<$BlogRSDURL$>

 

 

 

   

 
 

terra da alegria


 
 
timshel guia dos perplexos cibertúlia poesia distribuída na rua a bordo baixa autoridade
 
     

quarta-feira, junho 29

 

Fiat Lux

O meu conterrâneo e amigo Lutz, anda preocupado com a liberdade intelectual dos católicos. E sobre essa preocupação tem feito uns posts notáveis, primeiro a propósito de uma série de reflexões do Timshel em que ele procura encontrar pontes com o pensamento teológico de Bento XVI enquanto Joseph Ratzinger, mais recentemente a propósito duns posts do Bernardo Motta sobre o Diabo e a sua espessura teológica dentro da fé católica.
Devo dizer que o Lutz é decididamente um dos meus mais estimados compinchas na blogosfera. Aprecio imensamente a sua enorme honestidade intelectual, algo que não abunda por aí além neste país onde ele veio fixar-se. Mas não é apenas honestidade, ele tem também outra coisa rara nestes lados, tão rara que não temos uma palavra simples e correcta para a definir completamente, estou a falar da straightforwardness, o dizer-se directamente o que se tem a dizer. Mas deixemo-nos de salamaleques e vamos adiante.
Talvez o que vou dizer de seguida ajude o Lutz a perceber melhor porque é que os seus amigos lusos e católicos “não partilham (com ele) o terreno comum do Iluminismo”. Não será certamente, e falo por mim, por nos ressentirmos da secularização social que o Iluminismo terá trazido. Nada mais falso. A verdade é que aqui neste belo país o Iluminismo passou-nos um bocado ao lado. Não se passou aqui nada do que se passou na nação alemã que foi com o Iluminismo que alcançou definitivamente a sua maioridade intelectual no seio da Europa pensante. Enquanto esta se maravilhava com a luz que emanava do experimentalismo científico, nós por cá embasbacávamos para a iluminação dos lausperenes, das missas cantadas, até da luz terrível dos autos de fé. Enquanto que a Europa para lá dos Pirinéus se regalava com Locke, David Hume, Montesquieu, Voltaire, Rousseau, Wolff e Lessing, nós os que estamos para cá de Badajoz tivemos apenas o Frei Bernardo de Brito, o Prior de S.Nicolau. Ah! e também o Fei Bartolomeu de Gusmão! O nosso iluminismo, tão portuguesmente, foi muito mais literário do que filosófico e, como sempre, foi tardio arrastando-se pelo séc.XIX, com Bocage, Filinto Elísio, Nicolau Tolentino e outros vates. E o nosso secularismo, esse foi antes de mais um anti-clericalismo, puro e duro, que nos chegou directamente de França com o Jacobinismo. Falar-me-ão do anti-jesuitismo dos tempos de Pombal, mas isso foi a afirmação de poder dum déspota iluminado, aqui como lá fora.
E é por isso mesmo que a educação que ainda hoje recebemos aflore muito ao de leve esta idade de ouro da qual fica uma imagem vaga e difusa, de algo excessivamente intelectual. Aqui damos muito mais atenção à Revolução Francesa, muito mais sumarenta e excitante, aos ideais da liberdade, fraternidade e igualdade, sobre cuja aplicação na prática é que nascem as nossas queridas divergências ideológicas que tanto nos entretem e motivam. Por isso, Lutz amigo, não vás por aí. Os teus amigos portugueses não odeiam o Iluminismo, prestam-lhe antes muito pouca atenção. É por isso que, usando a tua frase, “nós não assimilámos a essência do iluminismo”. Aquela tua outra frase, belíssima, “as ideias se encontram num espaço de liberdade: confrontam-se, derrotam-se, fertilizam-se e transformam-se, não afectadas pelo quem as profere. Este não conta. O poder de quem fala já não lhes acrescenta razão, o seu estatuto não as torna mais válidas.”, dita aqui em Portugal, não é mais do que uma amável ilusão dum setentrional benevolente, que manifestamente ainda não assimilou a nossa pitoresca identidade meridional e latina. Ainda assim acho que com estes anos de blogosfera já devias ter percebido que, aqui no burgo as ideias são total e irremediavelmente afectadas por quem as profere...
Mas adiante pois quero ainda dizer algo mais, não sei se por amor à ideia se por atávica veia retórica. É que, voltando ao assunto, mesmo a nível da Europa mais a norte, eu discordo totalmente que o Ilumismo tenha sido o motor da secularização que quase destruiu a Igreja Católica. Na minha modesta opinião, a secularização europeia começou logo no Concílio de Trento e na Guerra dos Trinta Anos, quando a Igreja Católica se pôs debaixo da protecção de príncipes e imperadores para a protegerem da Reforma, tal como esta aliás o fez também para se proteger da Contra-Reforma. A partir daí a relação da Igreja com o Estado alterou-se totalmente, submetendo-se aquela a este ainda que o legitimando. O papel do inquisidor foi substituído pelo do jesuíta, influente confessor. O papado deixou de ser suserano dos Estados e converteu-se num Estado mais.
Quando o Iluminismo surgiu, encontrou já a Igreja muito enfraquecida e atomizada. Deve aliás dizer-se que o iluminismo penetrou profundamente no corpo da Igreja. Muitos dos mais notáveis iluministas, cientistas, matemáticos, inventores, filósofos, foram padres, sobretudo jesuítas, os quais foram profundamente embebidos pela revolução intelectual desse tempo. Há até um episódio picaresco e bem revelador: um arcebispo de Paris, um homem muito sábio e douto, não chegou a sê-lo por ter sido vetado pelo rei Luís XV que, muito justamente, considerou que “um arcebispo desta cidade tem, pelo menos, que acreditar em Deus”. Eu diria assim que a ameaça que o iluminismo trouxe à Igreja Católica foi sim a sua diluição e descaracterização.
Isso contudo acabou por não acontecer porque este movimento, sendo como diz o Lutz, “a emancipação das ideias do poder”, acabou por ter, tal como a Igreja, um papel de sustentação desse mesmo poder. Pense-se apenas em Frederico II da Prússia para se entender que assim foi. Ora, quando esse poder caiu à rua, arrastou com ele ilumismo e Igreja, que o sustentavam. A optimista e beatífica tolerância rousseauniana, a ideia do livre, pacífico e civilizadíssimo confronto de ideias, tudo isso abanou fortemente com os desvios e desvarios da revolução francesa. A Europa mergulhou num prolongado período de conflito e confusão, com uma forte reacção autoritária e esse doce optimismo andou abatido durante muitas décadas, ressurgindo apenas com o grande progresso tecnológico e material do fim do séc.XIX.
Também a Igreja Católica levou um valentíssimo safanão e a ameaça passou a ser muito mais visível embora menos insidiosa. O anti-clericalismo, que veio para ficar, perseguiu padres e freiras, expulsou jesuítas e frades mendicantes, matou até arcebispos mas produziu na Igreja uma forte reacção, uma reacção de defesa vital, que de certo modo a acordou do torpor com que viveu o século anterior. E essa reacção foi, como sempre, uma reacção de regresso ao básico, de reafirmação da doutrina, apoiando-se no sector mais conservador da população. Foi o tempo do Syllabus, da afirmação de dogmas difíceis e quase provocadores como o da infalibilidade papal. Foram tempos de combate sem tréguas contra um inimigo novo designado como modernismo, combate esse que prossegue hoje ainda em certos sectores da Igreja, apesar de ter havido tantos outros sinais de reconciliação com o mundo e preocupação com ele: desde a Rerum Novarum até ao Vaticano II.
Com toda esta conversa, quero apenas explicar porque penso que tudo aquilo que a Igreja é hoje (e é tanta coisa!) resultará muito pouco de eventuais enquistamentos de anticorpos contra o Iluminismo. Penso até que o Iluminismo, como o conhecemos e do qual o Lutz tanto gosta, sofreu muitíssimo mais às mãos da História do que pela influência católica e, claro está, reciprocamente para o catolicismo.
E agora que vou devolver o Iluminismo para a Enciclopédia de onde o tirei, tenho ainda assuntos a tratar com o Sr.Lutz que anda por aí a dizer que a condição de católico limita a nossa liberdade intelectual através daquele mecanismo terrível e normalizado que ele foi desencantar pelas bandas do marxismo: a tal aproximação voluntária do pensamento.
Mas, embora eu seja um homem livre, já estou cansado e este ajuste ficará então para a semana. Pois não eu descansarei enquanto não vir o Lutz a envergar opa para seguir a procissão do Senhor dos Passos!

José [GUIA DOS PERPLEXOS]

(0) comments

Os limites do homem (3): a exclusão da moral é a exclusão da essência humana

(as partes entre aspas e em bold do texto que se segue são palavras do cardeal Ratzinger proferidas alguns dias antes de se tornar o Papa Bento XVI - este post, tal como alguns posts anteriores, e tal como ainda alguns dos próximos posts que aqui escreverei, são baseados nessas palavras)

Não parece existir nenhum fundamento lógico para a obrigação moral que não passe pela alternativa entre as duas perspectivas seguintes:
- a obrigação moral assenta em axiomas,
- a obrigação moral é um mero produto de relações de forças conjunturais localizadas no tempo e no espaço e, neste caso, ela varia ao sabor das circunstâncias.
E também não existe, de um ponto de vista lógico, um meio termo entre estas alternativas.

"Mas esclareçamos primeiro o problema se as modernas filosofias iluministas, consideradas no seu complexo, se podem considerar como a última palavra da razão comum a todos os homens. Estas filosofias caracterizam-se pelo facto de serem positivistas e, por isso, anti-metafísicas, de tal modo que, no fim, Deus não pode ter nelas qualquer lugar. Elas estão baseadas numa auto-limitação da razão positiva, que é adequada para o âmbito técnico, mas que, quando é generalizada, leva pelo contrário a uma mutilação do homem. Consequentemente, o homem já não admite qualquer instância moral para além dos seus cálculos."
Sem uma referência a Deus e a normas de origem divina não é possível nenhuma fundamentação teórica válida de uma obrigação moral absoluta.
Certos moralistas laicos sustentam que as regras da convivência entre os homens produzem essa obrigação moral sem necessidade de recorrer à sua fundamentação divina.
Mas essa afirmação impede qualquer julgamento de validade sobre uma qualquer obrigação moral.
Na medida em que as circunstâncias sociais se alterem, a tortura, o assassínio, ou todo e qualquer comportamento criminoso podem deixar de o ser. O direito sem fundamentação divina é apenas o produto de uma relação de forças, a lei do mais forte.
De uma perspectiva laica, a obrigação moral de proteger os fracos contra os fortes ou é um simples absurdo ou é um comportamento utilitário dependente das circunstâncias históricas da evolução humana e, neste caso, em diferentes circunstâncias históricas, pode não fazer qualquer sentido.

"Mas o homem sabe fazer tanto e sabe fazer cada vez mais; e se este “saber fazer” não encontra a sua medida numa norma moral, torna-se, como já podemos ver, um poder de destruição.
O homem sabe clonar homens, e por isso o faz. O homem sabe usar homens como “armazém” de órgãos para outros homens, e por isso o faz; fá-lo porque esta parece ser uma exigência da sua liberdade. O homem sabe construir bombas atómicas, e por isso as faz."

