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segunda-feira, junho 13

 

«Quem está vivo deve ter isso na lembrança»

Quando cheguei ao mosteiro de Mar Musa, do século sexto, era um padre italiano que estava a tomar conta dele.

- Falo árabe, penso em árabe –disse-me o padre quando lhe indaguei as origens, confessando vergonha no facto de ser europeu.

É dos poucos mosteiros do deserto que ainda existe, isolado de tudo, neste país. O edifício fica preso à rocha: a terra e a obra humana misturam-se como espírito e matéria, confundidas. A porta que lhe dá acesso é orgulhosamente minúscula, impondo humildade, obrigando a dobrar o espinhaço e a colocar no coração, de lembrança, a pequenez patética do ego.

Pôs-se a mesa no chão, em cima de tapetes e comemos numa tenda montada num terraço do tosco mosteiro. Com as mãos, auxiliados pelo pão.

-Alcântara, oxalá, azeitona, almofada – dizia eu no árabe que é português. E a S. repetia-me, dizendo as mesmas palavras com o sotaque sírio. Algumas ia reconhecendo com espanto, outras, as incompreensiveis, repetia como máquina.

Lá, estavam dois homens que peregrinavam antes de se empregarem no exército sírio. Eram americanos com dupla nacionalidade, com filhos e mulheres na Califórnia.

- Prenderam-nos depois do 11/9, por sermos do Médio Oriente. Eu, estive seis meses na prisão. Por fim, lá me soltaram.

- Nunca tive, sequer, uma multa de trânsito –acrescentou o outro.

- Não temos maneira de sobreviver nos EUA, tivémos de emigrar. O exército sírio é que irá pagar a comida dos meus filhos que são cidadãos americanos.

Fui-me deitar. O quarto era, num anexo, escavado na rocha e tinha umas mantas a fazer de cama. O frio era difícil de suportar, no alto da montanha. A chuva vinha com o vento. A casa de banho ficava a uns metros dali, separada por chapadas de vento, bategadas, lama e escuridão. Tudo a culminar na escarpa onde o mosteiro se ergueu há mil e quinhentos anos. Nessa noite, chegaram dois estrangeiros. Estavam a dar a volta ao mundo de bicicleta e estavam completamente encharcados. Conversámos e um deles disse-me uma coisa notável, que gerou controvérsia. Disse ele que preferia não ter a experiência pelo qual passava, mas apenas as conclusões. Argumentei que conclusões qualquer electrodoméstico tem, basta carregar no botão que ele reage de acordo, mas que tal facto não advém da vida vivida, mas de parafusos e volts. Reclamei que para um homem que se faça homem não haverão conclusões, mas portas, portinhas e janelas – e todas elas pequenas, baixas e minúsculas, de modo a fazerem dobrar as costas e baixar o nariz; que a experiência e a memória não são factos, mas interpretações, que variam com os anos, com os dias, com as novas rotinas, problemas e surpresas. E ainda lhe disse mais, disse que, tal ideia, era como jogar um jogo de cartas não o jogando, apenas apontar o resultado: neste ganhei, neste perdi. O ciclista manteve-se firme na sua convicção. O melhor é evitar a dor da experiência.

Diz uma lenda, que Lao Tsé nasceu já velho, de cãs e marreca. Percebo o essencial desta estória, mas também pode ser lida pelo lado do absurdo, por aquele lado que, acho, o viajante da bicicleta defendia: A mãe de Lao Tsé, nunca o viu crescer e, quando ele nasceu, olhou para ele como quem olha para uma conclusão. Nunca teve um filho, teve, isso sim, um livro de versos indecifrável. E indecifrável porque o que um livro tem para contar, conta-o na exacta medida em que o podemos compreender; um livro não é apenas o que se escreve, é também e, em grande medida, o que se lê.

Quando Salomão pede sabedoria, diz-se que Deus lha concedeu, mas não diz como: isto é assim, aquilo é tal. Não quero contradizer o próprio Deus do Universo, por isso, tenho para mim, que o tal saber invejável não foi entregue, a Salomão, dum trago. Acredito que, ao Qohelet, ao filho de David, a dávida estava feita juntamente com o pedido: desejar conhecer e, somente por isso, tudo se concretizava. Ele teve ganas de saber, Deus fez-lhe a vontade, não lhe deu respostas, manuais ou sumários, mas deu-lhe ânsias de conhecer, desejo que inevitavelmente desembocaria na sabedoria.


Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

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