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quarta-feira, maio 25

 

O CÓDIGO DE RATZINGER

O livro presta-se ao sucesso. Nada que se compare ao Código que Dan Brown descobriu nas árvores de Da Vinci. Mas - e assim o vende a editora - sendo a primeira biografia de alguém que mexe connosco (crentes, não-crentes, assim-assim) como é o novo bispo de Roma, «O Papa Bento XVI, o Guardião da Fé» presta-se ao sucesso.

Não se pode dizer que o autor tenha sido lento ou preguiçoso: Andrea Tornielli, «jornalista profissional desde 1994 é o vaticanista do diário "Il Giornale" desde 1997», consegue colocar no mercado um livro que faz uma síntese possível da vida de Joseph Ratzinger da infância à sua eleição como Papa. Mais: o autor descreve e comenta mesmo as primeiras declarações públicas de Ratzinger já Bento XVI. E a editora apressou-se na tradução da «primeira biografia em português do novo Papa». Na mouche da actualidade.

O título da obra diz ao que vai. Para o bem e para o mal, Ratzinger é apresentado como guardião. Aqui como no futebol (veja-se Ricardo e Baía), o guardião é amado por uns e odiado por uns tantos (eventualmente, mais que os outros). Os que não amam dizem a palavra quase com asco... Os que amam, compreendem - a falha, a teimosia, a doutrina, o golo. Tornielli ama: compreende, justifica, comenta, critica os outros.

[Um parêntesis sobre o método: Não se espere neutralidade de um jornalista - espere-se objectividade. Mas: será Tornielli objectivo? O Tornielli-biógrafo deve cuidar da objectividade que é pedida ao Tornielli-jornalista? O contrato entre Tornielli e os que lêem diariamente é um, os que o lêem aqui será outro... é o que se pode concluir. Adiante.]

O vaticanista parece estar bem informado. As primeiras impressões (ainda não li o livro todo, mas também já li - por motivos profissionais - passagens ao longo da obra até ao fim) deixam-nos de sobreaviso: uma biografia laudatória e justificativa/justificadora presta-se (também) ao insucesso: por problematizar de forma enviesada, por eventualmente não procurar fontes que ajudem a uma outra hermenêutica da obra (e da vida) de Josephus... Afinal, este livro parece padecer do mesmo que critica (na contracapa) a um «certo jornalismo político»: «denunciar» por denunciar, sem arriscar ouvir outros, ou citando-os apenas para sublinhar as palavras de Ratzinger e a defesa das suas teses. Podem dizer que escrevo isto apenas por causa de uma eventual má vontade minha para com este Papa: não é. Corrigirei em futura apreciação, se for caso disso, quando terminar a obra. Mas dou um exemplo (pp. 158-162), a propósito da declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, Dominus Iesus, citam-se apressadamente as posições críticas de Carlo Maria Martini, Edward Cassidi, Karl Lehmann e Walter Kasper, para depois dar longo espaço a uma resposta de Ratzinger, em entrevista a um jornal alemão. Eu sei que é ele o biografado, mas parece apenas introduzir-se o tema para defender um ponto de vista - de Ratzinger. Ao leitor, caberá menos o exercício de ler ele o "diferendo". As conclusões são-lhe ali impostas, pela pena de Tornielli, ou pelas palavras do novo Papa.


Há, no entanto, um título ainda mais revelador que o nome do livro. É o do capítulo final: «Um pontificado pleno de surpresas» (pp. 179-187), lê-se a abrir um epílogo que se resume a uma transcrição quase encomiástica do primeiro (sublinhe-se: primeiro) discurso aos bispos, na manhã de 9 de Abril, para rematar assim: «O pontificado de "transição" de Joseph Ratzinger, antigo filho de um polícia da Baviera, que por um quarto de século foi guardião da doutrina católica, surpreender-nos-á. Será um Papa que, na firmeza dos princípios doutrinais, promulgará reformas significativas.»

Eu preferia a firmeza dos princípios do amor - mas isso é matéria para uma biografia daqui a uns anos.


Miguel Marujo [CIBERTÚLIA]

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