Por isso o liberalismo, sobretudo a sua vertente económica, o neoliberalismo, está tão associado ao iluminismo e ao positivismo.
É, aliás, verdadeiramente assustadora a lógica "locked-in" resultante das "análises" políticas e sociais desse tipo de liberalismo fundamentalista.
Nunca lhe ocorre que existem situações em que os valores devem ser ponderados e em que critérios morais devem intervir nos automatismos dos sistemas.
O neoliberalismo iluminista torna-se assim uma espécie de capa legitimadora de uma moral de "vale tudo". Em que medida este edifício fundamentalisto-liberal não é apenas a tradução legitimante de um egoísmo aterrador? Em que medida este egoísmo não é camuflado ao nível da consciência dos liberais fundamentalistas pela sugestão de que tudo quanto pensam não é egoísmo mas apenas coerência e inteligência?
E por isso é tão perigoso para o auto-equilíbrio dos neoliberais questionar a moralidade do edifício. Dizer-lhes que o edifício é apenas o resultado (por vezes bastante lógico e coerente) de um certo tipo de moral (pretensamente amoral). Um colosso com pés de barro (como eram o nazismo e o comunismo). Os pés de barro deste colosso é a rejeição dos critérios morais como fundamento insubstituível de qualquer política económica.

"A separação radical da filosofia iluminista das suas raízes torna-se, em última análise, um não ter necessidade do homem. O homem, no fundo, não tem qualquer liberdade – dizem-nos os “porta-vozes” das ciências naturais, em total contradição com o ponto de partida de toda a questão."
E o então cardeal Ratzinger perguntava:
"Será que com isto pretendemos rejeitar simplesmente o iluminismo e a modernidade?"
A resposta virá para a semana, se Deus quiser.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

J'Accuse menos...

Saiu de rajada o texto da semana passada. Dou a mão à palmatória, ou nem por isso, e exercito o contraditório ao meu próprio texto, com as palavras de outros. Soubemos que os bispos acabaram por falar (tarde, quanto a mim) e que a Comissão Justiça e Paz dos Institutos Religiosos também o fez (como já o Rui dissera). Trago esse texto aqui, porque mo enviaram e vale a pena ler, na íntegra.

«Perante a manifestação anunciada para este sábado, dia 18 de Junho, em Lisboa, a Comissão Justiça e Paz dos Religiosos torna público o seguinte:
Consideramos legítimo e necessário que os cidadãos manifestem as suas posições e também a sua indignação perante actos e situações que consideram ofensivas do projecto pessoal e colectivo garantido pela lei fundamental do país. Mas demarcamo-nos radicalmente dos promotores da manifestação tanto na análise das causas dos problemas, como nas propostas da sua superação.
Demarcamo-nos na análise das causas porque, liminarmente, rejeitamos a visão racista e xenófoba dos organizadores e seguimos a visão que é inerente à nossa identidade de cristãos e que está subjacente à filosofia seguida pela ONU segundo a qual “as doutrinas da superioridade fundada na diferenciação entre as raças são cientificamente falsas, moralmente condenáveis e socialmente injustas e perigosas”.
Demarcamo-nos das propostas que vão na linha da “limpeza étnica”, transformando os outros em causa dos males de todos nós, afirmação que envolve vários erros. Não podemos continuar a chamar estrangeiros a quem já tem a nacionalidade portuguesa, ou a quem nasceu e sempre viveu em Portugal, ou ainda a quem com toda a probabilidade aqui terá o futuro. Não se pode forçar a história nem a realidade, sob pena de atirarmos pedras por sobre as nossas próprias cabeças.
Demarcamo-nos da visão negativa que apresentam dos estrangeiros pobres pois que eles não vêm tirar o nosso trabalho, uma vez que, na generalidade, aceitam o que sobra ou o que nós não queremos fazer; eles não estão a viver à custa do erário público, mas pelo contrário para ele contribuem significativamente; não vêm criar confusão na nossa cultura, mas sim enriquecê-la, desde que encontrem espíritos abertos e universalistas.
Com estes pressupostos, e confrontados com os mais recentes acontecimentos, estamos convencidos de que o que aconteceu em Carcavelos não passa de um sinal do mal-estar presente na sociedade portuguesa e que tende a agravar-se. As condições económicas actuais não são propícias à melhoria do nosso futuro. Por isso desejamos que os governantes tenham a lucidez e a coragem para não escutarem somente aqueles que têm poder reivindicativo, mas que se preocupem por criar condições para que a nossa sociedade não se transforme numa selva onde o que tem garras maiores com maior quinhão vai ficar. A nossa indignação dirige-se a tudo o que constitui negação da cidadania, não respeitando os direitos e não cumprindo os deveres correspondentes, assim como vai contra as mentalidades ocultas ou confessas de que o que interessa é promover alguns, mantendo outros em situações que não ficam a dever muito à escravatura do passado. Apontando apenas para algumas realidades, tenha-se em conta o sistema educativo que continua a catapultar para o fracasso crianças e jovens já económica, cultural e afectivamente desfavorecidos; repare-se nos meios onde habitam; tenha-se em conta o tipo de intervenção aí existente; avalie-se com lucidez as possibilidades que assistem aos pais para ajudarem os mais novos a crescer para a vida e para a cidadania; haja honestidade em perguntar se aceitamos uma sociedade de senhores e de servos.
Estamos convencidos de que se todos nós e aqueles que mandatamos para a condução do país estivéssemos informados e interessados em criar um país que não nos envergonhasse pelos desequilíbrios existentes, seguramente não contemplaríamos cenas como as que agora nos preocupam.»

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

segunda-feira, junho 27

 

Meditações sobre o Evangelho de ontem

Tudo tão simples e claro como água fria num copo. Mata a sede, do corpo e da alma.
O mundo está cansado de soluções complexas. Já se foi o tempo dos sonhos de grandes sistemas filosóficos que conjugassem todo o pensamento num único edifício de arquitetura mágica. Talvez o último grande sonhador deste tipo tenha sido Hegel. O velho Hegel e seu Geist que se desdobra/desvela com o passar do tempo na história humana. Complexo, muito complexo. E quem já passou mais de uma tarde debruçado sobre a Fenomenologia do Espírito sabe do que estou falando...
O mundo quer algo mais simples. E talvez aí esteja um ténue fio de compreensão para esta aurora de fundamentalismos do novo século. Rostos diferentes, mesmas vozes. Esteja-se falando do que quiser, desde a direita evangélica estadunidense ao radicalismo islâmico – com espaço, é claro, para as centenárias capelas vaticanas. O fundamentalismo é simples. Não conhece variações de cinza. É preto no branco. Cai como uma luva nos desejos deste novo-velho mundo.
A simplicidade do fundamentalismo, no entanto, é aparente. Por detrás da demonização do outro está a aceitação das complexas regras do jogo religioso. É preciso ser ortodoxo. É preciso dominar todas as nuances da ortodoxia. É preciso amparar-se na tradição. É preciso ouvir, com a serenidade das ovelhas, a interpretação correcta da tradição. É preciso aprendê-la. Só quem se torna um escriba versado na doutrina é que compreende a razão da ética fundamentalista. E quem compreende esta razão age com um brilho diferente dos olhos. O brilho de quem sabe ser o dono da verdade.

A proposta do bom e velho Cristo não é essa. Seu projecto é simples, de verdade. Se se quer receber o prémio do Reino, aja. Aja antes de qualquer reflexão teórica. A teologia é ato segundo; a prática da fé é ato primeiro. No projecto do Reino de Deus, pensado por Jesus Cristo, a acção movida pelo amor é mais importante que qualquer correcção de sistemas teológicos. Suas palavras, no evangelho de ontem, encontram eco nos ouvidos de quem se recusa a se enredar nesta trama urdida pelo espírito do século: “E quem der a beber, ainda que seja um copo de água fria, a um destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de modo algum perderá o seu galardão.”
O fundamentalismo não entende isso. Nada pode ser tão simples assim. Mesmo no universo bidimensional do preto no branco, deve-se penetrar à disciplina dos arcanos, deve-se compreender os mistérios da doutrina. A acção de defesa da fé segue-se, é lógico, à apreensão desta fé. A paixão fumegante dos apologistas da ortodoxia funda-se no conhecimento da complexidade dos mistérios de Deus. Nada pode ser tão simples quanto um gesto de amor.
Mas esta é a proposta do Cristo. Gesto de amor. Aja, ame. Não fundamente o gesto, a acção, numa doutrina a ser defendida. Simplesmente aja, simplesmente ame. Gestos de amor gratuitos, realmente altruístas. Esta é a única alternativa possível ao ser humano de hoje. A única alternativa para que ainda faça sentido a existência humana.
Dê de beber um copo d’água. Mate a sede do outro, do corpo e da alma. Este é o segredo da re-humanização desta nossa espécie quase perdida. Simples. Tudo tão simples e claro como água fria num copo.

Christian Bitencourt [MIGALHAS]

(0) comments

Olhares sobre a Igreja. 3. A mulher na Igreja Católica.

Passo a transcrever, na íntegra, uma reflexão de Maria Alfreda Ferreira da Fonseca, publicada na agência ecclesia no passado mês de Maio. Trago esta reflexão para a Terra da Alegria, porque cada vez mais este é um assunto de primeira importância a ser reflectido dentro da Igreja Católica. Não sei fazer futurologia portanto não sei quando é que este e outros assuntos em debate serão devidamente enquadrados no presente da Igreja. Da minha parte quero contribuir para que sejam tratados com a seriedade que merecem.

“1- Qualquer reflexão sobre o feminino na Igreja é sempre uma questão situada no tempo e no espaço. Sendo a mensagem cristã dirigida a toda a gente e a todas as épocas, no âmago da experiência humana, é aí que se confrontam as questões concretas da vivência da Boa-Nova e das condições objectivas para a sua transmissão em Igreja, ou seja o velho problema da Evangelização (nova ou não, conforme os gostos...)
No início deste sec. XXI, num tempo de acelerada globalização, a situação não é pois homogénea nem no Mundo, nem na Igreja, incluindo a Igreja Portuguesa.
As questões do “Género” (feminino ou masculino) são então (apenas?) umas entre outras que desafiam a compreensão da Fé e a organização da Igreja em ordem a ser eficaz na sua tarefa evangelizadora. Não podem por isso ser ignoradas ou tomadas menos a sério do que quaisquer outras, sob pena de omissão grave.
Não se trata de importar um feminismo societário das sociedades desenvolvidas do Ocidente, tipo versão agressiva feminista - católica, como simplisticamente alguns sectores eclesiais e eclesiásticos parecem julgar ter acontecido.
Pelo contrário, o problema é bem mais sério e necessita de ser reflectido para além das paixões emocionais que se revelam nos debates a favor ou contra a maior participação feminina na Igreja e, particularmente, a disputa sobre a sexualidade e/ou a necessidade de as mulheres poderem vir a desempenhar ministérios ordenados que hoje lhes são vedados.
A questão do papel da mulher na Igreja, aqui e agora, é a mais viva expressão da inculturação da Fé na experiência da vida dos crentes, homens e mulheres que partilham “as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. (...) (experiência) intimamente solidária do género humano e da sua história” (G.S.-Vat.II). Importa pois tomar a sério esta experiência humana que hoje estamos a viver.
Como no poema de Sofia, “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar...” a realidade que perpassa a nossa vida de portugueses, europeus, mulheres e homens inseridos num país, numa cidade, numa Igreja que assumiu historicamente uma postura face à mulher pouco conforme com a referência a Jesus Cristo e muito devedora dos enquadramentos históricos e modelos ideológicos em que nasceu, se estruturou e que muitas vezes insiste em perpetuar como se fossem essas as únicas formas possíveis de se organizar!


