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segunda-feira, agosto 1

 

Editorial de Verão

Caros leitores.
A Terra da Alegria está fechada durante o mês de Agosto. Fica aqui uma breve antologia do que se publicou neste quase ano e meio. Nela constam textos já publicados da autoria de todos os membros e colaboradores externos da Terra da Alegria, com um bónus - um original do Miguel Marujo.
Um abraço a todos.

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Miguel Marujo. a erradicação de deus. Hoje, dia 1 de Agosto de 2005.

há um deus que assoma violento, implacável, irascível nas explosões de londres e de sharm-el-sheik. já tinha sido assim em nova iorque, depois em bali, madrid, jacarta, casablanca, mombaça, bagdad, num roteiro que parece marcar um novo mapa de terror sem olhar a rostos e credos, ideologias e cores. este deus não é um verdadeiro deus. arrepia, arrepia-se, arrepia-nos. este deus gritado por filhos menores não é misericordioso nem omnipotente. é obsceno, indigno.
o papa bento xvi veio depois pedir aos terroristas que "parassem, por Deus", numa formulação sábia. mas houve quem dissesse que não valia a pena – eles não o ouviriam porque o deus dos terroristas não aceita qualquer outro deus, sobretudo pela voz do representante de uma religião que é aquela que os terroristas também dizem combater ao falarem em cruzados, como se a idade das trevas fosse hoje. e é, argumentam iluminárias clarividentes, que nos dizem que "é a guerra, é a guerra e só assim podemos defender a nossa civilização". vã glória.

eu por mim também acho que deus não é para aqui chamado. em nenhum destes atentados está deus, um qualquer deus. nem Deus pode ser invocado por quem não entende qualquer linguagem de deus. desconhecer deus não é mau, o que é mau é refugiar-se num deus de morte, que não existe. o que existe é um ódio pretensamente "traduzido" para nos manter vigilantes e, pior, para nos meter medo. a esse ódio não se responde com mais ódio. também escusamos de dar a outra face, literalmente. podemos dá-la evangelicamente: construindo com o outro um outro mundo.

pragmáticos, muitos crentes e não crentes, crêem que sou lírico ou, como insultava um jornalista desta praça, um "falso pacifista que se quer render aos inimigos". nem uma coisa nem outra: apenas continuo a entender que o terror de dresden e hiroxima e londres (na segunda guerra) não deve ser repetido – aniquilar o já aniquilado, ou, no caso dos ataques actuais, cair numa espiral de violência que rapidamente nos levaria à orgia sanguinária daquela grande guerra.

erradicar deus, não é erradicar o divino – nem Deus, claro. é erradicar o discurso que insiste na justificação hedionda de um qualquer deus pequeno que torna menores todas aquelas vidas – de quem se alimenta e vive pelo terror.

este texto pode perder-se na espuma dos dias de férias ou na letra propositadamente pequena. não me importa, se a nossa atitude for outra, ao encontro do outro, para que nunca mais nenhum outro invoque o nome de deus em vão ou em socorro do horror. ámen: assim seja.

[CIBERTÚLIA]

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Carlos Cunha. A rush and a push and the land that we stand on is ours. Colateral. Novembro/Dezembro de 2004

1. Como sou herdeiro da tradição católica, cheia de formalismos, rituais, ademanes, simbolismos cujo significado se perde no tempo e que a fraca razão contemporânea tem dificuldade em atingir, não tenho o à-vontade com o divino que têm, por exemplo, os nossos irmãos protestantes. Invejo a intimidade que eles têm com Deus. Parece que falam directamente com Ele e - suponho eu - Deus deve responder-lhes.

A minha relação com Deus passa sempre ao lado d'Ele. É colateral. Concretiza-se sempre através duma externalidade: pela Igreja (a Católica, Apostólica, Romana), com a mediação da comunidade (a paróquia, por exemplo), na pessoa do padre; pela intercessão dos santos; pela leitura dos textos sagrados (com a plena consciência que Jesus apenas escreveu um rabisco fugaz no chão e que nenhum versículo da Bíblia mereceu o imprimatur do Pai); pelo Magistério. Por vezes tenho, como qualquer ateu, pequenas epifanias da natureza. Como qualquer ateu. Noutras ocasiões parece-me que chego mais perto de Deus (ou deixo que Ele se aproxime de mim) através de coisas ainda mais pequenas, como um filme, um romance, uma música. Sei também que não foi Deus quem realizou Por Um Fio (foi o Scorsese), mas não o trocava pelo livro de Judite.
Claro, há a oração. Mas mesmo nos momentos mais intensos de oração, individual ou comunitária, nunca senti que Deus estava pessoalmente perto de mim, a escutar-me. Talvez esteja, mas nunca houve qualquer feed-back da parte d'Ele. Admito, no entanto, que o conteúdo das minhas orações não O comova particularmente.
E também não sou muito bom a ler sinais. Nunca percebi o que Ele me quer dizer. Na verdade, acho que não me quer dizer nada de especial. Caso contrário dizia.

A mim Deus não liga nenhuma importância. Isto é, coloca-me no meu devido lugar, reduzindo-me à minha humilde significância. Assim, como tenho dificuldades em comunicar com Ele, em O conhecer (e, portanto, de O amar), fico-me pela tentativa de amar os meus irmãos. E nem disso sou capaz.


2. «Deus disse: "Eu vos dou todas as ervas que dão semente, que estão sobre toda a superfície da terra, e todas as árvores que dão frutos que dão semente: isso será o vosso alimento"» (Génesis 1, 29).

Aqui há dias, no seguimento de uma conversa político-etílico-filosófica, o meu amigo AR perguntou-me se eu era a favor da colectivização dos bens de produção. Respondi-lhe que, sem prejuízo de uma regulamentação de ordem prática em relação a alguns bens privados, a maioria dos bens de produção, que permitem a criação de riqueza (como se diz agora), deveria ser pertença de todos estar. Os bens de produção - materiais ou imateriais - deveriam ao serviço da comunidade, através das instituições colectivas - o Estado. Por uma simples razão: quando Deus criou a Terra, a terra nela presente, com todos os seus recursos, atribuiu a sua gestão a todo o género humano, para sua guarda e usufruto. O mesmo se diga caso se queira prescindir da hipótese de Deus. Originalmente, num tempo remoto e comum, não havia propriedade privada. Mesmo o conceito mental era estranho aos nossos antepassados. Se nos reportarmos a um qualquer tempo inicial, encontraremos a repartição da propriedade comum como uma ruptura violenta no modelo comunitário de uso e partilha da terra.
O Catecismo da Igreja Católica (certamente também considerado por muitos como mais uma obra ideológica ultrapassada, que não se compadece com os tempos modernos, uma manifestação do desajuste da Igreja à contemporaneidade) refere expressamente que o direito à propriedade privada não vem abolir a doação original da Terra ao conjunto da humanidade (2403). E a Constituição Gaudium et Spes adverte que «quem usa desses bens não deve considerar as coisas exteriores, que legitimamente possui, só como próprias, mas tembém comuns, no sentido que possam beneficiar não só a si mas também aos outros» (69 § 1).
Pergunto-me muitas vezes, qual conservador do registo histórico predial, onde nos levaria a pesquisa do trato sucessivo de um pedaço de terra que hoje serve para suporte à reserva ecológica nacional, para cultivo na agricultura mais pobre da Europa ou se destina ao loteamento e à construção de um empreendimento em condomínio fechado, consoante a arbitrária vontade dos desenhadores de planos municipais.
E por que estranha razão admitimos sem pensar (nem pestanejar) que um filho de um proprietário nasce proprietário e um filho de um pobre nasce pobre. Eu sei que, como dizem os liberais (ricos), a pobreza é um conceito relativo. Mas se somos todos iguais, se nos reconhecemos todos irmão, porque filhos do mesmo Pai, por que motivo subvertemos a herança que era de todos? Quem roubou os irmãos pobres? Quem rouba os pobres?

[
A QUINTA COLUNA]

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Timshel. Fazei o que Deus quer e não o que Ele manda. Quarta-feira, Julho 27. 2005.

O problema do fundamentalismo, cristão ou islâmico, socialista ou capitalista, é outro; não é o de advogarem doutrinas e referentes; o problema é de não deixarem na teoria e na prática, espaço para os aceitarmos. O problema é que parecem imunes ao facto de Deus nos ter conferido liberdade. (a bordo). - Estava eu em pleno processo de redacção sobre este tema para a Terra da Alegria quando li isto. Acabou-se-me a inspiração (que já não era abundante aliás). Porque em quatro linhas está aqui dito tudo o que queria dizer hoje (e de forma mais brilhante do que a que eu poderia ter escrito).

Retomando. Na semana passada quando aqui referi aquele pequeno episódio do fundamentalismo islâmico não sublinhei adequadamente que o que menos interessava era ser islâmico. O que visava era apenas o fundamentalismo. A expressão "Fazei o que Deus manda quer Ele queira quer não" visava precisamente o extremo egoísmo que caracteriza os fundamentalistas quando confundem inconscientemente o seu egoísmo e as suas frustrações pessoais com a vontade de Deus.

O fundamentalismo religioso ou laico, político ou económico, científico ou moral pertence apenas à categoria do Mal (ou, de forma mais prosaica, simples estupidez humana).
Porque me parece que o homem vive rodeado de abismos. Fundamentalismo, relativismo, egoísmo. Abismos que só se podem vencer através da oração e de um permanente exercício de auto-reflexão e de introspecção.

O único fundamentalismo admissível é o fundamentalismo do Amor. Porque este implica equilíbrio e sentido da proporcionalidade.
Implica atenção ao outro e a si próprio como forma de melhor servir o outro.
Implica bondade, pura bondade.
Implica humildade, muita humildade, humildade genuína, que não seja apenas uma capa hipócrita ador(n)adora do ego. Implica paciência e prudência.
Implica generosidade e muita introspecção. Implica temperança de pensamento.
E implica também um pouco menos de autoritarismo paternalista e de certezas implícitas, características de quem tem Deus na barriga, como são as que se manifestam no estilo final deste texto que acabei de escrever.

[TIMSHEL]

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Vitor Vicente. De que fala a minha avó quando fala de Deus. Segunda-feira, Maio 31. 2004.

