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quarta-feira, junho 8

 

“Ide aprender...”

Há uns meses, gerou-se um burburinho a propósito de um anúncio publicado por um padre, em que este anunciava a recusa da comunhão eucarística a quem defendesse ou praticasse determinados actos. Os actos elencados remetiam apenas para questões relativas à reprodução humana. Instado pelos jornalistas o Cardeal Patriarca disse que não é aquela a maneira como a Igreja trata desses assuntos e até falou de obsessão por parte do sacerdote. Mais tarde, oportunamente, D. José afirmou que «pode haver casos em que, devido à matéria, a situação de pecado é pública, tornando-se então o acesso à Eucaristia numa profanação pública da santidade desse sacramento. Nesse caso compete à Igreja defender, também publicamente, a santidade da Eucaristia, não admitindo à comunhão eucarística aqueles que se mantêm publicamente numa situação moral, claramente definida nas normas morais, incompatível com a santidade deste sacramento. Esta é uma situação delicada, a ser posta em prática com grande caridade pastoral, pois não pode ser arma de arremesso contra ninguém ou argumento para teses pastorais, mas motivada pela solicitude pastoral pelas pessoas visadas, que precisam de ser esclarecidas e interpeladas, e também pelo respeito por toda a comunidade eucarística, que procura fielmente celebrar dignamente a Ceia do Senhor.» (Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa na Missa da Ceia do Senhor - 24 de Março de 2005)
Ou seja: o Pão Eucarístico não é uma recompensa por boas acções, nem uma prenda para os meninos que se portam bem... e a possibilidade de exclusão dos sacramentos não pode ser pretexto para alimentar guerrinhas pessoais ou arma de argumentação ideológica. Há algo de muito mais profundo nesta realidade a que, com todo o sentido, chamamos Comunhão, mas que frequentamos sem lhe reconhecermos a necessária marca de compromisso no dia a dia.

Num dos seus últimos textos pastorais, João Paulo II lembra que «não é por acaso que, no Evangelho de João, se encontra, não a narração da instituição eucarística, mas a do "lava-pés" (cf. Jo 13,1-20): inclinando-Se a lavar os pés dos seus discípulos, Jesus explica de forma inequívoca o sentido da Eucaristia. S. Paulo, por sua vez, reafirma vigorosamente que não é lícita uma celebração eucarística onde não resplandeça a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34)», para logo de seguida lançar um desafio aos cristãos de todo o mundo: «Por que não fazer então deste Ano da Eucaristia um período em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com operosidade fraterna, ao encontro de alguma das muitas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milhões de seres humanos, penso nas doenças que flagelam os países em vias de desenvolvimento, na solidão dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas desgraças dos imigrantes. Trata-se de males que afligem, embora em medida diversa, também as regiões mais opulentas. Não podemos iludir-nos: do amor mútuo e, em particular, da solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo (cf. Jo 13,35; Mt 25,31-46)» acrescentando o Papa que, «com base neste critério, será comprovada a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas.» (Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine, nº 28)

Com base nestes textos, que não deixam margens para dúvidas, permito-me fazer uns pequenos exercícios de casuística:
1. Um empresário, católico, pai de família, benemérito habitual das obras sociais e caritativas, declara a falência de uma fábrica, lançando para o desemprego uma centena de funcionários, mas continua a ostentar sinais exteriores de riqueza.
Poderá ser admitido à comunhão eucarística?
2. Um grupo de jovens (ou menos jovens...) de uma cidade com valores morais mais conservadores, organiza-se em locais que sabem ser de encontro de homossexuais, para os atacar e agredir. Fazem alarde da "proeza" e, portanto, é do conhecimento geral.
Poderão ser admitidos à comunhão eucarística?
3. Numa pequena povoação onde tudo se sabe, uma jovem engravida e é abandonada pelo namorado. Os pais culpabilizam-na e recusam-se a tomar qualquer atitude. A comunidade paroquial, a que a jovem pertencia, rejeita-a, remetendo-se ao silêncio. Ninguém faz nada e a rapariga acaba por decidir abortar.
Poderá esta comunidade celebrar dignamente a Eucaristia?

Mas por muito óbvias que possam parecer as respostas a estes “exercícios”, este tipo de situações terá sempre que ser encarada com a tal “grande caridade pastoral” a que se refere o Patriarca. Na Igreja só se resolvem os problemas. As situações tomadas enquanto generalidades e abstracções são muito diferentes do necessário olhos nos olhos para a resolução dos problemas à maneira de Jesus Cristo, a Quem ainda este Domingo ouvimos dirigir-se, no Seu jeito desconcertante, àqueles ilustres conhecedores das leis e dos códigos dizendo-lhes para irem “aprender o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício” (cf. Mt 9,13 e Os 6,6).

(o negrito das citações é da minha responsabilidade)

Correcção: na semana passada, referi aqui que este ano se comemoravam os centenários do nascimento de D. António Ferreira Gomes e do Padre Manuel Antunes. De facto, iniciaram-se no passado dia 10 de Maio as comemorações do centenário do bispo do Porto, nascido em 1906, mas o ilustre jesuíta nasceu em 1918, comemorando-se, isso sim, este ano, o vigésimo aniversário da sua morte, a propósito do qual se realizará um seminário internacional sobre a sua vasta obra. Pelo lapso, as minhas mais sinceras desculpas.

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