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segunda-feira, junho 20

 

Ouço o Evangelho

Ouço o Evangelho, Mateus 10, 26-33: “Não tenhais medo.”
Na homilia, o padre repete “não tenhais medo” e fala sobre a Esperança.

Lembro-me de um texto de Tadeusz Borowski,
Bei uns in Auschwitz:

“Talvez estejamos aqui para que esse mundo novo e diferente possa finalmente acontecer. Ou acreditas que teríamos ficado um único dia no campo, se não tivéssemos a Esperança de que um mundo novo chegaria e que as pessoas recuperariam os direitos humanos?
Foi a Esperança que ordenou às pessoas que entrassem indiferentes nas câmaras de gás; que as impediu de planear uma revolta; a Esperança faz delas mortos e apáticos. A Esperança ordenou às mães que renunciassem aos filhos, às mulheres que se vendessem por um bocado de pão, aos homens que matassem pessoas. A Esperança levou-as a lutar por cada dia seguinte de vida, porque talvez o dia seguinte fosse aquele que traria a liberdade. Talvez nem sequer a Esperança de um mundo novo e melhor, mas tão-somente a Esperança numa vida com calma e paz. Nunca a Esperança foi mais forte que o Homem, mas nunca provocou tanto mal como nesta guerra, neste campo. Ninguém nos ensinou a desistir da Esperança. Por isso morremos no gás.
Como pode ser possível que ninguém solte um grito, ninguém cuspa num rosto, ninguém se encoste? Nós descobrimos a cabeça na presença dos SS, quando eles acabaram a contagem e regressam da floresta, nós caminhamos com eles para a morte e – nada! Nós temos fome, estamos em pé à chuva, levam-nos o que temos de mais querido. Vês, isto é a mística. Isto é o singular poder de uma pessoa sobre outra. O assalto selvagem que ninguém consegue quebrar. E a única arma que temos é o nosso número – nós somos demasiados, não cabemos todos nas câmaras.”


Tropeço nas palavras. Nunca a Esperança foi tão forte, nunca causou tanto mal.
É esta uma das faces da Esperança? O que é isso, afinal? Onde acaba a confiança e começa a resignação? Como distinguir entre Esperança e passividade (ou até cálculo, como neste exemplo extremo)? Será que Borowski está mesmo a falar da Esperança?

E depois, lembro-me de Maximilian Kolbe, um padre polaco. Calhou que, poucos meses depois de ter sido preso pela Gestapo e enviado para Auschwitz, foi chamado a assistir com os outros prisioneiros à escolha arbitrária que os soldados faziam de 10 prisioneiros, como medida de represália devido à suspeita da fuga de um homem. Quando um dos escolhidos começou a gritar e a lamentar-se que tinha mulher e filhos para sustentar, o padre Kolbe ofereceu-se voluntariamente para morrer em vez dele no bunker da fome.

A Esperança terá as suas vantagens, reconheço.
Mas é o Amor que nos redime. Só ele faz o mundo novo e diferente que esperamos.
Mesmo em Auschwitz.

Helena Araújo (
DOIS DEDOS DE CONVERSA)

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