De que fala a minha avó quando fala de Deus? — eis a questão a que, sem elevar expectativas à altura dos céus (se eu não faço a mínima ideia de quem é Deus, também não sei como saber se ela invoca o nome dEle em vão), me proponho a dar resposta.
Quando alguém morre e vai desta para uma dimensão que, de esta ser tão bera e inóspita, dizem ser melhor, a minha avó, de imediato, acrescenta-lhe: que-Deus-tem. Ainda o desgraçado do defunto se encontra amortalhado, em câmara ardente, (ex)posto aos olhares trémulos e lacrimejantes daqueles de quem foi querido, já a minha avó o inscreveu na árvore genealógica da família que-Deus-tem. Ou seja, no fatídico momento em que uma pessoa se descuida e estica o pernil, Deus, atento, como um lince, apropria-se da nossa carcaça e da nossa alminha. Num primeiro momento, a minha avó parece designar Deus como um proprietário de bens privados — talvez este equívoco título nobiliárquico-capitalista seja a chave de explicação para o ódio dos comunistas a Deus e a todos (anjos, santos, beatos) os envoltos em Sua aura.
Ora, a minha avó (que, importa explicitar, se diz católica mas jamais o registou por escrito porque é analfabeta), antes de se deitar, deseja que amanhã possa desejar o mesmo. «Até amanhã, se Deus quiser», despede-se ela, todas as santas noites, como que a cumprir um ritual, com a esperança de que amanhã, depois de amanhã e por aí adiante, Ele deseje que ela possa repetir o desejo perante a família — e, aproveitando a vaga de desejos pedidos, que também nós façamos igual voto.
Deus, nesta acepção, não se trata dum ser apartado da vidinha dos homens, nem um ente supra-natural, mas sim o próprio Ser, as próprias coisas, ou melhor, haver coisas. Como que o verbo contínuo que configura e norteia o curso das coisas.
A identidade de Deus encontra-se, apesar de velada, no movimento do mundo. A minha avó atribui-lhe, portanto, o papel de demiurgo que existe fazendo existir, que fazendo existir existe. Cuja actividade e ofício o mantém desperto, surdo à cantiga de embalar que prostra os ociosos no hipnótico regaço do letargo.
O horizonte de sentido é a responsabilidade que a minha avó imputa a Deus. Cabe-lhe ser o farol que ilumina as tripulações em alto mar — ainda que o barco da existência humana, seja por desígnio ou por falha divina, acabe fatalmente por naufragar e alimentar os bichos. No caso, a sorte grande sai aos peixinhos.
Dentro da ontologia (eu sei que é um termo palavroso; se o usar numa conversa com uma velhota, com certeza que ela pensará que me estou a referir a um ramo da medicina que trata de uma doença modernaça) da minha avó, não existe espaço para um Deus Todo-Poderoso se espraiar. E nós, humanos, onde ficamos?, quem somos? Materializamos a vontade dum Deus desconhecido.

[CANTO ESCURO]

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Porfírio Silva. A Tecnologia do religioso. Segunda-feira, Junho 21. 2004.

Um destes dias daremos aqui atenção ao tema das relações entre ciência e religião. Mas, antes disso, dedico hoje uma pequena reflexão à relação entre religião e pensamento tecnológico.
As grandes religiões dominantes no Ocidentes fizeram um percurso civilizacional que as conduziu a uma certa intelectualização. Nesse espaço cultural, as instituições (as igrejas) preocupam-se com a ciência, procuram esse saber, procuram conciliações e alianças entre conhecimento da matéria e vida do espírito. Individualmente, também muitos crentes esforçam-se por conciliar a sua fé com os seus conhecimentos científicos. Há nisso algo de atraente: a religião não tem de ser obscurantismo. Mas há nisso, também, uma cedência ao núcleo ideológico central do cientismo. Na ideologia do cientismo, a ciência tende a tudo explicar e as alternativas de compreensão que não passam pela ciência tendem a extinguir-se. Muitas vezes, a “fé esclarecida” assemelha-se perigosamente à fé explicada aos intelectuais.
Essa intelectualização abriu um espaço às concepções mágicas do sagrado. Nessa mundividência, a manipulação de certos objectos, com certas conotações, por pessoas com certos “saberes” e “poderes”, produz certos “resultados” e “resolve” certos problemas. Por encomenda. Esse é o fascínio de certas seitas, mas também de certas franjas das igrejas dominantes. Que assim respondem à dominante “ideologia do tecnológico”. Um caso que, para o meu ver, é disso exemplo: as práticas exorcistas, que a hierarquia mais formal vê com maus olhos e tenta enquadrar e limitar, mas que continuam a existir e são bem aceites pela “religião popular”. O exorcismo pretende resolver, por uma manipulação de certos sinais, uma avaria do espírito. A possessão é um desarranjo que um bom mecânico repara. O exorcista é o especialista que detém o segredo das peças de origem. A marca da sua capacidade tecnológica é que a sua intervenção transforma um comportamento anterior aberrante num comportamento posterior estatisticamente normal. E tudo isto depois de o behaviorismo mais descarado ter sido expulso da posição dominante mesmo na psicologia científica.
Este, como outros fenómenos de magia “para resolver desarranjos”, traduz talvez uma resposta à intelectualização das religiões oficiais dominantes. À tendência pesada para esquecer o corpo, para esquecer as emoções e os afectos que deveriam contar numa experiência do sentido (do sagrado). Mas, creio eu, esse recurso à tecnologia do religioso traduz a nossa própria redução à condição de robot que precisa de uma intervenção. A experiência tecnológica da religião é o grau zero do sentido – mas vai muito bem com o ar do tempo.

[
TURING MACHINE]

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Fernando Macedo. A pata do urso. Quarta-feira, Setembro 8. 2004.

Com a memória no registo de férias do costume, e assim com a falta de identificação habitual, damos conta de três filmes que vimos antes de férias e que estão unidos unicamente pelo estrondo da ameaça. Um é o conhecido exorcista; o outro, o possuído; outro que toma na versão portuguesa o título de no limite. Ao contrário do que se poderia supor, leremos os dois primeiros em função do último.
A história do exorcista é conhecida. A história do possuído não precisa de muitos mais dados aqui, para ser também conhecida, porque vive da mesma trama. Por isso, poderíamos usar apenas um filme. Mas usamos os dois para realçar a constância do fenómeno.
Em ambos os filmes, um demónio toma conta do corpo de uma criança. Para acabar com a possessão, é chamado um padre. No exorcismo, o padre e o demónio tecem armas. O padre procura libertar a criança. O demónio tenta mantê-la na sua alçada. No fim, o padre é quem vence.

Conhecido o início e o fim da história, interessa então ver como corre o frente a frente. Para percebermos uma das estratégias preferenciais do conflito e uma das estratégias preferenciais do diabólico, o filme no limite, pela mão de um urso mostra como opera o diabo.
No limite, filme que comecei a ver quando a película ia a meio, fui confrontado com a seguinte situação. Um milionário norte-americano anda na companhia do amante de sua mulher a lutar pela sobrevivência nas montanhas inóspitas americanas. Mais adiante o filme dá conta de uma conspiração para acabar com a vida com o homem do dinheiro. No entanto, esta sai gorada, a sua mulher afinal ainda o ama, não podia deixar de o amar, o multimilionário é um bom homem. Mas antes, aparece um urso.
Enorme. Com umas paras enormes. Que confronta os dois homens.
O interessante no modo como o urso ataca os dois homens passa pelo enorme barulho que produz antes de tomar qualquer acção efectiva. Tal Tarzan, em versão Sepultura, bate com as patas frontais no peito, produzindo um ruído assustador, ao mesmo tempo que rosna.
Não tem nada do silêncio dos grandes felinos; mas muito do silvo agudo da serpente. Antes de tentar passar as unhas pelo pescoço dos homens, tenta imobilizá-los e hipnotizá-los… pelo medo; por isso, faz tudo para os atemorizar… O pensamento do urso é o seguinte. Se os conseguir amedrontar, fico com eles à minha disposição.

O diabo aprendeu com o urso. Ou o urso com o diabo. Para o caso, tanto faz. Também ele no exorcista, como no possuído, tudo faz para colocar o padre em estado de medo. E por isso afadiga-se nos gestos.
São vómitos de baba verde que faz sair da boca das crianças; sangue por lanhos na pele; guincha; dita às crianças os maiores insultos; nos momentos de pausa, obriga-os a pronunciar linguagem cavas e desconhecidas; entretanto, mexe anormalmente os objectos; põe os indefesos aos pulos na cama; quebra tigelas, sacode cortinados, rodopia o estrado da cama.
Tal como o urso, antes de se atirar aos homens, o diabo procura diminuir a capacidade do padre de reagir. Mas com melhor técnica do que o urso, procura fazê-lo não só por estes gestos exteriores, mas também – como se diz hoje – de modo psicológico. Aqui, a estratégia é curiosa – e muito mais haveria a dizer sobre ela.
De qualquer modo, fica apenas o seguinte apontamento. O diabo procura introduzir o medo no padre, obrigando-o a recordar os factos de maior dor na sua vida. E procura que o padre fique preso a essa memória.

[A BORDO]

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Gabriel Silva. Carta. Segunda-feira, Julho 12. 2004.

A propósito do texto, “O MEU CORAÇÃO BATE À ESQUERDA” venho apresentar algumas considerações.

Sobre a citação de Timshel:
1. Em primeiro lugar devo dizer que os termos Esquerda e Direita são hoje em dia desprovidos de qualquer conteúdo ideológico e político concreto. A sua utilização, como significante remete exclusivamente para um passado mais ou menos longínquo, permitindo dessa forma que o emissor possa, de forma nebulosa, associar a tais termos a imagem que bem quiser, escondendo do leitor o seu verdadeiro significado. Julgo portanto, a bem da verdade, que se deveria indicar precisamente do que é que está a falar quando se refere a esquerda/direita, sendo mais fácil ou apontar realidades concretas ou terminologia política, em termos ideológicos.,
2. Do ponto de vista histórico, isto é, desde a origem política do termo até ao passado mais recente no qual ainda faria algum sentido falar de Esquerda, a afirmação de que esta é “religiosa”, poderá ser uma afirmação provocatória, mas descabida de qualquer sentido.
3. A frase: “A opção de lutar ao lado dos fracos contra os fortes é uma opção religiosa não sustentável por qualquer visão "científica" do mundo.” é das mais estranhas que já vi, uma vez que historicamente se de alguma coisa a chamada esquerda foi acusada foi sempre de cientifismo, de ateísmo e de materialismo. Nunca de religiosidade.
4. Não se identificando o que se pretende dizer por direita, também fica difícil de entender a frase seguinte, nomeadamente que a direita teria fé em teorias científicas.
5. Por último, gostaria de dizer que ao longo de dois mil anos, tanta e tanta gente tentou limitar a interpretação e a forma de viver a fé cristã a uma única bitola. Sempre com péssimos resultados, como nos demonstra a História.

Sobre o texto de Carlos Cunha:
Tenho sérias dúvidas de que “Aqui, neste campo da luta, encontro a força cristã da esperança e na busca de um mundo melhor, mais justo, livre e fraterno – e a certeza de como é possível alcançá-lo através de lutas sociais e pessoais, assim participando na Criação. Aqui, neste lado do espectro político, compartilho a indignação profética perante a injustiça do mundo, o combate contra as exclusões, a sede de liberdade, de igualdade, de fraternidade.” seja algo característico de esquerda ou excluente de direita. Parece-me, e sempre assim o entendi, que tais sentimentos e formas de estar na vida fazem parte intrínseca do Homem enquanto ser social.
Também não vejo em que é que a direita (mais uma vez, falamos de quê?) tenha alguma dúvida de “que o papel da política, de todos nós, cidadãos (e cristãos) empenhados, é o de tentar transformar o mundo. Não apenas de administrar as desigualdades e de resignar-se com a desordem das coisas.” Aliás, vejam as críticas que a Administração Bush (julgo que a situam na “direita”...) recebe exactamente por tantos dos seus membros partilharem ou serem animados por essa forma de encarar e assumir a sua fé.
Sobre o resto do texto nada tenho de especial a comentar.
Mas gostaria de dar o meu testemunho relativamente à Doutrina Social da Igreja.
Quando mais novo, foi a partir da vivência e do contacto crescente com realidades sociais injustas e com o sofrimento humano que fui tendo contacto com a Doutrina Social da Igreja, nomeadamente dos primeiros textos do ainda papa João Paulo II. A sua descoberta foi altamente motivadora, tanto mais que existia uma íntima ligação entre a interpretação dos textos evangélicos e as realidades temporais. Algo que por si mesmo define a chamada leitura dos sinais dos tempos e a chamada Teologia incarnada.
Infelizmente, tais belíssimos textos nunca foram assumidos nem pelos cristãos, nem pelas suas estruturas eclesiais, nem pelo próprio João Paulo II . Com o tempo, a própria Doutrina Social da Igreja descambou em algo puramente retórico, sem ligação à realidade ou no mínimo não acompanhado devidamente as alterações sociais e tecnológicas. Foi construído um corpo doutrinal coeso, uniforme e estruturado, mercê de tanta encíclica, mas... sem vida, sem ligação ao real. Uma verbe infinita levou-o a escrever encíclica a trás de encíclica, num exagero retórico que retirou completamente força a algo que tinha era inovador. Os textos foram também cada vez mais sendo justificados e baseados uns nos outros, com contínuas auto-citações, sendo altamente revelador que nas últimas encíclicas o Evangelho é largamente marginalizado em benefício de textos do próprio JPII.

um abraço,
[BLASFÉMIAS]

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Manuel António Ribeiro. A crise actual e a urgência do testemunho cristão. Segunda-feira, Junho 6. 2005.

