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segunda-feira, agosto 1

 

Afonso Cruz. Quatro grandes alegorias. Segunda-feira, Outubro 11. 2004.

Uma grande alegoria que Comenius usa na sua “Didáctica magna” é a vida da criança no útero materno, onde grande parte da sua actividade e crescimento se dedica à vida futura e nela encontra explicação: “a nossa primeira vida desenvolve-se nas vísceras maternas. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de si mesma? De modo algum. Trata-se apenas de formar convenientemente um pequenino corpo para servir de habitação e de instrumento à alma, para comodidade e uso da vida seguinte, a qual vivemos à luz do sol”. Comenius afirma existirem três espécies de vidas e suas respectivas moradas que são o útero materno, a terra e o céu. Sendo as duas primeiras preparações para a vida seguinte, culminando na terceira que é eterna: “A primeira vida de que falei é uma preparação para a segunda; a segunda para a terceira; a terceira, de sua própria natureza, nunca termina.”
Guitton usará esta alegoria, no post-scriptum das suas “Cartas abertas”, dum modo mais expressivo, comparando-se a um embrião no útero da sua mãe, que pusesse a si próprio problemas insolúveis: “Para que servem estas mãos que não têm nada para apalpar? Estes pulmões que não têm nada para respirar? Estes olhos que não têm nada para ver?” e seguidamente remata com as palavras do Apocalipse: “o que seremos ainda não apareceu”. A resposta para o que nos parece inútil hoje está no futuro. A utilidade dos olhos, dos pulmões e das mãos, revela-se após o nascimento.
Esta alegoria foi magistralmente usada sob diversas vestes e por diversos autores. As mais inspiradas parecem-me as de Papini e do incontornável Rumî.
Giovanni Papini, no seu livro “Gog”, conta-nos sobre um homem, o professor Killaloe, cujo sentido cronológico, segundo o seu ponto de vista, da História Universal, deveria ser invertido, ou seja, a História deveria ser contada do presente para o passado e não ao contrário como usualmente se faz: “O meu método que consiste em retroceder do presente para o passado é o mais lógico, o mais natural, o mais satisfatório. É o único que torna possível uma interpretação dos factos humanos. Observe que um acontecimento não adquire a sua luz e a sua importância passados decénios ou talvez séculos. (…) O depois é que explica o antes e não vice-versa. (…) Para compreender um grande homem é preciso referir, necessariamente, o dia da sua morte. A vida de César começa, de facto, no dia em que ele foi assassinado. Porque foi assassinado? Aqui podemos encaminhar-nos directamente para as suas ambições, as suas campanhas, a sua ditadura”.
Jalaluddin Rumî, no Masnavi, usa uma analogia idêntica à de Papini, mas é mais contundente:
“Aparentemente, o ramo é a causa do fruto,
Se não fosse impelido pelo desejo do fruto,
O jardineiro jamais teria plantado a árvore.
Portanto, na realidade, a árvore nasceu do fruto,
Embora, aparentemente, o fruto tenha nascido da árvore”


A segunda grande alegoria que quero salientar é a que Nicolau de Cusa descreve no “De visione Dei”. Já todos, em alguma altura ou outra da vida, nos deparámos com aquelas pinturas onde determinada figura lá representada parece olhar-nos fixamente. Não importa se nos colocamos à esquerda ou à direita, se nos afastamos ou aproximamos, o olhar da dita figura parece seguir-nos implacavelmente. Mas se outras pessoas lá estiverem dirão o mesmo, e a que estiver à esquerda achará que a figura a olha fixamente, e do mesmo modo pensará aquele que se colocou à direita ou em qualquer outro lugar da sala. “Como é possível que olhe, ao mesmo tempo, todos e cada um”, interroga-se Nicolau de Cusa. O olhar da figura, estando imóvel, parece no entanto mover-se e acompanhar quem o olha. “Deus (…) recebeu o nome de theos exactamente porque tudo vê. Por isso, se pudesse aparecer o olhar pintado na imagem a olhar para todas as coisas e para cada uma delas, então, porque esse seria o olhar perfeito, não poderia convir verdadeiramente à verdade menos do que convém aparentemente ao ícone ou ao fenómeno”.
Nicolau aprofundará esta alegoria extensamente, dedicando-lhe todo o livro. Mas é, em traços gerais e evitando complicações desnecessárias, sobre o estranho facto de encontrarmos nestes tipos de quadros um casamento perfeito entre o particular e o universal que devemos reter a nossa atenção e possibilidades analógicas: o olhar que olha a um, sem, contudo, deixar de olhar o todo e todos ao mesmo tempo; o olhar que olha cada um individualmente e a todos simultaneamente.
Uma analogia que salta à vista é de Deus ter um momento histórico e ser Absoluto sem perder nenhuma das suas características (como o olhar momentâneo e particular da figura do quadro não deixa de ser geral e global); ser plenamente Deus em determinado sentido particular ou histórico (como a vida de Cristo) sem contudo perder os seus atributos absolutos, ser ao mesmo tempo essência e manifestação.

