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segunda-feira, junho 20

 

Percursos do eterno no ocidente (2) – arqueologia de Deus

Comecei na semana passada a falar do livro de Régis Debray, "Deus, um itinerário. Materiais para a história do Eterno no Ocidente". Debray situa o seu texto no campo da mediologia – o estudo dos meios, dos reflexos com que o homem foi exprimindo e vivendo a experiência religiosa. Hoje destacarei duas ideias dos primeiros capítulos deste livro.

Ideia um: "Um Pai Eterno mais novo que a sua progenitura?". O nosso Deus é uma ideia tardia: dois ou três milhares de anos de judeo-cristianismo para cinquenta a cem mil de homo sapiens sapiens. O facto religioso é uma evidência antiga – não se conhece povo que abandonasse os seus mortos sem qualquer tipo de rito fúnebre. Porém até chegarmos ao monoteísmo desenrolou-se um processo longo de decantação e de abstração. Debray analisa esse processo no que podia chamar-se uma arqueologia do sagrado: "Mediodependente, o Eterno não podia andar mais depressa do que a história dos nossos meios de consignação e de locomoção – a música das civilizações começa em ritmo lento". Essa caminhada de descoberta do monoteísmo começa "no alto da duna" – "O deserto é monoteísta", dizia Renan, defendendo que foi a sua aridez que trouxe a purificação da ideia de Deus: "o árido cura-nos dos ídolos". Debray vai mais longe e procura perceber a marca que a civilização pastoril hebraica deixou em Javé: "Um povo de bons oradores, concebe um Olimpo bem-falante e questionador. Um povo de pastores concebe, como ferramenta de coesão e independência, um grande pastor celeste, substituido em contrabaixo por pastores de carne e osso, profetas ou monarcas". Avancemos que a história é longa.

Ideia dois: um Deus alfabético. "Não se conhece nenhuma sociedade puramente oral que tenha uma noção do Eterno" diz logo no início do segundo capítulo. A abstracção que permitiu inventar o alfabeto permitiu uma reconfiguração do divino. A escrita não figurativa – onde a notação representa apenas os sons elementares da língua falada e não os objectos representados – nasce num processo longo, da pictografia, à ideografia até chegar à fonética. O surgimento do pensamento abstrato – que reduz as ideias ao essencial e as escrita aos fonemas elementares – acompanha a purificação do divino até à ideia essencial de um Deus único. É aí que se chega ao diagrama "YHWM" – Deus impronunciável, irrepresentável, distante de todas as formas de ídolos, totalmente Outro. Conceber a transcendência exige a abstracção completa. Ou de uma forma mais pitoresca: "A história do nosso Deus começa onde a banda desenhada acaba". Com a escrita chegamos a um Deus único. Com a imprensa rudimentar Javé torna-se portátil. Com a Arca da Aliança, passa-se de um Deus de arquitectos (do monumento) para um Deus de arquivistas (do documento). Ainda hoje Israel tem no seu grande museu de arte e arqueologia objectos rituais dos cultos politeístas da Antiga Palestina. Para conhecer artefactos do período monoteísta teremos que nos deslocar ao Santuário do Livro onde apenas se exibem manuscritos. Quando fazemos a comparação com outros deuses percebemos que a opção por um Deus discreto compensou: "O Único venceu finalmente os seus concorrentes, Marduk e Amon Rá. Estes ficaram imobilizados nos nossos museus, enquanto lá fora, nas ruas, Ele continua a movimentar milhares de crentes." Notar que esta comparação é material e não espiritual.

Para a semana espero chegar ao cristianismo propriamente dito.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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