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segunda-feira, julho 4

 

Solstício de Galileu

«A opinião ainda hoje muito difundida segundo a qual a aplicação intelectual e os progressos da ciência sempre arruinaram, através da sua refutação, qualquer sistema de crença religiosa, é apenas um preconceito do racionalismo. Nenhuma ciência ou filosofia teria podido dissolver ou aniquilar a religião grega antes das suas raízes, no conjunto da vida grega, terem murchado e se terem constituído, independentemente de qualquer ciência, novas sementes de uma outra forma de religião.
O que vale para o todo vale igualmente para cada descoberta científica particular, em relação à crença religiosa. A Igreja, como nos ensina, por exemplo, a correspondência entre Galileu e o encarregado das operações da Inquisição, estava preparada para reconhecer o heliocentrismo de Galileu se ele não declarasse a teoria como «verdadeira», mas tal como ela é presentemente encarada pelos investigadores rigorosos: como pressuposto sugerido pela lei da economia (lex parcimoniae), para simplificação das equações astronómicas. O cardeal declara-o expressamente na sua carta a Galileu. (…) Como se sabe, a própria obra de Copérnico nunca entrou em conflito com a Igreja, pois o seu editor, que, num prefácio escrito após a morte de Copérnico, a dedicou ao Papa Paulo III, separa expressamente a questão acerca da economia e da conveniência da aceitação e referia-se à aceitação da teoria coperniciana como sugerida apenas pela economia do pensar, tal como diríamos» (Max Scheler, Morte e sobrevivência, Ed. 70).

Este processo representou uma viragem fundamental na História e representa a ideia de verdade que pautará durante muito tempo o materialismo mecânico na sociedade e que teve o seu auge nas Luzes e ainda hoje tem semente no pensamento da maioria. Passou a haver uma verdade profana, absolutamente verdadeira, portanto, e essa era científica, provada em laboratório, em cobaias, vista através do telescópio, do microscópio, da razão e de bolas de bilhar. Mas essas verdades, sabemo-lo bem, não passam de aproximações construídas num âmbito humano e que servem essa escala, também ela humana. Quando nos ensinaram a lei da gravidade, e a aplicávamos, diziam-nos para desprezar o atrito do ar. Era uma lei que vinha com uma advertência, dizia que era assim, mas não a rigor. A lei de Newton só funcionaria, rigorosamente, no vazio, mas esse vazio, nunca ninguém o viu, nunca homem algum o fez. O mais parecido foram aproximações, mas o vácuo absoluto, esse, continua uma quimera tão quimérica quanto a quadratura do círculo ou a duplicação do cubo o eram para a geometria euclidiana da Idade Média. Quando nos aproximamos do pormenor, não desprezando o atrito do ar, então a verdade desfia-se em probabilidades, em quantas, em relatividades. A exactidão da verdade, cai rasteira, aos nossos pés. O sol, afinal não é o centro do universo e o maior erro de qualquer religião seria tomar tais verdades por factos, e o efémero pelo eterno, o relativo pelo absoluto. Era importante que a verdade relativa não ocupasse o lugar do dogma, e para isso era precisa a advertência: isto são coisas cujo rigor pode ser posto em causa. Num contexto religioso, o mesmo não se passa, um dogma é uma verdade, absoluta porque ilimitada na sua compreensão, misteriosa, global, contraditória. Um dogma diz uma coisa enquanto a desdiz com a mesma boca, como um Deus que morre e vive ao mesmo tempo, como um Homem que é Deus e é homem, que tem espaço físico, histórico e nos séculos e, ao mesmo tempo, está na eternidade, e é puro espírito que está em todo o lado em todos os tempos desde o princípio dos princípios. O universo não o pode conter e, no entanto, cabe no coração dum justo. Aqui não se despreza o atrito do ar.
Scheler dizia que a Igreja aceitaria o heliocentrismo de Copérnico, se viesse com a lex parcimoniae, se fosse pronunciado acrescentando um “mais ou menos”, um “desprezando o atrito do ar”. A rigor, não há verdades absolutas ou quaisquer outras que não façam parte da metafísica ou da teologia. Foram várias as tentativas de demonstrar a verdade das teorias, por este e por aquele método, e até se deu uma navalhada de Occam, apelou-se à simplicidade e ao não-refutável dum Locke, mas foi Galileu quem pretendeu exibir um método, um raciocínio científico, que teria precedência sobre a intuição e o senso comum – e até aqui seria tudo louvável – mas também sobre a revelação religiosa. Esta suplantação remetia dois campos tão diferentes para o mesmo plano, mas acima de tudo, daria, e deu, à ciência uma espécie de autoridade religiosa e de revelação.

