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quarta-feira, maio 11

 

O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista

De um modo quase totalmente imprevisto o aborto volta estupidamente à ordem do dia.

Existe uma forte corrente no PS manifestamente empenhada a destruir o capital de confiança que o PS trouxe para o governo. Se por simples estupidez, se por um calculismo maquiavélico, ainda se está para descobrir.

Num momento em que se começam a perfilar hipotéticos candidatos presidenciais não tenho dúvidas que, entre um candidato abortista e um candidato não abortista, independentemente da área política em que se situem, escolherei sempre o candidato não abortista.

Um candidato abortista de esquerda para as eleições relativas à Presidência da República, aliás, nunca terá hipóteses. Por uma razão simples: afastará os votos do centro e entregará a Presidência da República ao candidato da direita. Um candidato do PS para as eleições relativas à Presidência da República só terá hipóteses se for não abortista. Porque embora ficando em segundo lugar na primeira volta, ganhará na segunda. Um candidato abortista nunca ganhará a segunda volta pois afastará os votos do centro. Não sei se é isso que o PS quer mas a direita agradece.

É que a despenalização pura e simples do aborto traduz uma concepção de valores morais que me recorda uma frase de David Lodge no livro "Longe do Abrigo": "Mas se montes de gente o fazia... Havia uma espécie de segurança nos números." Ora foi precisamente esta concepção dos valores morais que permitiu o nazismo.

A chamada "verdadeira esquerda" é seduzida, na questão do aborto, pelo pior da ideologia burguesa: o seu profundo egoísmo e a sua total falta de respeito para com os mais fracos.

Como referia António José Saraiva em 1970 no posfácio ao livro "Maio e a crise da civilização burguesa, "É justamente porque não há incompatibilidade entre o espírito burguês e o método marxista que este foi perfeitamente assimilado pelos teóricos burgueses. (...) o 'Progresso', entendido daquela maneira, é hoje a única religião do mundo 'civilizado', o Deus, a forma de transcendência que substituiu as religiões monoteístas. Tocar nele é tocar no feitiço fundamental da Burguesia, em todas as suas variantes, liberais ou marxistas."

A burguesia prafrentex do BE, a burguesia burocrática e municipalista do PCP e a burguesia da "verdadeira esquerda" do PS reconhece apenas um poder que é o poder de consumir. Uma criança por nascer não tem capacidade de consumo. E é esta falta de capacidade de consumo que torna as crianças ainda não nascidas tão vulneráveis perante o poder burguês.

Como escrevia Pier Paolo Pasolini, "(...) O que interessa a um tal poder não é um casal gerador de crianças (proletárias), mas um casal consumidor (pequeno-burguês): ele tem já, portanto, in pectore a ideia da legalização do aborto (como tinha já a da ratificação do divórcio)."

O culto do eu e dos interesses supremos do eu e a relatividade de todos os restantes valores é a trave mestra do liberalismo económico burguês. É aqui que vai beber a esquerda ateia. Porque o relativismo é sempre relativo. Quando relativizamos o carácter sagrado da vida humana, estamos a sacralizar e a absolutizar outros valores, valores particularmente sinistros e por isso escondidos pelo aparente relativismo.

Termino de novo com Pasolini, "Que a vida é sagrada é evidente: é um princípio ainda mais forte que todo o princípio democrático e é inútil repeti-lo.(...) O aborto é o primeiro, e único, caso para o qual os radicais e todos os partidários do aborto, democratas puros e duros, ao apelarem à Realpolitik, recorrem, portanto, à prevaricação “cínica” dos factos estabelecidos e do bom senso."


Timshel [TIMSHEL]

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