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segunda-feira, maio 2

 

O futuro da Igreja 2

Dois dias antes da eleição de Bento XVI escrevi aqui sobre o futuro da comunidade crente. Não para fazer futurologia mas simplesmente para partilhar os meus anseios e preocupações sobre o Papa que então ia a votos e o que a sua eleição implica. Meio a brincar meio a sério, disse que a eleição do Cardeal Joseph Ratzinger seria um "cenário pouco católico". Por algum motivo, no domingo depois da eleição, Frei Bento Domingues formulou exactamente o pedido de que o novo Papa fosse católico – preocupado com a totalidade da humanidade, capaz de fazer a síntese entre unidade e diversidade, líder de uma Igreja que se pensa a partir dos homens e mulheres dos nossos dias, a partir das suas "alegrias e esperanças, angústias e tristezas ".
No seu texto de ontem Frei Bento adverte contra os riscos de fazer cenários em matéria de religião, já que as mutações demográficas por si só podem trazer mudanças imprevistas. Então sem futurologias, deixo apenas três comentários, agora que a poeira (ou o fumo) da eleição começa a assentar.

A primeira coisa que queria dizer foi bem formulada pelo próprio Frei Bento e tem a ver com os comentários feitos sobre a (des)intervenção do Espírito Santo no Conclave:
«O Espírito Santo não foi fechado à chave para a eleição do Papa nem assinou a acta da eleição. No entanto, acolhido ou rejeitado, o Espírito Santo – com o Pai e o Filho – é para a fé católica o habitante mais cosmopolita e bem disfarçado. Seria muito estranho – embora sem substituir as suas qualidades e os seus defeitos – que Ele se tivesse mantido alheio às tarefas dos cardeais eleitores que invocaram a sua divina assistência!
Essa confiança que os católicos depositam no voto dos cardeais não serve para nos alhearmos dos tempos que virão. Nem nos impede de dizer que não concordamos por isto ou por aquilo. É também isso que Bento Domingues diz de seguida: «Parece-me fundamental que os cató1icos não abandonem o espírito crítico nem se furtem a colaborar generosamente com Bento XVI para que a Igreja cató1ica seja a pátria de todos os que são movidos pelo Espírito do Ressuscitado (...)".»

A segunda coisa que queria dizer e que já foi dita noutras alturas é que a Igreja é muito mais que o Papa. De novo Frei Bento, no texto de ontem: «Diante de tanta propaganda tonta em torno de Bento XVI e dos medos projectados do passado para o futuro, importa não esgotar a esperança cristã com a autoridade de humanos eleitos por seres humanos, segundo regras e processos estabelecidos por alguns deles. Seria cair no pecado da idolatria.»
Eu defendi abertamente um perfil diferente para o novo Papa, sabendo o reduzido valor da minha opinião. E se subscrevo inteiramente o voto de D. Manuel Martins de que "agora que foi eleito Papa, tenho esperança que morra o cardeal para aparecer em pleno o Bento XVI", não o digo com a ingenuidade de quem espera um corte entre a mundividência do Perfeito e do novo bispo de Roma. O mesmo homem estará a ocupar um lugar diferente. Dou-lhe o benefício da dúvida: não espero dele apenas mais do mesmo.

