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quarta-feira, junho 1

 

Epístola sobre o orgulho II

Retomo hoje o assunto de que falava há duas semanas: o orgulho, esse fatal e irresistível desvio do meu ego que me transporta para longe, longíssimo de Deus. Deus que, afinal, ao me ter criado à sua imagem e semelhança, com a consciência desse facto, ao me ter oferecido o amado e terrível livre-arbítrio, deixou para mim e para todos os meus semelhantes, a porta da perdição bem ao lado da porta da salvação.
Digo isto porque o orgulho em que estou a pensar é o orgulho dos crentes, é o orgulho que medra não só na minha mas em todas as religiões, como filoxera na vinha do Senhor. O Livro do Génesis, essa metáfora fundadora, bem nos avisou:
«(...) a árvore da Vida estava no meio do jardim, assim como a árvore do conhecimento do Bem e do Mal. A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera; e disse à mulher: "É verdade ter-vos Deus proibido comer o fruto de alguma árvore do jardim?" A mulher respondeu-lhe: "Podemos comer o fruto das árvores do jardim; mas, quanto ao fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: ´Nunca o deveis comer, nem sequer tocar nele, pois, se o fizerdes, morrereis´. A serpente retorquiu à mulher: "Não, não morrereis; porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal". Vendo a mulher que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele também a seu marido, que estava junto dela, e ele também comeu

Mas de nada nos serviu. Ao longo da História não temos procurado senão abrir os olhos para ser como Deus. Ao longo da História, teólogos, filósofos, cabalistas, sacerdotes, tantos tem andado em demanda dos frutos preciosos para esclarecer a inteligência. Muitos tem pensado que os encontraram já e, assim sendo, conhecendo já os mistérios do Bem e do Mal, é quase como se já vissem o rosto de Deus. E terríveis são esses que tendo-O visto nos gritam que Ele é Tudo, ou então que Ele é Nada. Crentes ou ateus eles já não creem nem descreem: eles sabem. Sabem pelo menos a Vontade que existe ou não existe. Sabem como nos devemos comportar, sabem como nos devemos prostrar diante Dele ou Dele escarnecer.
Mas descartemo-nos dos ateus, pois há muito que me enfadei deles e isto é um espaço de Fé. Falemos antes dos que creem e dos que nos querem ensinar a crer. Falemos também de nós próprios que cremos da forma que nos parece sempre ser a forma certa e justa de crer nos tempos de hoje. Falemos dos guardiões da Fé, daqueles que, como um dia disse Amin Maalouf, «acontece um homem julgar-se depositário de uma mensagem quando, ao fim e ao cabo, já não é mais do que o seu caixão». Pensarão certamente que estou a pensar nas congregações da nossa doutrina e da nossa fé e do seu ex-prefeito, agora Papa. Talvez até esteja, mas também estou a pensar em mim e em tantos como eu, que até parece que sabemos que o Espírito Santo andou arredado da Capela Sistina. Pois como diz o Eclesiastes, isso também é vaidade e vento que passa.

Na verdade, bem difícil é a condição do cristão: a Palavra de Cristo é tão rica, diz-nos tantas coisas, muitas vezes contraditórias pois contraditória é a nossa natureza, que porfiamos em discernir a forma certa de Nele crer e de vivermos em Seu nome. Mas como fazê-lo sem olhar de lado aqueles que A discirnem de forma diferente? Como fazê-lo sem julgar com suspeição outros irmãos na fé que a vivem tão diferentemente: protestantes, ortodoxos mas também opus deis, carismáticos, CL´s e tantos outros? Eu, orgulhoso como sou, certamente que não o sei. Sei apenas, confusamente, que esta diversidade toda não nos deveria preocupar tanto. E que humildemente deveríamos agarrar o ramo que nos é estendido. No meu caso, esse ramo a Igreja Católica, como um todo, concordando com ela e discordando dela. Certamente, eu e todos os outros cabendo nela.
Termino este texto confuso e apressado citando uma coisa que puz há tempos no Guia e que nos devia fazer pensar a nós os católicos que gostamos de pensar pela nossa tão preciosa cabeça:
«Obedeci à Igreja para me manter livre. Prefiro ser vítima dos velhos cardeais romanos do que tornar-me escravo de mim próprio. Digo sim à Igreja e foi dentro dela que me bati por ela. Dez vezes, com alguns irmãos delegados dos outros padres operários, fomos a Roma para que as decisões tomadas contra nós fossem revistas. Durante seis anos fomos mal ou nem sequer recebidos. E no entanto, nunca desesperei da Igreja. Ela é portadora de um tal capital de amor, de generosidade, de esperança, de humildade, de boa vontade e de fé no único mestre Jesus, que nenhuma das suas fraquezas pode prevalecer e barrar o caminho por muito tempo ao Espírito Santo. O capital de santidade acumulado ao longo do tempo e do espaço por milhões de santos desconhecidos acabará certamente por abrir novos caminhos» (Pe. Depierre).

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

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