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quarta-feira, julho 27

 

Histórias para dormir a sesta (2)

(Continuação da semana passada)

4) dos hamsters
Retomo esta crónica com o azedume próprio do profeta que viu uma profecia sua ter a divulgação ultrapassada pela sua própria realização. Falo naturalmente da demissão do ex-Ministro das Finanças, cujo artigo no Público me tinha feito antever a sua retirada próxima. A mim e a mais umas 500.000 pessoas, mas agora isso já não interessa nada. Bem ao estilo deutero-Jeremíaco que agora me entusiasma, tinha já preparado um texto amargo chamado provisoriamente “serial-killing” em que reflectia sobre a elevadíssima taxa de mortalidade que neste pobre país tem sido apanágio da função. Também recordava as circunstâncias pungentes da saída de Sousa Franco, friamente sacrificado mais a Reforma Fiscal de Medina Carreira, dos cinzentíssimos derradeiros dias de Pina Moura no Terreiro do Paço, já contemplando o Monstro olhos nos olhos, recebendo a eito os sábios do regime para apresentar à pressa e sem qualquer esperança um já esquecido Plano de Redução da Despesa Pública, que o suavíssimo Guterres preferiu varrer para debaixo do tapete para assim manter a doce ilusão do irrisório défice de 1,1%, ilusão pela qual o seu amigo e meu irmão na fé católica, Oliveira Martins, aceitou sacrificar a sua reputação e credibilidade. Falava obviamente também na rispidíssima Manuela Ferreira Leite a quem outorgaram a nobre missão de salvar a Pátria do défice que a tolhia e tolhe, mas que também rapidamente se deixou cilindrar pelo rolo compressor do sistema político. Primeiro por facadas sibilinas do estilo “há vida para além do défice”, pela Sibila-Mor do Regime, o nosso Presidente Sampaio, e depois, com aquela frieza brutal de que só um ex-maoísta encartado é capaz, defenestrada sem cerimónia pelo actual detentor do record nacional de cargos internacionais, o “chernóbil” Durão Barroso. Uma triste história que vos tinha para contar mas não o vou fazer. Por puro ressentimento.
Assim sendo passo à profecia seguinte, que vinha aqui fazer hoje, a mais tenebrosa de todas. Já lá iremos. Antes disso convém recordar uns episódios da nossa gesta recente enquanto sociedade (será que o somos verdadeiramente?).
Começo pelos anos de chumbo de 1982-84 em que os estragos da confusão pós-25 de Abril (atenção que eu sou um democrata!) vieram dolorosamente ao de cima. Foram esses os anos em que os pricipais partidos do regime tiveram que se entender no Bloco Central, de memória tão injustiçada, e por falta de alternativas locais tiveram de deixar o FMI fazer um trabalhinho duro mas que tinha de ser feito. Era nessa altura Ministro Ernâni Lopes mas a meias com Teresa Ter Minassian, excelente senhora, ilustre representante do FMI e inflexível guardiã da aplicação das suas directivas. Foram tempos de austeridade, palavra hoje em desuso, mas em que se conseguiu evitar a bancarrota económica e o descalabro social. Muito deve o país a Mário Soares e Mota Pinto, chefes do PS e PSD, por terem deixado aquela dupla trabalhar enquanto arrostavam com a dura contestação nas ruas, o tal direito à indignação de que o pai da pátria veio a falar mais tarde.
Mas o facto é que a coisa resultou e por idos de 1985 os senhores do FMI fizeram as malas pois a nação tinha recuperado aquela credibilidade que, juntamente com o bom clima, há muito que era um dos seus poucos activos: a reputação de país de bem, respeitador dos seus compromissos, a quem se pode emprestar dinheiro.
Ora precisamente nessa altura, ajudado pelo epifenómeno PRD, aparece o fenómeno Cavaco Silva. Este homem hábil e ambicioso, com fortes semelhanças ao Fontes Pereira de Melo de há cento e tal anos, percebeu antes de toda a gente que, estando recuperada a credibilidade externa de Portugal, tendo sido ainda possível nessa altura tormentosa introduzir o país na CEE, era possível e necessário virar a agulha e dar um novo desígnio a Portugal, o do desenvolvimento, conceito mítico e mirífico para a sociedade de então que, agradecidamente, lhe entregou o seu destino.
Cavaco partiu dos seguintes pressupostos: a credibilidade externa recuperada, o novo estatuto de membro da CEE, permitiam de novo os necessários empréstimos no exterior, a entrada na CEE e os imensos fundos disponíveis para tornar possível a convergência deste país atrasado com a média europeia iam já começar a escoar. Também as privatizações, tornadas constitucionalmente possíveis iriam ser uma caudalosa fonte de receitas.
Deste confortável ponto de partida, o homem terá escolhido 3 campos onde investir a massa toda que se nos oferecia (ou gastá-la, como veio infelizmente a acontecer em grande parte):

