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quarta-feira, junho 29

 

Os limites do homem (3): a exclusão da moral é a exclusão da essência humana

(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do cardeal Ratzinger proferidas alguns dias antes de se tornar o Papa Bento XVI - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como ainda alguns dos próximos posts que aqui escreverei, são baseados nessas palavras)

Não parece existir nenhum fundamento lógico para a obrigação moral que não passe pela alternativa entre as duas perspectivas seguintes:
- a obrigação moral assenta em axiomas,
- a obrigação moral é um mero produto de relações de forças conjunturais localizadas no tempo e no espaço e, neste caso, ela varia ao sabor das circunstâncias.
E também não existe, de um ponto de vista lógico, um meio termo entre estas alternativas.

"Mas esclareçamos primeiro o problema se as modernas filosofias iluministas, consideradas no seu complexo, se podem considerar como a última palavra da razão comum a todos os homens. Estas filosofias caracterizam-se pelo facto de serem positivistas e, por isso, anti-metafísicas, de tal modo que, no fim, Deus não pode ter nelas qualquer lugar. Elas estão baseadas numa auto-limitação da razão positiva, que é adequada para o âmbito técnico, mas que, quando é generalizada, leva pelo contrário a uma mutilação do homem. Consequentemente, o homem já não admite qualquer instância moral para além dos seus cálculos."
Sem uma referência a Deus e a normas de origem divina não é possível nenhuma fundamentação teórica válida de uma obrigação moral absoluta.
Certos moralistas laicos sustentam que as regras da convivência entre os homens produzem essa obrigação moral sem necessidade de recorrer à sua fundamentação divina.
Mas essa afirmação impede qualquer julgamento de validade sobre uma qualquer obrigação moral.
Na medida em que as circunstâncias sociais se alterem, a tortura, o assassínio, ou todo e qualquer comportamento criminoso podem deixar de o ser. O direito sem fundamentação divina é apenas o produto de uma relação de forças, a lei do mais forte.
De uma perspectiva laica, a obrigação moral de proteger os fracos contra os fortes ou é um simples absurdo ou é um comportamento utilitário dependente das circunstâncias históricas da evolução humana e, neste caso, em diferentes circunstâncias históricas, pode não fazer qualquer sentido.

"Mas o homem sabe fazer tanto e sabe fazer cada vez mais; e se este “saber fazer” não encontra a sua medida numa norma moral, torna-se, como já podemos ver, um poder de destruição.
O homem sabe clonar homens, e por isso o faz. O homem sabe usar homens como “armazém” de órgãos para outros homens, e por isso o faz; fá-lo porque esta parece ser uma exigência da sua liberdade. O homem sabe construir bombas atómicas, e por isso as faz."

Por isso o liberalismo, sobretudo a sua vertente económica, o neoliberalismo, está tão associado ao iluminismo e ao positivismo.
É, aliás, verdadeiramente assustadora a lógica "locked-in" resultante das "análises" políticas e sociais desse tipo de liberalismo fundamentalista.
Nunca lhe ocorre que existem situações em que os valores devem ser ponderados e em que critérios morais devem intervir nos automatismos dos sistemas.
O neoliberalismo iluminista torna-se assim uma espécie de capa legitimadora de uma moral de "vale tudo". Em que medida este edifício fundamentalisto-liberal não é apenas a tradução legitimante de um egoísmo aterrador? Em que medida este egoísmo não é camuflado ao nível da consciência dos liberais fundamentalistas pela sugestão de que tudo quanto pensam não é egoísmo mas apenas coerência e inteligência?
E por isso é tão perigoso para o auto-equilíbrio dos neoliberais questionar a moralidade do edifício. Dizer-lhes que o edifício é apenas o resultado (por vezes bastante lógico e coerente) de um certo tipo de moral (pretensamente amoral). Um colosso com pés de barro (como eram o nazismo e o comunismo). Os pés de barro deste colosso é a rejeição dos critérios morais como fundamento insubstituível de qualquer política económica.

"A separação radical da filosofia iluminista das suas raízes torna-se, em última análise, um não ter necessidade do homem. O homem, no fundo, não tem qualquer liberdade – dizem-nos os “porta-vozes” das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão."
E o então cardeal Ratzinger perguntava:
"Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?"
A resposta virá para a semana, se Deus quiser.

Timshel [TIMSHEL]

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