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quarta-feira, junho 29

 

Fiat Lux

O meu conterrâneo e amigo Lutz, anda preocupado com a liberdade intelectual dos católicos. E sobre essa preocupação tem feito uns posts notáveis, primeiro a propósito de uma série de reflexões do Timshel em que ele procura encontrar pontes com o pensamento teológico de Bento XVI enquanto Joseph Ratzinger, mais recentemente a propósito duns posts do Bernardo Motta sobre o Diabo e a sua espessura teológica dentro da fé católica.
Devo dizer que o Lutz é decididamente um dos meus mais estimados compinchas na blogosfera. Aprecio imensamente a sua enorme honestidade intelectual, algo que não abunda por aí além neste país onde ele veio fixar-se. Mas não é apenas honestidade, ele tem também outra coisa rara nestes lados, tão rara que não temos uma palavra simples e correcta para a definir completamente, estou a falar da straightforwardness, o dizer-se directamente o que se tem a dizer. Mas deixemo-nos de salamaleques e vamos adiante.
Talvez o que vou dizer de seguida ajude o Lutz a perceber melhor porque é que os seus amigos lusos e católicos “não partilham (com ele) o terreno comum do Iluminismo”. Não será certamente, e falo por mim, por nos ressentirmos da secularização social que o Iluminismo terá trazido. Nada mais falso. A verdade é que aqui neste belo país o Iluminismo passou-nos um bocado ao lado. Não se passou aqui nada do que se passou na nação alemã que foi com o Iluminismo que alcançou definitivamente a sua maioridade intelectual no seio da Europa pensante. Enquanto esta se maravilhava com a luz que emanava do experimentalismo científico, nós por cá embasbacávamos para a iluminação dos lausperenes, das missas cantadas, até da luz terrível dos autos de fé. Enquanto que a Europa para lá dos Pirinéus se regalava com Locke, David Hume, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Wolff e Lessing, nós os que estamos para cá de Badajoz tivemos apenas o Frei Bernardo de Brito, o Prior de S.Nicolau. Ah! e também o Fei Bartolomeu de Gusmão! O nosso iluminismo, tão portuguesmente, foi muito mais literário do que filosófico e, como sempre, foi tardio arrastando-se pelo séc.XIX, com Bocage, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino e outros vates. E o nosso secularismo, esse foi antes de mais um anti-clericalismo, puro e duro, que nos chegou directamente de França com o Jacobinismo. Falar-me-ão do anti-jesuitismo dos tempos de Pombal, mas isso foi a afirmação de poder dum déspota iluminado, aqui como lá fora.
E é por isso mesmo que a educação que ainda hoje recebemos aflore muito ao de leve esta idade de ouro da qual fica uma imagem vaga e difusa, de algo excessivamente intelectual. Aqui damos muito mais atenção à Revolução Francesa, muito mais sumarenta e excitante, aos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade, sobre cuja aplicação na prática é que nascem as nossas queridas divergências ideológicas que tanto nos entretem e motivam. Por isso, Lutz amigo, não vás por aí. Os teus amigos portugueses não odeiam o Iluminismo, prestam-lhe antes muito pouca atenção. É por isso que, usando a tua frase, “nós não assimilámos a essência do iluminismo”. Aquela tua outra frase, belíssima, “as ideias se encontram num espaço de liberdade: confrontam-se, derrotam-se, fertilizam-se e transformam-se, não afectadas pelo quem as profere. Este não conta. O poder de quem fala já não lhes acrescenta razão, o seu estatuto não as torna mais válidas.”, dita aqui em Portugal, não é mais do que uma amável ilusão dum setentrional benevolente, que manifestamente ainda não assimilou a nossa pitoresca identidade meridional e latina. Ainda assim acho que com estes anos de blogosfera já devias ter percebido que, aqui no burgo as ideias são total e irremediavelmente afectadas por quem as profere...
