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segunda-feira, junho 27

 

Olhares sobre a Igreja. 3. A mulher na Igreja Católica.

Passo a transcrever, na íntegra, uma reflexão de Maria Alfreda Ferreira da Fonseca, publicada na agência ecclesia no passado mês de Maio. Trago esta reflexão para a Terra da Alegria, porque cada vez mais este é um assunto de primeira importância a ser reflectido dentro da Igreja Católica. Não sei fazer futurologia portanto não sei quando é que este e outros assuntos em debate serão devidamente enquadrados no presente da Igreja. Da minha parte quero contribuir para que sejam tratados com a seriedade que merecem.

“1- Qualquer reflexão sobre o feminino na Igreja é sempre uma questão situada no tempo e no espaço. Sendo a mensagem cristã dirigida a toda a gente e a todas as épocas, no âmago da experiência humana, é aí que se confrontam as questões concretas da vivência da Boa-Nova e das condições objectivas para a sua transmissão em Igreja, ou seja o velho problema da Evangelização (nova ou não, conforme os gostos...)
No início deste sec. XXI, num tempo de acelerada globalização, a situação não é pois homogénea nem no Mundo, nem na Igreja, incluindo a Igreja Portuguesa.
As questões do “Género” (feminino ou masculino) são então (apenas?) umas entre outras que desafiam a compreensão da Fé e a organização da Igreja em ordem a ser eficaz na sua tarefa evangelizadora. Não podem por isso ser ignoradas ou tomadas menos a sério do que quaisquer outras, sob pena de omissão grave.
Não se trata de importar um feminismo societário das sociedades desenvolvidas do Ocidente, tipo versão agressiva feminista - católica, como simplisticamente alguns sectores eclesiais e eclesiásticos parecem julgar ter acontecido.
Pelo contrário, o problema é bem mais sério e necessita de ser reflectido para além das paixões emocionais que se revelam nos debates a favor ou contra a maior participação feminina na Igreja e, particularmente, a disputa sobre a sexualidade e/ou a necessidade de as mulheres poderem vir a desempenhar ministérios ordenados que hoje lhes são vedados.
A questão do papel da mulher na Igreja, aqui e agora, é a mais viva expressão da inculturação da Fé na experiência da vida dos crentes, homens e mulheres que partilham “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. (...) (experiência) intimamente solidária do género humano e da sua história” (G.S.-Vat.II). Importa pois tomar a sério esta experiência humana que hoje estamos a viver.
Como no poema de Sofia, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar...” a realidade que perpassa a nossa vida de portugueses, europeus, mulheres e homens inseridos num país, numa cidade, numa Igreja que assumiu historicamente uma postura face à mulher pouco conforme com a referência a Jesus Cristo e muito devedora dos enquadramentos históricos e modelos ideológicos em que nasceu, se estruturou e que muitas vezes insiste em perpetuar como se fossem essas as únicas formas possíveis de se organizar!


2 – De onde vimos pois, para podermos olhar criticamente o passado e projectarmos o futuro de uma forma mais evangélica? Sabemos onde acabam os modelos históricos ligados à experiência de uma Fé incarnada e onde sopra o apelo do Espírito que impele a novos caminhos ainda inexplorados? Qual será amanhã o lugar das mulheres na Igreja? O papel da mulher será sempre indissociável do seu estatuto sociológico em qualquer sociedade e organização, e no caso vertente, na nossa Igreja. Compreender os enquadramentos históricos e as vicissitudes do passado é dotarmo-nos de ferramentas para projectarmos o futuro.
O estatuto da mulher na sociedade judaica no tempo de Jesus (como em outras sociedades tradicionais que hoje perduram), era determinado pela família como lugar claramente definido em termos sociais e sexuais.
A família é sempre o centro – a mulher é identificada como videira fecunda...ou como a estéril, um estigma social desvalorizante. O papel da mulher é assegurar a reprodução, educar os filhos e manter a casa através dos trabalhos domésticos. Não se pede mais nada às mulheres do que se submetam ao poder de uma sociedade fortemente patriarcal. Os exemplos abundam no Antigo Testamento!
Mas este estatuto feminino sofre ainda de uma ambiguidade metafórica inicial desde o Génesis: Eva é a primeira mulher, auxiliar igual de Adão, mas também é apresentada como a tentadora pela qual o mal veio ao mundo, segundo o relato do mito bíblico da origem. Aí está um primeiro modelo de desvalorização feminina produzido pelo discurso masculino da culpa e do mal.
A evolução histórica de Inculturação do cristianismo nas culturas locais, do Império Romano à idade Média, até ao século XX, foi acentuando a submissão ao modelo patriarcal presente na maioria das sociedades o que contradiz em absoluto a mensagem cristã, mas é produto do estatuto de menoridade feminina vigente nas sociedades com as quais o cristianismo, doutrina libertadora, muitas vezes pactuou acriticamente.
Ora Jesus Cristo tinha uma compreensão distinta da mulher. Os Evangelhos, particularmente em Lucas, mostram-nos Alguém que fala com elas assumindo-as como pessoas na sua integralidade e esse contacto é transformador, leva à conversão.
Recuperar esta forma de Jesus se encontrar com as mulheres é o desafio que o século XXI, no Ocidente, nos coloca, a todos homens e mulheres, dentro e fora da Igreja.