2 – De onde vimos pois, para podermos olhar criticamente o passado e projectarmos o futuro de uma forma mais evangélica? Sabemos onde acabam os modelos históricos ligados à experiência de uma Fé incarnada e onde sopra o apelo do Espírito que impele a novos caminhos ainda inexplorados? Qual será amanhã o lugar das mulheres na Igreja? O papel da mulher será sempre indissociável do seu estatuto sociológico em qualquer sociedade e organização, e no caso vertente, na nossa Igreja. Compreender os enquadramentos históricos e as vicissitudes do passado é dotarmo-nos de ferramentas para projectarmos o futuro.
O estatuto da mulher na sociedade judaica no tempo de Jesus (como em outras sociedades tradicionais que hoje perduram), era determinado pela família como lugar claramente definido em termos sociais e sexuais.
A família é sempre o centro – a mulher é identificada como videira fecunda...ou como a estéril, um estigma social desvalorizante. O papel da mulher é assegurar a reprodução, educar os filhos e manter a casa através dos trabalhos domésticos. Não se pede mais nada às mulheres do que se submetam ao poder de uma sociedade fortemente patriarcal. Os exemplos abundam no Antigo Testamento!
Mas este estatuto feminino sofre ainda de uma ambiguidade metafórica inicial desde o Génesis: Eva é a primeira mulher, auxiliar igual de Adão, mas também é apresentada como a tentadora pela qual o mal veio ao mundo, segundo o relato do mito bíblico da origem. Aí está um primeiro modelo de desvalorização feminina produzido pelo discurso masculino da culpa e do mal.
A evolução histórica de Inculturação do cristianismo nas culturas locais, do Império Romano à idade Média, até ao século XX, foi acentuando a submissão ao modelo patriarcal presente na maioria das sociedades o que contradiz em absoluto a mensagem cristã, mas é produto do estatuto de menoridade feminina vigente nas sociedades com as quais o cristianismo, doutrina libertadora, muitas vezes pactuou acriticamente.
Ora Jesus Cristo tinha uma compreensão distinta da mulher. Os Evangelhos, particularmente em Lucas, mostram-nos Alguém que fala com elas assumindo-as como pessoas na sua integralidade e esse contacto é transformador, leva à conversão.
Recuperar esta forma de Jesus se encontrar com as mulheres é o desafio que o século XXI, no Ocidente, nos coloca, a todos homens e mulheres, dentro e fora da Igreja.

3 – Na Igreja primitiva, as mulheres eram chamadas ao serviço do Diaconado e certamente orientavam as celebrações das Igrejas domésticas onde se inseriam. Hoje nada disso é possível! As mulheres fazem múltiplos serviços, mas não são reconhecidos como ministérios e o mais das vezes são meramente supletivos da falta de padres. A questão dos Ministérios ordenados, mais do que uma reivindicação de igualdade de género é uma necessidade de serviço à comunidade eclesial. Se a Igreja Católica continuar a recusar o acesso ao Presbiterado aos casados, homens ou/e mulheres, o exercício do ministério aos chamados incorrectamente ex-padres, vai um dia encontrar-se na infeliz situação de não ter quem presida à Eucaristia.
Se as mulheres parassem por um dia o seu labor diário na sociedade e na Igreja, o país e o mundo paralisavam. A economia portuguesa assenta em grande parte, no trabalho das mulheres e a vida familiar de cada pessoa também. As igrejas não teriam o chão limpo, as flores no lugar, as hóstias não seriam fabricadas pelas freiras nem os paramentos bordados, mas sobretudo a catequese dos mais novos e os serviços de apoio social nas paróquias falhavam. As celebrações da Palavra sem padre deixariam de existir em muitos lugares, a distribuição da comunhão aos doentes igualmente. A Conferência Episcopal reuniria na mesma, mas não teria quem lhes fizesse a comida, em Fátima, nem as secretárias para lhes passar os textos a computador. As aulas na Faculdade de Teologia funcionariam pois só há uma mulher na direcção e aí as professoras são muito poucas, mas a secretaria da Universidade Católica faria fechar as Faculdades sem ninguém para processar vencimentos ou passar diplomas. As escolas católicas ficariam também paralisadas.
Ora como se vê pelos exemplos dados, as mulheres são essenciais para fazerem funcionar esse corpo que é a Igreja. O que é estranho é que se lhes peça quase só trabalho braçal e quase nenhum intelectual... desperdiçando muitos dos carismas com que O Criador as dotou!

4 – O desastroso discurso eclesiástico sobre o papel da mulher, marcado pela sexualidade (virgens consagradas ou mães) e pela carga histórica de submissão da mulher, ainda que se lhe reconheça dignidade (ex. JPII – in Mulliers Dignitatem) recusa ver uma realidade que só não vê quem não quer mesmo olhar: as mulheres são gente, são pessoas, dotadas além da função reprodutora e de um enorme coração, com muitos outros atributos tais como... cérebro! A menos que as façam justamente “perder a cabeça” pelas inúmeras histórias de discriminação e menoridade a que habitualmente têm estado sujeitas. É altura de começar a mudar e colocar os carismas e talentos do género feminino ao serviço de toda a comunidade eclesial.
O progresso social resultante da situação da escolarização maciça das mulheres, no Ocidente, torna-as parceiras também em termos intelectuais, dos homens e esta realidade deve-se reflectir não só na sociedade como na Igreja e na sua organização interna.
Caso este desafio não seja tomado a sério, corremos o risco de marginalizar e de perder o contacto com a metade feminina da humanidade, o que seria um pecado grave!”

Maria da Conceição.

(0) comments

quarta-feira, junho 22

 

Dedalus e Ícaro: as duas maneiras de sair do labirinto

O Lutz comparou a minha "aproximação" ao Papa Bento XVI (ex-Ratzinger) com a posição de Cunhal relativamente à invasão da Checoslováquia (antes da invasão, Cunhal emitiu internamente opiniões contra, mas depois defendeu-a publicamente). Se bem compreendi o seu raciocínio, a lógica seria a mesma: a lógica da submissão à organização em nome de valores mais altos.
Julgo que a mãe de Cunhal era uma católica fervorosa e autoritária. Uma mãe quase fundamentalista no seu catolicismo, voluntariosa e enérgica, com um ódio profundo ao comunismo (pelo menos foi essa a ideia com que fiquei do livro de Pacheco Pereira sobre Cunhal, ideia esta que não pude confirmar pois perdi o livro algures). Cunhal, na sua infância e princípio da adolescência, teria sido também um católico extremoso, colaborando frequentemente com o padre na Missa.
Não pretendo voltar à velha e batida tecla de que "o comunismo é uma história de cristãos" (Camus). Até porque a questão que aqui se coloca não é exactamente saber as semelhanças e as diferenças entre as propostas sociais e políticas do cristianismo e as do comunismo mas o que têm em comum no seu modo de funcionamento.
Seria atraente estabelecer um paralelo entre o fundamentalismo católico da mãe de Cunhal e o fundamentalismo comunista do filho, através de uma espécie de estranho e paradoxal mimetismo que conduziu a resultados opostos através de uma resolução do complexo de Édipo com contornos particulares. Os fundamentalismos tendem a herdar-se através de uma espécie de aprendizagem inconsciente mesmo quando assumem cores radicalmente opostas. O mal (nas suas diferentes tonalidades e cambiantes) tende a espalhar-se como uma mancha de óleo que tudo impregna.

Mas o fundamentalismo pode apenas ser uma das variantes do moralismo. Na obsessão pelo "dever ser" tudo serve para que o "dever ser" se transforme no "ser". Estou particularmente à vontade para falar nisso porque quando andei pela extrema-esquerda fazia esse tipo de raciocínios. Quando o "ser "(por exemplo a União Soviética de Estaline ou a China maoísta) não correspondia ao "dever ser" (o comunismo como um estádio superior do humanismo) negava essa realidade de duas maneiras: minimizando os "erros" e desculpando-os com a necessidade de se construir o futuro, um futuro esse sim em que tais "erros" não existiriam.
Perante as ameaças decorrentes do moralismo (um fundamentalismo inumano ou uma hipocrisia repugnante que paradoxalmente pode constituir o estádio mais avançado do cinismo – nas palavras do Lutz: "Como ultrapassar o cinismo sem voltar à hipocrisia!") o cinismo foi a tentação intelectual que se seguiu no meu percurso pessoal.
Mas a única alternativa ao cinismo é a existência de um conjunto de valores sólidos de um ponto de vista lógico e ético e a luta por eles. Com todos os riscos que tal implica.

Como em tudo, talvez aqui a chave seja também e novamente a procura do equilíbrio. Sujeição versus independência ou moralismo versus cepticismo são apenas mais algumas daquelas equações em que a procura do equilíbrio é fundamental. Já aqui defendi que o equilíbrio e a proporcionalidade são também simples facetas do amor. Nesta procura do equilíbrio é a nossa consciência individual que é determinante. "A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo (…) É preciso que cada um preste muita atenção a si mesmo para ouvir e seguir a voz da sua consciência." (pontos 1778 e 1779 do Catecismo da Igreja Católica).

Com tudo isto não respondi à questão do Lutz. Estarei a defender "a invasão da Checoslováquia"?
Vou dar um exemplo que talvez responda melhor a esta pergunta que uma resposta directa.
A minha ideia inicial quando comecei a escrever esses textos baseados nas palavras de Ratzinger era alternar textos "laudatórios" com textos críticos. O primeiro texto crítico seria relativamente ao célebre ponto 2267 do Catecismo da Igreja Católica que admite, ainda que apenas teoricamente, a pena de morte. Na altura não avancei por este caminho por três razões.

Primeiro, porque verifiquei que a versão espanhola deste ponto é radicalmente diferente das restantes versões (ver, a título de exemplo a versão francesa e a versão inglesa). A versão alemã, sublinho, a versão alemã, parece-me de acordo com a versão espanhola mas nisto o meu alemão é insuficiente (talvez o Lutz me ajude).
Segundo (admitindo que as versões inglesa e francesa é que são as correctas), pelo que li algures, teria existido uma luta terrível no Vaticano (e é a esse título reveladora a diferente versão em espanhol e alemão) em torno deste ponto e que ele teria sido "imposto" pela então poderosíssima Igreja norte-americana (importante sustentáculo financeiro das obras da Igreja Católica em todo o mundo). Embora não se tenha condenado de modo absoluto e peremptório a pena de morte (como eu gostava que fosse) o que se diz nesse ponto representa a condenação, na prática, dos países que têm a pena de morte no seu sistema jurídico.
Terceiro, a condenação prática da pena de morte tornaria irrelevante a crítica que eu tencionava fazer.

Decidi então não fazer essa crítica porque ela me parecia irrelevante nesse contexto, até porque também li que o Papa Bento XVI estaria com a Igreja Católica norte-americana debaixo de mira a propósito deste e de outros casos ainda mais sinistros. E que, mais cedo ou mais tarde, este tenebroso ponto 2267 será limpo para ficar de acordo com as versões espanhola e alemã).
Existe em toda esta argumentação um mal-disfarçado wishful thinking.
Dir-me-ão que este tipo de raciocínio era exactamente o de Cunhal quando defendia a invasão da Checoslováquia. Talvez. Prefiro viver com estas dúvidas do que com a certeza de uma independência que mais não seria que, utilizando as palavras do José, "o endeusamento acrítico e cristalizador do meu próprio pensamento". "O que muitas vezes é fonte de escravidão e não de libertação."(de novo nas palavras do José).

