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quarta-feira, junho 22

 

Dedalus e Ícaro: as duas maneiras de sair do labirinto

O Lutz comparou a minha "aproximação" ao Papa Bento XVI (ex-Ratzinger) com a posição de Cunhal relativamente à invasão da Checoslováquia (antes da invasão, Cunhal emitiu internamente opiniões contra, mas depois defendeu-a publicamente). Se bem compreendi o seu raciocínio, a lógica seria a mesma: a lógica da submissão à organização em nome de valores mais altos.
Julgo que a mãe de Cunhal era uma católica fervorosa e autoritária. Uma mãe quase fundamentalista no seu catolicismo, voluntariosa e enérgica, com um ódio profundo ao comunismo (pelo menos foi essa a ideia com que fiquei do livro de Pacheco Pereira sobre Cunhal, ideia esta que não pude confirmar pois perdi o livro algures). Cunhal, na sua infância e princípio da adolescência, teria sido também um católico extremoso, colaborando frequentemente com o padre na Missa.
Não pretendo voltar à velha e batida tecla de que "o comunismo é uma história de cristãos" (Camus). Até porque a questão que aqui se coloca não é exactamente saber as semelhanças e as diferenças entre as propostas sociais e políticas do cristianismo e as do comunismo mas o que têm em comum no seu modo de funcionamento.
Seria atraente estabelecer um paralelo entre o fundamentalismo católico da mãe de Cunhal e o fundamentalismo comunista do filho, através de uma espécie de estranho e paradoxal mimetismo que conduziu a resultados opostos através de uma resolução do complexo de Édipo com contornos particulares. Os fundamentalismos tendem a herdar-se através de uma espécie de aprendizagem inconsciente mesmo quando assumem cores radicalmente opostas. O mal (nas suas diferentes tonalidades e cambiantes) tende a espalhar-se como uma mancha de óleo que tudo impregna.

Mas o fundamentalismo pode apenas ser uma das variantes do moralismo. Na obsessão pelo "dever ser" tudo serve para que o "dever ser" se transforme no "ser". Estou particularmente à vontade para falar nisso porque quando andei pela extrema-esquerda fazia esse tipo de raciocínios. Quando o "ser "(por exemplo a União Soviética de Estaline ou a China maoísta) não correspondia ao "dever ser" (o comunismo como um estádio superior do humanismo) negava essa realidade de duas maneiras: minimizando os "erros" e desculpando-os com a necessidade de se construir o futuro, um futuro esse sim em que tais "erros" não existiriam.
Perante as ameaças decorrentes do moralismo (um fundamentalismo inumano ou uma hipocrisia repugnante que paradoxalmente pode constituir o estádio mais avançado do cinismo – nas palavras do Lutz: "Como ultrapassar o cinismo sem voltar à hipocrisia!") o cinismo foi a tentação intelectual que se seguiu no meu percurso pessoal.
Mas a única alternativa ao cinismo é a existência de um conjunto de valores sólidos de um ponto de vista lógico e ético e a luta por eles. Com todos os riscos que tal implica.

Como em tudo, talvez aqui a chave seja também e novamente a procura do equilíbrio. Sujeição versus independência ou moralismo versus cepticismo são apenas mais algumas daquelas equações em que a procura do equilíbrio é fundamental. Já aqui defendi que o equilíbrio e a proporcionalidade são também simples facetas do amor. Nesta procura do equilíbrio é a nossa consciência individual que é determinante. "A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo (…) É preciso que cada um preste muita atenção a si mesmo para ouvir e seguir a voz da sua consciência." (pontos 1778 e 1779 do Catecismo da Igreja Católica).

Com tudo isto não respondi à questão do Lutz. Estarei a defender "a invasão da Checoslováquia"?
Vou dar um exemplo que talvez responda melhor a esta pergunta que uma resposta directa.
A minha ideia inicial quando comecei a escrever esses textos baseados nas palavras de Ratzinger era alternar textos "laudatórios" com textos críticos. O primeiro texto crítico seria relativamente ao célebre ponto 2267 do Catecismo da Igreja Católica que admite, ainda que apenas teoricamente, a pena de morte. Na altura não avancei por este caminho por três razões.

Primeiro, porque verifiquei que a versão espanhola deste ponto é radicalmente diferente das restantes versões (ver, a título de exemplo a versão francesa e a versão inglesa). A versão alemã, sublinho, a versão alemã, parece-me de acordo com a versão espanhola mas nisto o meu alemão é insuficiente (talvez o Lutz me ajude).
Segundo (admitindo que as versões inglesa e francesa é que são as correctas), pelo que li algures, teria existido uma luta terrível no Vaticano (e é a esse título reveladora a diferente versão em espanhol e alemão) em torno deste ponto e que ele teria sido "imposto" pela então poderosíssima Igreja norte-americana (importante sustentáculo financeiro das obras da Igreja Católica em todo o mundo). Embora não se tenha condenado de modo absoluto e peremptório a pena de morte (como eu gostava que fosse) o que se diz nesse ponto representa a condenação, na prática, dos países que têm a pena de morte no seu sistema jurídico.
Terceiro, a condenação prática da pena de morte tornaria irrelevante a crítica que eu tencionava fazer.

Decidi então não fazer essa crítica porque ela me parecia irrelevante nesse contexto, até porque também li que o Papa Bento XVI estaria com a Igreja Católica norte-americana debaixo de mira a propósito deste e de outros casos ainda mais sinistros. E que, mais cedo ou mais tarde, este tenebroso ponto 2267 será limpo para ficar de acordo com as versões espanhola e alemã).
Existe em toda esta argumentação um mal-disfarçado wishful thinking.
Dir-me-ão que este tipo de raciocínio era exactamente o de Cunhal quando defendia a invasão da Checoslováquia. Talvez. Prefiro viver com estas dúvidas do que com a certeza de uma independência que mais não seria que, utilizando as palavras do José, "o endeusamento acrítico e cristalizador do meu próprio pensamento". "O que muitas vezes é fonte de escravidão e não de libertação."(de novo nas palavras do José).

Timshel [TIMSHEL]

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