Nos últimos tempos os sinais de inquietação na sociedade portuguesa atingiram a cota de alarme. A crise económica, depois de nos terem embalado com o discurso da retoma, tornou-se agora duramente sentida pela maioria de nós. A situação de muitas famílias é trágica, facto que contribui para o aumento da marginalidade e para os consequentes riscos de insegurança. Um sentimento de desgraça parece invadir-nos, no meio da sensação de que estamos atolados num lamaçal de degradação e de decadência dos costumes.
A acusação fácil ou o risco de nos refugiarmos no terreno escorregadio das lamentações estéreis pode desviar-nos do problema de fundo: estamos a assistir a uma crise de valores mais ou menos generalizada, que tem a ver com todos e que deve mobilizar o compromisso de cada um de nós.

Precisamos de ser profetas de uma cidadania exigente que agite a perigosa inércia das consciências. Faz falta revitalizar a doutrina conciliar sobre o compromisso dos leigos no mundo que o saudoso Paulo VI sistematizou desta forma magistral: «Pôr em prática todas as possibilidades cristãs e evangélicas escondidas, mas já presentes e operantes nas coisas do mundo». Estas palavras são retiradas da Evangelii Nuntiandi, um notável documento onde se relembra que o campo próprio da actividade evangelizadora dos leigos é «o mundo vasto e complicado da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos mas media e, ainda, outras realidades abertas para a evangelização como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento» (E.N., 70).

Temos, pois, um amplo campo de acção a desafiar o nosso compromisso. Destacarei três frentes particularmente interpeladoras que apelam ao testemunho dos cristãos.
A nossa profecia cívica deve levar-nos a acabar com o sorriso cúmplice, diante dos «ladinos» que fogem ao dever de pagar impostos e ainda por cima se gabam da sua «esperteza». A ilegalidade, mesmo que menor, não pode ser vista como uma acção eticamente anódina, pois acaba por impor uma sociedade onde a única regra é a afirmação daqueles que não têm escrúpulos.

Também o mundo do trabalho profissional precisa de ser questionado. Se se deve denunciar com veemência a exploração dos trabalhadores, é também necessário defender que os direitos inerentes a uma actividade profissional não se podem divorciar dos correlativos deveres de honestidade e dedicação, particularmente no actual contexto em que os desafios da produtividade e da qualidade são decisivos para a saída da crise económica.

O mesmo de diga do campo da urgência da evangelização da sexualidade. A dimensão do fenómeno da pedofilia e doutras perversões deveria levar-nos a perguntar em que medida não seremos coniventes com o actual clima de erotização global que diariamente entra em nossas casas. As novas tecnologias da informação, designadamente a Internet, estão a ser utilizadas, com o nosso silêncio e porventura com a nossa conivência, para incitar a uma visão desresponsabilizada da sexualidade. Impõe-se cultivar um distanciamento crítico dessas armadilhas do hedonismo, através de uma educação testemunhal que ajude à formação de hábitos mais favoráveis a um desenvolvimento harmonioso da pessoa humana.

Se a denúncia e o exemplo são importantes para a «santificação do mundo a partir de dentro», também o é o anúncio da Esperança a partir de um olhar de salvação sobre as realidades terrestres. Sabemos que o homem é um mistério de fragilidade e contradição. Mas, para nossa sorte, este mistério é iluminado pelo amor de um Deus que tem nome e rosto: Jesus Cristo que veio ao nosso mundo não para o condenar mas para o salvar.

[DOIS DEDOS DE CONVERSA]

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Milene. Tonalidades de céu.Segunda-feira, Julho 19. 2004.

"Por Cristo, com Cristo, em Cristo"
misticismo (s. m.)
1.atitude caracterizada pela crença na possibilidade de comunicação directa com o divino ou a divindade;
2.atitude essencialmente afectiva que dá prioridade às crenças intuitivas, que garantiriam revelações inacessíveis ao conhecimento racional;
3.tendência para acreditar em verdades sobrenaturais;
4.vida contemplativa;
5.devoção exagerada;
(De místico +-ismo)
mistério (s. m.)
1.antiquado cerimónia a que, na antiguidade pagã, só podiam assistir os iniciados;
2.RELIGIÃO verdade dogmática da religião católica que a razão humana não pode compreender;
3.RELIGIÃO verdade da doutrina católica meditada em cada uma das quinze séries do rosário;
4.aquilo que tem causa oculta ou parece inexplicável; aquilo que é vago, incerto, incompreensível; enigma;
5.segredo;6.cautela;
7.TEATRO composição teatral da Idade Média, de assunto religioso;
8.plural Açores terreno de lava esponjosa, coberto de musgo e ervas;ar de mistério aspecto misterioso, enigmático;
(Do gr. mystérion, «id.», «cerimónia secreta», pelo lat. mysterìu-, «mistério»)
_____
Recentemente, num jantar animado, comenta alguém ao chegar não achas incrível a onda de misticismo com o Código da Vinci? antes de soar o alerta vermelho de mudança urgente de tema, ainda tive tempo de responder: misticismo é diferente de religião.
O misticismo, como fui procurar no dicionário, é essa atitude afectiva, de confiança (?) em que a intuição me levará ao conhecimento do inacessível. Para mim é fácil, demasiado fácil ficar por aqui - se intuitivamente conheço Deus, então não é preciso procurá-l'O. O misticismo - na minha adolescência, de Marion Zimmer Bradley à numerologia - não me levou a lado nenhum, deixou-me estacada no meu sítio, confortada ou não, com curiosidade ou não, mas no meu sítio.
O desejo de conhecer a Verdade resgatou-me.
Arrumei os livros de misticismo / esoterismo, deixei o Paulo Coelho sossegado e parti noutra aventura.
A religião é dinâmica, pelo próprio vocábulo percebo que ela liga e quando estou ligada já não consigo ficar no mesmo lugar ou, noutra perspectiva, o lugar onde estou ganha um (novo) eixo de referência. Porque ainda é tudo recente (será sempre recente), percebo hoje que sou religada. O problema que encontrei no misticismo encontro-o ainda na minha atitude de "já sei muito" que, quando é confrontada percebe "afinal, ainda não sei".
- menina.. as suas coordenadas, por favor?
Mas a Igreja tem mistério.
Inevitável.
Quem a quiser sem mistério, não a quer - cliché: tens de me aceitar como sou, se queres estar comigo.
Há um Outro que hoje está sob o véu mas que se revelou totalmente.
Há um Outro que não conseguimos adivinhar, que não nos pertence... mas que não deixa de ser Aquele que é.
E esse mistério (também) me prende depois de não ter encontrado na Igreja o grupo utópico dos amigos ideais, ter imaginado muitas coisas, ter ficado abismada com as experiências de Amor verdadeiro que nela existem (e que eu não faço), o que me prende a este Corpo é ainda o desejo de O conhecer.
Hoje retomo a pergunta que é a chave da minha unidade: Quem és Tu?
E o céu "conspira" para que também eu diga "a quem iremos nós, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna"
O céu hoje está azul! Gaudium et Spes

[SÓ NO MISTÉRIO]

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Zé Filipe. A história nunca pode ser travada. Segunda-feira, Outubro 11. 2004.

Continuamos numa de lições de moral, desta vez sobre a história, que nunca pode ser travada.

A história pode ser entendida de muitas formas. Há a “História” que se aprende na escola e nos livros, a “estória” que os pais contam ao deitar, a “história” da nossa vida. Sempre me fez confusão separar a “História” da “história”. E ainda mais essa novidade que é a “estória” em vez da “história”. Porque mais do que categorias separadas, todas estas histórias, pessoais ou colectivas, de povos inteiros ou de pequenos grupos, imaginárias ou reais (e como há histórias imaginárias que conseguem ser tão reais e histórias reais que parecem fantasia...), têm uma coisa em comum mais importante do que as distinções que entre elas fazemos: nelas confluem pedaços de vida, de criatividade, de liberdade, de muitas ou poucas pessoas absolutamente irrepetíveis. A história não é o que acontece (e menos ainda o que aconteceu). É o que as pessoas fazem ou fizeram acontecer, o que as pessoas fazem com o que lhes acontece. Nesse sentido a história é mais tarefa do que fado, mais projecto do que destino. Esta concepção da história resume-se no fundo a dizer que o futuro está nas nossas mãos.

Hoje, a nossa forma de encarar o tempo é linear. O tempo que avança do passado para o futuro, irreversivelmente e irrepetivelmente. Porém, o tempo e a história não foram sempre entendidos de forma linear. O mito do eterno retorno dominou a visão da história praticamente desde as sociedades arcaicas até ao judeo-cristisnismo. Para o mundo arcaico “os objectos e os actos não possuem valor intrínseco autónomo, mas adquirem valor e tornam-se reais somente enquanto participam duma realidade que os transcende: o gesto adquire sentido somente enquanto é repetição da acção primordial”(2). Nesta concepção, o tempo não é linear mas circular. O que fazemos é sempre repetição do que já no passado aconteceu. Platão deu dignidade filosófica a esta ideia na sua metáfora da caverna: o que é verdadeiramente essencial é o início, que Platão identificou com o mundo das ideias.
São os profetas hebreus que introduzem a visão linear do tempo. Se Deus se revela na história, ela é valorizada, superando-se a visão tradicional cíclica, descobrindo um tempo linear que avança em direcção ao futuro. Para as religiões arcaicas a revelação tinha acontecido num tempo mítico, “no instante extra-temporal do início”(1). Para a fé de Israel, Deus é o Senhor da história: “a própria história é o lugar da epifania de Deus e são históricas as formas da sua autocomunicação”(2). Mais tarde, o facto de o próprio Deus se ter feito homem leva ainda mais adiante a noção da pessoa enquanto verdadeiro sujeito histórico. Deus levou o homem tão a sério a ponto de Ele próprio se fazer homem. Assim, a história não é somente o “cenário” de passagem para um retorno ao instante primordial nem tão pouco passo intermédio -- como que um teste -- para entrada num qualquer paraíso. Para os cristãos a salvação não é só a salvação na história nem pela história. A história torna-se história de salvação porque o próprio Deus nela encarnou, assumindo plenamente a condição humana.
Dizer que a história nunca pode ser travada é assim, em primeiro lugar, afirmar a liberdade como motor da história. Essa liberdade que nos foi dada num acto imenso de confiança e de amor de um Deus que levou profundamente a sério a sua criação.

