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terra da alegria


 
 
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quarta-feira, julho 6

 

Música Celestial

1º andamento – allegro molto vivace

Na semana passada estive para aqui a rebater a ingénua mas compreensível e tão alemã surpresa do nosso Lutz, sobre a forma como este grupo de católicos que habita aqui na Terra, gente tão moderna e tolerante, ignora olimpicamente os inefáveis e preciosos frutos do Iluminismo Europeu. Agora que, penso eu, tudo está claro, vou passar inexoravelmente à próxima questão, uma questão gravíssima aliás.
Este moço estrangeiro, ainda por cima de origem protestante, vem acusar-nos a nós católicos de uma espécie de servidão intelectual face à Santa Madre Igreja que nos acolhe espiritualmente. E fá-lo dando exemplos surpreendentes. O Timshel , indivíduo de mistério, uma espécie de supra-numerário montanista de sólida base trotskista, alguém que alia o desejo de coerência doutrinal à exigência da radicalidade da prática, enfim uma espécie de Bové libertário com um afável espírito normativo e, ainda assim, especulativo. O Bernardo Motta, outro indivíduo de mistério, autor publicado, vindo das trevas do esoterismo e chegado à claridade do Catecismo, católico tradicionalista mas sincrético, atento leitor de René Guénon mas também de Ananda Coomaraswamy. E é a propósito destes nossos dois amigos, tão profundamente atípicos, que o Lutz, em cuja mente ressoa ainda com certeza o teutónico “ördnung müss sein”, vem descobrir sinais duma aviltante aproximação ao pensamento oficial. E ele é impiedoso: “há aqui algo que não passa despercebido: a ideia da obrigação de acreditar numa determinada doutrina.” , “isto (a emancipação das ideias )é uma evidência banal. Para qualquer intelectual? Não. Não é para o teólogo católico! Para ele continua válido o argumento da autoridade. Porque o S. Tomás assim disse, porque o Papa assim diz, tenho, se sou católico, obrigação de pensar e acreditar duma determinada forma! Se não conseguir à primeira, espera-se um esforço de mim para que me convenço, não por força de argumentos, mas por força de autoridade.”
Às tuas palavras, Lutz, estes nossos amigos reagiram com um piedoso e caritativo silêncio, de quem está habituado a dar a outra face. Mas eu não pois eu, qual S.Tomás de Aquino lançando a sua “Summa Contra Gentiles”, ou mais ainda, qual César das Neves na sua coluna do DN, eu vou reagir e afirmar a alto e bom som a inegável, enorme e terrível independência de espírito que é apanágio do catolicismo mais ortodoxo. É que é já a seguir.

2ºandamento – andante con brio

Queira o Herrn Brückelman saber que eu nunca li o Catecismo da Igreja Católica. Nem o novo nem o velho. Nunca. Nem em português nem em espanhol nem em alemão. Não sei sequer um ditame que te possa citar de cor excepto, se lá estiverem, os 10 Mandamentos.
Já li, isso sim, bastantes Livros da Bíblia, seguindo aliás o conselho dos teus patronos Meister Eickhart e Lutero. E já li também bastante sobre a História da minha Igreja, não apologias e laudatórias mas coisas mais duras, daquelas com que se comprazem os ateus. Li isso numa altura em que tinha perdido a fé e li mais tarde, quando já a tinha recuperado.
No meu artigo inaugural aqui na Terra da Alegria, eu disse uma coisa banal mas verdadeira, que “o que me fez e ainda faz ser cristão é mesmo Cristo, a Sua pessoa, a Sua palavra, a Sua vida”. E que “quanto ao meu catolicismo, eu sei bem que a história da minha Igreja é uma história complicada, nem sempre coerente com a Palavra. Mas apesar do que fez e do que faz, a Igreja Católica consegue ainda ao fim de 2.000 anos dar-nos pleno acesso à Palavra e Vida de Cristo para que «acreditemos que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, acreditando, tenhamos a nossa vida em seu nome». A força da Palavra é demasiado grande face às fraquezas da sua Igreja. Isso me basta. Isso agradeço. Por isso, permaneço.”
Contei também um dia, no Guia, que mesmo tendo eu perdido a fé, estranhamente nunca deixei de ir à missa e ia lá, a uma daquelas mesmo mázinha, precisamente para justificar a minha descrença. Até que um dia, ao escutar a leitura do episódio do filho pródigo, ao sentir-me tão identificado com o irmão mais velho, iniciei um percurso de reflexão que me trouxe de regresso à fé. Foi portanto pela reflexão, não sei se pela razão, que atingi a fé que hoje tenho. Ora se foi a reflexão que aqui me trouxe, tem sido também a reflexão que por aqui me tem mantido. Para ser totalmente honesto, não será apenas a reflexão pessoal sobre os textos da fé e sobre a vida à luz da fé. Será também um sentimento de pertença a uma entidade que, mais do que uma comunidade de crentes, mais do que uma dispensadora da Palavra de Deus e uma administradora de bençãos salvíficas, me parece ser uma entidade com substância teológica própria. Talvez ainda mais do que tudo isso: sinto a minha Igreja, pela sua História tão polémica mas onde se adivinha um sentido, pela sua natureza tão multipolar mas onde se anseia pela unidade, pela dicotomia agreste entre a parte eclesiática e a parte laical, pela permanente contradição entre um conservadorismo caturra e um desejo de ultrapassar os limites da natureza humana, sinto essa minha Igreja como o melhor campo que posso imaginar para que, um dia, talvez, se Deus o quiser, eu venha verdadeiramente a ser cristão.
É precisamente por isso que, enquanto católico, convivo bem com a enorme diversidade desta casa que acredito ser de Deus, uma casa onde convivem e esbracejam guardiões severos da doutrina e teólogos especulativos, vendedores e compradores de indulgências, crentes que não praticam e praticantes que não compreendem, santos que querem salvar todos nós e iluminados que descobriram o caminho e já o reservaram para os seus seguidores, priveligiados pela Graça Divina e obreiros que se oferecem ao próximo, encenadores de liturgia e leigos que a dispensam, caçadores gnósticos e artesões de doutrina.
Ora assim sendo, é fácil de perceber que nem a minha fé católica nem a minha pertença à Igreja Católica, mesmo a minha participação num movimento de leigos de base, nada disso tem perturbado a minha liberdade de pensar a minha crença, nada tem aliás perturbado o meu atávico individualismo, também aqui no domínio da fé que tenho.
É claro que na Igreja, enquanto instituição, existiu e existe ainda uma forte pulsão normalizadora e reguladora da doutrina revelada. Nada mais natural para uma instituição vergada pelo peso da missão que lhe coube e mais vergada ainda pela eternidade a que foi obrigada. Discordo de muitas coisas que saem da cabeça da Igreja mas reconforta a minha fé vê-la funcionando assim. Até porque não tendo eu, como ninguém tem, o justo conhecimento de mim próprio, nunca sei a razão exacta da minha discordância, se é de razão, se é de conveniência.
E é claro também que muitos dos meus irmãos na fé católica a tem de forma mais normativa e catecumenal. Uns, por questão de maior comodidade, procuram cartilhas simples sobre em que acreditar e como viver aquilo em que acreditam. Outros, para maior garantia da sua salvação eterna, procuram outorgá-la à intercessão dos instrumentos que a Igreja sempre lhes oferece. Outros ainda, talvez os melhores de entre nós, procuram com a humildade da obediência seguir melhor o ensinamento e vida de Cristo, procuram sobretudo combater a inflamabilidade dos egos para fugirem à tentação que foi pecado original.
Resumindo, a Igreja oferece coisas diferentes a fiéis que lhe solicitam coisas diferentes. Mas nós todos, fiéis e clero, felizes e insatisfeitos, convictos e minados pela dúvida, fanáticos e almas doces, todos cabemos nela e ela cabe toda em nós. Sem prejuízo da salvaguarda da doutrina de que a Igreja é fiel depositária e sem prejuízo da nossa liberdade de pensamento, liberdade de escolha, liberdade de vida, liberdade até de renunciar à liberdade.
Pensando bem, muito mal seria que Deus tivesse carregado o Homem com o peso do livre arbítrio e nos negasse a liberdade na escolha do caminho de regresso a Ele.

