamente como a taça o é noutro lado, e ela parece mais recolher as gotas de sangue em vez de provir da transformação de uma delas; mas, de resto, os dois significados completam-se muito mais do que se opõem, porque estas gotas caindo sobre a rosa, vivificam-na e a fazem florescer. É a «rosa celeste», seguindo a figura frequentemente empregue em relação com a ideia de Redenção, ou com as ideias conexas de regeneração e de ressurreição; mas isto ainda pediria longas explicações, quando apenas pretendemos fazer sobressair a concordância das diferentes tradições no que diz respeito a este outro símbolo.

O selo de Martinho Lutero
O selo de Martinho Lutero

Por outro lado, porque se falou aqui da Rosa-Cruz a propósito do selo de Lutero diremos que este emblema hermético foi inicialmente especificamente cristão, quaisquer que sejam as falsas interpretações mais ou menos «naturalistas» que se lhe deram a partir do século XVII; e não é notável que a rosa ocupa, ao centro da cruz, o lugar do próprio Sagrado Coração? Para lá das representações nas quais as cinco chagas do Crucificado são figuradas por outras tantas rosas, a rosa central, quando está sozinha, pode bem ser identificada ao próprio Coração, ao vaso que contém o sangue, que é o centro da vida e também o centro do ser como um todo.
Há ainda pelo menos outro equivalente simbólico da taça: é o crescente lunar; mas este, para ser convenientemente explicado, exigiria desenvolvimentos que estariam totalmente fora do assunto do presente estudo; apenas o mencionamos para não negligenciar nenhum lado da questão.

De todas as aproximações que acabámos de assinalar, tiraríamos já uma consequência que esperamos tornar ainda mais manifesta no que se segue: quando encontramos por todo o lado tais concordâncias, não temos com isto mais que um simples indício da existência de uma tradição primordial? E como explicar que, frequentemente, aqueles que se sentem obrigados a admitir em princípio esta tradição primordial não pensam nela de seguida e raciocinam como se ela nunca tivesse existido, ou pelo menos como se nada se tivesse conservado através dos séculos? Se quisessemos reflectir bem sobre o que há de anormal numa tal atitude, seriamos menos vezes surpreendidos com certas considerações, que, na verdade, apenas parecem estranhas em virtude dos hábitos mentais próprios da nossa época. Aliás, basta procurar um pouco, com a condição de não levarmos nenhum preconceito, para descobrir por todos os lados as marcas desta unidade doutrinal essencial, cuja consciência se viu obscurecida por vezes na humanidade, mas que nunca desapareceu de vez; e, à medida que avançamos nesta procura, os pontos de comparação multiplicam-se a partir deles mesmos e novas provas aparecem a cada instante; certamente, o Quaerite et invenietis do Evangelho não é palavra vã."
- René Guénon, Aperçus sur L'Ésoterisme Chrétien, pp. 117-126.


Há pouca coisa relevante a acrescentar a esta exposição de Guénon relativa ao simbolismo do Santo Graal e à semelhança deste com o simbolismo do Sagrado Coração de Jesus. Gostaríamos apenas de sublinhar que, no "centro do mundo" que era o Paraíso terrestre, estava a Árvore da Vida (sinal da ligação do Homem primordial com Deus, ligação essa perdida com a expulsão de Adão e Eva do Éden). Os paralelos simbólicos entre a "seiva" da Árvore da Vida e o sangue divino que é bombeado pelo Sagrado Coração serão evidentes demais para que se insista nisto. Segundo a tradição católica, é bem sabido que quem come do fruto da Árvore da Vida partilha da "Vida Eterna", que não é outra coisa senão o "sentido da eternidade" de que falava Guénon no artigo. Convém também relembrar que, no Éden, precisamente do centro do jardim, aos pés da Árvore da Vida, nasciam os quatro rios que se espalhavam nas quatro direcções do jardim: o Ghion, o Pison, o Tigre e o Eufrates. Estes rios, emanando da "fonte" que é a Árvore da Vida, são os canais por onde escorrem as "águas da vida", que são facilmente associadas aos canais sanguíneos por onde corre o sangue sagrado. Também fica evidente a ligação entre este simbolismo, e o simbolismo da "fonte da Juventude", sendo que a interpretação profunda do regresso à juventude daquele que bebe desta fonte está na reintegração do homem no "centro do mundo", no Coração de Deus, no local que Adão ocupava inicialmente nos princípios do mundo.

