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quarta-feira, julho 20

 

Histórias para dormir a sesta (1)

Duas notas prévias, só para que me percebam.
A primeira é que eu sou um optimista. Embora não acredite na sorte, acredito na estatística e por isso tenho para mim que se formos tentando sempre, mantendo a grimpa razoavelmente levantada e a bolinha razoavelmente baixa, acabamos sempre por chegar aonde queremos. Ou razoavelmente perto. E se por acaso isso não acontecer, o facto de o termos tentado já nos transformou automaticamente em pessoas melhores o que, por si só, já melhora consideravelmente o sítio a que chegámos.
A segunda é que é tenho alma de profeta. Costumo prever coisas, adoro quando elas acontecem e arranjo facilmente explicações quando elas não acontecem. E como profeta que gostaria de ser, sinto-me mais próximo do modelo do profeta chato, assim do tipo Jeremias. O gozo que dá em dizer “bem me tinha parecido” ou melhor ainda: “eu bem tinha avisado”! E nunca digam que Jeremias era um pessimista pois ele levou uma vida inteira a pensar que conseguia convencer o resto da malta sobre o caminho que as coisas estavam a tomar. Não lhe ligaram nenhuma e foi o que se viu: o exílio, a destruição do Templo, humilhações, sacrilégios. Mas bem que ele tinha avisado.
E agora que tal como Jeremias me vou raspando, não para o Egipto mas para o Algarve em férias, vou deixar aqui umas previsões para animar a malta, previsões a curto, médio e longo prazo. Só aceito reclamações para as de longo prazo. Então aqui vai.

1) do petróleo:
Li há umas semanas, no Público, uma coisa porreira que passou despercebida: um quadro superior do Banco Mundial a dizer que verdadeiramente não há uma estimativa correcta das reservas de petróleo ainda existentes. Até há coisa de 20 anos a OPEP mais as petrolíferas mantinham uma análise permanente e credível mas que, por qualquer razão, deixou de ser feita. Assim sendo as estimativas actuais apresentam-se completamente desactualizadas e comparando os consumos das últimas duas décadas com as jazidas descobertas e registadas, o dito senhor afirma sem rebuço, que os números apresentados como reservas mundiais se encontram inflacionadíssimos! Contudo esta situação desagradável tem sido pouco falada para não agravar ainda mais as tensões de subida dos preços do crude, que se encontram já altíssimos. Ainda segundo este senhor, a forte aceleração do consumo chinês acabará por fazer despoletar esta realidade dentro de muito poucos anos, altura em que os preços atingirão níveis estratosféricos.
Não sei se tem reparado que os chineses, cujas preocupações humanitárias para com terceiros não são decididamente um traço dominante do seu quadro mental, esses chineses andam a apoiar fortemente a África, com ajuda sobretudo económica e técnica. O facto é que em África se situam grande parte das reservas ainda inexploradas e tenho para mim que os chineses que pensam sempre a longo prazo, andam já a tratar das suas comprazinhas para os próximos 20-30 anos. Os americanos já se sabe o que tem andado a fazer. Os europeus, esses, veem mais longe, já formaram uma sociedade pan-européia de capitais mistos, públicos e privados, que irá estudar, desenvolver e explorar a fusão a frio para nos aquecer a todos. Não se sabe muito mais excepto que o local já está escolhido e é em França. Parece-me bem.

