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quarta-feira, julho 20

 

A primeira pedra

«Jesus foi para o Monte das Oliveiras. Pela manhã cedo voltou para o templo, e todo o povo vinha ter com ele, que, sentando-se, os ensinava. Os escribas e fariseus trouxeram-lhe uma mulher apanhada em adultério. Pondo-a no meio, disseram-lhe: "Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio acto, em adultério. Na Lei Moisés nos mandou apedrejar tais mulheres. Tu, pois, que dizes?"» (João, 8:1-5).

Um site na Internet, denominado PensaBEM, divulgou uma carta em que denunciava as terríveis declarações do padre Vítor Feytor Pinto ao PÚBLICO, no passado dia 10 de Julho, a propósito do aborto e do preservativo. Na entrevista, o responsável da Comissão Nacional da Pastoral da Saúde e pároco do Campo Grande, em Lisboa, admitia a utilização do preservativo em casos limite, se estivesse em causa o preceito "não matarás", ou seja, se, face a uma relação sexual em curso, o preservativo fosse o único meio para impedir a transmissão de um virus, como o da sida: «quando o que está em questão é o não matar, e a única forma de não matar é o uso de um profilático, ele pode justificar-se».
Mais. O padre Feytor Pinto admitia ainda, em relação ao aborto, que, em casos extremos - como a violação -, se a pessoa «não encontra uma alternativa», deve ser ajudada «ao máximo para que não destrua uma vida». «Mas, se a destruir, compreendemos que o conflito interior foi de tal natureza que não encontrou outra saída. Não vamos dizer que esta pessoa é uma criminosa».
Os internautas anónimos do PensaBEM ficaram «pelo menos, muito perplexos» com estas palavras. Numa carta, assinada pela redacção do site, confessam que é «com muita pena» que apresentam as suas queixinhas do padre Feytor Pinto, mas que, tendo em conta o «grande relevo de que goza» o pároco do Campo Grande junto da opinião pública, «é evidente que as afirmações controversas podem suscitar confusão em muitas consciências, já bastante confusas, ou até encaminhá-las por sendas gravemente erradas». Assim, concluem que será «oportuno informar deste assunto as autoridades vaticanas competentes». A quem concorde com a iniciativa, davam a conhecer os endereços electrónicos e de correio da Congregação para a Doutrina da Fé, do Conselho Pontifício para a Família e do arcebispo Elio Sgreccia, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, não fossem os candidatos a bufos e delatores endereçarem erradamente as suas denúncias.

Não se sabe se os responsáveis do site também fizeram seguir as suas acusações para o Vaticano. Na verdade, não se sabe nada sobre eles. No seu site, na secção intitulada «quem somos», não dizem quem são. Não há nomes. São anónimos, portanto. Apenas se diz que são «jovens, homens e mulheres» e que se propõem «apresentar uma documentação contracorrente, capaz de abalar muitos preconceitos e falsas convicções que a cultura dominante quer semear nas consciências». A coberto da corajosa capa do anonimato, denunciam terceiros que se apresentam de cara descoberta a proferir declarações públicas. Parece-me um bom ponto de partida para quem «não quer gerar polémicas, mas sim ser instrumentos da Verdade que liberta a liberdade de cada homem». Liberdade, sim, desde que a ela não corresponda a responsabilidade do que se faz.
Com uma esmagadora modéstia, autoproclamam-se humildemente como pensaBEM. Não apenas pensam e sabem que pensam (o que, por si, revela um valor inestimável neste mundo acéfalo), como o fazem bem. E sabem que pensam bem. Ao invés da maioria, que não pensa; ao contrário da minoria que pensa, mas mal; estes católicos pensam bem. E, uma vez que pensam - e pensam bem -, pensam sobre tudo: o Harry Potter, o neo-darwinismo, a família, os malefícios para a saúde da homossexualidade, os escapulários, os wicca, a família, a maçonaria, Deus, a Igreja, e - claro - os preservativos e o aborto. Muito aborto.

Isto seria positivo se o nível de informação e reflexão fosse «libertador da liberdade de cada homem». Mas não é. Há um lado verdadeiramente fundamentalista que perpassa no site PensaBEM. A preocupação é de abarcar toda a realidade e dar resposta a todas as questões que se (auto)colocam, com uma segurança assustadora (vejam-se os dados "científicos" do texto Estudos confirmam: prática homossexual abrevia a vida, um dos raros casos que que a "ciência" é chamada a testemunhar), e procurando sempre uma confirmação canónica para o que, as mais das vezes, não passa de opinião ou reflexão lateral face a temas centrais e estruturantes da Doutrina. Mais do que numa norma regulamentar do Direito Canónico ou do Catecismo, o PensaBEM almeja transformar qualquer simples questão prática num dogma de fé. Numa orientação para a vida, como se buscasse (à semelhança dos nossos irmãos fundamentalistas islâmicos) uma resposta totalitária para o mistério da Criação e uma solução para os desígnios de Deus.
Neste contexto, o aborto e o preservativo são menos importantes que a vida e a saúde, conceitos abstractos, ricos e demasiados fugazes à regulamentação exaustiva. Há é normas a cumprir e, portanto, importa denunciar e punir os infractores das normas, para que se mantenha a ordem que se imagina e dá conforto. Quem me conhece sabe bem qual a minha posição sobre o aborto e o seu enquadramento legal e quanto à posição da Igreja sobre o preservativo como instrumento de combate à propagação da sida. Em ambos os casos, parece-me que estou ao lado dos pensadores anónimos e, portanto, livre deste ímpeto persecutório. E mesmo quanto ao uso do preservativo como meio de regulação da natalidade, comungo com eles de semelhante sentimento: não gosto particularmente. Há métodos bem melhores.

PS: Reparo agora que talvez tenha estado a interpretar mal o nome do site. PensaBEM não advém de uma autoanálise dos seus criadores. É uma ordem para todos nós.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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