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quarta-feira, junho 29

 

J'Accuse menos...

Saiu de rajada o texto da semana passada. Dou a mão à palmatória, ou nem por isso, e exercito o contraditório ao meu próprio texto, com as palavras de outros. Soubemos que os bispos acabaram por falar (tarde, quanto a mim) e que a Comissão Justiça e Paz dos Institutos Religiosos também o fez (como já o Rui dissera). Trago esse texto aqui, porque mo enviaram e vale a pena ler, na íntegra.

«Perante a manifestação anunciada para este sábado, dia 18 de Junho, em Lisboa, a Comissão Justiça e Paz dos Religiosos torna público o seguinte:
Consideramos legítimo e necessário que os cidadãos manifestem as suas posições e também a sua indignação perante actos e situações que consideram ofensivas do projecto pessoal e colectivo garantido pela lei fundamental do país. Mas demarcamo-nos radicalmente dos promotores da manifestação tanto na análise das causas dos problemas, como nas propostas da sua superação.
Demarcamo-nos na análise das causas porque, liminarmente, rejeitamos a visão racista e xenófoba dos organizadores e seguimos a visão que é inerente à nossa identidade de cristãos e que está subjacente à filosofia seguida pela ONU segundo a qual “as doutrinas da superioridade fundada na diferenciação entre as raças são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas e perigosas”.
Demarcamo-nos das propostas que vão na linha da “limpeza étnica”, transformando os outros em causa dos males de todos nós, afirmação que envolve vários erros. Não podemos continuar a chamar estrangeiros a quem já tem a nacionalidade portuguesa, ou a quem nasceu e sempre viveu em Portugal, ou ainda a quem com toda a probabilidade aqui terá o futuro. Não se pode forçar a história nem a realidade, sob pena de atirarmos pedras por sobre as nossas próprias cabeças.
Demarcamo-nos da visão negativa que apresentam dos estrangeiros pobres pois que eles não vêm tirar o nosso trabalho, uma vez que, na generalidade, aceitam o que sobra ou o que nós não queremos fazer; eles não estão a viver à custa do erário público, mas pelo contrário para ele contribuem significativamente; não vêm criar confusão na nossa cultura, mas sim enriquecê-la, desde que encontrem espíritos abertos e universalistas.
Com estes pressupostos, e confrontados com os mais recentes acontecimentos, estamos convencidos de que o que aconteceu em Carcavelos não passa de um sinal do mal-estar presente na sociedade portuguesa e que tende a agravar-se. As condições económicas actuais não são propícias à melhoria do nosso futuro. Por isso desejamos que os governantes tenham a lucidez e a coragem para não escutarem somente aqueles que têm poder reivindicativo, mas que se preocupem por criar condições para que a nossa sociedade não se transforme numa selva onde o que tem garras maiores com maior quinhão vai ficar. A nossa indignação dirige-se a tudo o que constitui negação da cidadania, não respeitando os direitos e não cumprindo os deveres correspondentes, assim como vai contra as mentalidades ocultas ou confessas de que o que interessa é promover alguns, mantendo outros em situações que não ficam a dever muito à escravatura do passado. Apontando apenas para algumas realidades, tenha-se em conta o sistema educativo que continua a catapultar para o fracasso crianças e jovens já económica, cultural e afectivamente desfavorecidos; repare-se nos meios onde habitam; tenha-se em conta o tipo de intervenção aí existente; avalie-se com lucidez as possibilidades que assistem aos pais para ajudarem os mais novos a crescer para a vida e para a cidadania; haja honestidade em perguntar se aceitamos uma sociedade de senhores e de servos.
Estamos convencidos de que se todos nós e aqueles que mandatamos para a condução do país estivéssemos informados e interessados em criar um país que não nos envergonhasse pelos desequilíbrios existentes, seguramente não contemplaríamos cenas como as que agora nos preocupam.»

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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