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quarta-feira, junho 15

 

Atavismo

Tinha a intenção de apenas interromper a série de posts com as palavras do cardeal Ratzinger que aqui ando a escrever por razões excepcionais.
No post da semana passada é muito duvidoso que as razões para tal interrupção fossem excepcionais. E hoje a interrupção será ainda menos justificável.

A história que hoje descrevo passou-se há uns anos quando vivia e trabalhava numa vila alentejana. O nome para o post copiei-o de um pequeno conto de Somerset Maugham com o mesmo título (mas que nada tem a ver com a história hoje descrita). Li esse conto ainda adolescente e recordo-me de ter procurado no dicionário o significado da palavra "atavismo". Aprendi então que o termo "atavismo" se referia a um fenómeno pelo qual se assiste ao reaparecimento de características só existentes em ascendentes relativamente afastados, por vezes mesmo muito afastados.
A história passa-se numa noite de Verão, obviamente quente. A casa onde morava situava-se numa das extremidades da vila, já relativamente isolada. Ficava em frente a uma colina com um sobreiro ou uma azinheira quase no topo, algo vagamente parecido com a imagem que se encontra no topo deste blogue.

Existia nessa vila um jovem adulto, deficiente mental profundo, que eu via por vezes nas ruas. Esse jovem, em vez de falar, soltava simplesmente estranhos ruídos guturais e deslocava-se numa postura corporal arrastada que lembrava a de um australopiteco. A sua fácies correspondia à sua voz e à sua postura corporal.
Eu tinha o hábito de, nessas noites quentes, me sentar à porta da casa a olhar para a colina com a azinheira recortada no céu estrelado saboreando os cheiros nocturnos do campo alentejano, por vezes ouvindo música baixinho, por vezes em completo silêncio. Os cheiros das noites quentes do Alentejo são, dos cheiros que conheço, daqueles que mais me deliciam. E a imagem da colina e da árvore negras recortada a contra-luz no céu iluminado pelas estrelas ou pela lua adequavam-se particularmente aos cheiros e aos sonhos. Por diversas vezes me perguntava, precisamente, a mim próprio se tudo aquilo não seria um sonho.
Numa dessas noites, tinha acabado de jantar e, assim que me despachei, aprontei-me a largar o calor da casa para ir para a entrada da casa saborear um pouco do ar da noite. Quando me dirigia para a porta - a porta embora estivesse fechada tinha umas janelas que se encontravam abertas - ouvi uns uivos de um lobo, fortes e prolongados, um barulho simplesmente arrepiante pois não só o lobo se devia encontrar muito próximo como o próprio uivar era profundamente doloroso. Era como se esse lobo tivesse conseguido transformar em som toda a angústia e tristeza da humanidade.
Gelado por dentro avancei lentamente para a porta. Vejo então recortado contra a lua cheia, no cimo da colina, junto à azinheira, aquilo que parecia um lobo a uivar. Nesse momento estava, devo confessar, numa estranha mistura de terror e de êxtase pois aquela situação alucinante tinha algo de profundamente belo. As imagens a recortadas a negro num quadro que era para mim de sonhos habitualmente deliciosos, os sons lancinantes no silêncio da noite alentejana.
Para ter a certeza de que não estava a viver uma qualquer alteração de ordem psicológica (nessa altura, por razões que não vêm ao caso, estava numa época em que não bebia vinho) ou um estranho sonho/pesadelo voltei para a cozinha e disse à minha mulher para vir ver o que se passava.
Quando nos detivemos na observação da imagem verificámos que não parecia tratar-se de um lobo. Embora a postura fosse exactamente a de um lobo a uivar à lua, certos detalhes da figura lembravam um ser humano. Era o jovem deficiente profundo que eu vira algumas vezes nas ruas da vila.

Pensei agora (e se calhar ainda vou fazer) enviar este caso ao "Médico explica medicina a intelectuais". Reparo agora que o "Médico explica medicina a intelectuais" se encontra suspenso mas talvez abrisse uma excepção. Gostava de saber as razões daquela deficiência profunda mas, sobretudo, o que gostava realmente de saber é porque é que ela tinha manifestações daquele tipo a que assisti.

Perguntar-me-ão qual o sentido de colocar aqui esta historieta que descreve um simples fait-divers algo exótico. Mesmo sendo verídica, porquê hoje, aqui, num blogue que se pretende de inspiração cristã? Não tenho resposta para essa pergunta. Era impossível esse jovem acreditar em Deus (pelo menos tal como nós o concebemos pois a sua deficiência era muito profunda). Não sei qual a posição da Igreja relativamente à salvação dos deficientes profundos que nunca saberão que Cristo existiu. Não sei o que se pode passar na cabeça de um deficiente profundo como aquele. Não sei o que fazia ele naquela noite a uivar à lua. Não sei.

Timshel [TIMSHEL]

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