  • Infraestruturas: autoestradas, pontes, vias férreas, ao melhor estilo fontista, telecomunicações também
  • Formação profissional
  • Investimento estrangeiro

E foi o que se fez, torrencialmente. Entretanto, escolheu-se manter uma política cambial restritiva e estabilisante, mantendo o escudo caro, aplanando assim o caminho para o euro e melhorando as condições do empréstimo externo mas reduzindo drástica e penso que irreversivelmente a competitividade externa da indústria portuguesa e por acréscimo as suas possibilidades de sobrevivência.
Ora, falemos então do que se gastou e como.
Quanto às infraestruturas, fez-se o que era absolutamente necessário num país em que se demorava 4 a 5 horas a fazer os 300 Km que separavam as duas principais cidades. É claro que todos os milhares de milhões disponibilizados para este fim injectou na economia um oxigénio que há muito lhe faltava, mas com tanta procura e oferta limitada, tenho para mim, que sou leigo no assunto, que os custos unitários de tanta obra em tanta frente foram maiores do que o deveriam ter sido. Sobretudo dado o secular laxismo do Estado português. Ao fim de tudo isso, ponho-me no Algarve em menos de duas horas sem parar sequer para os putos fazerem chichi, temos duas autoestradas paralelas entre Lisboa e Leiria e entre Aveiro e o Porto, mas o facto é que as mercadorias que importamos prodigamente continuam a percorrer penosamente o famigerado IP5. Enfim, malhas que o Estado tece...
Quanto à formação profissional ela era de facto imprescindível nesta sociedade tão desqualificada profissionalmente e tão atrasada culturalmente. Só que nem aqui o Cavaco todo-poderoso pôde fazer alguma coisa contra o atávico chico-espertismo nacional. Eu sei que isto é um assunto de que já não se fala muito e em relação ao qual poucos estão inocentes. Até eu, finalista que era do Técnico por alturas de 87, andei num curso já não sei de quê, coordenado por um professor meu, curso que me rendeu umas massitas jeitosas a mim e aos meus colegas e umas massas já boas aos respeitáveis formadores, todos eles assistentes da cadeira do prof. e uma grossa maquia ao dito professor. Recordo ainda com vergonha ter assinado umas listas de presenças que me faziam ter assistido a mais do dobro das aulas a que assisti de facto. Saí a meio do dito curso, por nojo e por ter entretanto arranjado emprego.
Exactamente, é do FSE, do Fundo Social Europeu, de que estou a falar, esse montão de dinheiro que foi distribuído sem eira nem beira, sem controle nem retorno, por formandos, formadores, formadores de formadores, coordenadores de formadores, por empresas de formação, por consultores de projectos de formação. Tanto carro, tanto monte alentejano, tanta obra em tanta casa, tantas férias nas Caraíbas, tanto dinheiro desperdiçado sem utilidade e sem préstimo! Houve por aí uns escândalos, uns inquéritos, uma prisão ou outra, até que a torneira se fecha definitivamente. E o país? Penso que ficou na mesma: mão-de-obra pouco qualificada, licenciados sem especializações específicas e práticas, e a educação, essa, cada vez pior.
E o investimento estrangeiro? Fez-se aí um bom trabalho: veio a Autoeuropa, a Grohe, a Lear, a Infineon, a Yasaki e muitas outras empresas que, a troco de muito generosas contrapartidas, vieram ajudar a baixar o desemprego para níveis residuais. Houve contudo alguns problemas. Um deles foi ter-se utilizado quase todos os fundos do PEDIP nestes projecto e não numa indústria genuinamente nacional. Recorde-me bem da estranheza que senti um dia ao ouvir o IAPMEI – Instituto de Apoio às Pequenas e Médias Empresas Industriais dizer que os fundos disponíveis estavam todos cativados para projectos como a Autoeuropa, esse arquétipo da PME!..O outro problema foi de novo uma idiossincrasia do estado português. Muitos de vós não terão ideia do estranho que é uma entidade, especialmente se fôr estrangeira, a negociar com o Estado português. Não existe um interlocutor mais mole, mais passivo, mais inacreditavelmente burro do que um qualquer ilustre representante do Estado português sentado do outro lado da mesa a defender os interesses da Nação e a negociar as contrapartidas de uma qualquer