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segunda-feira, julho 4

 

Meditações sobre o Evangelho de ontem

Foi-se o tempo das grandes opções políticas. Foi-se o tempo de esquerdas e direitas clássicas em luta. O que se vê, hoje, é sempre mais do mesmo. Correntes caudalosas, afluentes magníficos, rios grandiosos, a desaguar no vasto oceano do capitalismo. Mesmo naquilo que parece ser o conflito do século, a guerra fratricida entre fundamentalistas cristãos e islâmicos, vê-se como decisivo combustível (e esta palavra não é sem propósito) o capital.

Ânsia pelo capital. Libido financeira. Orgasmo no consumo. Não é à toa que as propagandas veiculadas nos meios de comunicação têm tanto apelo sexual. Freud surpreender-se-ia com a capacidade humana de criar sempre-novos modos de sublimação. Os shopping centers são grandes templos de sublimação do desejo. A manipulação dos objectos de consumo como verdadeiras preliminares. O ato da compra como verdadeira explosão de hormonas.
O consumo, este sacerdote do omnipresente capitalismo, é um passo à loucura. Quer-se sempre mais. E o que se tem não se conquista, mas se compra. Trocas simbólicas. Tudo, desde os objectos mais simples até as próprias relações humanas, tudo é moeda de troca. Tudo realiza-se na superfície crua do capital.

Quem não se desprende desta superfície não consegue penetrar nos mistérios da transcendência humana. Os humanos deste mundo, os sábios do capital, os instruídos no consumo, estes não conseguem compreender o sentido último da condição humana. A estes nada é revelado. É o que nos diz o Cristo, na sua oração de acção de graças: "Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra,porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos."
É preciso revestir-se da pequenez. É preciso ser manso e humilde. Este é o ensinamento do Mestre: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma." Um convite à simplicidade.

Como sempre, a proposta de Jesus Cristo apresenta-se como contracultura. Num mundo onde o esbanjar é condição para manutenção do status, onde o esbaldar-se é elemento necessário para se fazer boa figura, onde o capital torna-se não apenas meio para a satisfação do desejo, mas o próprio objecto de desejo, neste mundo, o projecto do Reino de Deus soa como antinatural.
No entanto, não há nada mais humano que romper com a transitoriedade deste mundo. Nada mais humano que superar esta pulsão sempre irrealizável. Nada mais humano que buscar alívio e descanso.

É preciso olhar. Olhar além da moeda. Olhar além da libido do consumo. Olhar além da paranóia do se querer sempre mais. Olhar além da sabedoria deste mundo. E lá, ponto distante para onde nosso olhar se dirige, descobrir a revelação de quem somos na verdade. Somos mais que nosso desejo. Humanos, ainda que demasiado humanos.
Mas só quem tem o olhar do pequenino é que consegue ver. Só quem é como o Mestre, manso e humilde, é que consegue ver. Hoje, o convite à simplicidade, feito por Jesus, é um convite à superação da libido consumista, mas também à superação de tudo o que nos desumaniza. É um convite a revelação de quem somos. É um convite a olhar para nós mesmos. É um convite à humanidade.

Christian Bitencourt [MIGALHAS AO VENTO]

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