Dizer que a história nunca pode ser travada é também dizer que há um sentido na história que construímos. É acreditar que a nossa história participa nesse projecto de amor a que chamamos Reino de Deus. É acreditar que, apesar de todos os avanços e retrocessos, a evolução da humanidade encaminha-se para o bem. Ou numa linguagem mais teológica: “A entrega de Deus no fazer e desfazer das pessoas é para muitos uma fonte permanente de escândalo. Da história humana pode sair algo bom? Nós dizemos: da história saiu Deus e na sua história encontra-se a possibilidade do nosso encontro com Ele”(3). Este caminhar de Deus ao lado dos homens, foi e é muito muitas vezes mal entendido. Continuamos muito marcados com uma visão mágica de um Deus que intervém alterando o curso dos acontecimentos. Quando aceitamos essa visão, o problema do sofrimento nega a própria existência de Deus. Onde fica então Deus, se o rumo dos acontecimentos está completamente nas nossas mãos? Como dizemos que “da história saiu Deus”, se o rumo dos acontecimentos está completamente nas nossas mãos? Dizemo-lo porque acreditamos que o Reino de Deus, a dimensão de Deus, se encontra já presente e actuante na realidade. Não por passes de mágico nem por acontecimentos miraculosos ou espampanantes, mas por sinais discretos: “O crente não é um esotérico que descobre na realidade significados ocultos. Não é, tão pouco, o pensador que espreme do real gotas de sabedoria. Ele é capaz de ver Deus onde outros só vêem causalidade, processos históricos, equações económicas. É aquele que experimenta a realidade como uma grande parábola de Deus.” (3)
Foi a isto que se chamou teologia dos sinais dos tempos e que inspirou profundamente o Concílio Vaticano II. O olhar da Igreja sobre a realidade não deve ser de condenação, mas de escuta dos sinais da Cidade de Deus já presente no meio da Cidade dos Homens (na metáfora de Santo Agostinho).

Dizer que a história nunca pode ser travada é ainda, e por tudo o que dissemos antes, uma afirmação de esperança. Não a esperança que espera por dias melhores, mas a esperança que nos dinamiza. Não a esperança que pinta a realidade de cor-de-rosa, mas a esperança que não se coíbe de criticar, por saber que as coisas não têm de ser como são. Não a esperança de quem pede a Deus que aconteça, mas a esperança de quem faz por acontecer. Não a esperança dos que lançam anátemas e condenações sobre a realidade, mas a esperança dos que sabem descobrir os valores positivos da sociedade. Não a esperança de quem encontrou Deus nas suas certezas, mas a esperança de quem procura escutar os sinais do seu Reino.
Para mim, esta esperança funda-se no que os cristãos chamam Ressurreição: a resposta de Jesus à injustiça foi fazer-se vítima com as vítimas, numa atitude de denúncia que lhe custou a morte de cruz. “É aqui que se manifesta o máximo amor de Deus e da opção pelos pobres: um Deus que se permite ser vitimado pelas suas próprias criaturas”.(4) Mas Deus não se esquece das vítimas de injustiça -- a Ressurreição de Jesus é, como lhe chamou Frei Bento Domingues, a vingança de Deus. É ela que nos permite esperar contra toda a esperança: mesmo que a morte triunfe, ela não terá a última palavra. Mais ainda, da morte sairá a vida.

[ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(1) - Mircea Eliade, Il mitto dell'eterno ritorno
(2) - Bruno Forte, Teologia da História
(3) - Carlos Barbera, Lectura Crente y Oración
(4) - João Duque, Cristianismo e opção pelos pobres

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António Marujo. O diálogo inter-religioso é só uma moda? Segunda-feira, Julho 19. 2004.

Não é preciso ir muito longe no tempo: há 30 anos, o que se passou em Barcelona, entre 7 e 13 deste mês, na quarta edição do Parlamento das Religiões do Mundo, não seria possível. O diálogo inter-religoso é um processo ainda jovem (pelo menos na sua forma actual, já que, como dizia Raimon Panikkar na entrevista ao “Público” de dia 13, existiram encontros inter-religiosos ao longo da história). Olhando para trás, no entanto, o caminho percorrido em três décadas indicia que a dinâmica está madura. Como também referia Panikkar, este é um processo que já ninguém pode parar.
O que hoje acontece não é uma moda. Tão pouco um caminho para uma única religião ou um qualquer movimento sincrético. O diálogo inter-religioso tem uma dimensão clara de encontro pessoal e institucional — visível nos encontros promovidos pela Comunidade de Santo Egídio, por exemplo —, mas tem vindo a construir também um património plural, espiritual e teológico que lhe dá profundidade e consistência.
Quem, há 30 anos, poderia imaginar o Papa católico a rezar com líderes de todos os credos, como aconteceu já em Assis por três vezes (a primeira delas em 1986) — mesmo contra a desconfiança de gente do Vaticano? Quem poderia pensar que, numa iniciativa como a do Parlamento das Religiões, gente de credos diferentes se olha nos olhos, criticando-se mutuamente, auto-criticando-se e afirmando sempre que o caminho é continuar a encontrar-se?
Este não é, obviamente, um percurso fácil. Nem isento de riscos. É, talvez, o debate inter-cultural mais exigente do mundo contemporâneo: porque mexe com a identidade mais profunda do ser humano, organizada em comunidades e, por vezes, institucionalizada em sistemas complexos.
Qualquer processo de diálogo mete sempre medo. Porque, se verdadeiro, nele todos os participantes têm direito à palavra e ninguém sabe o que cada um fará dessa palavra. Medo também de que, ao conhecer-se melhor o outro, as certezas próprias sejam abaladas. E medo ainda porque é mais fácil que quem detém o poder (político, económico, religioso ou outro) se imponha perante o mais fraco.
É o medo do ouriço, de quem, sentindo a ameaça da perda de identidade, leva a atacar quem dele se tenta aproximar. É, no caso religioso, a atitude que leva tantos a radicalizar-se querendo anular a (aparente) diferença — se necessário for, matando em nome da sua crença. Esse é o risco maior: o do fundamentalismo que hoje atravessa todos os credos religiosos.
Faz sentido, por isso, o postulado proposto há mais de dez anos pelo teólogo Hans Küng: só haverá paz no mundo com paz entre as religiões; e só haverá paz entre as religiões com este diálogo fecundo, que não anula as diferenças mas procura conhecer o outro e busca chegar a um consenso sobre uma ética universal comum.
Dialogar implica, antes de mais, escutar e conhecer o que o outro tem para propor. No campo religioso, isso é cada vez mais verdade. Aliás, olhando para a história, vê-se que os grandes mestres espirituais, profundamente convictos da sua verdade, foram os que mais caminharam ao encontro da diferença. Basta pensar em Francisco de Assis, quando vai ao encontro do sultão, num tempo em que as cruzadas eram a linguagem dos cristãos para resolver os seus diferendos com o mundo islâmico. Ou no Mahtama Gandhi, cuja prática política da não-violência acolhia princípios do hinduísmo e do cristianismo.

O diálogo inter-religioso tem, pela frente, vários desafios: desde logo, o de ajudar a atenuar os problemas que, diariamente, matam milhões de pessoas sem razão (fome, doenças curáveis, falta de água potável, acesso a cuidados de saúde, ausência de condições mínimas de sobrevivência). Depois, o de saber, com paciência e perseverança, integrar os que se sentem tentados pela verdade única, cuja única saída é o desespero e a violência. Finalmente, o de desenvolver uma reflexão (política, social, filosófica, teológica) capaz de abrir caminhos novos de espiritualidade e humanidade, onde aconteça o encontro efectivo.
O que se passou no parlamento realizado em Barcelona foi mais um bom exemplo deste caminho. Sempre com algum folclore inevitável neste tipo de acontecimentos, houve encontros pessoais e compromissos concretos, oração e profundidade de debate. Houve também experiências únicas, como a do almoço diário oferecido pela comunidade sikh de Birmingham a mais de cinco mil ou seis mil pessoas, e que constituía uma oportunidade de conhecer outros modos de viver e de sentir, conversando com o vizinho que se sentava ao lado.
O Parlamento das Religiões do Mundo tem ainda uma acentuada marca americana – por exemplo, no leque de participantes – mas a realização da quarta edição em Barcelona constituiu um passo fundamental para que o processo se alargue. Aliás, se o compararmos com os encontros anuais inter-religiosos promovidos pela Comunidade de Santo Egídio (Lisboa recebeu a edição de 2000), as diferenças estão sobretudo na forma. O Parlamento (para já, com três edições, num intervalo de cinco a seis anos entre cada uma delas) acolhe sugestões de quem quer que seja, o que é bom; mas multiplicam-se os debates e as iniciativas incluindo, segundo ouvi, também alguns com pouca qualidade. Já os encontros de Santo Egídio (uma realização anual), preparados por um pequeno grupo de pessoas, conseguirão mais qualidade de debate, mas restringem a participação.
De resto, o essencial está nas semelhanças inevitáveis no objectivo e na intenção: a ideia de sensibilizar e juntar pessoas de credos diferentes a debater modos de construir um mundo mais justo e pacífico. O que tem uma outra consequência decisiva: retirar do centro do debate o aspecto estritamente “religioso”, e tratando antes do(s) modo(s) de as religiões se colocarem ao serviço do bem e da fraternidade – afinal, os grandes princípios de todos os credos.
Não é de estranhar, por isso, que o Parlamento das Religiões se tenha debruçado sobre questões como a dívida externa do Terceiro Mundo, o acesso à água potável (um dos problemas mais graves do futuro imediato e, segundo muitas opiniões, causa das próximas guerras), o drama dos refugiados ou a sida. Precisamente no momento em que, em Banguecoque, a última conferência mundial sobre a sida terminava com uma sensação de decepção, os crentes reunidos em Barcelona contavam como se envolviam no apoio aos doentes (alguns infectados testemunharam como sentiam a solidão) e pediam a intensificação da informação e um melhor acesso aos medicamentos.
Pela importância cultural de que este processo se reveste, o diálogo inter-religioso deve ser promovido, estimulado, participado e aprofundado — mesmo pela sociedade civil. É lamentável, por isso, que Portugal tenha passado ao lado de mais este acontecimento, quer pelo reduzido número de portugueses em Barcelona, quer pelo desprezo que a generalidade dos meios de comunicação votou ao acontecimento.
O diálogo inter-religioso é decisivo para as religiões, sim. Mas também para a humanidade, tão carente de se reencontrar consigo mesma.

[PÚBLICO]

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Marco Oliveira. Para que serve o Simbolismo. Segunda-feira, Junho 20. 2005.

Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.
Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuídas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.
Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.
Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

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NOTA [1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.


[POVO DE BAHÁ]

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Luís Almeida. Comentário à... Segunda-feira, Setembro 20. 2004.