2) do Islão:
Já sei que não parece bem dar este título a um texto em que vou falar do terrorismo islâmico que, como se vê, veio para ficar. E realmente o Islão, enquanto religião e tradição cultural, vale infinitamente mais do que preversa concepção que dele tem esses fundamentalistas que querem rebentar-se junto com isto tudo que é nosso. É também injusto e abusivo dizer que todos os muçulmanos apoiam o fundamentalismo radical e terrorista. No entanto, bom é que se vá percebendo que todas estas iniciativas jihadistas contra o Ocidente encontram um bom acolhimento em parte muito apreciável da sociedade islâmica espalhado por todo o Mundo. Tenho para mim que o problema não é do Islão em si mesmo nem da pobreza nem da exploração ocidental nem da arrogante existência de Israel nem da guerra do Iraque, uma das mais estúpidas iniciativas de que tenho memória. Quando muito, tudo isso são factores que ajudam pois, quanto a mim que só sei o que li, o problema principal está na própria sociedade islâmica. Esta, nos sécs. XIII e XIV, ainda sob o choque das cruzadas que foram para eles como que uma verdadeira violação, enquistou-se numa visão pessimista e retrógada do mundo. Foi quando acabou a espantosa ciência islâmica, legítima herdeira da ciência grega. Foi quando o pensamento especulativo foi totalmente banido da teologia islâmica que se tornou profundamente legislativa e normativa. Foi quando as relações sociais passaram a viver sob o crivo estrito da Sunna. Ou seja o Islão, que fora uma das mais brilhantes civilizações de todos os tempos, tornou-se numa sociedade fechada, retrógada, caturra. Uma sociedade que enviou para uma total irrelevância a metade feminina da sua população, facto que deixou consequências terríveis ainda hoje sentidas. E enquanto o Ocidente se desenvolvia intelectual e materialmente, se secularizava e alterava profundamente a sua organização social, o Islão ficou a assistir a isto do remanso da kashbah, irritado e ressentido. Durante uns tempos ainda teve o gozo de ver os poderosos califas otomanos a porem a Europa em sentido mas, inevitavelmente veio Lepanto e outras catástrofes, que fizeram o Islão confrontar-se ainda mais com a sua fraqueza perante o Ocidente cristão, antigo viveiro de cavaleiros brutos e ignorantes.
Assim sendo, os últimos 4 ou 5 séculos tem sido um período de contínua acumulação dum enorme ressentimento do Islão contra os Europeus, agravado aliás pelas patifarias que nós lhes íamos fazendo. Era um ressentimento agravado ainda pelo sentimento da própria inferioridade, pela sensação de nada haver a fazer. O célebre fatalismo muçulmano ajudou a mantê-los quietos mas em nada reduziu as camadas de ressentimento que se foram acumulando no ethos islâmico.
E eis que um dia, não se sabe bem quando, esse fatalismo mudou. As revoltas do Mahdi no Egipto e no Sudão no séc. XIX, o aparecimento da Fraternidade Muçulmana em inícios de XX, foram os primeiros sinais de que as coisas iriam mudar mais tarde ou mais cedo. E hoje vemos tão bem como mudaram! Hoje temos a Al-Qaeda que mais do que um movimento é um conceito, um programa. Hoje espantamo-nos com a facilidade com que jovens muçulmanos pacatos, sérios, bem integrados se transformam em bombistas suicidas após umas prédicas mais inflamadas nas mesquitas, umas sessões de doutrinação por algum sheik aureolado por passados feitos bélicos algures no Afeganistão e finalmente um estágio num campo qualquer do Paquistão. A razão é tragicamente simples: alguém despertou neles o tremendo ressentimento que foi passando de geração em geração e alguém varreu da mente deles o velho fatalismo, brandindo o exemplo de jihadistas que alcançaram já o paraíso.
Há ainda uma outra coisa, segundo um amigo meu, um inglês very british que anda muito próximo da suave corrente sufi do Islão, há ainda uma coisa que faz com que um jovem homem muçulmano olhe tão facilmente com tanto ódio para a sociedade ocidental em que habita: é o problema da condição feminina. Desde que as correntes estritas do Islão alcançaram predominância, a “guerra dos sexos” que nos é tão familiar, foi completamente arredada do Islão, para supremo conforto e descanso do pessoal masculino. É também por isso que a sociedade ocidental, com o seu igualitarismo sexual, é vista por eles como uma tremenda ameaça a uma ordem moral que pensam ser imposta por Deus mas que, sobretudo, lhes convém imensamente. Esse meu amigo contou-me que todos os amigos muçulmanos dele que deram em fundamentalistas, isso aconteceu-lhes após se casarem! E esta? Lembram-se do assassinato de Théo van Gogh, não se lembram?
Por isso, meus caros, penso que estamos metidos numa alhada e que isto vai aquecer. Estes terroristas não querem simplesmente que a gente saia do Iraque e do Afeganistão. Nem nos querem sequer converter. Nem que a gente lhes compre os tapetes deles. Eles querem mesmo é o nosso sangue, sangue para remissão das humilhações a que o Islão se deixou sujeitar...