No meu último texto dei voz ao P.e Anselmo Borges e ao seu pedido de convocação de um novo concílio ecuménico, que devolvesse a autonomia às comunidades locais e que impulsionasse um "Parlamento das Religiões". As perspectivas actuais parecem distantes desse cenário. Não foi um João XXIV que saiu do conclave. Foi Bento XVI – o ilustre cardeal e teólogo brilhante, o sábio enciclopédico de dois mil anos de teologia e história, o académico tímido sem o charme do seu antecessor.
A falta de charme só me agrada. Como já disse, a Igreja não é só o Papa, nem deveria ser tanto o Papa. Mas para perceber melhor este homem que está agora à frente da Igreja vale a pena ler o artigo de George Weigel, biógrafo de João Paulo II, onde é traçado o seu perfil a partir dos dois Bentos que o inspiraram: o Papa Bento XV e o próprio São Bento. O monasticismo ocidental fundado por este último permitiu que o fim da civilização clássica não significasse a perda da cultura clássica mas a sua transformação. Foi a fusão de Jerusalém, Atenas e Roma que permitiu uma nova realização civilizacional a que hoje chamamos de "Ocidente". De facto, quando olhamos para as civilizações perdidas do passado, podemos estar gratos: a cultura clássica podia ter tido o destino dos Maias. O novo Papa tem uma preocupação clara de que o Ocidente possa voltar a passar por um período de trevas:
«Num tempo em que a falta de vontade e o relativismo conduziram a um clima cultural frígido e sem alegria, escreveu MacIntyre, o mundo não está à espera de Godot, mas de outro – e sem dúvida muito diferente – S. Bento. O mundo tem agora um novo Bento. Podemos ter a certeza que ele nos desafiará a todos para a nobre aventura humana para a qual não há melhor nome do que santidade.»
Não tenho dúvidas que Bento XVI nos desafiará para essa aventura da santidade. Porém, encontrar novas formas de dizer Deus implica que a própria Igreja tenha a coragem de mudar o que a impede de se mostrar mais fielmente como a face do Ressuscitado aos homens e mulheres de hoje. E aí os prognósticos são menos animadores, como já disse acima. Timothy Garton Ash usa palavras duras:
«Os ateus devem saudar a eleição do Papa Bento XVI [e de facto fizeram-no]. Porque este teólogo da Baviera idoso, académico, conservador, sem carisma, de certeza que apressará precisamente a descristianização da Europa que procura contrariar. No termo do seu papado, a Europa pode outra vez ser tão não-cristã como era quando São Bento fundou a sua pioneira ordem monástica, os beneditinos, há quinze séculos. Europa Cristã: de Bento a Bento. R.I.P. – descansa em paz. A Europa é hoje o mais secular dos continentes. O fenómeno do último Papa disfarçou a tendência.»
Paradoxalmente, este prognóstico que assusta muitos católicos vai precisamente no sentido de um texto do próprio Joseph Ratzinger, datado de 1971, escrito ainda antes da sua nomeação para bispo. É dum livro editado pela Vozes chamado "Fé e Futuro":
«
Da crise actual, uma Igreja emergirá amanhã que terá perdido muito. Será uma Igreja pequena e terá de começar do início. Já não será capaz de encher muitos edifícios construídos nos seus tempos áureos. Ao contrário do que aconteceu até hoje, ela apresentar-se-á muito mais como uma comunidade de voluntários.
Como pequena comunidade, ela exigirá muito mais a iniciativa de cada um dos seus membros e certamente reconhecerá novas formas de ministério e criará cristãos com uma formação sólida que serão chamados à presidência da comunidade. O normal cuidado das almas estará a cargo de pequenas comunidades em grupos sociais com alguma afinidade.
Isto será atingido com esforço e exigirá muito empenho. Tornará a Igreja pobre e numa Igreja dos pobres e humildes. Tudo isto exigirá tempo. Será um processo lento e doloroso.
»
É um texto próximo de um outro, mais belo e optimista, de Karl Rahner, que uma vez citei. Coincidem ambos com Garton Ash nesse aspecto: voltaremos a ser uma Igreja pequena, desafiada a ser profética num mundo cada vez mais complexo, dinâmico e secularizado. Junto-me a Bento XVI no grito de João Paulo II: não devemos ter medo!
Uma nota final para dar os parabéns à Terra da Alegria e sobretudo aos seus fundadores! Também os blogs são um local interessante de discussão e vivência da fé e sobretudo de diálogo.
Ad moltos annos!

Zé Filipe (
ENCHAMOS TUDO DE FUTUROS)

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