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quarta-feira, junho 8

 

Também Filoctetes.

Os gregos na viagem para Tróia pararam numa ilha para fazer libações aos deuses. Filoctetes foi à frente indicar o altar aos companheiros de viagem. Mas foi mordido por uma serpente num pé. O pé cheirava mal, os lamentos de Filoctetes eram lancinantes. Os gregos retomam viagem. Mas em breve não são capazes de suportar a presença e a doença de Filoctetes. Largaram-no, por isso, numa ilha não habitada. O tempo passa. Ulisses é informado por um adivinho que só com a presença de Filoctetes seria possível conquistar Tróia. Vai ter com o homem rejeitado. Depois de uma série de peripécias, Filoctetes recusa-se a ir combater em Tróia, a juntar-se ao exército que o expulsou do seu convívio. Só uma intervenção divina desbloqueia a situação.

Esta peça, de Sófocles, representa mais uma vez o tratamento da temática da rejeição. Tem nuances que deixaremos de lado. A rejeição foi, é, será sempre dramática. Tanto hoje como ontem. Contudo, no passado parecia ter efeitos mais evidentes. O indivíduo pertencente à tribo, o indivíduo pertencente à Grécia Antiga, veja-se, também, por exemplo, a dificuldade que Sócrates tem de aceitar a possibilidade de fuga que os amigos lhe prometem, o jogo entre a cicuta e o exílio, sente na rejeição um dos maiores, senão o maior de todos os castigos. Ser excluído da comunidade representa para o indivíduo uma das piores coisas que lhe poderia acontecer. De facto, a rejeição social, nos múltiplos modos que assumiu ao longo da história representa um acto de grande crueldade. A comunidade que rejeita um indivíduo sabe que o coloca numa situação em que ele perde muito e quase tudo o que lhe alimenta a identidade. Tal como os indivíduos que vivem no seio da comunidade e que a comunidade não reconhece como iguais, também o indivíduo colocado fora da comunidade é colocado abaixo dos patamares onde a dignidade de cada um é assegurada. Quando uma comunidade colocava um indivíduo fora de um mesmo espaço de pertença, sabia que o mandava ou para o total isolamento ou para o seio de uma comunidade onde nunca poderia viver em plenitude uma vida em comum.

Rejeitar e ser rejeitado eram assim actos claros. E grande parte das vezes definitivos. Quando a comunidade rejeitava um indivíduo ou quando um indivíduo era rejeitado, a comunidade e o indivíduo sabiam que dificilmente o indivíduo poderia encontrar um novo espaço de pertença. Hoje, as coisas parecem diferentes. Não que a rejeição não continue operante. Ou que não continue traumática. Mas é como tudo: o modo como hoje se processa, tem vantagens e desvantagens.

As vantagens advêm do facto do indivíduo parecer ter hoje pela proliferação de interesses e finalidades que produz imensas sub comunidades debaixo da mesma comunidade, a possibilidade de quando rejeitado por uma sub comunidade, namoro, casamento, trabalho, local, ter a oportunidade de encontrar noutro lado outra sub comunidade que o acolha e que o acolha como membro de pleno direito. Por aqui, e assim, se atenuam os efeitos que no passado pareciam irreversíveis. Contudo, por outro lado, esta possibilidade de passar de comunidade em comunidade, de namoro em namoro, de casamento em casamento, de trabalho em trabalho, de local para outro local, faz com que no momento em que cada um de nós está inserido numa dada comunidade, namoro, casamento, trabalho, local, nação, acabe por ter a tentação de relativizar a importância dos laços. A força dos laços.

O que é que isto pode ter a ver com religião? – Tudo. Religião é ligar. E o que pode ter a ver com Igrejas? – O que estas souberem ou quiserem fazer. De qualquer modo, por muito que queiram ou não queiram, há ao lado do espaço comunitário da Igreja diversos espaços comunitários que rivalizam em intenções e sucessos, por muito que queiram ou não queiram, a sua missão só se concretiza quando há uma luta efectiva para que seja realçada no discurso e na prática a força das ligações.

Fernando Macedo [A BORDO]

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