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quarta-feira, maio 11

 

Os velhos dos Marretas



Statler e Waldorf passavam a vida a resmungar. Terminava uma música ou um "sketch" e logo comentava um, I hate it, para o outro contrapor I love it — e à medida que a argumentação de um e outro avançava as opiniões iam mudando para o seu contrário, I love it, I hate it. Era assim, episódio a episódio, nos Marretas. Não eram precisos dados decisivos para a mudança de opinião. Não valia a pena gastar inglês em possíveis tratados hermenêuticos porque ali o que interessava era dizer mal ou bem.

Neste mundo simples de preto-e-branco parecem caber, às vezes, os católicos. Ratzinger feito Papa é logo analisado do balcão: I hate it, para ser a seguir, hmmm, he wasn't so bad, e terminar em glória, more, more.

Caricaturizo, como tantas vezes faço aqui... No fundo, como Statler e Waldorf. E critico-me, claro. Afinal, falta à Igreja Católica — ou não? — gente que se inquiete mais, que desinstale saberes, que questione certezas. Não estou a desejar que fiquemos todos sob alçada da Congregação para a Doutrina da Fé, mas apenas que não nos limitemos a mandar piadas do primeiro balcão. Estudar, aprofundar, estudar, debater, estudar, ler, estudar, rezar.

Também me dirão que este blogue — e outros, que se ramificam com este numa cadeia teosférica (como diriam os ateístas da rede) — cultivará a inquietação e a provocação. Eu, por mim, sou todos dias desinstalado com uma mulher que não é crente e me atira perguntas simples que não são simples. Se Bento XVI a ouvisse não sei se teria palavras fáceis para a resposta, nem se poderia refugiar comodamente na resposta de que é assim porque acredito.

Por estes dias, li uma notável provocação de um Amigo destas andanças. O Tiago, que clama na
Voz do Deserto, esclarecia atentos e heterodoxos.

"Um esclarecimento. Certamente desnecessário para quem sabe ler mas indispensável para os mal-intencionados. E vale a pena perder algum tempo a esclarecer os mal-intencionados. Pôr uns pós de religião com pitada de almanaque pópe-roque pode garantir o sucesso deste blogue. Uma receitinha do caraças, uma salada russa exótica, uma bocarra pós-moderna. Quando me sento no Monte Sinai pouco me aflige o estilo, honestamente. A erudição nunca curou leprosos. Os babilónios não me perdoam que acredite nas coisas que escrevo. É-lhes intolerável que o lustroso chapéu que uso sirva para me proteger do sol. Almas torturadas pelo cristianismo podem ser o último grito da sofisticação estética. No deserto, todavia, de pouco nos serve o
penteado."

Por um dia, podemos ser um pouco mais que Statler e Waldorf, por muito que eles nos divirtam. E por uma vez podemos deixar de ser babilónios — mas devemos, e talvez aqui me desvie do Tiago, estar sempre atentos à Babilónia. E deixarmo-nos contagiar por ela. Para podermos ver, ouvir e ler para lá do primeiro balcão.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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