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segunda-feira, maio 16

 

O perdão ao contrário

Hoje a Igreja celebra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos – o contacto do humano e do divino e o seu poder transformador. Partilho convosco uma reflexão feita noutras terras.
O episódio do Pentecostes relatado no evangelho de hoje, com a espectacularidade da descida de línguas de fogo sobre os apóstolos, pode desviar a nossa atenção do que me parece o essencial. O essencial foi a anti-Babel em que os discípulos se tornaram ao falar a gregos e troianos (e povos com nomes mais esquisitos). Mas não é desse essencial que quero falar. É doutro essencial que foram os dois gestos de Jesus ao chegar junto dos apóstolos, alguns dias antes, estando eles receosos e amedrontados, segundo nos conta outra leitura de hoje. Os dois gestos com que Jesus se apresenta são a paz e o perdão. Centremo-nos no perdão. "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados e aqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos." A interpretação canónica diz-nos que assim se instituiu o sacramento da confissão. Uma outra leitura, que creio não ser demasiado herética, diz-nos que nós próprios podemos perdoar ou não perdoar aos que nos rodeiam: a quem perdoardes ser-lhe-á perdoado; quando não perdoardes permanecerá a desunião. A construção da paz passa precisamente por termos consciência de que a remissão, a reconciliação, parte de nós e do perdão que somos capazes de dar aos outros. Podemos perdoar ou não perdoar àqueles que nos magoaram, àqueles que vamos inscrevendo no lado mais negro das nossas memórias. A atitude de dar perdão é profundamente transformadora, porque permite a reconciliação, o reencontro ou, quando menos que isso, porque permite uma convivência mínima, mais pacífica, menos feroz, mais cuidada. A tendência da natureza não é necessariamente o perdão – parece natural o "olho por olho e dente por dente". E contudo somos chamados a contrariar essa lógica natural das coisas com uma força que parece pouco lógica: o amor. E o amor passa pelo perdão. Por isso, no dia de Pentecostes, o dia em que celebramos o contacto do Mistério com a nossa realidade, perguntemos que perdão temos nós para dar. Pedir perdão não é um exercício fácil. Menos fácil é pensar naqueles a quem queremos oferecer perdão. E oferecê-lo.

Zé Filipe [ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS]

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