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segunda-feira, maio 9

 

O Dezembro em que não houve Natal

Quando entrei no monte Athos, o primeiro mosteiro onde fiquei foi no Gregoriou. Fui levado por um velho, chamado Kostas. Adoptou-me desde que passei do mundo para o monte da Virgem, como lhe chamam. Ali, a igualdade não vinga e as mulheres não entram, nem virgens nem das outras. Nem fêmeas de qualquer espécie: galinhas, ou mulas não têm entrada. As mulas lá, são machos. É assim há mais de mil anos e os monges que vivem no Athos pretendem manter a tradição, mesmo que isso lhes custe uma menor, ou mesmo extinção, de ajudas comunitárias para restauro dos mosteiros e sketae. Numa lojinha logo à entrada, depois de ter mostrado o Diamoneterion (licença para entrar), comprei pão e azeitonas. Umas azeitonas que só vi à venda na Grécia e na Bulgária. São grandes como abrunhos, pretas e enrugadas como velhas. Também são salgadas. Para acompanhar as azeitonas, comprei pão, branco e gigante. Tudo a conselho do Kostas.

Quando cheguei ao Gregoriou, bebi um raki (aguardente anisada), comi uns lokumi (doces que também são conhecidos por turkish delights, mas que os gregos dizem ser gregos) e bebi um café turco (que os gregos dizem ser grego). É hábito e dá ânimo contra o frio intenso e o cansaço das caminhadas. Lá é tudo a subir por caminhos coleantes, de cabras (bodes, nesta geografia específica, visto serem proibidas as fêmeas), com vista para o mar, o mesmo para onde Egeu arremessou o seu desesperança juntamente com a sua vida, naquele dia em que o seu filho Teseu se esqueceu de arregaçar a vela preta.

Assisti às primeiras missas que são longas, mais de duas horas, cheias de incenso e cânticos. Pessoas como eu, não passam da primeira sala: as igrejas estão divididas em três espaços, para ouvintes, catecúmenos e fiéis. À antiga. No refeitório também me punham numa mesa à parte. O anagnosta lia qualquer coisa num grego que eu não compreendo enquanto a comida (às vezes com peixe, mas sempre sem carne) era servida juntamente com o bom vinho do Athos, pisado por pés monásticos. É famosa a qualidade do vinho do Santo Monte.

- Por que motivo fico aqui à entrada, longe de toda a gente?

- Tipiko - respondiam-me, que quer dizer que é a tradição daquele mosteiro, é assim desde que ali se pôs a pedra angular.

O velho Kostas (era assim que ele se referia a si próprio) traduzia-me o que eu não percebia, apontava o que eu não via e aconselhava-me sobre o que eu não vislumbrava. Vai todos os anos peregrinar para o Monte, durante um mês, com pão, bordão, azeitonas e muita reza. Era um homem com uns setenta anos, de barba branca. Tinha sido actor, tinha fugido para a Austrália por ter arreliado a ditadura e tinha voltado. Hoje tinha uma loja de antiguidades em Atenas, e já não pensava muito em Brecht. Um dia lá representou uma coisita, a pedido. Via-se que tinha paixão. Falava uma série de línguas com fluência.

Lá fora, no mundo, era Natal. O calendário do Athos é o antigo, sem a correcção do calendário gregoriano. Cristo nascia dez dias mais tarde no Monte Athos. Nessa altura os monges preparavam-se para o jejum e isso não era bom augúrio. Haveria menos refeições.

Outro dos mosteiros onde estive foi no de S. Paulo. Lá conheci um rapaz com uns vinte e tal anos que me disse que o Deus dos católicos não era o verdadeiro Deus, era uma mentira. Prosseguiu dizendo mal do papado, e a discussão instalou-se entre outros contendores. Não pode haver dois deuses, um falso e um verdadeiro, isso seria um maniqueísmo; pode sim senhor; não pode não senhor, isso quer dizer que o Deus único não é único.

-Para onde vais a seguir? – perguntou-me o rapaz.

-Vou para a Macedónia.

-A Macedónia é aqui, nós é que somos macedónios, nós é que descendemos de Alexandre. Os outros são eslavos.

-Então se não vou para a Macedónia, para onde é que vou?

-Não sei, para Skopje.

-Skopje é a capital da Macedónia.

-A Macedónia é aqui. Donde é que vens?

-De Istambul.

-De Constantinopla –corrigiu ele. E nessa altura, eu já concordava com tudo.

Ele, tinha ido ao Monte para falar com um eremita. Existem três tipos de monges, no Monte: os cenobitas (que vivem nos grandes mosteiros muralhados e segundo regra conjunta), os que vivem nas sketae (que vivem em casas agrupadas como numa pequena aldeia, onde há entreajuda mas não há regra comum) e os eremitas (que vivem isolados em casas modestas ou grutas). O rapaz queria saber se deveria casar-se. O monge, uma espécie de oráculo pítico, aconselhou-o a deixar a rapariga: ela só queria o dinheiro dele. Isto confessou-me o rapaz, como uma alcoviteira teria feito.

Nessa noite era preciso acordar para pôr comida num saco de plástico, pois não haveria nada para comer durante o dia. O Kostas acordou-me para ir buscar o que me corresponderia para me encher o bucho, mas a minha preguiça venceu-me. De manhã, quando acordei, tinha um saco com comida à cabeceira, posto pelo velho Kostas e um bilhete. Dizia que iria visitar um eremita seu amigo e que me desejava boa sorte.

Quando saí desse mosteiro foi com o rapaz da tarde anterior e com mais outros dois gregos.