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

J'ACCUSE!

Acuso os bispos portugueses por omissão.
Acuso os padres das dioceses deste país por não levantarem a voz.
Acuso os leigos da Igreja católica portuguesa por indiferença.
Acuso quem, entre todos os cristãos, ignorou a manifestação nazi do passado sábado em Lisboa.

Não basta lermos a parábola do Bom Samaritano, para sabermos tratar e acolher o estrangeiro.
Não basta bater no peito e invocar a caridadezinha, que podemos praticar com os ciganitos lá do bairro.
Não basta rezarmos por quem pratica o mal, em supostos arrastamentos ou de braço em riste, repetindo a ladainha que pecámos por palavras, actos ou omissões. Porque pecámos.

Por palavras que não foram ditas.
Por actos que não tomámos.
Por omissões que todos nós tivemos.

Há que dizê-lo: fosse uma manifestação pró-aborto, e bispos, e padres, e alguns movimentos ditos pró-vida ou eclesiais, levantariam a voz, gritariam para lá da sacristia, poriam o dedo em riste.
Mais: no sábado da vergonha (não podemos esquecer como começou a vergonha nazi - com a indiferença de todos os que deviam ter sido mais actuantes e não levantaram a voz), alguns movimentos e organizações portuguesas correram a participar numa manifestação em defesa da família na vizinha Espanha - que, no fundo, era uma "manif" homofóbica! - quando em pleno coração de Lisboa as famílias portuguesas eram todas elas envergonhadas com braços em riste a saudar o que de mais vil a humanidade já viu e a colorirem esses gestos hediondos com frases mentirosas (sim, são mentiras, como provam todas as estatísticas sobre criminalidade).

A tudo isto, os católicos disseram nada. Ou quase nada. Calaram, porque falta na Igreja uma aprendizagem do Outro - contra o discurso racista e da indiferença. A vida defende-se aqui. Assim.

[Dir-me-ão: D. Januário Torgal Ferreira, bispo da comissão episcopal das Migrações, falou. Alto e bom som contra a "manif". Mas, agora, apetece-me ironizar, com a argumentação de alguns sectores às direitas: "É sempre o mesmo..."]

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

Obrigações e acções

Na segunda-feira, depois de ler o texto do Luís Almeida, aqui na Terra, fiquei a pensar que é mesmo assim na maioria das nossas igrejas. Mais uma vez o pensei, mas desta vez com uma certa alegria de saber que “aquilo” também incomoda outros.
Uma das coisas que acho que devemos cuidar na Igreja é a liturgia. Quando digo cuidar refiro-me também a manter o que recebemos das tradições e da Tradição, mas, sobretudo à capacidade de dar sentido aos ritos, aos gestos, às palavras enquanto realidades muito mais fundas e que remetem para o quotidiano e para o sentido dos outros.
Já de há anos que se têm feito ouvir algumas pessoas, muitas delas até consideradas “progressistas” e ousadas a dizer que depois do Concílio Vaticano II, passando a Missa a ser em vernáculo se perdeu uma dimensão essencial à vivência da Fé, a relação com o inefável através da beleza e do misterioso. Sou capaz de dar alguma razão a quem o diz e pensa, mas não consigo imaginar a vivência comunitária da Eucaristia sem a participação activa e dialogal de cada um, conforme a sua capacidade ou função. É preciso é ter em conta as várias realidades comunitárias que se celebram.
No pontifical de Domingo de Páscoa presidido pelo Papa como quando o pároco vai celebrar para sete ou oito escuteiros acampados ou no casamento (pela Igreja...) da mais faustosa das princesas como na Missa de corpo presente do miserável sem-abrigo onde só aparece o padre, celebramos sempre a mesma Eucaristia, tornamos sempre presente o dom que Jesus Cristo se fez para nós. A questão é sabermos dar sentido, tornando a celebração digna, a cada um desses momentos a que associamos o partir do Pão que é o Senhor.
É essencial fazer tudo o melhor possível para que tudo seja perceptível e belo, mas é essencial também saber quem, como e em que circunstância estamos para que “a preocupação pelo rito” não nos torne “ritualistas e escravos do rito” como apontava o Luís.
Mas a minha alegria foi maior quando, nesse mesmo dia, li, na comunicação do Angelus de Bento XVI no passado dia 12, que a “Missa dominical deve ser sentida pelo cristão não como uma imposição ou um peso, mas como uma necessidade e uma alegria”. É uma evidência, algo que todos devíamos perceber desde a infância, mas é da máxima importância que o Papa seja capaz de dizer estas coisas simples para que as interiorizemos, para que saibamos da sua importância!
Para a verdade é que continua a haver muitos padres que, até sem se aperceberem, continuam a celebrar missas e missinhas com o maior dos rigores e cuidados, mas por mera obrigação enquanto muitos fiéis continuam a ir, sem estar, sem participar, sem assistir, apenas por obrigação...

Rui Almeida [POESIA DISTRIBUÍDA NA RUA.]

(0) comments

segunda-feira, junho 20

 

No Domingo fui à Missa

Senhor Padre M.

Um bom dia para si.
De novo: BOM DIA !

Escrevo-lhe constrangido pela dúvida se o devo fazer, mas impelido por um apelo de consciência, como um dever cristão.

No Domingo passado fui à Missa à sua Paróquia: não era a 1ª vez, mas não é frequente ir à Missa à sua Paróquia (é mais frequente ir a a outras Paróquias).

Sou L.A., um simples Cristão, com a minha mediocridade, com os meus receios, os meus medos, a minha ambiguidade, as minhas limitações e fraquezas, os meus defeitos e o meu pecado e, portanto, não será por isso que me resta algum direito de poder dizer o que quer que seja a alguém, de julgar, nem muito menos de concluir alguma coisa sobre o que quer que seja. Também não sou especialista de coisa nenhuma e, por isso, a minha opinião nem sequer é necessário admiti-la como digna de consideração; não procuro resposta e mais me agradaria fazê-lo no anonimato.
Desejo que a minha atitude não seja mais que um apelo de consciência e peço perdão se estou a ser injusto, porque me sinto como quem vai dar uma bofetada num Filho de Deus.

No Domingo fui à Missa: Assim mesmo! Só isso!
Mas gostaria que tivesse sido um pouco mais: Não como quem marca o ponto, ou cumpre uma obrigação, mas como quem deseja, participa, se compromete e descobre rumo, força e sentido para a Vida.

Procuro não encarar a Missa como um fim em si mesma, mas, em primeiro lugar, como um encontro, com os outros - em comunidade - na celebração da Fé, e com Deus na Sua Palavra, como descoberta da Sua vontade, e na Eucaristia, como alimento e ânimo, e em segundo lugar como um reenvio para a Vida do dia a dia. (Era assim que eu gostava que fosse!)
A Eucaristia, mais do que um fim em si mesma, é um abrir de horizontes, um apelo ao testemunho e um envio em Missão.

Pois o que eu senti foi um cultivo do gesto. O rito pelo rito. O aparato (a aparência) de uma cerimónia, para não dizer uma representação, uma encenação, quase um espectáculo... Sim, um espectáculo! Muito centrado em si mesmo, como se a sua finalidade fosse o próprio rito. Havia um actor principal, com uma pose irrepreensível, (mesmo que estivesse a contar as 36 vezes que a porta do fundo bateu), mas os gestos, a posição, os tempos, o tom de voz, o ritmo, a marcação…, tudo estava definido, controlado, aferido, afinado, ensaiado…, impecável!

A preocupação pelo rito pode tornar-nos ritualistas e escravos do rito.
A preocupação pela aparência da função pode tornar-nos funcionários, profissionais no desempenho, mas desligados e alheios do conteúdo.
O símbolo toma o lugar do objecto e ele próprio deixa de ser símbolo e esvazia-se: fica em nada!

Se há uma presença que deve ser evidenciada é a de Cristo (não a do representante), presente na comunidade dos cristãos (se dois ou mais estiverem reunidos…), presente na Sua Palavra, presente na Eucaristia!
Presidir à comunidade é, antes de mais, estar ao serviço da comunhão: entre a comunidade e desta com Deus. Outros protagonismos podem ser um cultivo da pessoa, mas não serão motivo de comunhão!

Muitas vezes, falo por mim, encobrimos os nossos medos e a nossa insegurança com um verniz protector, com um fazer bem feitinho, para os outros gostarem, como uma capa que nos protege e por detrás da qual ocultamos os nossos receios…!!! (É apenas uma sugestão para uma auto-avaliação).

Aceite um abraço em Cristo.
L. A. Faro, 11/05/2005

Luís Almeida

(0) comments

Para que serve o Simbolismo

Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.
Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuídas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.
Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.
Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

------------------------
NOTA [1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.


Marco Oliveira [POVO DE BAHÁ]

(0) comments

Olhares sobre a Igreja. 2

Na semana passada, na reflexão que aqui fazia, punha em antítese, a presença de uma comunidade religiosa de três carmelitas no meio de uma cidade, e as grandes multidões que participaram no funeral do Papa João Paulo II (reflexão de L. Boff).
Quando vi a reportagem da remodelação do mosteiro, os primeiros pensamentos que me ocorreram, foram de espanto por aqueles carmelitas não se inquietarem com o facto de serem apenas três, e terem a coragem de se lançarem em obras, decerto dispendiosas, e quererem permanecer na sua presença discreta, no meio da cidade. Se os primeiros pensamentos foram de espanto, estes logo deram lugar a uma reflexão mais aprofundada sobre o verdadeiro significado daquela presença tão humilde, até no número. Ocorreram-me então aquelas palavras do evangelho de:

(Mt 5, 13-16)“Vós sois o sal da terra; ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar? Não serve para mais nada, senão para ser , lançado fora e ser pisado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende uma candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e alumia a todos os que vivem em casa.”

Segundo estas palavras de Jesus, que vêm na sequência do famoso “sermão da montanha” ou “sermão das Bem-Aventuranças”, os discípulos são comparados ao sal. O sal é garantia de que os alimentos não se estraguem, além de dar-lhes sabor. Com Noé, Deus estabeleceu uma aliança com a humanidade, agora, através de Jesus Cristo, pede aos discípulos que sejam, pela sua fidelidade, os garantes de que essa aliança se mantenha e levem por diante a libertação de todos os homens. Se os cristãos não são fiéis ao plano de Deus, não servem para nada, perdem a razão de ser, tornam-se inúteis.

Na comparação dos discípulos à pequena candeia, símbolo de Deus, luz que alumia as nossas trevas, Jesus pede que sejam, agora eles, a manifestação da glória de Deus.
Passados, perto de dois mil anos, depois destas palavras terem sido proferidas, qual o significado que nós cristãos, seguidores de Jesus, hoje, retiramos? De que modo esta Palavra, é Palavra de salvação para a humanidade?
Da nossa experiência humana, retiramos que o sal, ou a pequena candeia, a que Jesus compara os seus discípulos, não são coisas que se impõem pela sua grandeza mas sim pelas suas características de incorruptibilidade e porque, é nas trevas que se manifesta a luz. Portanto, hoje, tal como há dois mil anos, o que define os verdadeiros discípulos é o seu modo de agir e não a grandiosidade ou pequenez dos números de qualquer estatística ou evento por maior visibilidade que tenham, como por exemplo, o funeral do Papa João Paulo II, ou no caso da igreja de Portugal a quantidade de peregrinos que demandam a Fátima.

