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segunda-feira, agosto 1

 

António Marujo. O diálogo inter-religioso é só uma moda? Segunda-feira, Julho 19. 2004.

Não é preciso ir muito longe no tempo: há 30 anos, o que se passou em Barcelona, entre 7 e 13 deste mês, na quarta edição do Parlamento das Religiões do Mundo, não seria possível. O diálogo inter-religoso é um processo ainda jovem (pelo menos na sua forma actual, já que, como dizia Raimon Panikkar na entrevista ao “Público” de dia 13, existiram encontros inter-religiosos ao longo da história). Olhando para trás, no entanto, o caminho percorrido em três décadas indicia que a dinâmica está madura. Como também referia Panikkar, este é um processo que já ninguém pode parar.
O que hoje acontece não é uma moda. Tão pouco um caminho para uma única religião ou um qualquer movimento sincrético. O diálogo inter-religioso tem uma dimensão clara de encontro pessoal e institucional — visível nos encontros promovidos pela Comunidade de Santo Egídio, por exemplo —, mas tem vindo a construir também um património plural, espiritual e teológico que lhe dá profundidade e consistência.
Quem, há 30 anos, poderia imaginar o Papa católico a rezar com líderes de todos os credos, como aconteceu já em Assis por três vezes (a primeira delas em 1986) — mesmo contra a desconfiança de gente do Vaticano? Quem poderia pensar que, numa iniciativa como a do Parlamento das Religiões, gente de credos diferentes se olha nos olhos, criticando-se mutuamente, auto-criticando-se e afirmando sempre que o caminho é continuar a encontrar-se?
Este não é, obviamente, um percurso fácil. Nem isento de riscos. É, talvez, o debate inter-cultural mais exigente do mundo contemporâneo: porque mexe com a identidade mais profunda do ser humano, organizada em comunidades e, por vezes, institucionalizada em sistemas complexos.
Qualquer processo de diálogo mete sempre medo. Porque, se verdadeiro, nele todos os participantes têm direito à palavra e ninguém sabe o que cada um fará dessa palavra. Medo também de que, ao conhecer-se melhor o outro, as certezas próprias sejam abaladas. E medo ainda porque é mais fácil que quem detém o poder (político, económico, religioso ou outro) se imponha perante o mais fraco.
É o medo do ouriço, de quem, sentindo a ameaça da perda de identidade, leva a atacar quem dele se tenta aproximar. É, no caso religioso, a atitude que leva tantos a radicalizar-se querendo anular a (aparente) diferença — se necessário for, matando em nome da sua crença. Esse é o risco maior: o do fundamentalismo que hoje atravessa todos os credos religiosos.
Faz sentido, por isso, o postulado proposto há mais de dez anos pelo teólogo Hans Küng: só haverá paz no mundo com paz entre as religiões; e só haverá paz entre as religiões com este diálogo fecundo, que não anula as diferenças mas procura conhecer o outro e busca chegar a um consenso sobre uma ética universal comum.
Dialogar implica, antes de mais, escutar e conhecer o que o outro tem para propor. No campo religioso, isso é cada vez mais verdade. Aliás, olhando para a história, vê-se que os grandes mestres espirituais, profundamente convictos da sua verdade, foram os que mais caminharam ao encontro da diferença. Basta pensar em Francisco de Assis, quando vai ao encontro do sultão, num tempo em que as cruzadas eram a linguagem dos cristãos para resolver os seus diferendos com o mundo islâmico. Ou no Mahtama Gandhi, cuja prática política da não-violência acolhia princípios do hinduísmo e do cristianismo.

O diálogo inter-religioso tem, pela frente, vários desafios: desde logo, o de ajudar a atenuar os problemas que, diariamente, matam milhões de pessoas sem razão (fome, doenças curáveis, falta de água potável, acesso a cuidados de saúde, ausência de condições mínimas de sobrevivência). Depois, o de saber, com paciência e perseverança, integrar os que se sentem tentados pela verdade única, cuja única saída é o desespero e a violência. Finalmente, o de desenvolver uma reflexão (política, social, filosófica, teológica) capaz de abrir caminhos novos de espiritualidade e humanidade, onde aconteça o encontro efectivo.
O que se passou no parlamento realizado em Barcelona foi mais um bom exemplo deste caminho. Sempre com algum folclore inevitável neste tipo de acontecimentos, houve encontros pessoais e compromissos concretos, oração e profundidade de debate. Houve também experiências únicas, como a do almoço diário oferecido pela comunidade sikh de Birmingham a mais de cinco mil ou seis mil pessoas, e que constituía uma oportunidade de conhecer outros modos de viver e de sentir, conversando com o vizinho que se sentava ao lado.
O Parlamento das Religiões do Mundo tem ainda uma acentuada marca americana – por exemplo, no leque de participantes – mas a realização da quarta edição em Barcelona constituiu um passo fundamental para que o processo se alargue. Aliás, se o compararmos com os encontros anuais inter-religiosos promovidos pela Comunidade de Santo Egídio (Lisboa recebeu a edição de 2000), as diferenças estão sobretudo na forma. O Parlamento (para já, com três edições, num intervalo de cinco a seis anos entre cada uma delas) acolhe sugestões de quem quer que seja, o que é bom; mas multiplicam-se os debates e as iniciativas incluindo, segundo ouvi, também alguns com pouca qualidade. Já os encontros de Santo Egídio (uma realização anual), preparados por um pequeno grupo de pessoas, conseguirão mais qualidade de debate, mas restringem a participação.
De resto, o essencial está nas semelhanças inevitáveis no objectivo e na intenção: a ideia de sensibilizar e juntar pessoas de credos diferentes a debater modos de construir um mundo mais justo e pacífico. O que tem uma outra consequência decisiva: retirar do centro do debate o aspecto estritamente “religioso”, e tratando antes do(s) modo(s) de as religiões se colocarem ao serviço do bem e da fraternidade – afinal, os grandes princípios de todos os credos.
Não é de estranhar, por isso, que o Parlamento das Religiões se tenha debruçado sobre questões como a dívida externa do Terceiro Mundo, o acesso à água potável (um dos problemas mais graves do futuro imediato e, segundo muitas opiniões, causa das próximas guerras), o drama dos refugiados ou a sida. Precisamente no momento em que, em Banguecoque, a última conferência mundial sobre a sida terminava com uma sensação de decepção, os crentes reunidos em Barcelona contavam como se envolviam no apoio aos doentes (alguns infectados testemunharam como sentiam a solidão) e pediam a intensificação da informação e um melhor acesso aos medicamentos.
Pela importância cultural de que este processo se reveste, o diálogo inter-religioso deve ser promovido, estimulado, participado e aprofundado — mesmo pela sociedade civil. É lamentável, por isso, que Portugal tenha passado ao lado de mais este acontecimento, quer pelo reduzido número de portugueses em Barcelona, quer pelo desprezo que a generalidade dos meios de comunicação votou ao acontecimento.
O diálogo inter-religioso é decisivo para as religiões, sim. Mas também para a humanidade, tão carente de se reencontrar consigo mesma.

[PÚBLICO]

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