<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, junho 8

 

Sete palmos de terra

– Nem me lembrei de rezar. Esqueci-me.
– Não faz mal, Deus salvou-te na mesma.


O diálogo foi mais ou menos este. Entre irmão e irmã, com ele a contar-lhe como tinha sido torturado quando raptado. E que, naquele momento de desespero, esqueceu-se de rezar, ele que vai à igreja, canta no coro e é homossexual. Antes que me atirem a primeira pedra, falo de uma cena da série «Sete palmos de terra/Six feet under» (A Dois, às segundas) e que aqui me ajuda a verter ideias.
A morte preenche os planos da série (há outros blogues que vêem/comentam a série: podem começar a partir, por exemplo, da Bomba Inteligente) e há ali motivo de reflexão para todos os crentes, estivessem os crentes dispostos a questionar-se. Prefiro reduzir esta conversa àquela fala entre David e Claire. Porque, nestas simples frases, estão ecos daquilo que pode ser a oração, diferente da prece que é a oração de muitos.

Por hoje, não quero pôr em causa a religiosidade popular que alimenta Fátima e de que se alimentam tantos. É uma expressão como (as) outras. Mas quero sublinhar a aprendizagem que se pode fazer a partir de um curto diálogo de uma série de televisão: a ausência de Deus no nosso discurso em momentos de angústia não é escândalo nenhum. Nem Deus precisa da prece, da súplica, da calamidade tornada reza. Nem nós precisamos de um deus assim.

Já em tempos distintos aqui falei destes dois temas. Da dificuldade da oração, da encomenda das almas. Hoje cruzo-os – porque se cruzam. Na hora da morte ou do momento de dor. Ou apenas na véspera do exame ou na procura de um emprego. Disse, e mantenho, que o que «me incomoda nestas encomendas das almas é uma apropriação ilegítima de Deus, profetas e santos. […] Uma fé que se alimenta de cobradores de calções ou peregrinos ajoelhados – em que só se valida o crer por Ele nos responder. Ao golo, à cura, à sorte no amor e no trabalho.» É, neste campo, que se recriam forças para cavar mais fundo e contrariar estes tempos «em que a oração [nem sempre] nasce. […] A vida não se compadece com tempos para reflectir e de nada valem as trovas do vento que passa. O vento sopra fraco e nem pela brisa da tarde sentimos Deus a passear.»
Pois: mas também há maneiras de contrariar este vento fraco em tempo quente. Basta pensar que Deus é presente, mesmo quando nos esquecemos dEle.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?