A glória de Deus não se manifestará, nunca, pelo encher de praças ou igrejas, pela quantidade de dogmas e pela observância da lei, manifesta-se antes, pelo modo de agir de todos os cristãos, inseridos na comunidade dos homens.
Se formos fiéis ao plano de Deus, então serão para nós, aquelas palavras que aparecem no texto; “não se pode esconder a cidade edificada sobre o monte”. Não será então pela grandiosidade dos números que nos imporemos, mas sim porque as nossas obras falarão por nós.

Maria da Conceição

(0) comments

Ouço o Evangelho

Ouço o Evangelho, Mateus 10, 26-33: “Não tenhais medo.”
Na homilia, o padre repete “não tenhais medo” e fala sobre a Esperança.

Lembro-me de um texto de Tadeusz Borowski,
Bei uns in Auschwitz:

“Talvez estejamos aqui para que esse mundo novo e diferente possa finalmente acontecer. Ou acreditas que teríamos ficado um único dia no campo, se não tivéssemos a Esperança de que um mundo novo chegaria e que as pessoas recuperariam os direitos humanos?
Foi a Esperança que ordenou às pessoas que entrassem indiferentes nas câmaras de gás; que as impediu de planear uma revolta; a Esperança faz delas mortos e apáticos. A Esperança ordenou às mães que renunciassem aos filhos, às mulheres que se vendessem por um bocado de pão, aos homens que matassem pessoas. A Esperança levou-as a lutar por cada dia seguinte de vida, porque talvez o dia seguinte fosse aquele que traria a liberdade. Talvez nem sequer a Esperança de um mundo novo e melhor, mas tão-somente a Esperança numa vida com calma e paz. Nunca a Esperança foi mais forte que o Homem, mas nunca provocou tanto mal como nesta guerra, neste campo. Ninguém nos ensinou a desistir da Esperança. Por isso morremos no gás.
Como pode ser possível que ninguém solte um grito, ninguém cuspa num rosto, ninguém se encoste? Nós descobrimos a cabeça na presença dos SS, quando eles acabaram a contagem e regressam da floresta, nós caminhamos com eles para a morte e – nada! Nós temos fome, estamos em pé à chuva, levam-nos o que temos de mais querido. Vês, isto é a mística. Isto é o singular poder de uma pessoa sobre outra. O assalto selvagem que ninguém consegue quebrar. E a única arma que temos é o nosso número – nós somos demasiados, não cabemos todos nas câmaras.”


Tropeço nas palavras. Nunca a Esperança foi tão forte, nunca causou tanto mal.
É esta uma das faces da Esperança? O que é isso, afinal? Onde acaba a confiança e começa a resignação? Como distinguir entre Esperança e passividade (ou até cálculo, como neste exemplo extremo)? Será que Borowski está mesmo a falar da Esperança?

E depois, lembro-me de Maximilian Kolbe, um padre polaco. Calhou que, poucos meses depois de ter sido preso pela Gestapo e enviado para Auschwitz, foi chamado a assistir com os outros prisioneiros à escolha arbitrária que os soldados faziam de 10 prisioneiros, como medida de represália devido à suspeita da fuga de um homem. Quando um dos escolhidos começou a gritar e a lamentar-se que tinha mulher e filhos para sustentar, o padre Kolbe ofereceu-se voluntariamente para morrer em vez dele no bunker da fome.

A Esperança terá as suas vantagens, reconheço.
Mas é o Amor que nos redime. Só ele faz o mundo novo e diferente que esperamos.
Mesmo em Auschwitz.

Helena Araújo (
DOIS DEDOS DE CONVERSA)

(0) comments

Percursos do eterno no ocidente (2) – arqueologia de Deus

Comecei na semana passada a falar do livro de Régis Debray, "Deus, um itinerário. Materiais para a história do Eterno no Ocidente". Debray situa o seu texto no campo da mediologia – o estudo dos meios, dos reflexos com que o homem foi exprimindo e vivendo a experiência religiosa. Hoje destacarei duas ideias dos primeiros capítulos deste livro.

Ideia um: "Um Pai Eterno mais novo que a sua progenitura?". O nosso Deus é uma ideia tardia: dois ou três milhares de anos de judeo-cristianismo para cinquenta a cem mil de homo sapiens sapiens. O facto religioso é uma evidência antiga – não se conhece povo que abandonasse os seus mortos sem qualquer tipo de rito fúnebre. Porém até chegarmos ao monoteísmo desenrolou-se um processo longo de decantação e de abstração. Debray analisa esse processo no que podia chamar-se uma arqueologia do sagrado: "Mediodependente, o Eterno não podia andar mais depressa do que a história dos nossos meios de consignação e de locomoção – a música das civilizações começa em ritmo lento". Essa caminhada de descoberta do monoteísmo começa "no alto da duna" – "O deserto é monoteísta", dizia Renan, defendendo que foi a sua aridez que trouxe a purificação da ideia de Deus: "o árido cura-nos dos ídolos". Debray vai mais longe e procura perceber a marca que a civilização pastoril hebraica deixou em Javé: "Um povo de bons oradores, concebe um Olimpo bem-falante e questionador. Um povo de pastores concebe, como ferramenta de coesão e independência, um grande pastor celeste, substituido em contrabaixo por pastores de carne e osso, profetas ou monarcas". Avancemos que a história é longa.

Ideia dois: um Deus alfabético. "Não se conhece nenhuma sociedade puramente oral que tenha uma noção do Eterno" diz logo no início do segundo capítulo. A abstracção que permitiu inventar o alfabeto permitiu uma reconfiguração do divino. A escrita não figurativa – onde a notação representa apenas os sons elementares da língua falada e não os objectos representados – nasce num processo longo, da pictografia, à ideografia até chegar à fonética. O surgimento do pensamento abstrato – que reduz as ideias ao essencial e as escrita aos fonemas elementares – acompanha a purificação do divino até à ideia essencial de um Deus único. É aí que se chega ao diagrama "YHWM" – Deus impronunciável, irrepresentável, distante de todas as formas de ídolos, totalmente Outro. Conceber a transcendência exige a abstracção completa. Ou de uma forma mais pitoresca: "A história do nosso Deus começa onde a banda desenhada acaba". Com a escrita chegamos a um Deus único. Com a imprensa rudimentar Javé torna-se portátil. Com a Arca da Aliança, passa-se de um Deus de arquitectos (do monumento) para um Deus de arquivistas (do documento). Ainda hoje Israel tem no seu grande museu de arte e arqueologia objectos rituais dos cultos politeístas da Antiga Palestina. Para conhecer artefactos do período monoteísta teremos que nos deslocar ao Santuário do Livro onde apenas se exibem manuscritos. Quando fazemos a comparação com outros deuses percebemos que a opção por um Deus discreto compensou: "O Único venceu finalmente os seus concorrentes, Marduk e Amon Rá. Estes ficaram imobilizados nos nossos museus, enquanto lá fora, nas ruas, Ele continua a movimentar milhares de crentes." Notar que esta comparação é material e não espiritual.

Para a semana espero chegar ao cristianismo propriamente dito.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

(0) comments

quarta-feira, junho 15

 

Nota de entrada. 100 edições.

A propósito de: «Segunda-feira, Junho 13, 2005. O ano dos centenários. 2005 tem sido assim. Centenários de nascimentos e mortes. Publicações e inaugurações. Emmanuel Mounier. Rafael Bordalo Pinheiro. Museu Nacional dos Coches. República dos Galifões. Hans Christian Andersen. D.Quijote de la Mancha. Ligação ferroviária Lourenço Marques-Pretória (via Ma-Schamba). Júlio Verne. Pablo Neruda. A Noruega! Henry Fonda. Publicação da Teoria da Relatividade. Jean Paul Sartre. A 1ªreunião do Grupo de Bloomsbury. Guerra Russo-nipónica. Uma infinidade de efemérides... Mas hoje, meus caros amigos, um outro centenário para mais tarde recordar: a centésima edição da Terra da Alegria. Oficiado e bem pelo Afonso, Conceição e Zé Filipe.» No Guia dos Perplexos.

(0) comments

Da salvação de um comunista

Álvaro Cunhal desconfiava naturalmente da salvação. Um padre, preocupado, alertou-o há uns anos, para a morte que aí vinha. Ele agradeceu a atenção e, argumentou, que acaso fosse necessário e acontecesse poderia depor a favor daquele padre, na hora do seu juízo, por este ter tentado converter Cunhal.
Sorri ao ler este excerto de uma entrevista ao líder histórico do PCP (recuperado esta terça-feira no jornal A Capital). E pensei que também gostaria de ter respondido assim: porque na resposta, quer se queira, quer não (e: quer se creia, quer não), há uma humildade que pode garantir o reino dos céus. Quem sou eu, pergunto-me, se tiver a soberba de querer converter, apenas por palavras, o outro à minha História. [É verdade que também Cunhal acreditava na sua salvação, de forma devota e crente, e que lhe faltou tantas vezes a humildade para reconhecer a eventual falha dessa sua fé.]
Não me interessa dizer que "está na hora de mudar" porque aquela que se veste com uma longa túnica e carrega uma adaga está a chegar. Conversões de ricos senhores que, na hora da suspeita do encontro, preferiam jogar pelo seguro com oferendas e testamentos.
Não me interessa invocar um qualquer privilégio de crente para anunciar que, se não houver "conversão", não haverá salvação. Afinal, a salvação desenha-se ao longo de sinuosos caminhos, duras jornadas. Cunhal teve na sua luta contra o fascismo a sua prova(ção). Se a estrada de Damasco que fez o levou a descobrir um sentido justo para a vida, então poderemos pensar que são mesmo insondáveis os caminhos do Senhor. Há muitos atalhos pouco nobres na vida deste homem, mas falha-se-me o juízo na hora da morte. Dele. E de todos.
Jesus mandou Zaqueu descer da árvore, para que o acolhesse em sua casa. O senhor padre teria escrito a Zaqueu para lhe pedir a conversão.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

Atavismo

Tinha a intenção de apenas interromper a série de posts com as palavras do cardeal Ratzinger que aqui ando a escrever por razões excepcionais.
No post da semana passada é muito duvidoso que as razões para tal interrupção fossem excepcionais. E hoje a interrupção será ainda menos justificável.

A história que hoje descrevo passou-se há uns anos quando vivia e trabalhava numa vila alentejana. O nome para o post copiei-o de um pequeno conto de Somerset Maugham com o mesmo título (mas que nada tem a ver com a história hoje descrita). Li esse conto ainda adolescente e recordo-me de ter procurado no dicionário o significado da palavra "atavismo". Aprendi então que o termo "atavismo" se referia a um fenómeno pelo qual se assiste ao reaparecimento de características só existentes em ascendentes relativamente afastados, por vezes mesmo muito afastados.
A história passa-se numa noite de Verão, obviamente quente. A casa onde morava situava-se numa das extremidades da vila, já relativamente isolada. Ficava em frente a uma colina com um sobreiro ou uma azinheira quase no topo, algo vagamente parecido com a imagem que se encontra no topo deste blogue.