concessão. Mesmo que assessorados por um qualquer dos grandes escritórios de advocacia da capital, dizem-me ser um espectáculo inolvidável e tocante a preocupação e empenho do dito Exmo. e Ilmo. representante em reduzir a exposição do investidor privado à eventualidade do risco do negócio o qual parece estar sempre destinado a ser assumido pelo Estado, paternal e atento. Atenção: este mal não apareceu com Cavaco! O paroxismo disto tudo ocorreu nos governos guterreanos, onde a lusa interpretação do project finance atingiu paroxismos nunca vistos em latitudes acima do Sahara. A dúvida estava e ainda está sempre aqui: será burrice, será outra coisa?
Mas o meu ponto é que todos estes investimentos estrangeiros, que injectaram também eles incontáveis milhões na nossa economia foram quase todos eles negociados à portuguesa: receberam a massa, investiram também eles um bocado, ficam cá enquanto lhes apetece e vão-se quando também lhes apetecer. Lá fora sei eu que não é assim. Na Irlanda os contratos de apoio estatal e comunitário são draconianos; em Espanha priveligiou-se a figura do parceiro espanhol, para que fique ele com o negócio se o coreano ou o alemão se quiser pirar.
Enfim, é triste. E penso que deve ter sido por tristeza e melancolia, ao ver o estrondoso fracasso da terapia por si prescrita, que o Prof. Cavaco amuou e foi embora.
Teria sido bom se não tivesse vindo a seguir a ele o amabilíssimo Guterres, homem de ideias mas sem determinação, como ouvi anteontem ao professor do regime. Guterres, bom católico, da corrente providencialista, não cuidou de perceber como isto estava. Viu apenas uma economia túrgida de dinheiro fresco, ávida de gastar e consumir. E confundindo crescimento com circulação de capital, ajudado ainda pelas baixíssimas taxas de juro proporcionadas pelo caminho para o euro e depois pelo próprio euro, aquele homem providencial e o seu governo, passou 4 anos a deitar gasolina para a fogueira das vaidades nacionais renascidas. Estava tudo no melhor dos mundos, consumia-se cada vez mais aquilo que era cada vez mais quase tudo importado, distribuía-se ainda chorumentos negócios aos privados, e caminhámos alegremente, cantando e rindo, para o momento do primeiro susto, altura em que o primeiro abrandamento da economia revelou ao nosso horrorizado primeiro-ministro que os pés da nação eram de barro e barro mal cozido, ainda por cima...Foi então que o Monstro, previsto e talvez criado por Cavaco Silva, apareceu de rompante, tenebroso e furibundo.
Vendo-o tão zangado e incontrolável, Guterres só não perdeu ali mesmo a sua vida política pelo feliz facto de se ter abstido de a arriscar (onde é que eu já li isto?). E pirou-se o homem, invocando o mítico Pântano, que subsiste até hoje cada vez mais negro e fedorento.
Tão negro e tão fedorento que desde então os partidos de poder parece que se esforçam de nele permanecer o menos tempo possível, atirando-o um ao outro, para que nele escalde as mãos. E assim tem sido. Uma porra, se me é permitido usar este termo neste espaço de elevação.

Depois deste triste desabafo, olhando para o desnorte do povo e a para a perfídia dos príncipes, olhando para a forte Babilónia, aqui ao lado, pronta a tragar-nos, vou fazer então a minha profecia para os tempos que aí vem. Não é profecia sobre as presidenciais, esse assunto inventado para nos distraír de cinco em cinco anos. Não é profecia sobre a Ota e o TGV, pois toda a gente sabe que nunca serão construídos, por absoluta impossibildade. Fala-se neles porque os nossos governantes continuam a pensar, recorrentemente, que o que faz falta é animar a malta. E, ingenuamente, continuam a pensar que esses grandes projectos animam alguém que não seja membro da AECCOPS. Não, a minha profecia é sobre assunto mais substancial e tormentoso. Mas os tempos são tão negros que prefiro adoptar um método com que Jeremias nunca sonhou: a profecia de escolha múltipla! Ora aqui vai, ponha lá então a cruzinha no quadrado que melhor lhe aprouver:

c FMI e capacetes azuis

c habla usted español?

Muito boas férias para todos. Não pensem muito nisto.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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