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quarta-feira, julho 6

 

Dimensões sociais: o dito e o não dito

Duas notas saídas da última Conferência Episcopal Portuguesa, reunida em Fátima no passado dia 23 de Junho, merecem um olhar mais atento. Deu-se o caso de, por dever de amizade, me ter deslocado ao Santuário de Fátima nessa noite, na companhia de um padre amigo. Talvez por essa razão, os bispos foram tão inspirados nas suas palavras - sábias, como é hábito que faz o bispo.


1. Um dos documentos, uma nota pastoral, intitula-se Um olhar de responsabilidade e de esperança sobre a crise financeira do país. Reflecte sobre as «medidas anunciadas pelo Governo da Nação, em ordem a resolver o problema do défice das contas públicas do Estado», que «ameaçam penalizar ainda mais aqueles que já são mais sacrificados, pela situação de pobreza ou de falta de trabalho, pela doença e pela desajustada carga fiscal». Não é o PCP ou o BE a falar: o documento relembra, a propósito, «alguns aspectos da doutrina social da Igreja, que devem inspirar o comportamento dos cristãos e de quantos procuram o melhor para o país».
Quanto às medidas a tomar pelos responsáveis políticos, elas devem, no entender dos bispos, «ser globais e não particulares, privilegiando aquelas que não se limitam a resolver aspectos imediatos do problema, mas são portadoras de solução a médio e longo prazo, como o são, por exemplo, o investimento na inovação tecnológica, uma economia geradora de emprego, uma educação para a liberdade responsável, a análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social». Podiam também ser estas as palavras vazias de um qualquer deputado da 3ª fila do PS ou do PSD (ou um qualquer do PP), não fosse o sublinhar da urgência da análise aprofundada das causas da pobreza e a responsabilização social.
Por último (um último escolhido por mim, que há mais para ler - ide consultar o documento), um apelo (para fazer uma referência ao sr. presidente) à necessidade do contributo de todos: «o que se pede a cada um deve ter em conta a sua situação peculiar, não pedindo o mesmo a pobres e ricos, não descurando os doentes e as pessoas dependentes, não fragilizando as famílias, já tão atingidas por fenómenos como a desagregação ou endividamento insustentável. Em todas as políticas, mas de modo particular nas políticas de austeridade, há grupos sociais que precisam de uma atenção particular, porque quando se agravam os seus problemas, agravam-se inevitavelmente os problemas de toda a comunidade». De todos. Pensionistas ou ministros das finanças. Parece-me.

2. Outro documento que merece referência é a nota sobre Educação da Sexualidade. Aqui, importa tanto o que se diz, como o que não se diz. Os bispos, como os bons poetas, escolhem bem as palavras. Não dizem nem mais nem menos do que querem dizer. Daí que tenha muita importância o que calam.
Depois de reconhecerem a evidência da sexualidade como «um dos núcleos estruturantes e essenciais da personalidade humana», a nota refere a «dimensão social da sexualidade, uma vez que os encontros e desencontros de uma relação contribuem para amadurecer, em cada homem ou mulher, dinamismos de doação, de entrega, de abertura aos outros e ao mundo».
E mais: «a sexualidade humana, correctamente entendida, tem uma ligação profunda com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido. Desta ligação resulta o papel central da sexualidade na vida humana, factor decisivo para o desenvolvimento harmonioso da pessoa que só se atinge no amor». Assim, «a educação da sexualidade não se resume a mera informação sobre os mecanismos corporais e reprodutores, como tantas vezes tem acontecido, reduzindo a sexualidade à dimensão física possível de controlar com vista à prevenção contra o contágio de doenças sexualmente transmissíveis e o surgimento de gravidezes indesejadas. Desta forma, deturpa-se o sentido da sexualidade, isolando-a da dimensão do amor e dos valores, e abre-se caminho à vivência da liberdade sem responsabilidade, pela ausência de critérios éticos, e à aceitação, por igual, de múltiplas manifestações da sexualidade, [tais como] as relações corporais sem dimensão espiritual porque o amor e o compromisso estão ausentes».
Parece o mesmo discurso de sempre, não parece. Parece. Mas não é. Ora leiam com mais cuidado e atenção. Hummmm.... Não falta nada? Falta, sim, e essa é a novidade. Noutra ocasiões, mesmo num passado recente, a última frase teria a palavra sacra "matrimónio", esse sacramento mágico que valida (e só se torna válido com) as relações sexuais.
Nas palavras da Conferência Episcopal, uma sexualidade plena «tem profunda ligação com o amor e só nele encontra o seu verdadeiro sentido» e apenas é censurável uma sexualidade onde «o amor e o compromisso» estejam ausentes. Alguém falou em matrimónio?
Sobre o resto do documento, já escreveu o Miguel. Eu contento-me com o que não está lá.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

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