O popular romance "O Código Da Vinci" do escritor americano Dan Brown sugere uma interpretação nova e "criativa" para o Graal: seria o útero de Maria Madalena. Qualquer leitor sensato terá reparado que há uma enorme diferença entre o que acabámos de traduzir, e as "teorias" expostas por Dan Brown no seu livro best-seller. Como lembra Guénon, de forma tão pertinente nestes idos anos 20, o perigo da inversão dos símbolos está sempre presente, o que obriga à necessidade de um certo cuidado (diríamos mesmo, de uma certa competência) no tratamento dos símbolos, para evitar a deturpação (ou no pior caso, a inversão) do significado do símbolo. Cremos que Guénon, quando fala do símbolo do triângulo invertido, dizendo que "se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório", se está a referir às interpretações sexuais do referido triângulo, que já eram "moda" desde os tempos do pseudo-esoterismo do final do século XIX em França. Recordamos que Lady Caithness, a Duquesa de Pomar, instigadora e protectora da Sociedade Teosófica de Helena Petrovna Blavatsky, na Paris de fin de siècle, foi uma das mais importantes promotoras deste detestável "cristianismo esotérico" (não confundir com "esoterismo cristão") e dos primeiros laivos de "divino feminino". Emparelhando as palavras sábias de Guénon com estes factos da história do pseudo-esoterismo do século XIX, teremos chegado ao ponto essencial em que nos damos conta, até à máxima extensão, tanto da incompetência de autores como Dan Brown para escrever sobre estes temas, como da suspeita "fonte" onde estes foram buscar a sua inspiração "artística".

Para finalizar, eu não seria honesto se não acabasse por explicar o contexto em que surgiu este artigo de René Guénon. Sei bem que o artigo, e a minha opinião pessoal que deixarei no final, podem ser vistas como heterodoxas e como erros doutrinários, no que diz respeito à doutrina católica. O artigo Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, relativo ao estudo do simbolismo do Graal e da sua ligação com o simbolismo do culto do Sagrado Coração de Jesus, foi publicado na revista Regnabit, do padre Abel Clarin de la Rive. Guénon fora convidado por este último pelos seus incontestáveis conhecimentos em simbolismo, mas cedo fez inimigos. Guénon não era católico (viria a tornar-se muçulmano, tomando o nome de Abdel Wahid Yahia), frequentava a Maçonaria, e era um estudioso do Hinduismo, do Taoismo, do Sufismo, e tentava agora nesta colaboração com a Regnabit estabelecer uma aproximação ao Catolicismo baseada no hermetismo cristão da Idade Média. Mais que razões de sobra para levantar a polémica numa revista católica como a Regnabit. O padre Clarin de la Rive defendeu-o durante largos meses contra aqueles que consideravam Guénon uma "infiltração nefasta", ou um "ocultista perigoso". Com a pressão dos círculos neo-tomistas do Institut Catholique de Paris, de entre os quais se destacava Jacques Maritain, Guénon teve que cessar a sua participação na Regnabit.
Este artigo foi então escrito por um homem que, não sendo católico, estava a tentar uma séria e honesta aproximação ao catolicismo, por via do simbolismo comparado e da defesa do que ele chamava de "Tradição Primordial", o substrato único que era comum a todas as formas genuínas de espiritualidade ao longo do tempo e nos mais variados locais do globo. Guénon tentou mostrar aos leitores da Regnabit (na sua esmagadora maioria católicos) os sinais evidentes de uma essência doutrinal idêntica em tradições tão distantes no tempo e no espaço. Maritain e o seu grupo não deixaram nunca de considerar a postura de Guénon como sincretista, gnóstica, ou panteísta, e como uma perigosa ameaça para a doutrina católica. É uma pena. Fica aqui a minha opinião, e o meu profundo desejo de que, perdida que está a oportunidade de se usufruir de um homem como Guénon para "fazer a ponte" com outras tradições espirituais, Deus nos envie alguém igualmente qualificado, para que o diálogo seja retomado tão depressa quanto possível. A minha opinião, relativa ao neo-ecumenismo dos dias de hoje, é que este fica muito aquém do que se poderia ter conseguido no tempo de Guénon. Não há entendimento ao nível dos princípios. Não há debate metafísico. Há um ecumenismo tolerante e correcto nos modos, afável e simpático, até acolhedor, mas na minha opinião, excessivamente surdo e autista no que toca à Verdade Revelada e à questão da primazia doutrinal. Quando o Espírito Santo grita, convém ouvi-Lo...

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