«Contam os homens dignos de fé (mas só Alá é omnisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem possuidor de riquezas, mas tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas menos a casa de seu pai e se viu forçado a trabalhar para ganhar o pão. Trabalhou tanto que o sono o venceu uma noite debaixo duma figueira do seu jardim e viu no sonho um homem todo encharcado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “A tua fortuna está na Pérsia, em Isfaján; vai lá buscá-la.” Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfaján, mas no recinto dessa cidade surpreendeu-o a noite e deitou-se a dormir no pátio duma mesquita. Havia junto à mesquita, uma casa e pelo decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladrões atravessou a mesquita e meteu-se na casa, e as pessoas que estavam a dormir acordaram com o barulho dos ladrões e gritaram por socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquelas redondezas acudiu com os seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou revistar a mesquita e nela encontraram o homem do Cairo e deram-lhe tantos açoites com varas de bambu que esteve às portas da morte. Ao fim de dois dias, recuperou os sentidos na prisão.
O capitão mandou-o buscar e disse-lhe: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” O outro declarou: “Sou da famosa cidade do Cairo e o meu nome é Mohamed El Magrebí.” O capitão perguntou-lhe: “O que te trouxe à Pérsia?” O outro optou pela verdade e disse-lhe: “Um homem ordenou-me num sonho que viesse a Isfaján, porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfaján e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser os açoites que tão generosamente me deste.”
«Perante semelhantes palavras, o capitão riu-se até mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer: “Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio de sol uma figueira e a seguir à figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu contudo, aborto duma mula com um demónio, vagueaste de cidade em cidade, somente por acreditar num sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaján. Toma estas moedas e vai-te embora.”
«O homem guardou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte do seu jardim (que era do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençoou e o recompensou e exaltou. Deus é o Generoso, o Oculto.» (“História universal da infâmia”, Jorge Luis Borges, ed. Assírio & Alvim)
A alegoria que serviu de base ao conto acima (retirado, pelo Borges, das “1001 noites”) foi contada e recontada em diversas culturas e de diferentes modos. Na forma como transcrevi acima, e salvaguardando ligeiras diferenças contextuais e acidentais, esta estória faz parte do conto tradicional português, como também faz parte do “Masnavi” do Rumî. Assemelha-se, no conteúdo analógico, a uma imagem que o mestre zen Ch’ing Yüan contou:
“Há muito tempo atrás, antes de começar a praticar o Zen, eu via uma montanha como se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio. Depois de começar a praticar o zen, pude alcançar um certo grau de despertar. Então quando contemplava uma montanha, já não era uma montanha, e, quando via um rio, não se tratava de um rio. Agora que conheço o zen, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio simplesmente como um rio.”
Todos estes contos obedecem ao problema da proximidade e da distância, tanto física e espacial, quanto cronológica e psicológica, culminando num retorno espirálico à origem. Não se volta ao ponto de partida propriamente, sobretudo porque nos tornamos diferentes: a pessoa que regressa não é a mesma que parte.
A nostalgia do Paraíso que, de algum modo, orienta todos os homens, crentes ou ateus (como diria Pascal, todo o homem procura a felicidade, mesmo quando pretende matar-se), é sempre referida como um retorno, uma reviravolta da multiplicidade para a unidade, do mundo para Deus. O Antigo e o Novo Testamentos são ricos em alegorias e metáforas que evidenciam este périplo em espiral que todos nós, mal ou bem e inevitavelmente, fazemos da vida.
Esta alegoria também sugere uma reviravolta sobre si mesmo e um olhar para dentro, depois de uma busca no espaço exterior, o do mundo. Um comentário à Torah, diz que o Faraó quando manda matar os recém-nascidos, procurava o seu inimigo fora do seu palácio, quando, na verdade, ele (Moisés) vivia dentro da sua casa. É portanto dentro de nós que o comentarista sugere que procuremos o inimigo.

Abbott Abbott escreveu um livro chamado Flatland (“O país plano”, ed. Gradiva), há mais de cem anos. Não tendo, este livro, a visibilidade merecida na altura da sua edição, foi posteriormente fonte de inspiração a inúmeros autores, pensadores e cientistas (Ouspensky, Rudy Rucker, Hinton, Steiner, Ian Stewart, etc.). Esta obra, de leitura fácil e fluida, trata simplesmente das aventuras de um quadrado: «Chamo Flatland ao mundo em que vivo, não porque seja esse o seu nome, mas para vos tornar mais clara a sua natureza, felizes leitores, que tendes o privilégio de habitar o Espaço.
Imaginai uma imensa folha de papel sobre a qual Linhas, Triângulos, Quadrados, Pentágonos, Hexágonos e outras figuras, em vez de estarem fixas nos seus lugares, se deslocam livremente sobre a superfície, sem dela poderem sair, quer por cima quer por baixo, exactamente como sombras – embora duras e de contornos luminosos –, e tereis uma ideia muito correcta do país e dos seus habitantes. Ainda há poucos anos teria dito “o meu universo”, mas entretanto o meu espírito evoluiu para uma visão superior das coisas.»
Este quadrado que vive uma vida comum e banal, é um dia visitado por uma esfera, um ser tridimensional que o instrui e explica que existe mais uma dimensão que o quadrado está impossibilitado de ver e conhecer, por limitações inerentes. O mero aparecimento da Esfera que atravessa o país plano é já um prodígio e um facto inexplicável para qualquer cidadão da Flatland.
Abbott vai com esta alegoria escavar e criar inúmeras e profundas possibilidades de interpretação da sua novela, possibilidades essas que vão desde a sátira social, à religião, à Física. O Quadrado, herói desta aventura, certo dia coloca a Esfera sob a possibilidade da existência de uma quarta dimensão espacial, ideia que a Esfera rejeita de imediato, acusando o Quadrado de demência (mas é nesta alegada insânia que a alegoria da Flatland encontra a sua melhor expressão e analogia, sugerindo a existência de várias dimensões e aproximando-se da Física moderna, bem como da Religião).
O livro de Abbott, que sugere a existência de várias dimensões, é ele próprio um livro com várias dimensões.


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