«Até certo ponto, eles [Inquisição] argumentavam meramente por modéstia, pelo reconhecimento da falibilidade humana. E se Galileu afirmava que a teoria heliocêntrica estava provada, ou quase isso, em um sentido indutivo, eles tinham razão. Se Galileu pensou que os seus métodos poderiam conferir a qualquer teoria uma autoridade comparável àquela que a Igreja reclamava para as suas doutrinas, eles estavam certos em criticá-lo como arrogante (ou, como eles diriam, blasfemo), embora, é claro, pelo mesmo padrão eles fossem muito mais arrogantes.» (David Deutsch, “A essência da realidade”, Makron Books). Esta arrogância, de uns e outros, não me parecem comparáveis como faz Deutsch. A verdade metafísica ou religiosa não está no mesmo plano da verdade científica que, volto a sublinhar, nunca é absolutamente rigorosa ou perfeita como se pretende que sejam os dogmas (que se movem em campos absolutos e não-relativos). Mas, convém concordar: a autoridade eclesiástica é arrogante, não pelas verdades assumidas, pelos dogmas, mas pelas outras verdades também elas metafísicas, teológicas, religiosas que não são assumidas. As verdades do Islão ou dum animista africano seriam descartadas pela Igreja, juntamente com as outras, as profanas, as de Galileu e outros homens de ciência.
A recta que vemos direita, perfeitamente desenhada pela régua, é uma burla se vista pelo microscópio. Há sempre outra verdade mais verdadeira e mais rigorosa quanto mais nos debruçamos. E este movimento é perpétuo e infinito, jamais terá um fim (terá se chegarmos ao absoluto, mas esse é domínio da religião). A própria ciência destrói as verdades que dela nascem, como Cronos faz com os seus filhos. Engole-as voraz e elas passam como o rio do Heraclito, deitam-se no esquecimento, destronadas pela verdade da moda, pela nova tendência da razão e do espírito concreto, soberano, soberbo, pela tendência primavera/verão e depois pelas outras que se seguirão como um rosário, mais completas é certo, mas ainda infinitamente erradas. E estão infinitamente erradas porque estão relativamente certas. Uma cachalote branco, uma maçã, sete montanhas, são infinitamente pequenos se comparados com o infinitamente grande, com a Extensão e o ilimitado, únicos lugares onde a verdade, tal como tudo à nossa volta, pode encontrar a sua natureza perfeita.
A escala das coisas falseia o mundo e aquilo que nos dizem ziguezaguear, pode bem ser recto e o que se mostra rígido como a nuca dum faraó, pode bem ser coleante como as serpentes. Basta ver o mundo doutro ângulo, ou passado uns tempos, ou com proximidade, ou com afastamento, e o que parece verdade provada, passa a verdade relativa, o sol deixa o centro do universo tão rapidamente como lá esteve, no imo de tudo, substituindo a Terra. Foram tempos de glória para o astro-rei, o Febo, o Hélios, que afinal não se mexia, mas que afinal, mexe-se, que estava no centro e agora se vê nos subúrbios, uma estrela de periferia.