Existia nessa vila um jovem adulto, deficiente mental profundo, que eu via por vezes nas ruas. Esse jovem, em vez de falar, soltava simplesmente estranhos ruídos guturais e deslocava-se numa postura corporal arrastada que lembrava a de um australopiteco. A sua fácies correspondia à sua voz e à sua postura corporal.
Eu tinha o hábito de, nessas noites quentes, me sentar à porta da casa a olhar para a colina com a azinheira recortada no céu estrelado saboreando os cheiros nocturnos do campo alentejano, por vezes ouvindo música baixinho, por vezes em completo silêncio. Os cheiros das noites quentes do Alentejo são, dos cheiros que conheço, daqueles que mais me deliciam. E a imagem da colina e da árvore negras recortada a contra-luz no céu iluminado pelas estrelas ou pela lua adequavam-se particularmente aos cheiros e aos sonhos. Por diversas vezes me perguntava, precisamente, a mim próprio se tudo aquilo não seria um sonho.
Numa dessas noites, tinha acabado de jantar e, assim que me despachei, aprontei-me a largar o calor da casa para ir para a entrada da casa saborear um pouco do ar da noite. Quando me dirigia para a porta - a porta embora estivesse fechada tinha umas janelas que se encontravam abertas - ouvi uns uivos de um lobo, fortes e prolongados, um barulho simplesmente arrepiante pois não só o lobo se devia encontrar muito próximo como o próprio uivar era profundamente doloroso. Era como se esse lobo tivesse conseguido transformar em som toda a angústia e tristeza da humanidade.
Gelado por dentro avancei lentamente para a porta. Vejo então recortado contra a lua cheia, no cimo da colina, junto à azinheira, aquilo que parecia um lobo a uivar. Nesse momento estava, devo confessar, numa estranha mistura de terror e de êxtase pois aquela situação alucinante tinha algo de profundamente belo. As imagens a recortadas a negro num quadro que era para mim de sonhos habitualmente deliciosos, os sons lancinantes no silêncio da noite alentejana.
Para ter a certeza de que não estava a viver uma qualquer alteração de ordem psicológica (nessa altura, por razões que não vêm ao caso, estava numa época em que não bebia vinho) ou um estranho sonho/pesadelo voltei para a cozinha e disse à minha mulher para vir ver o que se passava.
Quando nos detivemos na observação da imagem verificámos que não parecia tratar-se de um lobo. Embora a postura fosse exactamente a de um lobo a uivar à lua, certos detalhes da figura lembravam um ser humano. Era o jovem deficiente profundo que eu vira algumas vezes nas ruas da vila.

Pensei agora (e se calhar ainda vou fazer) enviar este caso ao "Médico explica medicina a intelectuais". Reparo agora que o "Médico explica medicina a intelectuais" se encontra suspenso mas talvez abrisse uma excepção. Gostava de saber as razões daquela deficiência profunda mas, sobretudo, o que gostava realmente de saber é porque é que ela tinha manifestações daquele tipo a que assisti.

Perguntar-me-ão qual o sentido de colocar aqui esta historieta que descreve um simples fait-divers algo exótico. Mesmo sendo verídica, porquê hoje, aqui, num blogue que se pretende de inspiração cristã? Não tenho resposta para essa pergunta. Era impossível esse jovem acreditar em Deus (pelo menos tal como nós o concebemos pois a sua deficiência era muito profunda). Não sei qual a posição da Igreja relativamente à salvação dos deficientes profundos que nunca saberão que Cristo existiu. Não sei o que se pode passar na cabeça de um deficiente profundo como aquele. Não sei o que fazia ele naquela noite a uivar à lua. Não sei.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

O humanismo é um existencialismo

«Creio! Ajuda a minha incredulidade!» (Mc, 9, 24)

Dizia-me um amigo comunista que, com a queda do muro de Berlim e tudo o que significou a derrocada dos regimes socialistas, muitos dos seus camaradas viviam momentos de angústia e frustação por lhes parecer que tudo aquilo em que acreditaram, por que lutaram e deram o melhor das suas vidas lhes parecia então um erro. E que, mais que uma derrota, esses momentos eram uma terrível provação psicológica, um terramoto filosófico, de que dificilmente se iriam recompor. A sua visão do mundo desfizera-se, cairam as referências norteadoras das suas acções, e o sentido da vida parecia perdido, sem nada que o pudesse substituir.
Respondi-lhe que, finalmente, eles - os comunistas - vivenciavam a fé dos cristãos. Uma fé cheia de dúvidas, de desorientação, de incredulidades. E que, como bem escreveu Unamuno, uma fé sem dúvidas é uma fé morta. Lembrei-lhe que Jesus Cristo, no Cálvário, formulou uma pergunta muito comum aos cristãos: «meu Deus, porque me abandonaste?».
Disse-lhe também que o cristianismo tinha sido fundado nos relatos de alguém que, há cerca de 2000 anos, viu um túmulo vazio, se confirmara na palavra de outros - poucos - que garantiam ter visto a maior das improbabilidades: um homem ressuscitado. E que esta fé assim nascente, frágil, tinha chegado até aos nossos dias, com a proclamação sempre nova e ainda estranha para nós, cristãos, de um amor que vence a morte. Contra toda a lógica, contra todos os tempos, contra todas as evidências.

Carlos Cunha [A QUINTA COLUNA]

(0) comments

segunda-feira, junho 13

 

«Quem está vivo deve ter isso na lembrança»

Quando cheguei ao mosteiro de Mar Musa, do século sexto, era um padre italiano que estava a tomar conta dele.

- Falo árabe, penso em árabe –disse-me o padre quando lhe indaguei as origens, confessando vergonha no facto de ser europeu.

É dos poucos mosteiros do deserto que ainda existe, isolado de tudo, neste país. O edifício fica preso à rocha: a terra e a obra humana misturam-se como espírito e matéria, confundidas. A porta que lhe dá acesso é orgulhosamente minúscula, impondo humildade, obrigando a dobrar o espinhaço e a colocar no coração, de lembrança, a pequenez patética do ego.

Pôs-se a mesa no chão, em cima de tapetes e comemos numa tenda montada num terraço do tosco mosteiro. Com as mãos, auxiliados pelo pão.

-Alcântara, oxalá, azeitona, almofada – dizia eu no árabe que é português. E a S. repetia-me, dizendo as mesmas palavras com o sotaque sírio. Algumas ia reconhecendo com espanto, outras, as incompreensiveis, repetia como máquina.

Lá, estavam dois homens que peregrinavam antes de se empregarem no exército sírio. Eram americanos com dupla nacionalidade, com filhos e mulheres na Califórnia.

- Prenderam-nos depois do 11/9, por sermos do Médio Oriente. Eu, estive seis meses na prisão. Por fim, lá me soltaram.

- Nunca tive, sequer, uma multa de trânsito –acrescentou o outro.

- Não temos maneira de sobreviver nos EUA, tivémos de emigrar. O exército sírio é que irá pagar a comida dos meus filhos que são cidadãos americanos.

Fui-me deitar. O quarto era, num anexo, escavado na rocha e tinha umas mantas a fazer de cama. O frio era difícil de suportar, no alto da montanha. A chuva vinha com o vento. A casa de banho ficava a uns metros dali, separada por chapadas de vento, bategadas, lama e escuridão. Tudo a culminar na escarpa onde o mosteiro se ergueu há mil e quinhentos anos. Nessa noite, chegaram dois estrangeiros. Estavam a dar a volta ao mundo de bicicleta e estavam completamente encharcados. Conversámos e um deles disse-me uma coisa notável, que gerou controvérsia. Disse ele que preferia não ter a experiência pelo qual passava, mas apenas as conclusões. Argumentei que conclusões qualquer electrodoméstico tem, basta carregar no botão que ele reage de acordo, mas que tal facto não advém da vida vivida, mas de parafusos e volts. Reclamei que para um homem que se faça homem não haverão conclusões, mas portas, portinhas e janelas – e todas elas pequenas, baixas e minúsculas, de modo a fazerem dobrar as costas e baixar o nariz; que a experiência e a memória não são factos, mas interpretações, que variam com os anos, com os dias, com as novas rotinas, problemas e surpresas. E ainda lhe disse mais, disse que, tal ideia, era como jogar um jogo de cartas não o jogando, apenas apontar o resultado: neste ganhei, neste perdi. O ciclista manteve-se firme na sua convicção. O melhor é evitar a dor da experiência.

Diz uma lenda, que Lao Tsé nasceu já velho, de cãs e marreca. Percebo o essencial desta estória, mas também pode ser lida pelo lado do absurdo, por aquele lado que, acho, o viajante da bicicleta defendia: A mãe de Lao Tsé, nunca o viu crescer e, quando ele nasceu, olhou para ele como quem olha para uma conclusão. Nunca teve um filho, teve, isso sim, um livro de versos indecifrável. E indecifrável porque o que um livro tem para contar, conta-o na exacta medida em que o podemos compreender; um livro não é apenas o que se escreve, é também e, em grande medida, o que se lê.

Quando Salomão pede sabedoria, diz-se que Deus lha concedeu, mas não diz como: isto é assim, aquilo é tal. Não quero contradizer o próprio Deus do Universo, por isso, tenho para mim, que o tal saber invejável não foi entregue, a Salomão, dum trago. Acredito que, ao Qohelet, ao filho de David, a dávida estava feita juntamente com o pedido: desejar conhecer e, somente por isso, tudo se concretizava. Ele teve ganas de saber, Deus fez-lhe a vontade, não lhe deu respostas, manuais ou sumários, mas deu-lhe ânsias de conhecer, desejo que inevitavelmente desembocaria na sabedoria.


Afonso Cruz [ALERTA AMARELO]

(0) comments

Olhares sobre a Igreja

Num destes dias um dos nossos canais de televisão, dava notícia da remodelação de um convento de carmelitas na cidade de Aveiro. O irmão, membro da congregação, que serviu de guia para mostrar as obras no convento, foi explicando que antes construiam-se os conventos e mosteiros longe das povoações, e em lugar alto, como quem se destaca, e à parte. Ele não concordava com estas referências e dizia que o local do mosteiro deve ser bem no meio dos homens. Deve “misturar-se” com eles. Na referida reportagem, era ainda dito que o mosteiro agora remodelado, abrigava uma comunidade de três membros. Foi uma pequena reportagem que provavelmente passou despercebida à maior parte das pessoas.
Já não passaram despercebidos os acontecimentos, que o texto de Leonardo Boff (que a seguir transcrevo) refere. Ora, a Igreja, sabendo-se ela própria símbolo de Cristo no meio do mundo, deve seriamente perguntar-se, que visibilidade pretende ter. A visibilidade das grandes multidões, que caminham, não se sabe muito bem para onde. Ou a visibilidade evangélica que exorta e converte. E é necessáriamente pobre e humilde.



