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segunda-feira, julho 11

 

Um olhar do outro lado do Atlântico – Europa unida: o sonho acabou?

Hoje, trago um olhar do outro lado do Atlântico, é de Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga brasileira.

O tema foge um pouco ao que me propus trazer para a Terra da Alegria, mas pela sua relevância, e pelos trágicos acontecimentos do dia 7 de Julho em Londres, achei oportuno trazer aqui a visão de alguém que estando de fora, vê de forma criteriosa o andamento deste velho continente.

Para além de sabermos se o texto da constituição europeia é o mais adequado, texto que desde o início, foi contestado até pela própria Igreja Católica, o que sobressai dos resultados dos vários referendos é que esta união que pretendemos está muito fragilizada. Estando fragilizada, não serve aos seus próprios interesses, nem aos que lhe são exteriores. Não tenhamos ilusões, a globalização é um processo em marcha, só com objectivos bem definidos, com alianças bem estruturadas e cimentadas, podemos resolver os problemas que a mesma globalização nos traz.



“Primeiro foi a França, que com todo o seu peso no conjunto da Europa, disse “não”. Depois foi a Holanda, convicta e com toda a sua tradição. De nada serviu que a Espanha houvesse dito ”sim” sobre a sua constituição. O episódio que vive o velho continente nos diz algo importante sobre a nossa dificuldade de perseguir sonhos e utopias intrinsecamente ligados à nossa dificuldade de conviver com as diferenças recíprocas.

A Europa é um conjunto nada homogéneo em termos de cultura, idioma, religião, potencialidade financeira etc. Talvez nenhum continente tenha uma tal variedade em seu tecido. As duas Américas, a Latina e a do Norte, têm uma certa homogeneidade idiomática e cultural, cada uma provinda de uma raiz, embora o “melting pot” no norte e a imigração variada no sul quebrem algo dessa homogeneidade. No entanto, ela existe, assim como a da Ásia, que é uma homogeneidade de origem; e a da África, que é de raça.

Na Europa, a homogeneidade e a igualdade são escassas, para não dizer ausentes. Cada país é um mundo à parte e até há pouco tempo funcionava mesmo como um universo à parte. Com a sua língua, sua cultura, sua particularidade. O sonho de unir a Europa resultou em uma moeda forte, que superou mesmo o todo poderoso dólar e que dá o tom no mercado financeiro internacional. Também esmaeceram as fronteiras existentes entre os vários países, fazendo com que o trânsito entre uns e outros fosse mais fluido e livre. Ao turista que se aventura pela velha e sempre fascinante Europa, agora é dada a possibilidade de ir e vir entre as suas belezas e riquezas, sentindo-se numa grande casa onde as paisagens naturais e culturais mudam sem a barreira de fronteiras, passaportes, alfândegas.

E eis que o “não” da intolerância se levanta como uma interdição a essa utopia e esse sonho. Ainda não será desta vez que a Europa terá uma constituição única. E o mais triste é que o factor que gera isso é mais que nada económico e financeiro. O medo de que trabalhadores dos países do Leste Europeu venham ainda em maior número para a rica e influente Europa ocidental, ocupando as vagas laborais dos jovens europeus ocidentais e onerando a sua sociedade com o peso da sua escassez ávida de oportunidades, parece ter sido o factor determinante que fez com que o “não” fosse dito em vez do “sim”. O “sim” que abriria generosamente as portas do velho continente para ser uma só comunidade.

Dizem as ciências sociais que o homem é um animal gregário, social. E a filosofia, a teologia, também dizem que o ser humano é um ser relacional, que só existe e se autocompreende a partir da relação. Só o outro o diferente, pode nos dizer quem somos e ajudar-nos a sermos nós mesmos. Grandes filósosfos europeus, justamente, como Emmanuel Levinas e Paul Ricoeur, trabalharam belamente e a fundo esta questão da alteridade. E nos disseram que a alteridade e a diferença são fundamentais em nossas vidas e existências. No entanto, ao que parece, a Europa está disposta a abrir as portas à alteridade desde que não afecte a sua economia, sua abundância, a riqueza em que se encontra mergulhada.

Pobre Europa, já tão machucada por guerras e tempos de desolação e penúria profunda. Pobre Europa, que apesar de tudo o que passou e sofreu, ainda assim parece não haver aprendido que só a solidariedade e a disponibilidade de acolhimento do outro, do diferente, ainda que signifique mais partilha e menos abundância em nossas vidas, pode construir e levar-nos a algum caminho fecundo de abertura e vida em plenitude.

Diante da séria ameaça ao sonho da Europa unida, esperemos que ainda seja tempo. Esperemos que este continente, para o qual o mundo inteiro olha como uma alternativa de modelo sócio-económico-político que conserva características humanas como estilo de viver, reflicta e reconsidere as suas posições. Esperemos que o “não” da intolerância ceda lugar ao “sim” que abre fronteiras e instaura uma verdadeira comunhão de diferentes dentro deste mundo tão egoísta e individualista.”

Maria da Conceição

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