A verdade, depois de Galileu nunca mais foi verdade. Desceu do pedestal de eternidade para o mundo, encheu-se com o pó dos séculos. E toda a gente sabe para onde vai o pó: retorna ao pó, é efemeridade e morte. A verdade que desceu ao mundo, que se tornou científica, é uma verdade que morre. É uma queda como a de Adão, trágica como a de Lúcifer. Precisa duma lex parcimoniae, e a outra, a verdade religiosa, metafísica, lá do alto, mantém-se sólida a olhar por nós e a segurar e a assegurar os céus, de modo que não caiam em cima das nossas cabeças. Pelo menos até que tudo esteja consumado.
Não houve travão, depois de Galileu, para a explosão de verdades, daquelas que mais matam, que envergonhariam os maiores torturadores, carrascos, grandes inquisidores. Mediu-se o cérebro e provaram-se apoucamentos e superioridades dos matizes raciais; provou-se que a mulher era menos dotada; viram-se, claramente vistos, ao microscópio, os homúnculos (pequenos homens completamente formados que estariam presentes na cabeça do espermatozóide – caso que levou o rabino Pinhas Elijah ben Meir a chamar de homicídio à masturbação, cem anos depois de Hartsoeker, anatomista e fabricante de microscópios, ter visto com clareza absoluta os tais homens miniatura); apareceram psicologias, psiquiatrias e interpretações de sonhos científicas e outras astrologias com o epíteto de ciência; lobotomizou-se e recebeu-se o Nobel; apareceram as drogas que eram panaceias e remédio (e se calhar até são), mas afinal são hoje flagelos; fez-se a tabela dos elementos, que afinal eram tão elementares como a água, o fogo, a terra e o ar para o pensamento clássico; afinal o átomo (que significa, literalmente, indivisível) não era indivisível (para azar de muitos milhões que o descobriram ao morrerem vítimas dessa cisão atómica); e os filhos deste mundo de provas e certidões, os herdeiros do lado negro do iluminismo, mataram aos milhões, com comunismos científicos, com nazismos, com ciências políticas, com as democracias e liberalismos, com os “números concretos”, com os “factos” da comunicação social (o telescópio mostrava a verdade a Galileu, e agora, é a televisão, são os jornais, que nos mostram a verdade, aquela por que se mata ao cardume e à manada).

Na altura, parece-me, a Igreja não queria, nem tampouco lhe interessava, que houvesse outra verdade e autoridade para além da sua. Não conseguiu travar a ciência e ainda bem, mas esta passou pela sua idade das trevas: precisamente durante as Luzes. Altura em que a verdade da ciencia tinha o poder do dogma da fé. E disso ainda não nos libertámos, especialmente as massas, ao ponto de, quando queremos convencer o incrédulo, dizemos: “está cientificamente provado”, ou “os cientistas dizem”. Usam-se hoje as mesmas frases que antes se diriam (e alguns fanatismos ainda dizem) da Bíblia e dos padres. Os padres dizem, a Bíblia diz, está provado, portanto. Certo é que eram verdades diferentes e diferentes noções dela, e com Galileu, misturaram-se. A ciência subiu até ao altar e destronou a hipótese de Deus, como diria o enciclopedista, e fez-se do mundo um mecanismo de relógio. Mas também certo é que Newton, na altura, levou com uma maçã na cabeça, mas depois de Einstein, não sabemos se não foi Newton que cabeceou a maçã. A relatividade instalou-se com nome de teoria (e não de lei como aconteceu com a gravidade). A ciência reconheceu o seu papel efémero, mas ainda há muita gente que não sabe disso.
Hoje, as duas verdades coexistem: a religiosa que nunca deixou de ser o que era, desde que se fez luz, e a da ciência, que passou a concordar com o mesmo inquisidor de Galileu. Hoje a verdade científica não é tomada como foi a de Galileu e posteriormente pelos das Luzes. Hoje, qualquer cientista sabe que as verdades provadas só o são com a tal lex parcimoniae. Ou seja, são mais ou menos.

Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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