... Carta aos bispos da Igreja Católica sobre a colaboração do homem e da mulher na Igreja e no mundo
(recebido por e-mail)

É este o título dum documento assinado pelo cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cuja leitura atenta se recomenda vivamente, não tanto pelo que diz, mas talvez e sobretudo pelo que (ainda) não diz, mas que já se vai percebendo por entrelinhas e na preocupação de abordar estes assuntos e porque demonstra o rumo que (já) se prevê incontornável em relação à “colaboração (do homem e) da mulher na Igreja…”
É a este documento que me proponho fazer um comentário, mas há sempre um receio em dar uma opinião sobre assuntos de Igreja, parece que se está a entrar em assuntos de Fé, onde podemos influenciar negativamente outras pessoas e dizer disparates que estão mais que demonstrados e evidentes, para não falar na hipótese de dizer heresias ou blasfémias, ou correr o risco de ser excomungado. Pois bem, dando assim um pouco de liberdade à pena, quer dizer ao teclado, e indo um pouco ao sabor do balanço, aceitando o desafio que o texto nos provoca e fazendo uma leitura como se estivesse a ser demonstrado o contrário…
Penso que nunca tinha lido um documento assinado pelo Cardeal Joseph Ratzinger que, criticado por uns e elogiado ou temido por outros, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, se dizia que estava muito bem posicionado para substituir o actual Papa João Paulo II e que conduzia aquela Congregação com mão de ferro, talvez comparável a um possível actual presidente do tribunal central de Inquisição soft dos tempos modernos, mas frente ao qual ninguém desejava ficar na lista negra.
Pois agora com
este documento se verifica que o Cardeal Ratzinger argumenta com grandes conhecimentos, concretamente na área antropológica e bíblica, é um homem que reflecte nos actuais problemas da Igreja e que parece pensar bastante na questão das mulheres, o que, já de si, é (um muito) bom sinal.
Nesta
Carta vem dizer aos Bispos de todo o mundo (é a eles que esta carta se dirige) a vossa posição deve continuar a ser esta, como se se temesse que pudessem começar a vir reflexões ou opiniões diferentes. E é aqui que se podem começar a ler as entrelinhas.

Mas vamos ainda um pouco atrás. A Igreja é (continua a ser) uma Organização que tem na sua base e estrutura o homem celibatário. O sexo ou mais exactamente o prazer sexual é algo com que a Igreja ainda se debate com alguns preconceitos ou tabus a resolver. A mulher é um ser criado à imagem e semelhança de Deus - tal como o homem - e com igual dignidade e com os mesmos direitos e deveres na família, na sociedade, no trabalho, na política… e na Igreja também é quase igual!
O casamento ainda tem riscos imponderáveis. Demasiados!
A Igreja, como Organização e estrutura, é mantida apenas por homens, que a mantém e da qual se mantêm, num equilíbrio com um cavalheirismo suficiente para se manter, com algumas estaladelas de verniz e escapadelas por aqui ou por ali, ainda assim compreensíveis no ser humano.
Em Cristo o poder tem um sentido do serviço! No homem o poder tem a tentação do domínio do outro… e isso é mau! É mau no homem em relação à mulher, tal como é mau na mulher em relação ao homem. Ou em qualquer outra situação, quer seja no casamento, na sociedade, no trabalho, na política, na Igreja, etc. Isto é mau e não é preciso complicar muito as coisas com elaborados argumentos para se perceber que é mau.
É fácil carregar a cor da tinta e escurecer a leitura (fora do contexto) que se faça do passado sublinhando apenas o domínio exercido pelo homem sobre a mulher, por exemplo no casamento, já os domínios da mulher sobre o homem serão mais difíceis de perscrutar, mas não deixarão, por isso, de ser violentos e desumanos. E ambos são maus!

Pertencemos a uma cultura em que a mulher sempre foi mais da casa e dos filhos e o homem mais da rua e do sustento. O emprego desafiou a mulher para a rua e a sua participação no trabalho e na sociedade pô-la ao lado do homem, desafiando-o no seu espaço, (e em muitos casos superando-o) e autonomizando-a no sustento. Perderam importância a casa e os filhos. A mulher sente-se mais igual ao homem, fazendo disso coluna da sua realização e felicidade, e o que perdeu… é significativo?
Na sua luta e conquista ainda falta à mulher ser padre ou bispo, são as próximas barreiras a vencer… Visto deste modo é pobre! Parece um argumento de domínio, de poder, não de serviço. Parece uma conquista, com a derrota de alguém.

No
documento que nos é dado ler faz-se o elogio da mulher como ser humano, igual ao homem, criada por Deus e, tal como o homem, criada à sua imagem e semelhança. Iguais em dignidade, em direitos e deveres! Colocada assim, e ainda bem, ao lado do homem, tal como Deus a criou.
Parece soar a oco não reconhecer essa igualdade na Igreja.
É esta a contradição do documento. A argumentação está lá. A conclusão é que (ainda) falta. Ao centrar o problema, no ponto 2, o autor parece dizer: as mulheres não deviam ser tão arrogantes, deviam ser mais humildes.
No ponto 5, nos argumentos fundamentais da antropologia bíblica, pode-se fazer uma leitura paralela, entre linhas, como sendo a justificação de que os padres deveriam casar. O quadro afinal parece outro daquele que se desejava pintar.
Parece sempre fácil ler aqueles argumentos como se eles estivessem e ser usados para demonstrar a posição contrária. Afinal o que testemunha Jesus Cristo, o que é seu sinal; o que demonstra o amor de Deus pelo homem… Pode ver-se espelhado no casamento, no homem ou na mulher…«E serão meus discípulos»...!
Afinal quando Cristo disse «fazei isto em memória de mim», não penso que estivesse a excluir as mulheres e imagino no futuro poder ser uma mulher ou um homem ou mesmo um casal a fazê-lo conjuntamente, na Paróquia ou em família na celebração do aniversário do seu Matrimónio. Uma comunidade que se reúne para celebrar e testemunhar a sua Fé, em nome de Cristo!
Aqui d’el Rei que o Cristianismo pode saltar para fora da Igreja!
Ou será que a Igreja (ainda) poderá ser diferente?

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Afonso Cruz. Quatro grandes alegorias. Segunda-feira, Outubro 11. 2004.

Uma grande alegoria que Comenius usa na sua “Didáctica magna” é a vida da criança no útero materno, onde grande parte da sua actividade e crescimento se dedica à vida futura e nela encontra explicação: “a nossa primeira vida desenvolve-se nas vísceras maternas. Mas em proveito de quem? Acaso em proveito de si mesma? De modo algum. Trata-se apenas de formar convenientemente um pequenino corpo para servir de habitação e de instrumento à alma, para comodidade e uso da vida seguinte, a qual vivemos à luz do sol”. Comenius afirma existirem três espécies de vidas e suas respectivas moradas que são o útero materno, a terra e o céu. Sendo as duas primeiras preparações para a vida seguinte, culminando na terceira que é eterna: “A primeira vida de que falei é uma preparação para a segunda; a segunda para a terceira; a terceira, de sua própria natureza, nunca termina.”
Guitton usará esta alegoria, no post-scriptum das suas “Cartas abertas”, dum modo mais expressivo, comparando-se a um embrião no útero da sua mãe, que pusesse a si próprio problemas insolúveis: “Para que servem estas mãos que não têm nada para apalpar? Estes pulmões que não têm nada para respirar? Estes olhos que não têm nada para ver?” e seguidamente remata com as palavras do Apocalipse: “o que seremos ainda não apareceu”. A resposta para o que nos parece inútil hoje está no futuro. A utilidade dos olhos, dos pulmões e das mãos, revela-se após o nascimento.
Esta alegoria foi magistralmente usada sob diversas vestes e por diversos autores. As mais inspiradas parecem-me as de Papini e do incontornável Rumî.
Giovanni Papini, no seu livro “Gog”, conta-nos sobre um homem, o professor Killaloe, cujo sentido cronológico, segundo o seu ponto de vista, da História Universal, deveria ser invertido, ou seja, a História deveria ser contada do presente para o passado e não ao contrário como usualmente se faz: “O meu método que consiste em retroceder do presente para o passado é o mais lógico, o mais natural, o mais satisfatório. É o único que torna possível uma interpretação dos factos humanos. Observe que um acontecimento não adquire a sua luz e a sua importância passados decénios ou talvez séculos. (…) O depois é que explica o antes e não vice-versa. (…) Para compreender um grande homem é preciso referir, necessariamente, o dia da sua morte. A vida de César começa, de facto, no dia em que ele foi assassinado. Porque foi assassinado? Aqui podemos encaminhar-nos directamente para as suas ambições, as suas campanhas, a sua ditadura”.
Jalaluddin Rumî, no Masnavi, usa uma analogia idêntica à de Papini, mas é mais contundente:
“Aparentemente, o ramo é a causa do fruto,
Se não fosse impelido pelo desejo do fruto,
O jardineiro jamais teria plantado a árvore.
Portanto, na realidade, a árvore nasceu do fruto,
Embora, aparentemente, o fruto tenha nascido da árvore”


A segunda grande alegoria que quero salientar é a que Nicolau de Cusa descreve no “De visione Dei”. Já todos, em alguma altura ou outra da vida, nos deparámos com aquelas pinturas onde determinada figura lá representada parece olhar-nos fixamente. Não importa se nos colocamos à esquerda ou à direita, se nos afastamos ou aproximamos, o olhar da dita figura parece seguir-nos implacavelmente. Mas se outras pessoas lá estiverem dirão o mesmo, e a que estiver à esquerda achará que a figura a olha fixamente, e do mesmo modo pensará aquele que se colocou à direita ou em qualquer outro lugar da sala. “Como é possível que olhe, ao mesmo tempo, todos e cada um”, interroga-se Nicolau de Cusa. O olhar da figura, estando imóvel, parece no entanto mover-se e acompanhar quem o olha. “Deus (…) recebeu o nome de theos exactamente porque tudo vê. Por isso, se pudesse aparecer o olhar pintado na imagem a olhar para todas as coisas e para cada uma delas, então, porque esse seria o olhar perfeito, não poderia convir verdadeiramente à verdade menos do que convém aparentemente ao ícone ou ao fenómeno”.
Nicolau aprofundará esta alegoria extensamente, dedicando-lhe todo o livro. Mas é, em traços gerais e evitando complicações desnecessárias, sobre o estranho facto de encontrarmos nestes tipos de quadros um casamento perfeito entre o particular e o universal que devemos reter a nossa atenção e possibilidades analógicas: o olhar que olha a um, sem, contudo, deixar de olhar o todo e todos ao mesmo tempo; o olhar que olha cada um individualmente e a todos simultaneamente.
Uma analogia que salta à vista é de Deus ter um momento histórico e ser Absoluto sem perder nenhuma das suas características (como o olhar momentâneo e particular da figura do quadro não deixa de ser geral e global); ser plenamente Deus em determinado sentido particular ou histórico (como a vida de Cristo) sem contudo perder os seus atributos absolutos, ser ao mesmo tempo essência e manifestação.