“ A embriaguês mediática provocada pela morte de um Papa e a entronização de outro, ou pela festa de Corpus Christi, mobilizando milhões de pessoas pode nos induzir em erro quanto ao verdadeiro significado das expressões religiosas. Estas manejam símbolos que, por sua natureza, são inevitavelmente ambíguos. Todo o símbolo possui duas direcções. Uma aponta para si mesmo, com o risco de esquecer o Divino e o Sagrado e se considerar um fim em si mesmo. É o que acontece com mais frequência. Então inflaciona-se a profusão de imagens religiosas, construídas habilmente pelos mestres da dramatização mediática, a fim de produzir emoções e mais emoções, pouco importa se elas lembram ou não o Sagrado. Mudanças de vida não ocorrem, nem é preciso. Os fiéis se electrizam, vão às lágrimas, gritam por milagres e canonizam imediatamente seu líder religioso: “Santo subito”, “santo agora mesmo”. Muitos cardeais, bispos e padres se enchem de satisfação, pois vêem o triunfo da religião contra as críticas e suspeitas feitas pela modernidade.
Mas atenção: aqui pode residir um engôdo. Não basta a emoção, precisa-se de reflexão (teologia) para tirar a limpo o problema. A prática originária de Jesus e da Igreja apostólica vai na linha contrária à encenação pública. Jesus diante de tais multidões usaria um discurso que ninguém da midia reproduziria, pois seguramente seria um ruído insuportável: “Convertei-vos, mudem de vida, cuidem do faminto, façam justiça ao oprimido e não dissociem o amor a Deus do amor ao próximo, pois ambos são uma coisa só.
Como no tempo de Jesus, diante de tal discurso as multidões iriam, provavelmente, embora ou minguariam.”...
...”Porque aqui se confrontam dois tipos de cristianismo: o devocionista e o libertador. O devocionista não coloca o acento na mudança mas na aceitação da doutrina proposta pela Igreja. Sem a sã doutrina, diz-se, ninguém se salva. Mas pela ignorância generalizada, poucos a conhecem. Então o recurso é a devoção aos santos fortes, daí o devocionismo”...
...”A doutrina desvinculada da prática da justiça, segundo Jesus, é letra que mata, é ausência do espírito que vivifica, é fazer o homem para o sábado e não o sábado para o homem. Se não resgatarmos esta visão apenas fazemos o jogo do mercado mediático. Este, usando a religião, visa apenas entreter, lucrar e jamais mudar as pessoas e o mundo, pois é isso que importa”.

Maria da Conceição

(0) comments

Percursos do eterno no ocidente (1) – o mito

Foi já há quase três anos que Régis Debray veio a Lisboa apresentar o seu livro "Deus, um itinerário. Materiais para a história do Eterno no Ocidente". Há muito queria escrever aqui sobre ele; vamos ver se desta vez sou capaz. Começo pela apresentação que o "Mil Folhas" fez deste filósofo, republicano de esquerda, professor na universidade de Lyon-III:
«Não sabe se Deus existe nem tal o preocupa. Através da mediologia, um método de investigação em ciências sociais por si inventado e que estuda as mediações técnicas da cultura, reduz a proporções mais "humanas" a mitologia do povo eleito e da Revelação, que a catequese e a tradição oral transmitem de geração em geração.»
Em que consiste essa tal mediologia com que Debray analisa o percurso da ideia de Deus entre nós? Consiste no estudo dos seus reflexos, nos meios com que o religioso foi sendo vivido e exprimido pelos homens. É o estudo das mediações técnicas da cultura aplicado ao fenómeno religioso. As conclusões são curiosas e pertinentes sobretudo porque contextualizam e desmontam o nascimento do monoteísmo sem caír em nenhuma relação causa-efeito simplista. A pretensão não é científica, pelo que o autor nos adverte imediatamente que não é no campo das ciências exacta que labora. No fundo é da história de Deus que estamos a falar – do modo como nasceu e cresceu o monoteísmo judaico-cristão – pelo que qualquer abordagem, e sobretudo a abordagem a partir dos medium, não se pode pretender definitiva e completa.
Pode Deus ser abordado desta forma, como um fenómeno, ainda mais como um fenómeno olhado a partir das suas mediações técnicas? Debray não tem dúvidas: "Deus aguenta toda a espécie de análises desde a alvorada dos tempos. (…) Na nossa tradição, a teologia é um campo de batalha".
A título de curiosidade e antes de deixar o melhor, cito a desconstrução do que será ainda um mito para muitos cristãos: Moisés nem sequer existiu. De Adão era certo e sabido; de Abraão já se suspeitava; mas Moisés? A conclusão bombástica não é tirada por Debray. Foram os dominicanos da Escola Bíblica de Jerusalém, editores da centenária e prestigiada revista Revue biblique que lho disseram. Curiosamente é aos pensadores religiosos que o mediólogo reconhece mais trabalho de pesquisa, investigação e desconstrução dos mitos fundadores do cristianismo: "No mundo francófono, os pioneiros da investigação paciente e do saber positivo encontram-se, em grande número, nos conventos e nas congregações, junto dos pastores e monges, enquanto nos meios laicos ou ateus prevalece uma inércia passadista (com a particularidade de os meios ditos cultivados não serem os menos crédulos)". Destaco a preocupação com o desconhecimento do religioso entre as camadas jovens, que o leva a propor o ensino obrigatório da história e identidade das religiões, numa França e numa Europa onde Debray encontra uma "situação paradoxal, a que conduz uma laicidade mal compreendida, suicidária a prazo, que proscreve a história das religiões da escola oficial".
Mas voltemos aos mitos. E recorro de novo à entrevista de Debray a Adelino Gomes:
«P: (…) Aquilo que aprendemos na catequese e os nossos avós nos ensinaram não era verdade?
R: É melhor que verdade. É uma mentira que fala verdade, como Jean Cocteau dizia dos poetas. Factualmente, a Bíblia é uma mentira. Mas é melhor do que uma mentira – é uma ficção. Quer dizer, é a construção de uma história ideal, é a reconstrução de uma pequena história como uma grande história, porque para se ter uma grande história é preciso inventar grandes mitos e os hebreus inventaram mitos formidáveis.
P: Quer dizer que a nossa civilização está baseada em mitos inventados, é um equívoco, portanto?
R: Mas claro. As civilizações baseiam-se em mitos. Todas as civilizações precisam de um passado e o passado é sempre fantasmagórico.
» Já dizia o nosso poeta: "O mito é nada que é tudo".

Antes de falar um pouco mais deste livro, deixo-vos com o seu excerto final. Para a semana espero voltar ao assunto. Trata-se de um post-scriptum em discurso directo:

«Post-Scriptum: Desculpem ser pouco. A minha biografia, afinal, valia mais do que a minha definição. Eu ficava aquém do meu futuro com o famoso "Eu sou aquele que sou". Devia ter dito a Moisés: Aquele que morre e se transforma. Sou o Ser cuja essência consiste em jogar às escondidas, em esconder-vos o rosto e surpreender-vos por trás. Milénio após milénio. No fundo, eu era a própria poesia: um mito que diz a verdade. E a verdade, é que vocês não podem passar sem um poema, um sonho colectivo, uma faísca de outras paragens, se querem viver e não apenas sobreviver. Vocês são demasiado poucos para o conseguirem sozinhos. Esqueçam os números, Podem ser cinco, dez mil milhões nesta terra, que isso em nada alterará a vossa insuficiência de ser. Vão continuar em falta. Sugeri que a culpa era vossa, com aquela história do pecado original, para vos fazer ver e vos culpabilizar, depassagem. Não passava, acreditem, de uma força de expressão. Encontrem outras, se vos der para aí, mas nunca vão conseguir escapar à vertical. Havemos de voltar a encontrar-nos. Eu ou Outro... Adeus.»

Zé Filipe (ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

(0) comments

quarta-feira, junho 8

 

Também Filoctetes.

Os gregos na viagem para Tróia pararam numa ilha para fazer libações aos deuses. Filoctetes foi à frente indicar o altar aos companheiros de viagem. Mas foi mordido por uma serpente num pé. O pé cheirava mal, os lamentos de Filoctetes eram lancinantes. Os gregos retomam viagem. Mas em breve não são capazes de suportar a presença e a doença de Filoctetes. Largaram-no, por isso, numa ilha não habitada. O tempo passa. Ulisses é informado por um adivinho que só com a presença de Filoctetes seria possível conquistar Tróia. Vai ter com o homem rejeitado. Depois de uma série de peripécias, Filoctetes recusa-se a ir combater em Tróia, a juntar-se ao exército que o expulsou do seu convívio. Só uma intervenção divina desbloqueia a situação.

Esta peça, de Sófocles, representa mais uma vez o tratamento da temática da rejeição. Tem nuances que deixaremos de lado. A rejeição foi, é, será sempre dramática. Tanto hoje como ontem. Contudo, no passado parecia ter efeitos mais evidentes. O indivíduo pertencente à tribo, o indivíduo pertencente à Grécia Antiga, veja-se, também, por exemplo, a dificuldade que Sócrates tem de aceitar a possibilidade de fuga que os amigos lhe prometem, o jogo entre a cicuta e o exílio, sente na rejeição um dos maiores, senão o maior de todos os castigos. Ser excluído da comunidade representa para o indivíduo uma das piores coisas que lhe poderia acontecer. De facto, a rejeição social, nos múltiplos modos que assumiu ao longo da história representa um acto de grande crueldade. A comunidade que rejeita um indivíduo sabe que o coloca numa situação em que ele perde muito e quase tudo o que lhe alimenta a identidade. Tal como os indivíduos que vivem no seio da comunidade e que a comunidade não reconhece como iguais, também o indivíduo colocado fora da comunidade é colocado abaixo dos patamares onde a dignidade de cada um é assegurada. Quando uma comunidade colocava um indivíduo fora de um mesmo espaço de pertença, sabia que o mandava ou para o total isolamento ou para o seio de uma comunidade onde nunca poderia viver em plenitude uma vida em comum.

Rejeitar e ser rejeitado eram assim actos claros. E grande parte das vezes definitivos. Quando a comunidade rejeitava um indivíduo ou quando um indivíduo era rejeitado, a comunidade e o indivíduo sabiam que dificilmente o indivíduo poderia encontrar um novo espaço de pertença. Hoje, as coisas parecem diferentes. Não que a rejeição não continue operante. Ou que não continue traumática. Mas é como tudo: o modo como hoje se processa, tem vantagens e desvantagens.

As vantagens advêm do facto do indivíduo parecer ter hoje pela proliferação de interesses e finalidades que produz imensas sub comunidades debaixo da mesma comunidade, a possibilidade de quando rejeitado por uma sub comunidade, namoro, casamento, trabalho, local, ter a oportunidade de encontrar noutro lado outra sub comunidade que o acolha e que o acolha como membro de pleno direito. Por aqui, e assim, se atenuam os efeitos que no passado pareciam irreversíveis. Contudo, por outro lado, esta possibilidade de passar de comunidade em comunidade, de namoro em namoro, de casamento em casamento, de trabalho em trabalho, de local para outro local, faz com que no momento em que cada um de nós está inserido numa dada comunidade, namoro, casamento, trabalho, local, nação, acabe por ter a tentação de relativizar a importância dos laços. A força dos laços.

O que é que isto pode ter a ver com religião? – Tudo. Religião é ligar. E o que pode ter a ver com Igrejas? – O que estas souberem ou quiserem fazer. De qualquer modo, por muito que queiram ou não queiram, há ao lado do espaço comunitário da Igreja diversos espaços comunitários que rivalizam em intenções e sucessos, por muito que queiram ou não queiram, a sua missão só se concretiza quando há uma luta efectiva para que seja realçada no discurso e na prática a força das ligações.

Fernando Macedo [A BORDO]

(0) comments

O que existia antes de existir o Universo?

