<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, julho 25

 

Olhares sobre a Igreja – A sexualidade

Como foi aqui referido na passada quarta feira pelo conterrâneo Carlos Cunha, o Padre Vítor Feytor Pinto, no passado dia 10 de Julho deu uma entrevista ao jornal Público, onde abordava vários temas, de entre eles, a sexualidade. Declarações, que causaram alguns incómodos, nalguns sectores da Igreja e que levaram o Pe Feytor Pinto, na edição do mesmo jornal, no passado dia 17, a corrigir algumas das afirmações que tinha feito. Fica-nos sempre a dúvida, se foi o jornalista que não interpretou correctamente as respostas, às suas perguntas, ou se foi o entrevistado que preferiu rever algumas das afirmações.
Como quase sempre acontece quando a Igreja fala sobre este assunto, levantam-se as mais variadas paixões. Pode-se dizer, que o discurso da Igreja sobre a sexualidade, é visto a maior parte das vezes completamente arredado do que é a realidade das pessoas e das suas vidas. Dizendo que a Igreja tem um discurso rígido e fechado.
Falar da sexualidade humana, tal como falar da vida, é sempre um enigma. A Teologia dá as suas respostas para ambas, mas respostas, que não são, nunca, certezas. No caso da sexualidade, a Igreja entende-a, e é esse também o meu entendimento, como tendo todo o seu sentido numa relação de amor. Mas mesmo este sentido, é questionado, e legitimamente, por quem vê nela outros sentidos.
Porque à pergunta: “o que é a sexualidade”? Temos muitas e variadas respostas. Paul Ricoeur, citado por Mateus Cardoso Peres, numa reflexão sobre a sexualidade, diz o seguinte:


Quando dois seres se abraçam, não sabem o que fazem; não sabem o que querem; não sabem o que procuram, não sabem o que encontram. Que significa o desejo que os atrai um para o outro? É o desejo do prazer? Sim, sem dúvida. Mas, pobre resposta; porque ao mesmo tempo pressentimos que o próprio prazer não tem significado por si mesmo: que é figurativo. Mas de quê? Temos consciência viva e obscura de que o sexo participa de uma rede de potências cujas harmonias cósmicas estão esquecidas mas não abolidas; que a vida é bem mais do que a vida; quero dizer que a vida é bem mais do que a luta contra a morte, do que o atrasar do desenlace fatal; que a vida é única, universal, toda em todos e que é neste mistério que a alegria sexual faz participar...”


Completo esta reflexão com um texto de Leonardo Boff, onde ele fala de várias perspectivas da sexualidade, vistas pela Igreja. Insere também, um estudo curioso de uma teóloga, onde podemos ver que nos dois mil anos de história da Igreja, já várias correntes de pensamento tiveram lugar. Daí podemos depreender, que nesta como noutras coisas, o nosso saber nunca está completo. Disto tudo, quero sublinhar, que a sexualidade humana fazendo parte do plano criador de Deus só pode ser vista com o olhar positivo, com que olhamos para toda a Criação.

“É comum dizer-se que a Igreja Católica possui fobia sexual e que trata temas da moral familiar e da sexualidade com excessivo rigor. Há certa razão nisso, pois a palavra “prazer” suscita nela preocupações e, em se tratando então de “prazer sexual”, suspeitas. Ela na verdade, educou mais para a renúncia do que para a alegre celebração da vida.

Entretanto, nem sempre foi assim. Dentro da mesma Igreja, há tradições e doutrinas que vêem no prazer e na sexualidade uma manifestação da criação boa de Deus, uma centelha do Divino e uma participação no ser mesmo de Deus. Esta linha se liga antes à tradição bíblica que vê com naturalidade e até com entusiasmo o amor entre um homem e uma mulher, com toda a sua carga erótica, como plasticamente o descreve o Cântico dos Cânticos, com seios, lábios, vulvas e beijos.

Mas esta linha não vingou na cristandade. Ao contrário, predominou a negativa por causa da influência poderosa que o génio de Santo Agostinho (354-430) exerceu sobre toda a Igreja Romana. Não cabe aqui identificar a base material e sócio-cultural que permitiu esta incorporação. Mas importa reconhecer o carácter fortemente negativo da sua visão, embora tenha sido, como jovem, muito activo sexualmente, a ponto de ter tido um filho, Deodato. Em seus solilóquios diz:”Quanto a mim, penso que as relações sexuais devem ser radicalmente evitadas. Estimo que nada avilta mais o espírito de um homem do que as carícias sensuais de uma mulher e as relações corporais que fazem parte do matrimónio”. Pode a Igreja assumir sobre o amor humano tal doutrina?

Mas não devemos absolutizar a posição rigorista da Igreja oficial. Ao lado dela sempre se fez presente também a outra positiva e corajosa. Com efeito, uma ideologia, por mais incisiva que seja, como a de Santo Agostinho, não tem força suficiente para recalcar o prazer sexual, já que este se enraíza no mistério da criação de Deus. Ele, aqui e acolá, queira a Igreja ou não, sempre se faz valer.
Para ilustrar a tradição positiva da sexualidade cabe citar aqui uma manifestação que perdurou na Igreja por mais de mil anos, conhecida pelo nome de “risus paschalis”, “riso pascal”. Ela significa a presença do prazer sexual no espaço do sagrado, na celebração da maior festa cristã, a da Páscoa. Trata-se do seguinte facto, estudado com grande erudição por uma teóloga italiana Maria Caterina Jacobelli (Il risus paschalis e il fondamento teologico del piacere sessuale, Brescia 2004): para ressaltar a explosão de alegria da Páscoa em contraposição à tristeza da Quaresma, o sacerdote na missa da manhã de Páscoa devia suscitar o riso do povo. E fazia-o por todos os meios, mas sobretudo recorrendo ao imaginário sexual. Contava piadas picantes, usava expressões eróticas e encenava gestos obscenos, dramatizando relações sexuais. E o povo ria que ria. Esse costume é encontrado já em 852 em Reims, na França, e se estendeu por todo o Norte da Europa, Itália e Espanha, até 1911 na Alemanha. O celebrante assumia a cultura dos fiéis na sua forma popular, plebéia e obscena. Para expressar a vida nova inaugurada pela Ressurreição, dizia esta tradição, nada melhor que apelar para a fonte de onde nasce a vida humana: a sexualidade com o prazer que a acompanha.
Podemos discutir o método impertinente, mas ele revela na Igreja uma outra postura, positiva e alegre, face à sexualidade.”


Maria da Conceição [JARDDIM DE LUZ]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?