«Contam os homens dignos de fé (mas só Alá é omnisciente e poderoso e misericordioso e não dorme) que houve no Cairo um homem possuidor de riquezas, mas tão magnânimo e liberal que perdeu-as todas menos a casa de seu pai e se viu forçado a trabalhar para ganhar o pão. Trabalhou tanto que o sono o venceu uma noite debaixo duma figueira do seu jardim e viu no sonho um homem todo encharcado que tirou da boca uma moeda de ouro e lhe disse: “A tua fortuna está na Pérsia, em Isfaján; vai lá buscá-la.” Na madrugada seguinte acordou e empreendeu a longa viagem e enfrentou os perigos dos desertos, dos navios, dos piratas, dos idólatras, dos rios, das feras e dos homens. Chegou finalmente a Isfaján, mas no recinto dessa cidade surpreendeu-o a noite e deitou-se a dormir no pátio duma mesquita. Havia junto à mesquita, uma casa e pelo decreto de Deus Todo-Poderoso, uma quadrilha de ladrões atravessou a mesquita e meteu-se na casa, e as pessoas que estavam a dormir acordaram com o barulho dos ladrões e gritaram por socorro. Os vizinhos também gritaram, até que o capitão dos guardas-nocturnos daquelas redondezas acudiu com os seus homens e os bandoleiros fugiram pelo terraço. O capitão mandou revistar a mesquita e nela encontraram o homem do Cairo e deram-lhe tantos açoites com varas de bambu que esteve às portas da morte. Ao fim de dois dias, recuperou os sentidos na prisão.
O capitão mandou-o buscar e disse-lhe: “Quem és tu e qual é a tua pátria?” O outro declarou: “Sou da famosa cidade do Cairo e o meu nome é Mohamed El Magrebí.” O capitão perguntou-lhe: “O que te trouxe à Pérsia?” O outro optou pela verdade e disse-lhe: “Um homem ordenou-me num sonho que viesse a Isfaján, porque aí estava a minha fortuna. Já estou em Isfaján e vejo que essa fortuna que me prometeu devem ser os açoites que tão generosamente me deste.”
«Perante semelhantes palavras, o capitão riu-se até mostrar os dentes do siso e acabou por lhe dizer: “Homem desatinado e crédulo, três vezes sonhei com uma casa na cidade do Cairo em cujo fundo há um jardim, e no jardim um relógio de sol e depois do relógio de sol uma figueira e a seguir à figueira uma fonte, e debaixo da fonte um tesouro. Não dei o menor crédito a essa mentira. Tu contudo, aborto duma mula com um demónio, vagueaste de cidade em cidade, somente por acreditar num sonho. Que eu não volte a ver-te em Isfaján. Toma estas moedas e vai-te embora.”
«O homem guardou as moedas e regressou à pátria. Debaixo da fonte do seu jardim (que era do sonho do capitão) desenterrou o tesouro. Assim Deus o abençoou e o recompensou e exaltou. Deus é o Generoso, o Oculto.» (“História universal da infâmia”, Jorge Luis Borges, ed. Assírio & Alvim)
A alegoria que serviu de base ao conto acima (retirado, pelo Borges, das “1001 noites”) foi contada e recontada em diversas culturas e de diferentes modos. Na forma como transcrevi acima, e salvaguardando ligeiras diferenças contextuais e acidentais, esta estória faz parte do conto tradicional português, como também faz parte do “Masnavi” do Rumî. Assemelha-se, no conteúdo analógico, a uma imagem que o mestre zen Ch’ing Yüan contou:
“Há muito tempo atrás, antes de começar a praticar o Zen, eu via uma montanha como se fosse uma montanha e um rio como se fosse um rio. Depois de começar a praticar o zen, pude alcançar um certo grau de despertar. Então quando contemplava uma montanha, já não era uma montanha, e, quando via um rio, não se tratava de um rio. Agora que conheço o zen, vejo uma montanha simplesmente como uma montanha e um rio simplesmente como um rio.”
Todos estes contos obedecem ao problema da proximidade e da distância, tanto física e espacial, quanto cronológica e psicológica, culminando num retorno espirálico à origem. Não se volta ao ponto de partida propriamente, sobretudo porque nos tornamos diferentes: a pessoa que regressa não é a mesma que parte.
A nostalgia do Paraíso que, de algum modo, orienta todos os homens, crentes ou ateus (como diria Pascal, todo o homem procura a felicidade, mesmo quando pretende matar-se), é sempre referida como um retorno, uma reviravolta da multiplicidade para a unidade, do mundo para Deus. O Antigo e o Novo Testamentos são ricos em alegorias e metáforas que evidenciam este périplo em espiral que todos nós, mal ou bem e inevitavelmente, fazemos da vida.
Esta alegoria também sugere uma reviravolta sobre si mesmo e um olhar para dentro, depois de uma busca no espaço exterior, o do mundo. Um comentário à Torah, diz que o Faraó quando manda matar os recém-nascidos, procurava o seu inimigo fora do seu palácio, quando, na verdade, ele (Moisés) vivia dentro da sua casa. É portanto dentro de nós que o comentarista sugere que procuremos o inimigo.

Abbott Abbott escreveu um livro chamado Flatland (“O país plano”, ed. Gradiva), há mais de cem anos. Não tendo, este livro, a visibilidade merecida na altura da sua edição, foi posteriormente fonte de inspiração a inúmeros autores, pensadores e cientistas (Ouspensky, Rudy Rucker, Hinton, Steiner, Ian Stewart, etc.). Esta obra, de leitura fácil e fluida, trata simplesmente das aventuras de um quadrado: «Chamo Flatland ao mundo em que vivo, não porque seja esse o seu nome, mas para vos tornar mais clara a sua natureza, felizes leitores, que tendes o privilégio de habitar o Espaço.
Imaginai uma imensa folha de papel sobre a qual Linhas, Triângulos, Quadrados, Pentágonos, Hexágonos e outras figuras, em vez de estarem fixas nos seus lugares, se deslocam livremente sobre a superfície, sem dela poderem sair, quer por cima quer por baixo, exactamente como sombras – embora duras e de contornos luminosos –, e tereis uma ideia muito correcta do país e dos seus habitantes. Ainda há poucos anos teria dito “o meu universo”, mas entretanto o meu espírito evoluiu para uma visão superior das coisas.»
Este quadrado que vive uma vida comum e banal, é um dia visitado por uma esfera, um ser tridimensional que o instrui e explica que existe mais uma dimensão que o quadrado está impossibilitado de ver e conhecer, por limitações inerentes. O mero aparecimento da Esfera que atravessa o país plano é já um prodígio e um facto inexplicável para qualquer cidadão da Flatland.
Abbott vai com esta alegoria escavar e criar inúmeras e profundas possibilidades de interpretação da sua novela, possibilidades essas que vão desde a sátira social, à religião, à Física. O Quadrado, herói desta aventura, certo dia coloca a Esfera sob a possibilidade da existência de uma quarta dimensão espacial, ideia que a Esfera rejeita de imediato, acusando o Quadrado de demência (mas é nesta alegada insânia que a alegoria da Flatland encontra a sua melhor expressão e analogia, sugerindo a existência de várias dimensões e aproximando-se da Física moderna, bem como da Religião).
O livro de Abbott, que sugere a existência de várias dimensões, é ele próprio um livro com várias dimensões.


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Bernardo Sanchez da Motta. Santo Graal. Segunda-feira, Setembro 27. 2004.

Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes
Primeira página do pergaminho original de Chréstien de Troyes (†1185), Perceval, ou Le Conte du Graal

Sobre o Santo Graal poder-se-ia escrever um número infindável de páginas. Vou cingir-me à autoridade doutrinária de René Guénon, que como ninguém, soube expor com clareza, lucidez e conhecimento de causa, as complexidades do simbolismo gráalico. Neste artigo, Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, publicado originalmente em Agosto de 1925 na revista Regnabit, Guénon tece esclarecedores paralelos entre o simbolismo do Santo Graal e o conceito do Sagrado Coração de Jesus (as ilustrações não constam do texto original - foram adicionadas por mim):


O Sagrado Coração e a Lenda do Santo Graal
Num dos seus últimos artigos o senhor Charbonneau-Lassay assinalou muito justamente, como ligando-se ao que poderíamos chamar a «pré-história do Coração Eucarístico de Jesus», a lenda do Santo Graal, escrita no século XII, mas bem anterior pelas suas origens, pois ela é na realidade uma adaptação cristã de tradições célticas muito antigas. A ideia desta aproximação já nos tinha surgido na ocasião do artigo anterior, extremamente interessante do ponto de vista no qual nos colocamos, intitulado «O coração humano e a noção do Coração de Deus na religião do antigo Egipto», do qual recordamos a passagem seguinte: «Nos hieroglifos, escritura sagrada onde frequentemente a imagem da coisa representa a própria palavra que a designa, o coração foi figurado por um só emblema: o vaso. O coração do homem não é com efeito o vaso onde a sua vida se elabora continuamente com o seu sangue?». É este vaso, tomado como símbolo do coração e substituindo-se a este na ideografia egípcia, que nos fez pensar imediatamente no Santo Graal, ainda mais que neste último, para lá do sentido geral do símbolo (considerado aliás sob os seus dois aspectos divino e humano), vemos ainda uma relação especial e muito mais directa com o próprio Coração de Cristo.

O símbolo egípcio para a palavra 'coração'
Um vaso: o símbolo egípcio para a palavra "coração" ("yb", "yeb", ou "ab")

Com efeito, o Santo Graal é a taça que contém o precioso sangue de Cristo, e que o contém mesmo duas vezes, porque ele serviu primeiro à Ceia, e que de seguida José de Arimateia ali recolheu o sangue e a água que saiam da ferida aberta pela lança do centurião no flanco do Redentor. Esta taça substitui-se então de certo modo ao Coração de Cristo como receptáculo do seu sangue, ela toma por assim dizer o seu lugar e torna-se como um equivalente simbólico; e não é ainda mais notável que, nestas condições, o vaso tenha sido antigamente um emblema do coração? Para mais, a taça, sob uma forma ou sob outra, desempenhou, asssim como o próprio coração, um papel muito importante em várias tradições antigas; e sem dúvida que sucederia o mesmo com os Celtas, porque é deles que veio o que constituiria a própria base ou pelo menos a trama da lenda do Santo Graal. É lamentável que não se possa saber com precisão qual era a forma desta tradição anterior ao Cristianismo, como sucede de resto com tudo o que diz respeito às doutrinas célticas, para as quais o ensinamento oral foi o único meio de transmissão usado; mas há por outro lado bastantes concordâncias para que nos possamos pelo menos fixar sobre o sentido dos principais símbolos que aí figuravam e é isto, em soma, que é essencial.

A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena'
A suposta lança do centurião Longinus, conservada em Viena

Mas voltemos à lenda, sob a forma em que ela chegou até nós; o que ela diz mesmo sobre a origem do Graal é muito digno de atenção: esta taça teria sido talhada pelos anjos numa esmeralda caída da fronte de Lúcifer aquando da sua queda. Esta esmeralda faz lembrar de forma evidente a «urnâ», a pérola frontal que, na iconografia hindu, toma o lugar do terceiro olho de Shiva, representando o que podemos chamar de "sentido da eternidade". Esta aproximação parece-nos mais adequada que outra qualquer para esclarecer perfeitamente o simbolismo do Graal; e podemos mesmo apercebermo-nos de uma relação adicional com o coração, que é, para a tradição hindu, como para tantas outras, mas se calhar de forma ainda mais nítida, o centro do ser integral, ao qual, consequentemente, este "sentido da eternidade" deve estar directamente associado.