-Cristóvão Colombo era grego-dizia-me um, que era professor.

Eu, concordava com tudo.

O mau tempo acabou por fazer das suas e não fui aceite no mosteiro para onde me tinha dirigido. Tive de voltar para trás. Chovia e fazia um frio difícil de suportar. Tinha as botas molhadas. Quando voltei ao mosteiro de S. Paulo lá estava o Kostas. Disse-me logo com grande entusiasmo que eu teria de ir ver o amigo, falar com ele.

-Falas francês?

-Safo-me.

E lá fomos nós, para perto do mosteiro de Dionisiou (onde haveriamos de pernoitar), conhecer o anacoreta, outrora escritor de alguma fama na Grécia, agora eremita no Athos. Subimos um monte até à sua cabana. A vista era esplêndida e o Kostas enquanto admirava a paisagem soltava traques sonoros. Ventava e granizava. O eremita era grande e gordo, nariz tuberculiforme, avermelhado, e a semelhança com a ideia que fazemos do Pai Natal não era só sugestão da época. Sentámo-nos junto ao fogo e ficámos calados. O Kostas abanava o corpo, sibilando umas rezas. Depois falou-se de arte, da sua vida anterior e de livros. Dos seus e dos outros. Fiquei cheio com a conversa calma. Falou-me de Silouane e do seu discípulo Sophrone, teólogos que admirava.

Numa das bibliotecas do mosteiro de Simonopetra (o mais dramático dos mosteiros) haveria de encontrar um livro do primeiro autor, em inglês, e li-o duma assentada, acompanhado por lokumis e café turco (que os gregos dizem ser grego). Este café é temperado com cardamomo, vem cheio de borras e tem um cheiro santo.

O Kostas era como um guia turístico. Insistiu que era preciso ver os ícones e falar com quem os pinta: lá fomos às oficinas duns monges, aprender a diferença entre período russo e período grego, o que era preciso para pintar, como se fazem as cores. Acabámos a dormir numa skete ali perto. A de Sta. Ana. Lá, numa das casas, estava um louco furioso. Tinha saído da prisão há pouco e tinha ido peregrinar. Foi a primeira vez que conheci um louco furioso, e até o achei muito calmo. Vestia como um pobre, mas vestia bem: um pea jacket (casaco da marinha) com uma camisa de pescador por baixo, de cores alaranjadas.

À noite, o Kostas pôs a cama dele a trancar a porta do nosso quartito e sentou-se nela a rezar. Um louco furioso pode fazer muito bem ao espírito: O Kostas passou toda a santa noite com as contas na mão a baloiçar o corpo para trás e para a frente.

Passados uns dias era altura de sair do Athos, a minha licença estava a expirar, os não-ortodoxos não podem lá ficar mais do que determinado tempo. Procederam-se às despedidas.

Fui para o porto, e percebi que não havia barcos. Estava preso no Monte devido ao mau tempo.

Enquanto esperava o barco - que não haveria de aparecer -, conheci Alexandros, monge austríaco. Enquanto comia o resto do pão com azeitonas que tinha comprado no dia em que cheguei ao Monte, o monge falava da sua vida. Tinha vivido numa gruta da Síria durante uns vinte anos. Noutra gruta em Israel tinha vivido uns quinze e agora tinha uma cabana no Monte. Fartava-se de vilipendiar os judeus e gabava-se de falar com os animaizinhos todos, especialmente com uma salamandra. Aquecia-a nas mãos, dizia ele, enquanto conversava com ela. Graças a estas informações esópicas passei a chamá-lo Branca de Neve, que também falava com os bichos. Falei-lhe de mim.

Passados uns dias, o tempo estava melhor e foi possível sair do Athos. O Natal no mundo exterior já tinha acontecido, mas no Monte ainda não, por isso, nesse ano, não tive Natal. Atravessei a Macedónia (apesar dos gregos acharem que a Macedónia não é um país), a Albânia, a Bósnia, a Croácia e a Eslovénia. Quando cheguei a Lisboa tinha um embrulho no correio, trazia uma morada do Monte Athos, com um cognome: «Sagrado Monte Athos, aeroporto para o Céu». Era do Alexandros, o Branca de Neve. Como tinha trocado uma ou outra palavra em romeno com um noviço que estava com ele, o monge ficou com a impressão que eu era fluente na língua. Por isso, dentro do embrulho, vinham umas fotocópias, em romeno, embrulhadas numa toalha de mesa com motivos natalícios, do livro que ele tinha escrito. Chamava-se o manuscrito: «A invulgar história da minha vida». Na contracapa, escrito a vermelho, convidava-me para me converter à fé ortodoxa, tornar-me noviço e viver com ele, pois assim poder-me-ia «ajudar a responder às minhas muitas questões sobre a Fé e sobre Deus». Termina com: «apesar do silêncio ser a minha mais amada linguagem, bem como a doce fala dos meus pássaros da floresta».

Conheci muitos monges, mas o que me pareceu mais santo, pelo que me foi dado experimentar, foi o velho Kostas, que nunca mais vi e que não era monge. «Não tenho coragem para me dedicar totalmente a Deus», dizia ele, e recusava elogios apontando para os monges do Monte: «Eles é que têm coragem».
Eu, por mim, acho que há muitas maneiras de ser intrépido, e o Kostas foi do mais parecido que vi com um santo. Para ser santo é preciso muito mais coragem que para ser monge no Monte Athos.

No fundo, é como nesse ano não ter tido Natal. Lá por a festa me ter escapado, não quer dizer que Cristo não tenha nascido.


Afonso Cruz (
ALERTA AMARELO)

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