3ºandamento – scherzo giocoso

Termino com uma história pessoal, verídica e bem representativa da tremenda bigorna moral e intelectual em que vivem os católicos de hoje.
Nunca disse isso aqui, mas eu sou dos que acreditam na eficácia dos sacramentos, sobretudo de alguns deles. Um daqueles em que eu acredito piamente é no chamado sacramento da reconciliação, conhecido aí fora pelo infamado nome de confissão. Acredito verdadeiramente e experimentei sensorialmente que o irmos prestar contas a Deus por intermédio dum homem como nós mas mandatado para receber os nossos insondáveis segredos, é uma ocasião única e preciosa para nos vermos a nós próprios, não como gostamos de nos ver mas talvez com os olhos de Deus. Para mim, a confissão é um processo periódico e terapêutico para readquirir uma humildade que foge de mim por todos os poros. Não é certamente canónico dizê-lo (e depois?) mas para mim o sacramento da comunhão só faz sentido como sequência deste. Mas adiante.
Há uns anitos já, numa daquelas alturas sacramentais, fui confessar-me a uma velha igreja do centro de Lisboa, cabendo-me em sorte um sacerdote já velhinho mas ainda rijo, com uma expressão permanentemente irada, devida talvez à raiva que ele sentia em ver a sua igreja mais cheia de pombos do que de fiéis. Comecei a confissão com a costumada crónica da minha vida egoísta. Ao correr da conversa encalhámos num detalhe narrativo, coisa inócua pensava eu, mas à qual aquele santo varão atribuiu uma importância tremenda. De voz trémula mas dura, quase brandindo o rosário contra mim, o sacerdote perguntava-me repetidamente: “Mas arrependes-te ou não? Estás em pecado terrível contra Deus! Se és cristão exijo que te arrependas!” Completamente perplexo com a situação, tentei trazer o sacerdote à mesa das negociações, tentei perceber em que parte do Evangelho ou do catecismo estava tão medonha sanção para coisa que me parecia tão banal. Mas de nada serviu, acabei por ouvir uma voz, tremenda e tremente, repelindo-me violentamente: “Pois eu não te absolvo! Vai-te daqui, filho da treva!”. E eu lá fui, cabisbaixo mas sobretudo pasmado. Ao saír daquela igreja tive contudo uma inspiração: atravessei a rua e entrei na da frente! Sentei-me no confessionário e comecei logo a explicar: “Sr.Padre, devo informá-lo que venho agora mesmo dum colega seu que me recusou a absolvição por eu lhe ter dito isto e isto...”. Ora este novo padre, que não era assim tão novo, riu bastante e disse-me: “Tolices! Tens que perdoar ao meu colega que além de um pouco duro de coração é também duro de ouvido. Faz-lhe a caridade de pensares que ele percebeu mal aquilo que lhe disseste. Conta lá então da tua vida...”
E passou-se isto nesta suave Lisboa que eu amo, no seio da Santa Madre Igreja que eu amo também. E pensando naqueles que nos veem, a nós católicos, vergados pelo peso da Doutrina e da Tradição, recordo aquelas doces palavras de Jesus, contadas por Mateus: «Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, que Eu hei-de aliviar-vos. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para o vosso espírito. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve
E pronto, acabei.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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