É dito de seguida que o Graal foi confiado a Adão no Paraíso terrestre, mas que, aquando da sua queda, Adão o perdeu por sua vez, porque ele não o podia transportar com ele quando foi expulso do Éden; e isso torna-se ainda mais claro com o sentido que acabámos de indicar. O homem, separado do seu centro original pela sua própria falta, encontra-se doravante preso na esfera temporal; ele não pode regressar ao ponto único do qual todas as coisas são contempladas sob o aspecto da eternidade. O Paraíso terrestre, com efeito, era verdadeiramente o «Centro do Mundo», por todo o lado assemelhado simbolicamente ao Coração divino; e não podemos dizer que Adão, enquanto esteve no Éden, vivia verdadeiramente no Coração de Deus?


Ícone ortodoxo
Ícone ortodoxo - Cristo no centro da taça, centrado em Maria

O que se segue é ainda mais enigmático: Seth consegue reentrar no Paraíso terrestre e pode assim recuperar o precioso vaso; ora, Seth é uma das figuras do Redentor, para mais que o seu próprio nome exprime ideias de fundamento, de estabilidade, e anuncia de certa forma a restauração da ordem primordial destruída pela queda do homem. Havia então desde logo pelo menos uma restauração parcial, no sentido em que Seth e os que depois dele possuíram o Graal podiam por este mesmo facto estabelecer, em qualquer parte da terra, um centro espiritual que fosse como uma imagem do Paraíso perdido. A lenda, aliás, não diz nem como nem por quem o Graal foi conservado até à época de Cristo, nem como foi assegurada a sua transmissão; mas a origem céltica que lhe reconhecemos deve provavelmente dar a entender que os Druídas tomaram parte dela e deveriam ser contados entre os conservadores regulares da tradição primordial. Em todo o caso, a existência de um tal centro espiritual, ou mesmo de vários, simultaneamente ou sucessivamente, não parece poder ser posta em causa, não obstante o que quer que se pense da sua localização; o que é de notar, é que se associava por todo o lado e sempre a estes centros, entre outras designações, a de «Coração do Mundo», e que em todas as tradições, as descrições a eles associadas são baseadas num simbolismo idêntico, que é possível seguir até nos detalhes mais precisos. Isto não mostra suficientemente que o Graal, ou o que este representa, tinha já, anteriormente ao Cristianismo, e mesmo em todos os tempos, um laço dos mais estreitos com o Coração divino e com o «Emmanuel», queremos dizer com a manifestação, virtual ou real segundo as épocas, mas sempre presente, do Verbo eterno no seio da humanidade terrestre?

O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda
O rei Artur rodeado dos Cavaleiros da Távola Redonda - o Santo Graal está no meio da mesa

Após a morte de Cristo, o Santo Graal foi, segundo a lenda, transportado para a Grã-Bretanha por José de Arimateia e Nicodemos; começa então a desenrolar-se a história dos Cavaleiros da Távola Redonda e das suas explorações, que não pretendemos seguir aqui. A Távola Redonda estava destinada a receber o Graal quando um dos Cavaleiros o conseguisse conquistar e o trouxesse da Grã-Bretanha à Armórica; esta mesa é também um símbolo verdadeiramente muito antigo, um daqueles que foram associados à ideia dos centros espirituais aos quais aludimos. A forma zodiacal da mesa está aliás ligada ao «ciclo zodiacal» (outro símbolo que mereceria ser estudado de forma mais especial) pela presença à volta dela de doze personagens principais, particularidade que se encontra na constituição de todos os referidos centros. Sendo assim, não podemos ver no número dos doze Apóstolos, um sinal, entre tantos outros, da perfeita conformidade do Cristianismo com a tradição primordial, à qual o nome de «pré-cristianismo» conviria tão exactamente? E, por outro lado, a propósito de Távola Redonda, fizemos notar uma estranha concordância nas revelações simbólicas feitas a Marie des Vallées (ver «Regnabit», Novembro de 1924), onde era mencionada «uma mesa redonda de jaspe, que representa o Coração de Nosso Senhor», ao mesmo tempo que se trata de «um jardim que é o Santo Sacramento do altar», e que, com as suas «quatro fontes de água viva», se identifica misteriosamente ao Paraíso terrestre; não estamos de novo perante uma confirmação impressionante e inesperada das relações que atrás assinalámos?

Naturalmente, estas rápidas notas não teriam a pretensão de constituir um estudo completo sobre uma questão tão pouco conhecida; devemos limitar-nos de momento a dar simples indicações, e damo-nos conta de que há considerações que, numa primeira abordagem, são susceptíveis de surpreender um pouco aqueles que não estão familiarizados com as tradições antigas e com os seus modos habituais de expressão simbólica; mas reservamos o seu desenvolvimento e também justificá-los mais amplamente, a artigos onde pensamos poder abordar igualmente outros pontos que não são menos dignos de interesse.
Enquanto esperamos, mencionamos ainda, no que diz respeito à lenda do Santo Graal, uma estranha complicação da qual ainda não nos tinhamos dado conta até agora: por uma destas assimilações verbais que desempenham frequentemente no simbolismo um papel não negligenciável, e que aliás têm talvez razões mais profundas que se imaginaria à primeira vista, o Graal é por vezes um vaso ("grasale") e um livro ("gradale" ou "graduale"). Em certas versões, os dois sentidos encontram-se mesmo estreitamente relacionados, porque o livro torna-se então uma inscrição traçada por Cristo ou por um anjo na própria taça. Não pretendemos actualmente tirar disto qualquer conclusão, se bem que há aproximações fáceis de fazer com o «Livro da Vida» e com certos elementos do simbolismo apocalíptico.
Acrescentamos também que a lenda associa o Graal a outros objectos, e nomeadamente a uma lança, que, na adaptação cristã, não é outra senão a lança do centurião Longinus; mas o que é ainda mais curioso, é a pré-existência desta lança ou de um qualquer dos seus equivalentes como símbolo de certa forma complementar da taça nas tradições antigas. Por outro lado, nos Gregos, a lança de Aquiles podia curar as feridas que ela teria causado; a lenda medieval atribui precisamente a mesma virtude à lança da Paixão. E isto lembra-nos uma outra semelhança do mesmo género: no mito de Adónis (cujo nome, de resto, significa «o Senhor»), quando o herói é ferido de morte por uma presa de um javali (substituindo aqui a lança), o seu sangue, espalhando-se pela terra, provoca o nascimento de uma flor; ora, o senhor Charbonneau assinalou «uma peça em ferro para hóstias, do século XII, onde vemos o sangue das feridas do Crucificado tombar em gotículas que se transformam em rosas, e o vitral do século XIII da Catedral de Angers, onde o sangue divino, correndo em riachos, se desenvolve também sob formas de rosas». Poderemos dentro em breve falar de novo do simbolismo floral, visto sob um aspecto um pouco diferente; mas, qualquer que seja a multiplicidade dos sentidos que apresentam todos os símbolos, tudo isto se completa e se harmoniza perfeitamente, e esta mesma multiplicidade, longe de ser um inconveniente ou um defeito, é pelo contrário, para aqueles que a sabem compreender, uma das vantagens principais de uma linguagem muito menos estreitamente limitada que a linguagem comum.


Procissão no castelo do Graal
Procissão no castelo do Graal

Para terminar estas notas, indicaremos alguns símbolos que, em diversas tradições, substituem por vezes a taça, e que lhe são no fundo idênticas; não se trata de sair do nosso assunto, porque o próprio Graal, como nos podemos facilmente dar conta por tudo o que acabámos de dizer, não tem na sua origem outro significado que aquele que tem o vaso sagrado onde quer que este se encontre, e que nomeadamente, no Oriente, a taça sacrificial que contém o Soma védico (ou o Haoma mazdeísta), esta extraordinária «prefiguração» eucarística sobre a qual voltaremos talvez a falar noutra ocasião. O que representa propriamente o Soma é a «bebida da imortalidade» (o Amritâ dos Hindus, a Ambrósia dos Gregos, duas palavras etimologicamente semelhantes), que confere ou restitui àqueles que o recebem com a disposição requerida, este «sentido da eternidade» do qual se falou anteriormente.

Um dos símbolos do qual queremos falar é o triângulo cuja ponta está dirigida para baixo; é como um tipo de representação esquemática da taça sacrificial, e pode ser encontrada com este título em certos yantras ou símbolos geométricos da Índia. Por outro lado, o que é assaz notável do nosso ponto de vista, é que a mesma figura é igualmente um símbolo do coração, do qual ela reproduz aliás a forma simplificando-a; o «triângulo do coração» é uma expressão corrente nas tradições orientais. Isto leva-nos a uma observação que tem também o seu interesse: é que a representação do coração inscrito num triângulo assim disposto nada tem que não seja legítimo, quer se trate de um coração humano ou do Coração divino, e que ela se torna assaz significativa quando a relacionamos com os emblemas usados por um certo hermetismo cristão da idade média, cujas intenções foram sempre plenamente ortodoxas. Se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório, é porque se alterou, conscientemente ou não, o significado primeiro dos símbolos, ao ponto de inverter o seu valor normal; temos aqui um fenómeno do qual poderíamos citar inúmeros exemplos, e que encontra aliás a sua explicação no facto de que certos símbolos são efectivamente susceptíveis de uma dupla interpretação, e que têm como que duas faces opostas. A serpente, por exemplo, e também o leão, não significam eles por vezes, e de acordo com os casos, o Cristo e Satanás? Não podemos desejar tratar aqui este assunto com uma teoria geral, o que nos levaria bem longe; mas compreender-se-á que há nisto qualquer coisa que torna muito delicada a manipulação dos símbolos, e também que este ponto requer uma atenção muito especial quando se trata de descobrir o sentido real de certos emblemas e de os traduzir correctamente.
Um outro símbolo que equivale frequentemente ao da taça, é um símbolo floral: a flor, com efeito, não evoca na sua forma a ideia de um «receptáculo», e não se fala do «cálice» de uma flor? No Oriente, a flor simbólica por excelência é o lótus; no Ocidente, é mais frequentemente a rosa que desempenha o mesmo papel. Bem entendido, não queremos dizer que se trate do único significado desta última, bem como do lótus, pois que, pelo contrário, indicámos outro anteriormente; mas vêmo-la facilmente no desenho gravado sobre o altar da abadia de Fontevrault onde a rosa está colocada aos pés de uma lança ao longo da qual chovem gotas de sangue. Esta rosa aparece aqui associada à lança exactamente como a taça o é noutro lado, e ela parece mais recolher as gotas de sangue em vez de provir da transformação de uma delas; mas, de resto, os dois significados completam-se muito mais do que se opõem, porque estas gotas caindo sobre a rosa, vivificam-na e a fazem florescer. É a «rosa celeste», seguindo a figura frequentemente empregue em relação com a ideia de Redenção, ou com as ideias conexas de regeneração e de ressurreição; mas isto ainda pediria longas explicações, quando apenas pretendemos fazer sobressair a concordância das diferentes tradições no que diz respeito a este outro símbolo.

O selo de Martinho Lutero
O selo de Martinho Lutero

Por outro lado, porque se falou aqui da Rosa-Cruz a propósito do selo de Lutero diremos que este emblema hermético foi inicialmente especificamente cristão, quaisquer que sejam as falsas interpretações mais ou menos «naturalistas» que se lhe deram a partir do século XVII; e não é notável que a rosa ocupa, ao centro da cruz, o lugar do próprio Sagrado Coração? Para lá das representações nas quais as cinco chagas do Crucificado são figuradas por outras tantas rosas, a rosa central, quando está sozinha, pode bem ser identificada ao próprio Coração, ao vaso que contém o sangue, que é o centro da vida e também o centro do ser como um todo.
Há ainda pelo menos outro equivalente simbólico da taça: é o crescente lunar; mas este, para ser convenientemente explicado, exigiria desenvolvimentos que estariam totalmente fora do assunto do presente estudo; apenas o mencionamos para não negligenciar nenhum lado da questão.

