<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, julho 20

 

Fazei o que Deus manda, quer Ele queira quer não...

O Speakers Corner em Londres é, para mim, um dos locais mais interessantes que conheço. A minha vontade seria levar um escadote comigo para arengar também um pouco às massas nesse local. Felizmente que com a blogosfera essa compulsão desapareceu um pouco, pois tenho podido sublimar esses ímpetos obcessivos com escadotes por meios menos trabalhosos de educar as massas.
Para quem não saiba, convém informar que o Speakers Corner é um local em Hyde Park em Londres em que qualquer um pode chegar lá e começar a botar faladura. Em cima de um banco, em cima de um escadote ou simplesmente em pé. E encontra-se lá quase sempre gente disposta a escutar (pelo menos durante algum tempo). Por vezes estabelecem-se debates calorosos entre os oradores e a assistência. Mas raramente se chega a vias de facto.
Deveria ser interessante fazer um trabalho histórico de investigação dos temas com mais oradores e com mais público. Alguém já deve ter feito esse trabalho mas desconheço-o. Particularmente curiosa é a evolução entre os temas predominantemente políticos de há umas dezenas de anos para a actual preponderância de temas religiosos.

Numa ocasião recente, após ter deambulado um pouco entre os vários grupos, apercebi-me de um orador quase sem público e dirige-me para ele. Tratava-se de um comunista da velha guarda. Como o tivesse visto a falar sozinho no meio daquela babel de proclamações em altos berros decidi aproximar-me timidamente e deixar-me a uma certa distância, a suficiente para o poder escutar. Ele contudo, mal vislumbrou que eu o estava a ouvir, veio na minha direcção e colocou-se à minha frente a arengar de olhos nos olhos. Deixei-me estar o tempo suficiente até que chegassem outros potenciais ouvintes e assim que estes chegaram debandei para outro grupo. O grupo que é a razão de ser principal deste post.
Tratava-se de fundamentalistas islâmicos e apelavam expressamente ao terror e a actos terroristas contra o Ocidente. Fiquei um pouco perplexo pois ignorava que a liberdade de expressão incluía aquilo que criminalmente se designa de "incitamento à prática de actos criminosos". Pensei: feliz a democracia que se permite este tipo de liberdade.
Entretanto tinha começado nesse grupo uma estranha discussão teológica sobre a possibilidade de Deus aceitar o terrorismo. Sobre a matança de inocentes, discutia-se a opinião de Deus sendo que uns eram contra e outros a favor pois nenhum ocidental seria inocente.
Nessa altura, dei comigo a pensar que estes últimos não estariam assim tão longe da verdade. Julgo que já Camus afirmava que não existiam nem inocentes nem culpados e as modernas correntes das ciências do comportamento tendem a confirmar essa hipótese.
O arengador passou depois à apologia dos atentados suicidas, detalhando com uma surpreendente abundância de pormenores materiais as recompensas que esperavam os "mártires" no paraíso.
E foi então, não posso garantir se ouvi ou se pensei, que na minha cabeça ecoou a frase que dá o título a este post: "Fazei o que Deus manda, quer Ele queira quer não..."

Timshel [TIMSHEL]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?