3 – Na Igreja primitiva, as mulheres eram chamadas ao serviço do Diaconado e certamente orientavam as celebrações das Igrejas domésticas onde se inseriam. Hoje nada disso é possível! As mulheres fazem múltiplos serviços, mas não são reconhecidos como ministérios e o mais das vezes são meramente supletivos da falta de padres. A questão dos Ministérios ordenados, mais do que uma reivindicação de igualdade de género é uma necessidade de serviço à comunidade eclesial. Se a Igreja Católica continuar a recusar o acesso ao Presbiterado aos casados, homens ou/e mulheres, o exercício do ministério aos chamados incorrectamente ex-padres, vai um dia encontrar-se na infeliz situação de não ter quem presida à Eucaristia.
Se as mulheres parassem por um dia o seu labor diário na sociedade e na Igreja, o país e o mundo paralisavam. A economia portuguesa assenta em grande parte, no trabalho das mulheres e a vida familiar de cada pessoa também. As igrejas não teriam o chão limpo, as flores no lugar, as hóstias não seriam fabricadas pelas freiras nem os paramentos bordados, mas sobretudo a catequese dos mais novos e os serviços de apoio social nas paróquias falhavam. As celebrações da Palavra sem padre deixariam de existir em muitos lugares, a distribuição da comunhão aos doentes igualmente. A Conferência Episcopal reuniria na mesma, mas não teria quem lhes fizesse a comida, em Fátima, nem as secretárias para lhes passar os textos a computador. As aulas na Faculdade de Teologia funcionariam pois só há uma mulher na direcção e aí as professoras são muito poucas, mas a secretaria da Universidade Católica faria fechar as Faculdades sem ninguém para processar vencimentos ou passar diplomas. As escolas católicas ficariam também paralisadas.
Ora como se vê pelos exemplos dados, as mulheres são essenciais para fazerem funcionar esse corpo que é a Igreja. O que é estranho é que se lhes peça quase só trabalho braçal e quase nenhum intelectual... desperdiçando muitos dos carismas com que O Criador as dotou!

4 – O desastroso discurso eclesiástico sobre o papel da mulher, marcado pela sexualidade (virgens consagradas ou mães) e pela carga histórica de submissão da mulher, ainda que se lhe reconheça dignidade (ex. JPII – in Mulliers Dignitatem) recusa ver uma realidade que só não vê quem não quer mesmo olhar: as mulheres são gente, são pessoas, dotadas além da função reprodutora e de um enorme coração, com muitos outros atributos tais como... cérebro! A menos que as façam justamente “perder a cabeça” pelas inúmeras histórias de discriminação e menoridade a que habitualmente têm estado sujeitas. É altura de começar a mudar e colocar os carismas e talentos do género feminino ao serviço de toda a comunidade eclesial.
O progresso social resultante da situação da escolarização maciça das mulheres, no Ocidente, torna-as parceiras também em termos intelectuais, dos homens e esta realidade deve-se reflectir não só na sociedade como na Igreja e na sua organização interna.
Caso este desafio não seja tomado a sério, corremos o risco de marginalizar e de perder o contacto com a metade feminina da humanidade, o que seria um pecado grave!”

Maria da Conceição.

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