Hoje faço um pequeno intervalo nos posts com as palavras de Bento XVI para voltar a um tema que já aqui tratei várias vezes: Deus e a criação do Universo. Sei que é um tema demasiado ambicioso, vagamente obscuro e manifestamente pretensioso. Mas é um tema que me fascina. Talvez porque na procura de onde viemos obtenhamos alguma informação sobre o que fazemos aqui.
Tempos houve em que, dizem-nos os cientistas, o universo teve a dimensão de um átomo. Logo a seguir ao Big Bang. Não se sabe o que existia antes do Big Bang mas segundo investigações científicas recentes suspeita-se que antes da criação do Universo, do Tempo e do Espaço apenas existia Informação. Mais exactamente um "objecto matemático" que se designa por "instanton". Existem ainda outros cientistas que dizem que existiam dois tipos de informação e que terá sido a "colisão" destas duas "informações" que deu origem ao Big Bang. Tanto num caso como no outro apenas podemos ter uma certeza: tratava-se de simples informação, isto é, nada que tivesse a ver com conceitos de tempo e de espaço, conceitos esses que são absolutamente necessários e prévios ao conhecimento humano.
Esta simples informação que logicamente parece inexistente pois é provinda de um "tempo" e de um "espaço" inexistentes, será a palavra de Deus?
Esse Deus que criou o Universo e o Acaso, construiu o Universo a partir desta Informação?

Começa assim o Evangelho segundo S. João:
"1 - No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
2 - Ele estava, no princípio, com Deus.
3 – Tudo começou a existir por meio d’Ele, e, sem Ele nada foi criado.
4 - Nele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens."

Se antes de existir o Universo, o Tempo e o Espaço apenas existia Informação, talvez essa Informação nos dê pistas sobre a nossa razão de ser.

Escrevi aqui há uns tempos que "tudo o que nós somos é também, de um certo ponto de vista, simples informação. O ADN é um código informativo. Nós somos os produtos da informação genética e ambiental, mais próxima ou mais remota. Os nossos antepassados que já morreram, vivem de facto. São a informação genética e ambiental que nós somos. Aquilo que somos fisicamente e aquilo que pensamos é a informação transmitida pelos nossos antepassados. Nós somos à sua imagem e semelhança. E eles, eram à imagem e semelhança de quem? Da informação que existia antes de existir o Universo?"
Enquanto não sabemos mais sobre essa informação pura, o "instanton" (se é que alguma vez saberemos algo que não existe em forma de tempo e de espaço) podemos pensar que esse "instanton" é o Verbo, a Palavra de Deus.

E que nos diz essa Palavra?
Que Deus é Amor. Disponibilidade, atenção, partilha e diálogo. É no Amor que está a chave da nossa razão de ser. Na procura incessante, quotidiana e permanente que o nosso comportamento seja o reflexo desta lei que existia antes do tempo e do espaço.
O Amor é um conceito que ultrapassa a Racionalidade, o Tempo e o Espaço. Mas que só se concretiza nestas dimensões.
Por isso, a resposta à pergunta do título deste post é: Antes do Universo apenas existia o Amor.

Timshel [TIMSHEL]

(0) comments

“Ide aprender...”

Há uns meses, gerou-se um burburinho a propósito de um anúncio publicado por um padre, em que este anunciava a recusa da comunhão eucarística a quem defendesse ou praticasse determinados actos. Os actos elencados remetiam apenas para questões relativas à reprodução humana. Instado pelos jornalistas o Cardeal Patriarca disse que não é aquela a maneira como a Igreja trata desses assuntos e até falou de obsessão por parte do sacerdote. Mais tarde, oportunamente, D. José afirmou que «pode haver casos em que, devido à matéria, a situação de pecado é pública, tornando-se então o acesso à Eucaristia numa profanação pública da santidade desse sacramento. Nesse caso compete à Igreja defender, também publicamente, a santidade da Eucaristia, não admitindo à comunhão eucarística aqueles que se mantêm publicamente numa situação moral, claramente definida nas normas morais, incompatível com a santidade deste sacramento. Esta é uma situação delicada, a ser posta em prática com grande caridade pastoral, pois não pode ser arma de arremesso contra ninguém ou argumento para teses pastorais, mas motivada pela solicitude pastoral pelas pessoas visadas, que precisam de ser esclarecidas e interpeladas, e também pelo respeito por toda a comunidade eucarística, que procura fielmente celebrar dignamente a Ceia do Senhor.» (Homilia do Cardeal Patriarca de Lisboa na Missa da Ceia do Senhor - 24 de Março de 2005)
Ou seja: o Pão Eucarístico não é uma recompensa por boas acções, nem uma prenda para os meninos que se portam bem... e a possibilidade de exclusão dos sacramentos não pode ser pretexto para alimentar guerrinhas pessoais ou arma de argumentação ideológica. Há algo de muito mais profundo nesta realidade a que, com todo o sentido, chamamos Comunhão, mas que frequentamos sem lhe reconhecermos a necessária marca de compromisso no dia a dia.

Num dos seus últimos textos pastorais, João Paulo II lembra que «não é por acaso que, no Evangelho de João, se encontra, não a narração da instituição eucarística, mas a do "lava-pés" (cf. Jo 13,1-20): inclinando-Se a lavar os pés dos seus discípulos, Jesus explica de forma inequívoca o sentido da Eucaristia. S. Paulo, por sua vez, reafirma vigorosamente que não é lícita uma celebração eucarística onde não resplandeça a caridade testemunhada pela partilha concreta com os mais pobres (cf. 1Cor 11,17-22.27-34)», para logo de seguida lançar um desafio aos cristãos de todo o mundo: «Por que não fazer então deste Ano da Eucaristia um período em que as comunidades diocesanas e paroquiais se comprometam de modo especial a ir, com operosidade fraterna, ao encontro de alguma das muitas pobrezas do nosso mundo? Penso no drama da fome que atormenta centenas de milhões de seres humanos, penso nas doenças que flagelam os países em vias de desenvolvimento, na solidão dos idosos, nas dificuldades dos desempregados, nas desgraças dos imigrantes. Trata-se de males que afligem, embora em medida diversa, também as regiões mais opulentas. Não podemos iludir-nos: do amor mútuo e, em particular, da solicitude por quem passa necessidade, seremos reconhecidos como verdadeiros discípulos de Cristo (cf. Jo 13,35; Mt 25,31-46)» acrescentando o Papa que, «com base neste critério, será comprovada a autenticidade das nossas celebrações eucarísticas.» (Carta Apostólica Mane Nobiscum Domine, nº 28)

Com base nestes textos, que não deixam margens para dúvidas, permito-me fazer uns pequenos exercícios de casuística:
1. Um empresário, católico, pai de família, benemérito habitual das obras sociais e caritativas, declara a falência de uma fábrica, lançando para o desemprego uma centena de funcionários, mas continua a ostentar sinais exteriores de riqueza.
Poderá ser admitido à comunhão eucarística?
2. Um grupo de jovens (ou menos jovens...) de uma cidade com valores morais mais conservadores, organiza-se em locais que sabem ser de encontro de homossexuais, para os atacar e agredir. Fazem alarde da "proeza" e, portanto, é do conhecimento geral.
Poderão ser admitidos à comunhão eucarística?
3. Numa pequena povoação onde tudo se sabe, uma jovem engravida e é abandonada pelo namorado. Os pais culpabilizam-na e recusam-se a tomar qualquer atitude. A comunidade paroquial, a que a jovem pertencia, rejeita-a, remetendo-se ao silêncio. Ninguém faz nada e a rapariga acaba por decidir abortar.
Poderá esta comunidade celebrar dignamente a Eucaristia?

Mas por muito óbvias que possam parecer as respostas a estes “exercícios”, este tipo de situações terá sempre que ser encarada com a tal “grande caridade pastoral” a que se refere o Patriarca. Na Igreja só se resolvem os problemas. As situações tomadas enquanto generalidades e abstracções são muito diferentes do necessário olhos nos olhos para a resolução dos problemas à maneira de Jesus Cristo, a Quem ainda este Domingo ouvimos dirigir-se, no Seu jeito desconcertante, àqueles ilustres conhecedores das leis e dos códigos dizendo-lhes para irem “aprender o que significa: Misericórdia é que eu quero e não sacrifício” (cf. Mt 9,13 e Os 6,6).

(o negrito das citações é da minha responsabilidade)

Correcção: na semana passada, referi aqui que este ano se comemoravam os centenários do nascimento de D. António Ferreira Gomes e do Padre Manuel Antunes. De facto, iniciaram-se no passado dia 10 de Maio as comemorações do centenário do bispo do Porto, nascido em 1906, mas o ilustre jesuíta nasceu em 1918, comemorando-se, isso sim, este ano, o vigésimo aniversário da sua morte, a propósito do qual se realizará um seminário internacional sobre a sua vasta obra. Pelo lapso, as minhas mais sinceras desculpas.

(0) comments

Sete palmos de terra

– Nem me lembrei de rezar. Esqueci-me.
– Não faz mal, Deus salvou-te na mesma.


O diálogo foi mais ou menos este. Entre irmão e irmã, com ele a contar-lhe como tinha sido torturado quando raptado. E que, naquele momento de desespero, esqueceu-se de rezar, ele que vai à igreja, canta no coro e é homossexual. Antes que me atirem a primeira pedra, falo de uma cena da série «Sete palmos de terra/Six feet under» (A Dois, às segundas) e que aqui me ajuda a verter ideias.
A morte preenche os planos da série (há outros blogues que vêem/comentam a série: podem começar a partir, por exemplo, da Bomba Inteligente) e há ali motivo de reflexão para todos os crentes, estivessem os crentes dispostos a questionar-se. Prefiro reduzir esta conversa àquela fala entre David e Claire. Porque, nestas simples frases, estão ecos daquilo que pode ser a oração, diferente da prece que é a oração de muitos.

Por hoje, não quero pôr em causa a religiosidade popular que alimenta Fátima e de que se alimentam tantos. É uma expressão como (as) outras. Mas quero sublinhar a aprendizagem que se pode fazer a partir de um curto diálogo de uma série de televisão: a ausência de Deus no nosso discurso em momentos de angústia não é escândalo nenhum. Nem Deus precisa da prece, da súplica, da calamidade tornada reza. Nem nós precisamos de um deus assim.

Já em tempos distintos aqui falei destes dois temas. Da dificuldade da oração, da encomenda das almas. Hoje cruzo-os – porque se cruzam. Na hora da morte ou do momento de dor. Ou apenas na véspera do exame ou na procura de um emprego. Disse, e mantenho, que o que «me incomoda nestas encomendas das almas é uma apropriação ilegítima de Deus, profetas e santos. […] Uma fé que se alimenta de cobradores de calções ou peregrinos ajoelhados – em que só se valida o crer por Ele nos responder. Ao golo, à cura, à sorte no amor e no trabalho.» É, neste campo, que se recriam forças para cavar mais fundo e contrariar estes tempos «em que a oração [nem sempre] nasce. […] A vida não se compadece com tempos para reflectir e de nada valem as trovas do vento que passa. O vento sopra fraco e nem pela brisa da tarde sentimos Deus a passear.»
Pois: mas também há maneiras de contrariar este vento fraco em tempo quente. Basta pensar que Deus é presente, mesmo quando nos esquecemos dEle.

Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

(0) comments

sementes da terra
 
mail
 
 
anteriores
04.2004
05.2004
06.2004
07.2004
09.2004
10.2004
11.2004
12.2004
01.2005
02.2005
03.2005
04.2005
05.2005
06.2005
07.2005
08.2005
09.2005
10.2005
11.2005
12.2005
01.2006
02.2006
03.2006
04.2006
05.2006
06.2006
07.2006
08.2006
12.2006
 

 

 
 

terra da alegria. 2004.


 

This page is powered by Blogger. Isn't yours?