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quarta-feira, junho 1

 

A dificuldade de ver na rejeição

Perdoar-me-ão a auto-propaganda, mas não consigo escrever neste momento sobre a rejeição, sem fazer um exercício auto-referencial… Um divertimento que tenho a bordo, o caniche e o leopardo, partiu da leitura da obra de Lampedusa, o Leopardo. Não de todos os aspectos, existenciais, sociais, políticos, ou mesmo teológicos, que se poderiam assinalar, na obra de Lampedusa, mas de um episódio. A um primeiro olhar, de um episódio trivial. Tancredi, sobrinho de Fabrizio, conta num jantar uma bravata de guerra. E pouco mais. Mas, num segundo momento, esse acontecimento mostra-se fatídico. De facto, a bravata que Tancredi conta leva-o a afastar-se da prima que ama e a prima que o ama a afastar-se de Tancredi. Para sempre. A partir daí, Tancredi expele a prima para fora da sua vida. A partir daí, a prima expele Tancredi de sua vida. A bravata traz então consigo um movimento de dupla rejeição.

Na tradição aristotélica, as rejeições, como a aceitação, justificam-se por trajectos anteriores. Não são momentos que introduzem descontinuidade, mas momentos que se inserem numa lógica de reacções que vêm muito de trás. Pode ser que assim seja. Ou que seja verdade o contrário. Que existam momentos que de um momento para o outro quebram as nossas vidas. Se pensarmos na conversão de São Paulo podemos pensá-la de duas maneiras. Podemos pensar a conversão como uma transformação súbita e então a tradição de aristotélica não é operativa, ou como algo que é produzido subliminarmente ao longo da vida, e então a tradição volta a operar.

Seja verdade uma coisa ou outra, o que é inegável é que os momentos de rejeição implicam uma negação da presença do outro na nossa vida, implicam um esforço para o pôr fora da nossa vida, e são momentos que visam produzir o afastamento do outro. Diz-nos, entretanto, o dito testamentário que o que foi rejeitado se tornou pedra angular. Sobre isto muita coisa haveria a dizer. E a primeira é que não pressupõe que tudo aquilo que é rejeitado se possa tornar pedra angular. Mas apenas que o que é bem e bom, e que por assim ser, quando é rejeitado leva consigo aquilo que poderia e deveria servir como base ao edifício da nossa vida --- e da nossa morte.

Mas não compliquemos as coisas. Fiquemos apenas pela rejeição. Com e sem estas nuances, a rejeição é uma categoria neo-testamentária. E uma das categorias mais fortes. Singularmente: Jesus foi e é rejeitado. Alargadamente: o fenómeno da rejeição apresenta sérias dificuldades a quem quiser pensar a religião, como nova ligação, como ligação sempre nova.

O resultado da rejeição é o afastamento. Para encontrá-lo operativo no reino do pensamento "abstracto", talvez não sejam inúteis os olhares que podemos votar às movimentações filosóficas que partem do edifício kantiano. Em Kant, o mundo e o outro na sua totalidade estão afastados. Em Hegel, acabam por ser introduzidos no domínio das sínteses. Pelo meio, ficam todos os esforços que tentam superar uma filosofia dos limites, uma filosofia que aposta nos bordos que distanciam homem e outro homem, o homem e o mundo.

Não vamos por aí. Ou melhor, ficamos, por aí, apenas um momento. Para perguntar: será que Kant afasta o mundo e o outro? Será que por exemplo Hegel os aproxima? – Não é fácil decidir estas questões. Se focalizarmos esta dificuldade, podemos entretanto dizer que se o pensamento dos limites e das sínteses é constantemente afirmado na história erudita recente, é também afirmado num regime de dificuldade, o que coincide com o facto de que se a rejeição é constantemente posta em jogo no nosso quotidiano, também é verdade que é posta em jogo num regime onde existe uma forte marca de dificuldade. E esta dificuldade interessa-nos.

Leopardo dá-nos exemplos. E coloca-lhe um sinal específico. Se é verdade que Tancredi rejeita Concetta, também é verdade que Lampedusa na economia da sua obra não realça o episódio em toda a sua glória possível e real miséria, mas, deixa apenas que produza ecos e ondas. E isto porque vivendo o Leopardo das personagens, são elas as primeiras a sentir a dificuldade de ver quando rejeitam. Isto é: Tancredi rejeita Concetta e Concetta rejeita Tancredi, mas um e outra não vêm muito o que isso quer dizer, para além do facto óbvio de notarem a distância a que ficam os seus amores. Nós também, quando rejeitamos. Porquê? – Porquê esta névoa cravada no corpo da rejeição?

Fernando Macedo [A BORDO]

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