Mas adiante pois quero ainda dizer algo mais, não sei se por amor à ideia se por atávica veia retórica. É que, voltando ao assunto, mesmo a nível da Europa mais a norte, eu discordo totalmente que o Ilumismo tenha sido o motor da secularização que quase destruiu a Igreja Católica. Na minha modesta opinião, a secularização europeia começou logo no Concílio de Trento e na Guerra dos Trinta Anos, quando a Igreja Católica se pôs debaixo da protecção de príncipes e imperadores para a protegerem da Reforma, tal como esta aliás o fez também para se proteger da Contra-Reforma. A partir daí a relação da Igreja com o Estado alterou-se totalmente, submetendo-se aquela a este ainda que o legitimando. O papel do inquisidor foi substituído pelo do jesuíta, influente confessor. O papado deixou de ser suserano dos Estados e converteu-se num Estado mais.
Quando o Iluminismo surgiu, encontrou já a Igreja muito enfraquecida e atomizada. Deve aliás dizer-se que o iluminismo penetrou profundamente no corpo da Igreja. Muitos dos mais notáveis iluministas, cientistas, matemáticos, inventores, filósofos, foram padres, sobretudo jesuítas, os quais foram profundamente embebidos pela revolução intelectual desse tempo. Há até um episódio picaresco e bem revelador: um arcebispo de Paris, um homem muito sábio e douto, não chegou a sê-lo por ter sido vetado pelo rei Luís XV que, muito justamente, considerou que “um arcebispo desta cidade tem, pelo menos, que acreditar em Deus”. Eu diria assim que a ameaça que o iluminismo trouxe à Igreja Católica foi sim a sua diluição e descaracterização.
Isso contudo acabou por não acontecer porque este movimento, sendo como diz o Lutz, “a emancipação das ideias do poder”, acabou por ter, tal como a Igreja, um papel de sustentação desse mesmo poder. Pense-se apenas em Frederico II da Prússia para se entender que assim foi. Ora, quando esse poder caiu à rua, arrastou com ele ilumismo e Igreja, que o sustentavam. A optimista e beatífica tolerância rousseauniana, a ideia do livre, pacífico e civilizadíssimo confronto de ideias, tudo isso abanou fortemente com os desvios e desvarios da revolução francesa. A Europa mergulhou num prolongado período de conflito e confusão, com uma forte reacção autoritária e esse doce optimismo andou abatido durante muitas décadas, ressurgindo apenas com o grande progresso tecnológico e material do fim do séc.XIX.
Também a Igreja Católica levou um valentíssimo safanão e a ameaça passou a ser muito mais visível embora menos insidiosa. O anti-clericalismo, que veio para ficar, perseguiu padres e freiras, expulsou jesuítas e frades mendicantes, matou até arcebispos mas produziu na Igreja uma forte reacção, uma reacção de defesa vital, que de certo modo a acordou do torpor com que viveu o século anterior. E essa reacção foi, como sempre, uma reacção de regresso ao básico, de reafirmação da doutrina, apoiando-se no sector mais conservador da população. Foi o tempo do Syllabus, da afirmação de dogmas difíceis e quase provocadores como o da infalibilidade papal. Foram tempos de combate sem tréguas contra um inimigo novo designado como modernismo, combate esse que prossegue hoje ainda em certos sectores da Igreja, apesar de ter havido tantos outros sinais de reconciliação com o mundo e preocupação com ele: desde a Rerum Novarum até ao Vaticano II.
Com toda esta conversa, quero apenas explicar porque penso que tudo aquilo que a Igreja é hoje (e é tanta coisa!) resultará muito pouco de eventuais enquistamentos de anticorpos contra o Iluminismo. Penso até que o Iluminismo, como o conhecemos e do qual o Lutz tanto gosta, sofreu muitíssimo mais às mãos da História do que pela influência católica e, claro está, reciprocamente para o catolicismo.
E agora que vou devolver o Iluminismo para a Enciclopédia de onde o tirei, tenho ainda assuntos a tratar com o Sr.Lutz que anda por aí a dizer que a condição de católico limita a nossa liberdade intelectual através daquele mecanismo terrível e normalizado que ele foi desencantar pelas bandas do marxismo: a tal aproximação voluntária do pensamento.
Mas, embora eu seja um homem livre, já estou cansado e este ajuste ficará então para a semana. Pois não eu descansarei enquanto não vir o Lutz a envergar opa para seguir a procissão do Senhor dos Passos!

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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