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quarta-feira, maio 18

 

naturalmente não e sim

Foi num texto intitulado "Comentários a Simone Weil"
(Seminário de Filosofia, 9 de Janeiro de 1994) que li há uns tempos o seguinte:

"A linguagem da mística recorre com frequência aos paradoxos, que não podem expressar verdade alguma excepto metaforicamente, o que vale dizer: ambiguamente. E quantas vezes, ao longo da História, o amor a Deus não tem se pervertido num amor à ambiguidade, numa rejeição das verdades mais patentes, num rebuscamento de contradições artificiais e desnecessárias! Que esta sofística piedosa tenha o alto propósito de indispor o descrente contra sua própria razão para atraí-lo aos braços da fé, ninguém nega. Que, porém, ela arrisque ter os resultados mais decepcionantes, entre os quais o de confundir o pregador mesmo, é também um fato, ainda que quase nunca reconhecido. Que, enfim, ela possa servir ao demónio tanto quanto pretende servir a Deus, eis aí o que soará como um escândalo, mas que a história do pensamento Ocidental confirma em toda a linha, e que aliás já fora anunciado por Jesus, ao advertir: "Seja o vosso discurso: sim, sim; não, não — o mais é conversa do maligno."
Todos os desvarios da dialéctica hegeliana, marxista e nietzscheana foram assim prefigurados pela teologia apofática1.
Deus, afirma a Bíblia, confunde a sabedoria dos sábios. Mas será lícito que os sábios se ponham a confundir-se a si mesmos, a pretexto de arrebatamento religioso?
Não bastam, para deslumbrar-nos, os mistérios supremos cuja solução Deus guarda para si? Será preciso semear de paradoxos artificiosos o caminho dos homens sobre a Terra? E que valeriam os mistérios supremos, se não tivessem solução nem mesmo para Deus? Os mistérios valem pelo Sentido, não pela misteriosidade. Eis aí o véu subtilíssimo que separa a mística da mistificação. E todo escrito místico, por natureza, contém sementes de mistificação — os de Simone Weil como qualquer outro. Cabe ao comentário filosófico separar o joio do trigo."


E o autor lança-se então numa feroz crítica aos escritos de Simone Weil. Precisamente para, em nome das palavras de Cristo "Seja o vosso discurso: sim, sim; não", defender uma espécie de fundamentalismo maniqueísta nos termos do qual toda a ambiguidade seria condenável e nunca o "sim" poderia coexistir com o "não".

Não deixa de ser curioso que em comentário a um excerto de Simone Weil ("Nossa vida é impossibilidade, absurdidade. Cada coisa que queremos é contraditória com as condições ou as consequências que lhe estão ligadas, cada afirmação que colocamos implica a afirmação contrária, todos os nossos sentimentos estão mesclados a seus contrários. É que somos contradição, sendo criaturas, sendo Deus e infinitamente outros que Deus") o referido autor escreva "A resposta é, naturalmente: sim e não."...

Mas o objectivo deste texto não era detectar as contradições destes "comentários a Simone Weil".

O objectivo deste texto era defender uma outra interpretação das palavras de Cristo pois pensava que estes "comentários a Simone Weil" passavam completamente ao lado do essencial da mensagem cristã (apoiando-me nomeadamente na própria estrutura da mensagem cristã – através de parábolas). Já há muito tempo que pensava fazê-lo mas nunca descobri tempo para isso.

Porque escrevo então agora este texto. Porque descobri há pouco tempo
aqui
a interpretação mais adequada dessas célebres palavras de Cristo ("Sim, sim, não não"). Passo a transcrever as palavras do
Manuel:

"sim sim, não não
Acredito que o 'não' é o princípio da política e que o 'sim' é o princípio da fé. Acredito que a insubmissão face a todas as verdades estabelecidas e a insistência em divergir abrem o campo para a política e que ela, como actividade nobre, arranca dessa coragem de não prescindir da recusa. Acredito que a ousadia de dizer 'creio' sem bases empíricas nem provas científicas abre o nosso coração para a humildade da fé e que ser crente é um acto destemido de aceitação. Talvez seja isto que se pretende vincar na Bíblia com o desafio de que "sejam as vossas palavras sim sim, não não".


Timshel [TIMSHEL]

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