<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

segunda-feira, junho 13

 

Percursos do eterno no ocidente (1) – o mito

Foi já há quase três anos que Régis Debray veio a Lisboa apresentar o seu livro "Deus, um itinerário. Materiais para a história do Eterno no Ocidente". Há muito queria escrever aqui sobre ele; vamos ver se desta vez sou capaz. Começo pela apresentação que o "Mil Folhas" fez deste filósofo, republicano de esquerda, professor na universidade de Lyon-III:
«Não sabe se Deus existe nem tal o preocupa. Através da mediologia, um método de investigação em ciências sociais por si inventado e que estuda as mediações técnicas da cultura, reduz a proporções mais "humanas" a mitologia do povo eleito e da Revelação, que a catequese e a tradição oral transmitem de geração em geração.»
Em que consiste essa tal mediologia com que Debray analisa o percurso da ideia de Deus entre nós? Consiste no estudo dos seus reflexos, nos meios com que o religioso foi sendo vivido e exprimido pelos homens. É o estudo das mediações técnicas da cultura aplicado ao fenómeno religioso. As conclusões são curiosas e pertinentes sobretudo porque contextualizam e desmontam o nascimento do monoteísmo sem caír em nenhuma relação causa-efeito simplista. A pretensão não é científica, pelo que o autor nos adverte imediatamente que não é no campo das ciências exacta que labora. No fundo é da história de Deus que estamos a falar – do modo como nasceu e cresceu o monoteísmo judaico-cristão – pelo que qualquer abordagem, e sobretudo a abordagem a partir dos medium, não se pode pretender definitiva e completa.
Pode Deus ser abordado desta forma, como um fenómeno, ainda mais como um fenómeno olhado a partir das suas mediações técnicas? Debray não tem dúvidas: "Deus aguenta toda a espécie de análises desde a alvorada dos tempos. (…) Na nossa tradição, a teologia é um campo de batalha".
A título de curiosidade e antes de deixar o melhor, cito a desconstrução do que será ainda um mito para muitos cristãos: Moisés nem sequer existiu. De Adão era certo e sabido; de Abraão já se suspeitava; mas Moisés? A conclusão bombástica não é tirada por Debray. Foram os dominicanos da Escola Bíblica de Jerusalém, editores da centenária e prestigiada revista Revue biblique que lho disseram. Curiosamente é aos pensadores religiosos que o mediólogo reconhece mais trabalho de pesquisa, investigação e desconstrução dos mitos fundadores do cristianismo: "No mundo francófono, os pioneiros da investigação paciente e do saber positivo encontram-se, em grande número, nos conventos e nas congregações, junto dos pastores e monges, enquanto nos meios laicos ou ateus prevalece uma inércia passadista (com a particularidade de os meios ditos cultivados não serem os menos crédulos)". Destaco a preocupação com o desconhecimento do religioso entre as camadas jovens, que o leva a propor o ensino obrigatório da história e identidade das religiões, numa França e numa Europa onde Debray encontra uma "situação paradoxal, a que conduz uma laicidade mal compreendida, suicidária a prazo, que proscreve a história das religiões da escola oficial".
Mas voltemos aos mitos. E recorro de novo à entrevista de Debray a Adelino Gomes:
«P: (…) Aquilo que aprendemos na catequese e os nossos avós nos ensinaram não era verdade?
R: É melhor que verdade. É uma mentira que fala verdade, como Jean Cocteau dizia dos poetas. Factualmente, a Bíblia é uma mentira. Mas é melhor do que uma mentira – é uma ficção. Quer dizer, é a construção de uma história ideal, é a reconstrução de uma pequena história como uma grande história, porque para se ter uma grande história é preciso inventar grandes mitos e os hebreus inventaram mitos formidáveis.
P: Quer dizer que a nossa civilização está baseada em mitos inventados, é um equívoco, portanto?
R: Mas claro. As civilizações baseiam-se em mitos. Todas as civilizações precisam de um passado e o passado é sempre fantasmagórico.
» Já dizia o nosso poeta: "O mito é nada que é tudo".

Antes de falar um pouco mais deste livro, deixo-vos com o seu excerto final. Para a semana espero voltar ao assunto. Trata-se de um post-scriptum em discurso directo:

«Post-Scriptum: Desculpem ser pouco. A minha biografia, afinal, valia mais do que a minha definição. Eu ficava aquém do meu futuro com o famoso "Eu sou aquele que sou". Devia ter dito a Moisés: Aquele que morre e se transforma. Sou o Ser cuja essência consiste em jogar às escondidas, em esconder-vos o rosto e surpreender-vos por trás. Milénio após milénio. No fundo, eu era a própria poesia: um mito que diz a verdade. E a verdade, é que vocês não podem passar sem um poema, um sonho colectivo, uma faísca de outras paragens, se querem viver e não apenas sobreviver. Vocês são demasiado poucos para o conseguirem sozinhos. Esqueçam os números, Podem ser cinco, dez mil milhões nesta terra, que isso em nada alterará a vossa insuficiência de ser. Vão continuar em falta. Sugeri que a culpa era vossa, com aquela história do pecado original, para vos fazer ver e vos culpabilizar, depassagem. Não passava, acreditem, de uma força de expressão. Encontrem outras, se vos der para aí, mas nunca vão conseguir escapar à vertical. Havemos de voltar a encontrar-nos. Eu ou Outro... Adeus.»

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?