3) dos tigres
Penso que os meus amigos terão certamente reparado que a Europa vai ficando um pouco parecida com o parque industrial da antiga CUF, ali para os lados do Barreiro. Quem viu aquilo há 20 anos e vê aquilo hoje! Fábricas inteiras desactivadas, demolidas, terraplanadas e substituídas por assépticos parques de pavilhões ditos industriais com armazéns de quinquilharia, muita dela vinda da China! Ou então fábricas apodrecidas a funcionar ainda, num último estertor.
Como é evidente este arranque retórico é absolutamente exagerado mas verdade seja dita que a Europa no seu todo, enquanto potência económica global tem um futuro extremamente duvidoso. Para mim, leigo que sou, aguentar-se-ão bem a Irlanda, toda a Escandinávia, a Grécia (sim, a Grécia!) e pouco mais. A Inglaterra e Espanha parecem prosperar insolentement mas tem pés de barro, sobretudo a Espanha. Já a França, Alemanha, Itália, esses já não sabem como resolver os problemas que reconhecem ter, quanto mais aqueles que não reconhecem. De Portugal nem vale a pena falar, pelo menos por agora.
É que para mim, o capitalismo, essa ave migratória, já começou a voar em força para outras paragens, de mão-de-obra boa, barata e quase infinita. Uma mão-de-obra que o capitalismo irá tornar gradualmente mais próspera, muito devagarinho, de modo a que quando a Europa tiver definitivamente secado, já esteja plenamente aberto um mercado de quase 3 biliões de pessoas. Estou a falar, claro está, da Ásia e sobretudo da Índia e da China. China que está rapidamente a tornar na fábrica de todo o mundo e Índia para onde se está a deslocalizar muitas das actividades de maior valor acrescentado da economia global: software, inteligência artificial, modelos matemáticos de gestão, tudo coisas que assentam como uma luva ao raciocínio de um povo, de elevadíssima literacia e numeracia, que desde há milénios desbrava galhardamente as profundíssimas abstrações da metafísica hinduísta e que está habituadíssimo a cumprir escrupulosamente o seu dharma para assim melhorar seu karma.
Ainda aí tudo preocupado com os chineses mas serão os indianos que farão a mais séria concorrência à Europa, a concorrência naquilo que é mais precioso: a inovação intelectual, científica e tecnológica.
Já os americanos, esses, não consigo ver tão claramente o seu futuro mas facto é que eles conseguem ainda ser um enorme mercado auto-sustentável e que continua a atraír fundos e cérebros de todo o mundo. E como única super-potência militar, tecnologicamente a anos-luz à frente de todos os demais, vão-se preparando para ter uma forte palavra a dizer, nem que seja à cacetada.
Quanto à nossa Europa, se entretanto não nos tornarmos em Dar-al-Islam, não espero mais do que um empobrecimento progressivo e inevitável. Como sou um tipo frugal, penso que estou preparado. Bom é que nos preparemos todos.

E vou interromper-me por agora antes que me comecem a apedrejar, que é o destino usual dos profetas. E também porque, relendo o que escrevi acima, noto um insuportável tom petulante que só sei definir como sendo parecido com o do Nuno Rogeiro. Safa! Vamos mas é a parar e já! Mas para a semana continuo.

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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