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segunda-feira, junho 27

 

Meditações sobre o Evangelho de ontem

Tudo tão simples e claro como água fria num copo. Mata a sede, do corpo e da alma.
O mundo está cansado de soluções complexas. Já se foi o tempo dos sonhos de grandes sistemas filosóficos que conjugassem todo o pensamento num único edifício de arquitetura mágica. Talvez o último grande sonhador deste tipo tenha sido Hegel. O velho Hegel e seu Geist que se desdobra/desvela com o passar do tempo na história humana. Complexo, muito complexo. E quem já passou mais de uma tarde debruçado sobre a Fenomenologia do Espírito sabe do que estou falando...
O mundo quer algo mais simples. E talvez aí esteja um ténue fio de compreensão para esta aurora de fundamentalismos do novo século. Rostos diferentes, mesmas vozes. Esteja-se falando do que quiser, desde a direita evangélica estadunidense ao radicalismo islâmico – com espaço, é claro, para as centenárias capelas vaticanas. O fundamentalismo é simples. Não conhece variações de cinza. É preto no branco. Cai como uma luva nos desejos deste novo-velho mundo.
A simplicidade do fundamentalismo, no entanto, é aparente. Por detrás da demonização do outro está a aceitação das complexas regras do jogo religioso. É preciso ser ortodoxo. É preciso dominar todas as nuances da ortodoxia. É preciso amparar-se na tradição. É preciso ouvir, com a serenidade das ovelhas, a interpretação correcta da tradição. É preciso aprendê-la. Só quem se torna um escriba versado na doutrina é que compreende a razão da ética fundamentalista. E quem compreende esta razão age com um brilho diferente dos olhos. O brilho de quem sabe ser o dono da verdade.

A proposta do bom e velho Cristo não é essa. Seu projecto é simples, de verdade. Se se quer receber o prémio do Reino, aja. Aja antes de qualquer reflexão teórica. A teologia é ato segundo; a prática da fé é ato primeiro. No projecto do Reino de Deus, pensado por Jesus Cristo, a acção movida pelo amor é mais importante que qualquer correcção de sistemas teológicos. Suas palavras, no evangelho de ontem, encontram eco nos ouvidos de quem se recusa a se enredar nesta trama urdida pelo espírito do século: “E quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.”
O fundamentalismo não entende isso. Nada pode ser tão simples assim. Mesmo no universo bidimensional do preto no branco, deve-se penetrar à disciplina dos arcanos, deve-se compreender os mistérios da doutrina. A acção de defesa da fé segue-se, é lógico, à apreensão desta fé. A paixão fumegante dos apologistas da ortodoxia funda-se no conhecimento da complexidade dos mistérios de Deus. Nada pode ser tão simples quanto um gesto de amor.
Mas esta é a proposta do Cristo. Gesto de amor. Aja, ame. Não fundamente o gesto, a acção, numa doutrina a ser defendida. Simplesmente aja, simplesmente ame. Gestos de amor gratuitos, realmente altruístas. Esta é a única alternativa possível ao ser humano de hoje. A única alternativa para que ainda faça sentido a existência humana.
Dê de beber um copo d’água. Mate a sede do outro, do corpo e da alma. Este é o segredo da re-humanização desta nossa espécie quase perdida. Simples. Tudo tão simples e claro como água fria num copo.

Christian Bitencourt [MIGALHAS]

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