De todas as aproximações que acabámos de assinalar, tiraríamos já uma consequência que esperamos tornar ainda mais manifesta no que se segue: quando encontramos por todo o lado tais concordâncias, não temos com isto mais que um simples indício da existência de uma tradição primordial? E como explicar que, frequentemente, aqueles que se sentem obrigados a admitir em princípio esta tradição primordial não pensam nela de seguida e raciocinam como se ela nunca tivesse existido, ou pelo menos como se nada se tivesse conservado através dos séculos? Se quisessemos reflectir bem sobre o que há de anormal numa tal atitude, seriamos menos vezes surpreendidos com certas considerações, que, na verdade, apenas parecem estranhas em virtude dos hábitos mentais próprios da nossa época. Aliás, basta procurar um pouco, com a condição de não levarmos nenhum preconceito, para descobrir por todos os lados as marcas desta unidade doutrinal essencial, cuja consciência se viu obscurecida por vezes na humanidade, mas que nunca desapareceu de vez; e, à medida que avançamos nesta procura, os pontos de comparação multiplicam-se a partir deles mesmos e novas provas aparecem a cada instante; certamente, o Quaerite et invenietis do Evangelho não é palavra vã."
- René Guénon, Aperçus sur L'Ésoterisme Chrétien, pp. 117-126.


Há pouca coisa relevante a acrescentar a esta exposição de Guénon relativa ao simbolismo do Santo Graal e à semelhança deste com o simbolismo do Sagrado Coração de Jesus. Gostaríamos apenas de sublinhar que, no "centro do mundo" que era o Paraíso terrestre, estava a Árvore da Vida (sinal da ligação do Homem primordial com Deus, ligação essa perdida com a expulsão de Adão e Eva do Éden). Os paralelos simbólicos entre a "seiva" da Árvore da Vida e o sangue divino que é bombeado pelo Sagrado Coração serão evidentes demais para que se insista nisto. Segundo a tradição católica, é bem sabido que quem come do fruto da Árvore da Vida partilha da "Vida Eterna", que não é outra coisa senão o "sentido da eternidade" de que falava Guénon no artigo. Convém também relembrar que, no Éden, precisamente do centro do jardim, aos pés da Árvore da Vida, nasciam os quatro rios que se espalhavam nas quatro direcções do jardim: o Ghion, o Pison, o Tigre e o Eufrates. Estes rios, emanando da "fonte" que é a Árvore da Vida, são os canais por onde escorrem as "águas da vida", que são facilmente associadas aos canais sanguíneos por onde corre o sangue sagrado. Também fica evidente a ligação entre este simbolismo, e o simbolismo da "fonte da Juventude", sendo que a interpretação profunda do regresso à juventude daquele que bebe desta fonte está na reintegração do homem no "centro do mundo", no Coração de Deus, no local que Adão ocupava inicialmente nos princípios do mundo.

O popular romance "O Código Da Vinci" do escritor americano Dan Brown sugere uma interpretação nova e "criativa" para o Graal: seria o útero de Maria Madalena. Qualquer leitor sensato terá reparado que há uma enorme diferença entre o que acabámos de traduzir, e as "teorias" expostas por Dan Brown no seu livro best-seller. Como lembra Guénon, de forma tão pertinente nestes idos anos 20, o perigo da inversão dos símbolos está sempre presente, o que obriga à necessidade de um certo cuidado (diríamos mesmo, de uma certa competência) no tratamento dos símbolos, para evitar a deturpação (ou no pior caso, a inversão) do significado do símbolo. Cremos que Guénon, quando fala do símbolo do triângulo invertido, dizendo que "se se quis por vezes, nos tempos modernos, associar a tal representação um sentido blasfematório", se está a referir às interpretações sexuais do referido triângulo, que já eram "moda" desde os tempos do pseudo-esoterismo do final do século XIX em França. Recordamos que Lady Caithness, a Duquesa de Pomar, instigadora e protectora da Sociedade Teosófica de Helena Petrovna Blavatsky, na Paris de fin de siècle, foi uma das mais importantes promotoras deste detestável "cristianismo esotérico" (não confundir com "esoterismo cristão") e dos primeiros laivos de "divino feminino". Emparelhando as palavras sábias de Guénon com estes factos da história do pseudo-esoterismo do século XIX, teremos chegado ao ponto essencial em que nos damos conta, até à máxima extensão, tanto da incompetência de autores como Dan Brown para escrever sobre estes temas, como da suspeita "fonte" onde estes foram buscar a sua inspiração "artística".

Para finalizar, eu não seria honesto se não acabasse por explicar o contexto em que surgiu este artigo de René Guénon. Sei bem que o artigo, e a minha opinião pessoal que deixarei no final, podem ser vistas como heterodoxas e como erros doutrinários, no que diz respeito à doutrina católica. O artigo Le Sacré-Coeur et la Légende du Saint Graal, relativo ao estudo do simbolismo do Graal e da sua ligação com o simbolismo do culto do Sagrado Coração de Jesus, foi publicado na revista Regnabit, do padre Abel Clarin de la Rive. Guénon fora convidado por este último pelos seus incontestáveis conhecimentos em simbolismo, mas cedo fez inimigos. Guénon não era católico (viria a tornar-se muçulmano, tomando o nome de Abdel Wahid Yahia), frequentava a Maçonaria, e era um estudioso do Hinduismo, do Taoismo, do Sufismo, e tentava agora nesta colaboração com a Regnabit estabelecer uma aproximação ao Catolicismo baseada no hermetismo cristão da Idade Média. Mais que razões de sobra para levantar a polémica numa revista católica como a Regnabit. O padre Clarin de la Rive defendeu-o durante largos meses contra aqueles que consideravam Guénon uma "infiltração nefasta", ou um "ocultista perigoso". Com a pressão dos círculos neo-tomistas do Institut Catholique de Paris, de entre os quais se destacava Jacques Maritain, Guénon teve que cessar a sua participação na Regnabit.
Este artigo foi então escrito por um homem que, não sendo católico, estava a tentar uma séria e honesta aproximação ao catolicismo, por via do simbolismo comparado e da defesa do que ele chamava de "Tradição Primordial", o substrato único que era comum a todas as formas genuínas de espiritualidade ao longo do tempo e nos mais variados locais do globo. Guénon tentou mostrar aos leitores da Regnabit (na sua esmagadora maioria católicos) os sinais evidentes de uma essência doutrinal idêntica em tradições tão distantes no tempo e no espaço. Maritain e o seu grupo não deixaram nunca de considerar a postura de Guénon como sincretista, gnóstica, ou panteísta, e como uma perigosa ameaça para a doutrina católica. É uma pena. Fica aqui a minha opinião, e o meu profundo desejo de que, perdida que está a oportunidade de se usufruir de um homem como Guénon para "fazer a ponte" com outras tradições espirituais, Deus nos envie alguém igualmente qualificado, para que o diálogo seja retomado tão depressa quanto possível. A minha opinião, relativa ao neo-ecumenismo dos dias de hoje, é que este fica muito aquém do que se poderia ter conseguido no tempo de Guénon. Não há entendimento ao nível dos princípios. Não há debate metafísico. Há um ecumenismo tolerante e correcto nos modos, afável e simpático, até acolhedor, mas na minha opinião, excessivamente surdo e autista no que toca à Verdade Revelada e à questão da primazia doutrinal. Quando o Espírito Santo grita, convém ouvi-Lo...

[ESPECTADORES]

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Maria da Conceição. Olhares sobre a Igreja – Eucaristia. Segunda-feira, Julho 4. 2005.

Termina no próximo mês de Outubro, o ano dedicado à Eucaristia (Outubro 2004 – Outubro 2005). Instituído pelo Papa João Paulo II, pretendeu ser um tempo forte de reflexão e de vivência deste sacramento da Igreja. Houve da parte do Santo Padre empenho em produzir documentação que ajudasse à reflexão, e que seguindo os canais próprios chegasse a todas as igrejas particulares e comunidades eclesiais.
A Encíclica Ecclesia de Eucharitia reflecte sobre aquilo que chama a “fonte” e o “ápice” de toda a vida cristã, convidando-nos a um renovado fervor na celebração da Eucaristia. Diz-nos João Paulo II, na começo do referido documento que “a Igreja vive da Eucaristia”.

Vamos então ver porquê e como:
A centralidade da Eucaristia mergulha-nos no mistério de Cristo: Ele deu a vida para nos salvar. Sempre que celebramos a Eucaristia, não estamos a recordar um facto passado, mas a “actualizar” uma realidade que permanece eternamente. Cada vez que celebramos a Eucaristia tornamos actual, o sacrifício de Cristo. Em cada Eucaristia torna-se presente, o sacrifício da paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo.

Eucaristia quer dizer acção de graças, é o significado da palavra em grego. Usando a expressão sacrifício de acção de graças, estamos a dizer que tudo nos vem de Deus. Quando celebramos a Eucaristia estamos a reconhecer que tudo o que temos e somos, tudo o que nos rodeia (a natureza), nos é ofertado por Deus, e em, por e com Jesus Cristo queremos por nossa parte oferecer em oblação.
Tudo isto, implica uma consciencialização da nossa parte, de que o acontecimento semanal da celebração da Eucaristia, não é um acto isolado na nossa vida. Em cada Eucaristia, nós em Jesus Cristo, assumimos que queremos ser de Deus; que oferecemos os nossos trabalhos, as nossas alegrias, as nossas dores, as nossas lutas, os nossos fracassos, enfim as nossas vidas, e queremos que Deus as divinize.

À Eucaristia chama-se também “fracção do Pão”. O pão que é um alimento vital para o homem, tem na Eucaristia duas simbologias muito importantes e indissociáveis. A primeira é a de que não podemos viver e crescer na nossa vida em Deus, se não nos alimentarmos deste pão que nos vem do Céu (Mt 4, 4) “Nem só de pão vive o homem...”, (Jo 6,35) “Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida, o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede”. A segunda, é a dimensão da partilha desse mesmo pão. Do pão que é essencial para a vida dos homens e que se traduz em todas as necessidades básicas do Homem, para viver dignamente: educação, saúde, habitação, trabalho, direito à cultura...
De Jesus Cristo recebemos o exemplo disso mesmo. Antes de se sentar para realizar o gesto da Ceia, tinha toda uma vida de entrega. Com os discípulos, com os marginalizados, com as multidões “famintas” que o seguiam, deu-se em gestos de partilha. O gesto último do seu sacrifício na cruz, foi o culminar de toda uma vida feita serviço. Não poderá ser para nós, outro o caminho.

De todas as realizações pastorais, neste ano dedicado à Eucaristia, temo que fiquemos apenas na valorização dos aspectos rituais e cultuais do sacramento, e não lhe demos esta dimensão de partilha. Para muitos cristãos e pastores é mais fácil o empenho na devoção eucarística, do que assumir a vivência da Eucaristia, como fonte eficaz de transformação da sociedade. Não é possível haver verdadeira devoção eucarística, se separada desta partilha de vida e de pão.

[JARDIM DE LUZ]

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