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segunda-feira, julho 25

 

O segredo do Reino

Numa certa paróquia católica do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, há um trabalho interessante da Pastoral da Juventude. Tomei conhecimento da sua existência através de um programa da TV Educativa. Os padres responsáveis realizam encontros regulares com os adolescentes e jovens da comunidade e, em cada um desses encontros, há uma tarefa secreta a ser executada. Algo nos moldes dos famosos Encontros de Jovens que acontecem nas Igrejas Protestantes, com a diferença de que - na paróquia do Cosme Velho - as tarefas voltam-se para a realidade concreta ao redor, como doação de sangue, visitas a orfanatos e asilos e distribuição de sopa para os mendigos nas ruas.
Por mais que me esforce, não consigo recordar o nome dos párocos, o endereço da Igreja e nem mesmo o programa em que foi veiculado o trabalho. Porém, uma breve entrevista com uma das adolescentes ainda está vívida em minha memória. Perguntada sobre o que sentia ao visitar um asilo, levando presentes e apresentando peças teatrais para os velhinhos, a menina respondeu: “Eu sinto que faço isso para Jesus, e quando acaricio um desses velhinhos é a Jesus que estou acariciando, e quando um deles dá um sorriso é Jesus quem está sorrindo”. Emudecida a voz com a força de um poema de Neruda, só pude calar-me numa prece interior: “Senhor, que eu seja como ela”.
A menina proclamou, de forma singela e sincera, a mensagem do Evangelho: o segredo do Reino é partilhar, e quem se doa ao outro está se doando a Cristo. O próprio Mestre ensinou isso como verdade escatológica ao narrar o Juízo (Mt 25.31-46). Enquanto os justos e os injustos perguntavam quando o Filho do Homem esteve nu, ou com fome e sede, ou preso, que necessitasse de sua assistência, o Rei respondia: “todas as vezes que fizestes isto a um destes pequeninos, a mim o fizestes”. O outro, o próximo, o que está diante de mim, é a expressão de Jesus Cristo.

Isto não deveria ser novidade para mim, herdeiro da tão propalada (e mal compreendida) tradição reformada. João Calvino tratava o pobre como o vicarius Dei, o substituto de Deus. É lógico que nenhum atributo pontifical passava pela cabeça do reformador de Genebra ao fazer tal comparação, mas, sim, a divina capacidade de se fazer presente no outro. Quando nos dirigimos ao próximo, fazemo-lo na direcção do próprio Cristo. Este princípio da identificação divina com o homem tem o seu ápice e clímax na Encarnação. “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14) é a abertura de possibilidade de salvação para o homem, além de ser um golpe profundo nos advogados da alma em detrimento do corpo.
Quando o Evangelho do Reino nos convida a partilhar, está dirigindo o convite não só à alma humana, mas também (e de forma mais clara ainda) ao corpo. É o homem total, por completo, integral – no dizer do consenso dos evangélicos em Lausanne, 1974 – que se vê em comunhão com Cristo na Encarnação do Verbo. Reconhecer no outro a essência divina é ir em direção ao Cristo, que chora, ri, briga, acalma, nasce de Maria e morre sob o poder de Pôncio Pilatos. Não conceber isto é insistir no docetismo – heresia que grassou pelos campos da Igreja nos primeiros séculos de sua existência.
Para os docéticos o mundo caminhava muito bem, obrigado, em sua concepção dualista do universo. Este pensamento, originário da mentalidade grega, enxergava o mundo em duas esferas: a espiritual e a material. Tudo que tivesse a ver com o espírito (ou alma, como preferir), com o mundo das idéias, o topos uranos de Platão, era almejado. Já o relativo à matéria, ao corpo, a este miserável invólucro da sagrada alma deveria ser repelido. Por isso, para o docetismo, Cristo não poderia ter se tornado homem como nós, de carne e osso. Mas, louvado seja Deus, o Verbo se fez carne, e a exigência evangélica de doar-se ao outro implica em fazer o bem à alma e ao corpo do homem e da mulher.
Contudo, de uma forma ou de outra, o docetismo parece estar infiltrando-se novamente em nosso meio. Basta que se veja os tabus reinantes no tocante a tudo que se relaciona com o corpo. Somente os prazeres do espírito devem ser buscados. Em contrapartida, somente os prazeres do corpo são vistos como possibilidades de pecado. Há uma clara dificuldade de se tocar em assuntos que envolvam o corpo e a realidade material, como a sexualidade, por exemplo. Como relembra o teólogo Rubem Alves, a Igreja do período patrístico dá uma resposta direta à mentalidade docética no Credo Apostólico ao afirmar: “Creio na ressurreição do corpo”, sem fazer nenhuma menção à alma.

Se não bastam as dificuldades com relação ao corpo do indivíduo, tente discutir na sua Igreja assuntos sobre o corpo da sociedade. Tente falar sobre política, opções sócio-económicas viáveis ou acção social. Para piorar a situação, tente relacionar esses assuntos ao Evangelho do Reino de Jesus Cristo. Os modernos docéticos empunharão os seus vastíssimos tratados hermenêuticos, as suas eminentes teses exegéticas e suas eloquentes sumas dogmáticas com a finalidade de provar o seu erro (ou heresia, dependendo de sua relação com os doutores).
Mas o segredo do Reino – partilhar – leva-nos em direcção à expressão do Jesus Cristo da Bíblia, gente como a gente, que crescia tanto em estatura quanto em graça, que se manifestava tanto diante de Deus quanto dos homens (Lc 2.52), que era corpo e alma. Olhar para o próximo e nele vislumbrar o Cristo é entender a missão de proclamar um Evangelho total. Se pregamos a salvação para as almas de nosso bairro e permanecemos impassíveis às suas necessidades sociais e económicas, anunciamos um Cristo incompleto – da mesma forma que assim o fizeram alguns teóricos de uma Teologia da Libertação que somente visava o bem social, sem levar em conta a mística do espírito.
Precisamos democratizar o espaço de nossa Igreja por causa da missão de partilhar. Exercitemos em nós mesmos o dom da partilha. As formas práticas de se realizar este intento são muitas e devem ser discutidas em comunidade. Criar espaços para cursos e discussões, criar uma ligação com a associação de moradores, mobilizar os advogados, médicos, psicólogos e outros profissionais da Igreja no sentido de doarem algum tempo para o serviço do Senhor, organizar atividades de cunho assistencial, muito pode ser feito na caminhada em direção ao outro.
Romper com a supremacia docética da alma não é promover uma Igreja fria e materialista. Ao contrário, é encontrar a expressão de Cristo muito mais perto do que qualquer experiência mística poderia promover: ao nosso lado, no próximo, no outro. Partilhar o que temos com o outro é fazer coro junto ao pai Calvino, aos justos do sermão de Jesus e à menina da paróquia carioca: o amor ao próximo é a única expressão visível e possível do amor a Deus (Mt 22.34-40). Este é o segredo do Reino.

Christian Bitencourt [MIGALHAS AO VENTO]

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